Abdias Nascimento

Autobiografia

EITO que ressoa no meu sangue
     sangue de meu bisavô pinga de tua foice
     foice de tua violação
     ainda corta o grito de minha avó

LEITO de sangue negro
     emudecido no espanto
     clamor de tragédia não esquecida
     crime não punido nem perdoado
     queimam minhas entranhas

PEITO pesado ao peso da madrugada de
                                          chumbo
     orvalho de fel amargo
     orvalhando os passos de minha mãe
     na oferta compulsória do seu peito

PLEITO perdido
      nos desvãos de um mundo estrangeiro
      libra... escudo... dólar... mil-réis
      Franca adormecida às serenatas de meu pai.
      sob cujo céu minha esperança teceu
      minha adolescência feneceu
      e minha revolta cresceu

CONCEITO amadurecido e assumido
      emancipado coração ao vento
      não é o mesmo crescer lento
      que ascende das raízes
      ao fruto violento

PRECONCEITO esmagado no feito
      destruído no conceito
      eito ardente desfeito
      ao leite do amor perfeito
      sem pleito
      eleito ao peito
      da teimosa esperança
      em que me deito
     
                             Búfalo, 25 de janeiro de 1979.
            (Axés do sangue e da esperança, p. 25-6)

 

Abdias Nascimento

 

Contraponto de um negro e
Um paternalista branco

(Para Ironides Rodrigues, esteta da Negritude)

Irmão negro meu irmão
não amargue tua boca em vão
evoque a memória do senhor bom
reza ladainha procissão
 

– A lembrança esta indelével
na roleta da opção
risquei ponto laroiê
ave o Exu da libertação
 

Irmão negro meu irmão
esqueceu nossa bonita relação
contada até no folclore de
mamãe preta e pai João?
 

– Está tudo registrado
com cuidado e devoção
tambor do sangue martirizado
batendo toque de rebelião
 

Irmão negro meu irmão
por que morder no ódio
a hóstia do perdão
perder a ressurreição?
 

– Ressuscitarei gritando não
ao cristo da consolação
do meu caminho quero a paixão
do humano amor expresso em ação

(Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1980.)

 

Abdias Nascimento

O sangue e a esperança

Corre corre o sangue nas veias
Rola rola o grão das areias
Só não corre só não rola a esperança
o negro órfão que só corre e cansa
 

Cansa do eito corre das correntes
Corre e cansa do bote das serpentes
Só não corre só não cansa de amar
O amor da Mãe-África no além-mar
 

Além-mar das águas e da alegria
Mar-além do axé nativo que procria
Aqui é o mar-aquém do desamor frio
Aquém-mar do ódio do destino sombrio
 

Sombrio corre o sangue derramado
No mar-aquém de tanta luta devotado
Mas o sangue continua rubro a ferver
Inspirado nos Orixá que nos faz crescer 

Crescer na esperança do aquém e do além
Do continente e da pele de alguém
Lutar é crescer no além e no aquém
Afirmando a liberdade da raça amém

(Rio de Janeiro, 14 de março de 1982.)

 

Abdias Nascimento

Mãe

(Em memória de minha mãe Josina Georgina Ferreira do Nascimento)

Quero navegar Franca tuas Campinas
onde ao roçar teu capim mimoso
as siriemas de alongadas pernas
me devolvem aos ouvidos
cansados de tanto ouvir
o eco do seu canto metálico
martelando espasmódico teus
horizontes de fugitivas miragens
 

Navego teus cafezais
(outros navegaram canaviais)
à fresca lima transparente
refresco a febre ressecante
da minha ânsia adolescente
 

Não navego ainda
(conforme deveria)
as águas primordiais de Olokum
pois
temerário navegador das águas secas
remando vou a terra roxa
da qual o joão-de-barro
incessante
constrói sua morada
 

Nado braçadas de léguas
léguas dos teus cafezais
que infinitam em verde
este escuro olhar
gerado ao tempero cheiroso do marmelo
ao caldo suculento do mocotó
à pasta fervente da goiaba
escarificando nos
reluzentes braços de minha mãe
buquês de queimaduras e cicatrizes
 

Navego o sangue de tua terra
arroxeada ao sangue pisado
no plantio das árvores
na colheita rubro-negra do
"melhor café do mundo"
 

Mergulhador do sangue nasci
de nascença sei que pouco importa
ao sangue a
peripécia sofrida
quando o próprio sangue
o teu mãe
nos ensina ao coração
que desfalece e renasce
de tua bondade humana
de teu amor valente
jamais enfraquecido
na queixa ou na lágrima
 

Navego teu leite
perfume da flor de laranjeira
mergulho teu seio materno
que me devolve à boca
o leite primai de Isis
irmãe
amantesposa
Isis que me pariu
em seus negros seios
leite negro me nutriu
 

Navegador do sangue
navegador do leite
sei dos que vieram
e se foram antes de mim
pois no sangue deles flutuo
 

Navego a santificação
do seu martírio de escravos
celebro seus quilombos levantados
suas Áfricas
enfurecidas em minhas veias
plenas de eguns antepassados
 

Navegador de auroras e desastres
um sabiá canta no meu sangue
esta gota rubra trazida pela manhã
ao gotejar dos meus crispados olhos
 

O bisturi da madrugada
revolve as feridas enquanto
o sonho mal sonhado
intensifica a pulsação dorida
deste navegar de morte e vida
protoplasma do meu leite
do meu sangue
viagem sem volta
só de ida
 

Piloto das tempestades
com Efrain e Gerardo
navego o absurdo
as piranhas da peripécia
neste navegar aos pegos e pagos
a caminho em Villaguay descerei
no sorriso angélico
del hombre verde
uma ardente orquídea plantarei
em Ipueiras um presente
do africano Apolo
(disfarçado em grego)
entregarei
bacamarte chapéu de couro
alpercata de rastreador ao
poeta do rastro dos Mourões
tripulantes da irmandade
Raul Bó Godo Napoleão
no rastro da liberdade
desde o prata ao solimões
navegamos a maldição
deste navegar de solidões
 

Mergulho a doçura da mãe
adoçada no amargo doce
ígneo algoz queimador da
beleza dos teus braços
 

Braços vigorosos nos quais
navego teus abraços
nesses braços que são teus
traço a ternura dos lábios meus
à flor borbulhante do sangue
que chamusca tua pele escura
no tacho da tua existência
tão curta de alegria
tão sofrida de vivência
raiz fincada na terra
ao infinito de tua compaixão
unicamente partilhada
à graça pura da doação
 

Navego os que virão
e nem semente ainda são
no espelho refletida
esta rubra gota tua
me vejo e me reconheço
membro da raça daqueles
esculpidos de rochas e troncos
de cujo vinho junto a
Ogum nos embebedaremos e
à direita e à esquerda
à frente e atrás
deceparemos cabeças
neste atlântico sanguinolento
aos gemidos do sangue maldito
navegaremos
do mar de orelhas cortadas
ao mar do sangue vindicado
navegando nossas armas da liberdade
 

Navego o pus e o luto
que rutilam a gota do teu sangue
profanado
jorrando em mim
séculos de gritos
milénios de ritos
 

Esta terra roxa
terra francana
principio da navegação
não te enterrou
mãe
não foi tua amarração
esta terra se alimentou
do teu suor
dos teus ossos
da tua carne
golpeada pela necessidade
mas
a verdade de ti mesma escapou
da cova aberta neste chão
 

Soluçando meu pranto
navego minha alegria
na gota infinita da tua presença
nutrindo os bagos vermelhos da romã
infundindo delicadeza ao ramo da avenca
afinando o gorgeio dos pássaros
Navego tua gota em mim
espessa gota nos
bagos do meu pai José
não o carpinteiro
mas o sapateiro
José Ferreira do Nascimento
em tua gota navegante
nos bagos de José
vieram o Benedito e o Rubens
também chamado coronel Café
o José Filho alcunhado Dedé
depois o Oliveira metalúrgico
António o doador de coragem e alegria
iluminado dos Orixás
 

e da materna valentia
perdido vim eu
o navegador sem bússola
da mesma gota tua
fertilizante dos óvulos
da maninha Ismênia
frágil mãe adolescendo
nos doces olhos contritos
protegendo a criança
fundida a seu corpo
num corpo único
sem costura nem conflito
lentamente submergindo
a juventude dos seus gritos
no inocente silêncio
da correnteza dos aflitos
Gotejando vermelha gota
arroxeando a terra dos espaços
arrochando os espaços do tempo
do Egito antigo a Oshogbo a Franca
tua é a gota miraculosa
a gotejar as águas prístinas
dos mares e oceanos de Olokum
nestas águas escuras
todos nós
à proteção dos girassóis de Xangô
os que vieram ontem
os de hoje
os que virão amanhã
enia dudu de sangue imperecível
nadaremos nosso mar de sangue
mergulharemos nosso oceano de leite
varando os cabos de tormentas
náufragos do sonho
bêbedos da esperança
bebedores do sangue e
das águas da
liberdade
na fonte do
teu ventre
mãe

(Búfalo, 1977)

Abdias Nascimento

Olhando no Espelho

(Para meus netos Samora, Alan e Henrique Alberto)

Ao espelho te vejo negrinho
te reconheço garoto negro
vivemos a mesma infância
a melancolia partilhada do teu profundo olhar
era a senha e a contra-senha
identificando nosso destino
confraria dos humilhados
a povoar a terna lembrança
esta minha evocação de Franca
 

Éramos um só olhar
nos papagaios empinados
ao sopro fresco do entardecer
 

Negrinho garota negra
vivemos a mesma infância
nos cafezais brincamos
nas jabuticabeiras trepamos
chupamos a mesma manga e melancia
 

Éramos uma única ansiedade
à subida multicor dos balões
pejados de nossos sonhos e ilusões
Negrinho meu irmão
como te chamavas tu?
Felisbino Sebastião Geraldo?
 

Serias menina: Rosa
Negra Alice Tarsila?
Ou te chamarias Aguinaldo?
 

Lembro nosso emprego:
lavar vidros
entregar remédios
fazer limonada purgativa
limpar as sujeiras de uma farmácia
 

E aquele grito em nosso ouvido
“– Acorda preguiçoso”? era o patrão
outra vez cochilaste reclinado ao chão
Assustados teus olhos dançaram
desgovernados pelas lágrimas
saltaste inutilmente lépido
 

Um dedo irrevogável
te apontou a porta do desemprego
assim regressaste
à casa que já não tinhas
na noite anterior morrera
tua pobre mãe que a mantinha
 

Negrinha garoto negro
sei que somos uma
prosseguimos os mesmos
ao abandono de nossa orfandade
 

Assim juntos e sem nome
devemos continuar nosso sonho
nosso trabalho
reinventando as nossas letras
recompondo nossos nomes próprios
tecendo os laços firmes
nos quais
ao riso alegre do novo dia
enforcaremos os usurpadores de nossa infância
 

Para a infância negra
construiremos um mundo diferente
nutrido ao axé de Exu
ao amor infinito de Oxum
à compaixão de Obatalá
à espada justiceira de Ogum
 

Nesse mundo não haverá
trombadinhas
pivetes
pixotes
e capitães-de-areia

(Búfalo, 1980)