Abdias Nascimento

Autobiografia

EITO que ressoa no meu sangue
     sangue de meu bisavô pinga de tua foice
     foice de tua violação
     ainda corta o grito de minha avó

LEITO de sangue negro
     emudecido no espanto
     clamor de tragédia não esquecida
     crime não punido nem perdoado
     queimam minhas entranhas

PEITO pesado ao peso da madrugada de
                                          chumbo
     orvalho de fel amargo
     orvalhando os passos de minha mãe
     na oferta compulsória do seu peito

PLEITO perdido
      nos desvãos de um mundo estrangeiro
      libra... escudo... dólar... mil-réis
      Franca adormecida às serenatas de meu pai.
      sob cujo céu minha esperança teceu
      minha adolescência feneceu
      e minha revolta cresceu

CONCEITO amadurecido e assumido
      emancipado coração ao vento
      não é o mesmo crescer lento
      que ascende das raízes
      ao fruto violento

PRECONCEITO esmagado no feito
      destruído no conceito
      eito ardente desfeito
      ao leite do amor perfeito
      sem pleito
      eleito ao peito
      da teimosa esperança
      em que me deito
     
                             Búfalo, 25 de janeiro de 1979.
            (Axés do sangue e da esperança, p. 25-6)