Samba à bangu

                               Paulo Dutra 

Lá em Bangu tem vários ambulantes,
Uma mão segurando a vida
e uma praça de pardais envenenados.
Lá tem um pedacinho da meia-noite
na antiga-fábrica-agora-shopping.
Tem uma janela com mil portas.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: este samba de olhos fechados.

Oi este samba, mas quê samba
do sim, e do não, de vida, de uma purinha
que seca sua sede no valão.

Te amo, te amo, te amo,
Com o tamburete e com a cuíca ressecada
pelo calçadão jururu,
no escuro meio-fio do compasso,
na nossa cama de papelão marchê
e no samba que vislumbra a cambaxirra.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: este samba de braço destroncado

Oi este samba, mas quê samba
do sim, e do não, de vida, de uma purinha
que seca sua sede no valão.

Lá em Bangu tem várias vitrines
Onde teus olhos e os ecos voam.
Tem uma morte de pandeiro
pintando os pretinhos de verde-amarelo,
tem mendigos pelos telhados de paetês,
tem podres cortinas de risos de purpurina.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó, este samba que morre na minha face.

Porque te amo, te amo, oi te amo meu amor.
Nos fios onde a molecada brinca e se acaba de alta tensão,
Sonhando novas sombras de luz
pelos murmúrios da tarde morna,
vendo vira-latas e missangas de fuligem
pelo silêncio ofuscante da tua nuca
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: este samba do te amo pra sempre.

Oi este samba, mas quê samba
do sim, e do não, de vida, de uma purinha
que seca sua sede no valão.

Lá em Bangu vou dançar com você.
com uma fantasia que tenha pé de cachoeira.
Olha só minhas canelas de absinto!
Vou deixar minha boca nas tuas pernas,
minh’alma em plumas e outdoors,
e no molejo desengonçado dos teus passos
quero, meu amor, meu amor, deixar
tamborim e catacumba, as rimas deste samba.

Lá em Bangu tem vários ambulantes,
Uma mão segurando a vida
e um pardal de praças envenenadas.
Lá tem a meia-noite de um pedaço
da antiga-fábrica-agora-shopping.
Tem uma porta com mil janelas.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: estes olhos de sambas fechados.

Oi este samba, mas quê samba
do sim, e do não, de vida, de uma purinha
que seca o valão na sua sede.

Te amo, te amo, te amo,
Com o ressecado e com a cuíca tamburete
pelo calçadão jururu,
no meio-fio escuro do compasso,
na nossa cama de papelão marchê
e no samba que vislumbra a cambaxirra.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: este braço de samba destroncado

Lá em Bangu tem várias vitrines
Onde teus voos e os ecos olham.
Tem um pandeiro de morte
pintando o verde-amarelo de pretinhos,
tem paetês pelos telhados de mendigos,
tem purpurinas cortinas de risos podres.
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó, esta face que morre no meu samba.

Porque te amo, te amo, oi te amo meu amor.
Na brincadeira de alta tensão onde os fios moleques se acabam,
Sonhando luzes novas de sombras
pelo morno dos murmúrios da tarde,
vendo fuligem de vira-latas e missangas
pela nuca ofuscante do teu silêncio
ô ô ô ô ô ô ô ô
oi toma aqui ó: este amor do samba pra sempre.

Lá em Bangu vou dançar com você.
com uns pés que tenham fantasia de cachoeira.
Olha só meus absintos de canela!
Vou deixar minha boca nas tuas pernas,
minh’alma em plumas e outdoors,
e no passo desengonçado do teu molejo
quero, meu amor, meu amor, deixar
samba e tamborim, e as catacumbas desta rima

                                      (In: abliterações, p. 23-27).

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A história de Inferninho

[...]

Nuvens jogavam pingos sobre as casas, no bosque e no campo que se esticava até o horizonte. Busca-Pé sentia o sibilar do vento nas folhas dos eucaliptos. À direita, os prédios da Barra da Tijuca, mesmo de longe, mostravam-se gigantescos. Os picos das montanhas eram aniquilados pelas nuvens baixas. Daquela distância, os blocos de apartamentos onde morava, à esquerda, eram mudos, porém parecia escutar os rádios sintonizados em programas destinados às donas de casa, a cachorrada latindo, a correria das crianças pelas escadas. Repousou o olhar no leito do rio, que se abria em circunferências por toda sua extensão às gotas de chuva fina, e suas íris, num zoom de castanhos lhe trouxeram flash-backs: o rio limpo; o goiabal que, decepado, cedera lugar aos novos blocos de apartamentos; algumas praças, agora tomadas por casas; os pés de jamelão, assassinados, assim como a figueira mal-assombrada e as mamoeiras; o casarão abandonado que tinha piscina e os campos do Paúra e Baluarte – onde jogara bola defendendo o dente-de-leite do Oberom – deram lugar às fábricas. Lembrou-se, ainda, daquela vez que fora apanhar bambu para a festa junina do seu prédio e tivera que sair voado porque o caseiro do sítio soltara os cachorros em cima da meninada. Trouxe de volta ao coração a pera-uva-maçã, o pique-esconde, o pega-varetas, o autorama que nunca tivera e as horas em que ficava nos galhos da amendoeira vendo a boiada passar. Remontou aquele dia em que seu irmão ralou o corpo todo, quando caiu da bicicleta no Barro Vermelho, e como eram belos os domingos em que ia à missa e ficava até mais tarde na igreja participando das atividades do grupo jovem, depois o cinema, o parque de diversões... (...) Era infeliz e não sabia. Resignava-se em seu silêncio com o fato de o rico ir para Miami tirar onda, enquanto o pobre vai pra vala, pra cadeia, pra puta que o pariu. Certificava-se de que as laranjadas aguadas-açucaradas que bebera toda a sua infância não eram tão gostosas assim. Tentou se lembrar das alegrias pueris que morreram, uma a uma, a cada topada que dera na realidade, em cada dia de fome que ficara para trás. Recordou-se de dona Marília, de dona Sônia e das outras professoras do curso primário dizendo que, se estudasse direito, seria valorizado no futuro, porém estava ali desiludido com a possibilidade de conseguir emprego para poder levar seus estudos adiante, comprar sua própria roupa, ter uma grana para sair com a namorada e pagar um curso de fotografia. Bem que as coisas poderiam ser como as professoras afirmavam, pois se tudo corresse bem, se arranjasse um emprego, logo, logo compraria uma máquina e uma porrada de lentes. Sairia fotografando tudo o que lhe parecesse interessante. Um dia ganharia um prêmio. A voz de sua mãe chicoteou sua mente:

– Esse negócio de fotografia é pra quem já tem dinheiro! Você tem é que entrar pra Aeronáutica... Marinha, até mesmo pro Exército, pra ter um futuro garantido. Militar é que tá com dinheiro! Não sei o que você tem na cabeça, não!

[...]

[...] Estava era muito puto com a vida. Prendeu um choro, levantou-se, esticou-se para aliviar a dor de ter estado muito tempo na mesma posição, já ia perguntar ao amigo se estava a fim de descolar mais um trouxa, quando notou que a água do rio encarnara. A vermelhidão precedera um corpo humano morto. O cinza daquele dia intensificou-se de maneira apreensiva. Vermelhidão esparramando-se na correnteza, mais um cadáver. As nuvens apagaram as montanhas por completo. Vermelhidão, outro presunto brotou na curva do rio com um guaiamum devorando as suas tripas. A chuva fina virou tempestade. Vermelhidão, novamente seguida de defunto.

[...]

Busca-Pé chegou em casa com medo do vento, da rua, da chuva, do seu skate, do mais simples objeto, tudo lhe parecia perigoso. Ajoelhou-se diante da cama, jogou a cabeça no colchão, as mãos sobre ela, e numa súplica infinita pediu a Exu que fosse lá avisar a Oxalá que um dos seus filhos tinha a sensação de estar desesperado para sempre.

(Cidade de Deus, 2007, p. 14-17)

 ****

Segunda-feira à noite, Inferninho foi tomar um passe no terreiro do Osvaldo:

– Tá com medo de morrer, esse menino?! Tá com medo de virar Exu?!? – gargalhava. – Quanto tempo faz que você não vem falar comigo? – gargalhava. – Eu não cobro a mais do que trato. Dou proteção aos moços e os moços não liga pra mim. Quando a coisa melhora os moços esquecem do que eu peço. Mas fui eu quem foi lá no teu sonho – gargalhava. – O butina preta tá com vontade de fazer tua passagem, mas não ligue não, que ele tá amarrado no meu pé! – disse a pombagira.

Em seguida, pediu ao cambone que escrevesse o nome de Cabeça de Nós Todo num pedaço de papel, atravessou o papel com um punhal e colocou-o dentro de um copo com cachaça. Deu baforada de charuto no copo, gargalhou e continuou: –Tu vai ter que enterrar isso aqui em Calunga Grande na segunda-feira e deixa o resto comigo. Depois de vinte tempo o butina preta vai se foder na sete encruzilhada que passar. Depois você volta aqui pra falar comigo. Agora você bebe um pouco disso aqui e pede em pensamento o que você quer.

Inferninho pediu proteção das balas, sorte com dinheiro, muita mulher em sua vida e saúde para ele e a esposa, que, no caminho para o terreiro, anunciara gravidez.

(Cidade de Deus, 2007, p. 164-165)

 ****

– Sou playboy! – dizia Pardalzinho a todos que comentavam sua nova indumentária. Tatuou no braço um enorme dragão soltando labaredas amarelas e vermelhas pelo focinho, o cabelo ligeiramente crespo foi encaracolado por Mosca.

Sentia-se agora definitivamente rico, pois vestia-se como eles. O cocota pediu a Mosca que comprasse uma bicicleta Calói 10 para que pudesse ir à praia todas as manhãs. Rico também anda de bicicleta. Iria frequentar a praia do Pepino, assim que aprendesse o palavreado deles. Na moral, na moral, na vida tudo é uma questão de linguagem. Alguns bandidos tentaram fazer chacota do seu novo visual.

O traficante meteu a mão no revólver dizendo que não tinha cara de palhaço. Até mesmo Miúdo prendeu o riso quando o viu dentro daquela roupa de garotão da Zona Sul.

(Cidade de Deus, 2007, p. 285)

 ****

[...] sua mãe conseguia uma casa em Cidade de Deus logo nos primeiros dias de sua fundação, depois de ir ao Mário Filho, na época das grandes enchentes, passando-se por flagelada.

Iria de qualquer jeito para a Cidade de Deus. Ter água encanada para poder fazer comida e tomar banho e ter luz em casa facilitaria sua vida, mesmo tendo que acordar de madrugada para trabalhar: deixaria comida pronta para as crianças e que Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus tomasse conta delas. Sim, iria abandonar a Macedo Sobrinho, lugar que desgraçara sua vida, lugar de bandidos desalmados que dão armas paras as crianças saírem por aí fazendo besteiras. Confiava em Deus, que Inho iria aquietar o facho longe dali, daquele inferno.

Mudou-se para uma casa Lá em Cima, levou consigo a esperança de bonança que nunca sairia de seu sonho, a disposição de levar a vida sozinha com os três filhos, a determinação de fazê-los pessoas de bem, nem que parasse de dormir e comer e somente trabalhasse.

(Cidade de Deus, 2007, p.190)

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Terra

Isidoro, boçal fugido, de noite ouvindo os cães:

mete na terra.

João, nagô escravo, quando está saudoso:

corre na terra.

José, banto, quando sozinho fica:

ouve a terra.

Ester, negra velha, sabida de ervas e mandingas:

cheira a terra.

Justino, da casa, quando recebe um dengo:

dança na terra.

Miriam, negrinha nova, depois da chuva:

brinca com a terra.

Manuel, crioulo, depois de apanhar muito:

bate na terra.

Mariana, da cozinha, andar fogoso e faceiro, quando disse não:

varada na terra.

Nair, prenha do sinhozinho, destemperada:

enfia terra.

Placides, escravo faiscador, para saldar a vida:

briga com a terra.

Paulina, escrava velha, que quando cachaça bebe:

embala a terra.

Sara, a nega do cabelo duro, para não encerrar a conversa:

cospe terra.

Zulmira, quando seus filhos são vendidos:

come terra.

(Outras Vozes: contos sobre o negro escravizado no Brasil, p. 26-27).

24 Dias de Açoite

Primeiro dia de açoite

Trazem para o Campo da Pólvora, o alufá Bilal LicuItan, escravo

batizado de Pacífico.

Vem altivo e olhando fundo para todos.

Anda devagar, firme, cadenciando.

Costas largas, nuas. Com a calça mal amarrada, que

permitia ver os pelos pubianos.

O feitor recém-chegado amarra as mãos do escravo.

Provoca que se abaixe e sente sobre os calcanhares.

Faz os braços passar entre as pernas e vai enfiando

uma grossa vara entre os joelhos.

Depois Bilal recebe um chute.

Em nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso.

Louvado seja Deus, Senhor do Universo. O Clemente, O Misericordioso.

Senhor do Dia do Juízo. Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda. Guia-nos à senda reta, à senda dos que agraciastes, não à dos abominados, nem à dos extraviados – reza com a voz vazada pela dor.

Por liderar, por chefiar a revolta, apesar de não ter participado, Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, foi condenado a 1.200 chibatadas.

Orientados por Deus e pela lei não podem mais que cinquenta por dia.

Recebe a cota.

Em turnos: um de sova e dois de descanso, para a pele curtir.

O povo aplaude!

Segundo dia de açoite

– Dizem que ele foi penhorado por causa das dívidas do doutor Tonico.

– O bebum?

– Sim. A negrada se ajuntou e conseguiu até mais dinheiro para pagar a dívida. –Foi?

– Mas o juiz num quis.

– Foi?

Bilal Licutan foi trazido como no primeiro dia.

Amarrado.

Recebeu a mesma cota.

– Deus selou os seus corações e os seus ouvidos; seus olhos estão velados e sofrerão um severo castigo – disse, depois de solto, encarando uma quituteira.

Ela tremeu e foi embora quase chorando.

Terceiro dia de açoite

Bilal faz parte do caminho de cabeça baixa.

Entrando na praça, levanta: altivo e superior. Encara a todos.

Até sorri para os homens.

– Quem me falou jura que a delatora foi a nega Guilhermina...

– Pelo que soube, o juiz Zé Mendes já tinha conhecimento de tudo...

– Mas num importa; o que valeu é que saíram de uma casa da Ladeira da Praça mais de cem negros que deram de frente com vários soldados.

– Foi?

– Quase nenhum sobrou pra contar história...

Como nos outros dias, é amarrado. Atado e erguido. Recebe a cota. Com força. Com gosto.

Bilal sente gemidos sair sem querer.

Cinquenta depois: acorda e é levantado.

– E temei o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra, nem lhe será admitida intercessão alguma, nem lhe será aceita compensação, nem ninguém será socorrido! – Sua voz desvencilha-se fraca. Quase ninguém ouve.

Quarto dia de açoite

– Juro, ouvi com estes ouvidos que a terra há de comer.

– O quê?

– Escutei da boca do polícia: Têm sido encontrados muitos livros, alguns dos quais dizem ser preceitos religiosos tirados de mistura de seitas, principalmente do Alcorão. O certo é que a religião tinha sua parte na sublevação e os chefes persuadiam os miseráveis de que certos papéis os livrariam da morte; encontraram nos corpos mortos grande porção dos ditos e nas vestimentas ricas e esquisitas que figuram pertencer aos chefes também1.

– Foi?

– Foi.

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, em 8 de junho, está com vontade de correr. Teme pela sua sanidade.

Reza mais.

Implora por força.

Não demonstra.

Ligeiro se coloca em posição.

Feitor, com pressa, nem o amarra.

Na última chibatada, ouvem um barulho de galho quebrando.

Não era lenho.

Não eram as costas de Bilal. Foi o braço do feitor.

– Aqueles que lucram por meio de um mal e estão envolvidos por suas faltas serão os condenados ao inferno, no qual permanecerão eternamente. Salvo os que se arrependeram, emendaram-se e declararam a verdade, a esses absolveremos porque somos o Remissório, o Misericordiosíssimo.

Quinto dia de açoite

Bilal acha pitoresco descobrir até graça no dia.

Céu azul que o faz lembrar de sua mãe.

Seu pai.

Irmãos de sangue.

Irmãos de luta.

Dos filhos de carne que não teve.

É pitoresco, sim!

– Combatei-os! Deus os castigará, por intermédio das vossas mãos, aviltá-los-á e vos fará prevalecer sobre eles e curará os corações de alguns fiéis.

Sexto dia de açoite

... e BilaI Licutan, escravo batizado de Pacífico e de propriedade do médico Antônio Pinto de Marques Varella, desmaiou.

Pela segunda vez.

Na praça só os negros viram.

Sentiram.

Temeram.

O outro feitor jogou água nele. Chacoalhou.

Chutou. Cuspiu até que ele acordou.

Bilal sorriu como se tivesse tido um bom sonho.

Recebeu o restante do açoite do dia.

– A verdadeira virtude é a de quem crê em Deus, no Dia do Juízo Final, nos anjos, no Livro e nos profetas; de quem distribuiu seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos e em resgate de cativos. Aqueles que observam a oração pagam o zakat, cumprem os compromissos contraídos, são pacientes na miséria e na adversidade ou durante os combates; esses são os verazes, e esses são os tementes.

Sétimo dia de açoite

– Num sei se é verdade, mas que vi, eu vi...

– Foi?

– Foi, sim. O lazarento tava outro dia aqui, e bastou o Pacífico olhar pra ele que parou de gemer.

– Foi?

– Foi. Parou de doer, e um dia depois tava curado. Sem nada. Limpinho!

– Foi.

Depois de cinquenta:

– Regozijam-se com a mercê e com a graça de Deus, e Deus jamais frustra a recompensa dos fiéis.

Oitavo dia de açoite

Arranjaram um negro para açoitar o escravo Pacífico, este é o alufá mais respeitado de toda Salvador. Arranjaram outro negro para punir com chicotadas o negro que deve flagelar Pacífico, caso hesite em sua tarefa.

O primeiro negro bate como se sua vida dependesse disso: com dó e piedade.

– O homem nasce para labutar e porfiar; e, se ele sofrer, será devido à austeridade reinante. Deverá exercitar a paciência, porquanto Deus lhe amenizará o caminho. Por outro lado, ninguém deverá vangloriar-se dos seus bens terrenos ou da sua prosperidade terrena.

Nono dia de açoite

– Viu só?

– o quê?

– Tiveram que trazer um novo carrasco.

– Foi?

– Ninguém quis mais.

– Verdade... Mas por que você não foi? O dinheiro é bom?

– Num pude...

– Porquê?

– Minhas costas estão no bagaço.

Depois de cinquenta:

– Quanto aos tementes, viverão em jardins e em felicidade. Gozando daquilo com que o seu Senhor os houver agraciado; e o seu Senhor os preservará do suplício infernal. Ser-lhes-á dito: Comei e bebei, com proveito, pelo que fizestes!

Décimo dia de açoite

Sempre depois da trigésima chicotada era necessário lavar as chagas com pimenta-do-reino e vinagre. Assim as carnes podiam até cicatrizar; era mesmo para evitar a putrefação.

– Cremos em Deus, no que nos tem sido revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos; no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi dado aos profetas por seu Senhor; não fazemos distinção alguma entre eles e nos submetemos a Ele.

Décimo primeiro dia de açoite

Nos primeiros, o dia somente começava depois da dor. Bilal não conseguia comer ou dormir ou pensar. Temia as dores e elas vinham mais fortes que a do açoite anterior.

Mas agora não: é apenas parte da sua vida.

Acorda e faz suas rezas.

Conversa com os irmãos cativos. Ensina alguns a escrever.

Distribui conselhos.

Ora.

Vai até o Campo da Pólvora. Apanha, desmaia, retorna e agradece em oração.

– A justiça é uma fortaleza inexpugnável, construída no alto de uma montanha que não pode ser abatida pela violência das torrentes nem demolida pela força dos exércitos.

Décimo segundo dia de açoite

Tem dia em que Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, duvida.

Não acredita que este seja o real caminho: o verdadeiro! O que irá iluminar!

Será que vale a pena?

Vê um menino, negrinho, se despregar da multidão e correr em seu encontro.

Luiz!

Luizinho, filho de Luiza Mahin.

Não é!

Parecido. Lembra. Este é maior!

Vem e abraça as suas pernas. Chora.

Com muito custo, a mãe desgruda o menino.

Pacífico pensa no pai branco do Luiz. Onde está o meu menino?

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, chora de saudade e medo.

Depois das cinquenta:

- Não é pela força nem pelo teu poder que tu triunfarás, mas pelo meu espírito, diz o Senhor todo-poderoso2.

Décimo terceiro dia de açoite

Chegou sabendo que Luís Sanim, companheiro batalhador e também cativo, conseguiu um segundo julgamento: o dono dele ajudou com os advogados. Talvez o amigo também seja condenado ou apenas açoitado.

– Contempla o arco-íris e bendiz o seu criador, ele é magnífico em seu esplendor. Forma no céu um círculo de glória, as mãos do Altíssimo o estendem3. – Sua voz até saiu forte. Muito mais do que esperava.

Décimo quarto dia de açoite

Bilal vai para o açoite preocupado. Triste, talvez. Sem saber o que pensar ou dizer.

Um negro banto, negro de dentro, preso também por causa de dívidas dos seus senhores com os frades, chegou quieto e ficou em um canto amuado. Logo foi cuidado por um velho negro que há muito estava cativo e se recusava a dizer o nome de seu dono.

O banto e o ancião ficavam sempre juntos.

Até que uma noite, depois de suas orações, Bilal testemunhou o outro fazendo o banto de mulher. Irado, Bilal investiu contra o violador. Bateu. Surrou.

Tirou o banto das garras do amaldiçoado. Levou e lavou o meninote de casa.

– As ações devem ser julgadas de acordo com as intenções4.

Quando recobra a consciência, vê o banto chorando muito, de soluçar.

– Que foi?

– Saudade.

– De quem?

– Do meu velho...

Décimo quinto dia de açoite

– Tem gente vinda de longe para ver o flagelo do Pacífico.

– Dizem que ele só se interessa pelos seus.

– Dizem que ele sempre pede ajuda.

– Dizem que ele é arrogante com os maiorais.

– Dizem que ele sempre deseja só o bem.

– Dizem que ele não tem medo de estar errado.

– Dizem que ele escuta dez vezes mais do que fala.

– Dizem que ele é impaciente.

– Dizem que ele é estúpido com os pequenos.

– Dizem que é formoso.

– Dizem que o médico recorreu e o negro vai ter outro julgamento.

– Dizem que ele até faz milagres.

Depois das cinquenta:

– E não caminhe sobre a terra exultante. Veja, você não pode abrir a terra nem se esticar até a altura das montanhas.

Décimo sexto dia de açoite

O negro que arranjaram para açoitar o Bilal caiu em prantos. Disse que não aguentava mais, que todos o olhavam com nojo e até raiva. Seus filhos tinham medo dele.

O outro, que foi arranjado para açoitar o negro que deveria flagelar o Bilal, parte para cima do chorão.

Bilal, atado, intervém.

– Bate em mim.

– Não, minha tarefa é bater nele.

– Você irá açoitá-lo e depois a mim. Ele não vai mais.

– Como você sabe?

– Os olhos dele estão sem brilho, embaçados. Bate em mim.

E então o outro, que foi arranjado para açoitar o negro que deveria flagelar o Bilal, o chicoteia cinquenta vezes.

– A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo5.

Décimo sétimo dia de açoite

Um padre tenta dar a extrema unção para Bilal depois das sofridas cinquenta do dia.

O negro se levanta. Firme. Superando a dor. Olha para o sacerdote e muito baixo pede que se afaste.

– Deixa-os, pois, até que se deparem com o seu dia em que serão fulminados! Dia esse em que de nada lhes servirão as suas conspirações, nem serão socorridos. Em verdade, os iníquos, além desse, sofrerão outros castigos; porém a maioria o ignora.

Décimo oitavo dia de açoite

Sim, Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, está cada dia mais magro, mais fraco e muito mais flagelado. No entanto, mantém o corpo ereto. Com excelentes aprumos, ossatura e temperamento altivo. Suas roupas pouco cobrem as partes. Bilal expõe-se menos.

As felizes, as escravas, as decididas, as casadas, as amigas, as fiéis, as primas, as novas, as livres, as teimosas, as Fátimas, as desesperadas, as Dalilas, as baixas, as altas, as roliças, as pacientes, as magras, as inimigas, as tristes, as faladeiras, as descrentes, as companheiras, as avós, as alforriadas, as religiosas, as nunca santas, as mães, as silenciosas e as velhas contemplam as passagens de Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, até o campo de açoite.

– A Deus pertence tudo quanto existe nos céus e na terra, para castigar os malévolos, segundo o que tenham cometido, e recompensar os benfeitores com o melhor.

Décimo nono dia de açoite

– E o delito será expiado com o talião, mas, quanto àquele que indultar, possíveis ofensas dos inimigos, e se emendar, saiba que a sua recompensa pertencerá a Deus, porque Ele não estima os agressores.

– Dizem que o juiz ouviu o médico.

– Foi?

– Foi...

Vigésimo dia de açoite

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, tem o cotação em chamas. Inflama, dói.

Sempre soube que a morte é um dos caminhos. Não o amo.

Sempre soube que a luta é digna, porém sem dignidade. Sempre soube.

– Ó Senhor nosso, cremos! Perdoa os nossos pecados e preserva-nos do tormento infernal.

Mas saber que os irmãos de luta morreram fuzilados, feito porcos, faz a alma arder.

Vigésimo primeiro dia de açoite

– Quando a adversidade açoita os humanos, suplicam contritos ao seu Senhor; mas, quando os agracia com a Sua misericórdia, eis que alguns deles atribuem parceiros ao seu Senhor, para desagradecerem o que lhes concedemos. Deleitai-vos, pois logo o sabereis!

A branca velha e a velha negra derrubam lágrimas quase iguais.

Vigésimo segundo dia de açoite

– Estes possuem a orientação do seu Senhor e serão os bem-aventurados.

Hoje foi estranho. Não teve toda a determinação. Não sentiu que seu coração alegrou.

Ontem, depois das lições um cativo veio e questionou:

– E se nada disso for verdade?

– O quê?

– Se não existir nenhum Deus?

– Como?

– Se não tiver nenhum Paraíso? Ou inferno ou coisa alguma?

– Não sei...

– Já pensou se só existir isto aqui?

– Não...

– Eu já...

Vigésimo terceiro dia de açoite

Bilal constata a visão turva. Sensação de que o chão sobe. Nada está firme. Sente um vento fresco, acolhedor. Seus pés apreciam um chão macio, um jardim tenro. Fértil. É o seu paraíso. Céu celeste que nem azul parece. Vivo. Sente-se forte, ágil, maior. Como um oásis que nunca tinha visto. Rios de leite e mel, de vinho e de doçura, de carne, de tudo aquilo que se sacrificou. Suas houris, suas setenta e duas virgens, correm para ele. Disparam em sua direção. Alegres, com sorrisos graciosos, nuas. Suas. Prontas para serem dele. Mas elas param. Semblantes fechados, preocupação e medo. Bilal olha para trás e vê Luiza Mahin. Linda, altiva, formosa. Bilal sente seu coração disparar. Apercebe-se que estar com ela é a sua recompensa maior. Agora é ele que corre em direção a ela. Quando vai abraçar e agradecer o seu amor, sente uma forte chicotada.

Acorda.

– Quanto aos tementes, viverão em jardins e em felicidade. Gozando daquilo com que o seu Senhor os houver agraciado; e o seu Senhor os preservará do suplício infernal. Ser-lhes-á dito: Comei e bebei, com proveito, pelo que de bom fizestes!

Vigésimo quarto dia de açoite

Acordou das últimas cinquenta.

– Pode ir... Acabou.

– Pode levantar e seguir o seu rumo.

– Pode...

– Ir.

– Sabei que aqueles que contrariam Deus e Seu Mensageiro serão exterminados, como o foram os seus antepassados; por isso nós lhes enviamos lúcidos versículos.

Recurso aceito e o Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico e de propriedade do médico Antônio Pinto de Marques Varella, foi condenado a somente seiscentas chicotadas.

(Outras Vozes: contos sobre o negro escravizado no Brasil, p. 47-64).

 

1 Do relato do chefe de polícia Francisco Gonçalves Martins – 29 de janeiro de 1985.

2 BÍBLIA, Zacarias 4, 6.

3 BÍBLIA, Eclesiástico 43. 11, 12.

4 Frase de Maomé

5 Frase de Maomé

Terra

Isidoro, boçal fugido, de noite ouvindo os cães:

mete na terra.

João, nagô escravo, quando está saudoso:

corre na terra.

José, banto, quando sozinho fica:

ouve a terra.

Ester, negra velha, sabida de ervas e mandingas:

cheira a terra.

Justino, da casa, quando recebe um dengo:

dança na terra.

Miriam, negrinha nova, depois da chuva:

brinca com a terra.

Manuel, crioulo, depois de apanhar muito:

bate na terra.

Mariana, da cozinha, andar fogoso e faceiro, quando disse não:

varada na terra.

Nair, prenha do sinhozinho, destemperada:

enfia terra.

Placides, escravo faiscador, para saldar a vida:

briga com a terra.

Paulina, escrava velha, que quando cachaça bebe:

embala a terra.

Sara, a nega do cabelo duro, para não encerrar a conversa:

cospe terra.

Zulmira, quando seus filhos são vendidos:

come terra.

(Outras Vozes: contos sobre o negro escravizado no Brasil, p. 26-27).

  

24 Dias de Açoite

Primeiro dia de açoite

Trazem para o Campo da Pólvora, o alufá Bilal LicuItan, escravo

batizado de Pacífico.

Vem altivo e olhando fundo para todos.

Anda devagar, firme, cadenciando.

Costas largas, nuas. Com a calça mal amarrada, que

permitia ver os pelos pubianos.

O feitor recém-chegado amarra as mãos do escravo.

Provoca que se abaixe e sente sobre os calcanhares.

Faz os braços passar entre as pernas e vai enfiando

uma grossa vara entre os joelhos.

Depois Bilal recebe um chute.

Em nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso.

Louvado seja Deus, Senhor do Universo. O Clemente, O Misericordioso.

Senhor do Dia do Juízo. Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda. Guia-nos à senda reta, à senda dos que agraciastes, não à dos abominados, nem à dos extraviados – reza com a voz vazada pela dor.

Por liderar, por chefiar a revolta, apesar de não ter participado, Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, foi condenado a 1.200 chibatadas.

Orientados por Deus e pela lei não podem mais que cinquenta por dia.

Recebe a cota.

Em turnos: um de sova e dois de descanso, para a pele curtir.

O povo aplaude!

Segundo dia de açoite

– Dizem que ele foi penhorado por causa das dívidas do doutor Tonico.

– O bebum?

– Sim. A negrada se ajuntou e conseguiu até mais dinheiro para pagar a dívida. –Foi?

– Mas o juiz num quis.

– Foi?

Bilal Licutan foi trazido como no primeiro dia.

Amarrado.

Recebeu a mesma cota.

– Deus selou os seus corações e os seus ouvidos; seus olhos estão velados e sofrerão um severo castigo – disse, depois de solto, encarando uma quituteira.

Ela tremeu e foi embora quase chorando.

Terceiro dia de açoite

Bilal faz parte do caminho de cabeça baixa.

Entrando na praça, levanta: altivo e superior. Encara a todos.

Até sorri para os homens.

– Quem me falou jura que a delatora foi a nega Guilhermina...

– Pelo que soube, o juiz Zé Mendes já tinha conhecimento de tudo...

– Mas num importa; o que valeu é que saíram de uma casa da Ladeira da Praça mais de cem negros que deram de frente com vários soldados.

– Foi?

– Quase nenhum sobrou pra contar história...

Como nos outros dias, é amarrado. Atado e erguido. Recebe a cota. Com força. Com gosto.

Bilal sente gemidos sair sem querer.

Cinquenta depois: acorda e é levantado.

– E temei o dia em que nenhuma alma poderá advogar por outra, nem lhe será admitida intercessão alguma, nem lhe será aceita compensação, nem ninguém será socorrido! – Sua voz desvencilha-se fraca. Quase ninguém ouve.

Quarto dia de açoite

– Juro, ouvi com estes ouvidos que a terra há de comer.

– O quê?

– Escutei da boca do polícia: Têm sido encontrados muitos livros, alguns dos quais dizem ser preceitos religiosos tirados de mistura de seitas, principalmente do Alcorão. O certo é que a religião tinha sua parte na sublevação e os chefes persuadiam os miseráveis de que certos papéis os livrariam da morte; encontraram nos corpos mortos grande porção dos ditos e nas vestimentas ricas e esquisitas que figuram pertencer aos chefes também1.

– Foi?

– Foi.

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, em 8 de junho, está com vontade de correr. Teme pela sua sanidade.

Reza mais.

Implora por força.

Não demonstra.

Ligeiro se coloca em posição.

Feitor, com pressa, nem o amarra.

Na última chibatada, ouvem um barulho de galho quebrando.

Não era lenho.

Não eram as costas de Bilal. Foi o braço do feitor.

– Aqueles que lucram por meio de um mal e estão envolvidos por suas faltas serão os condenados ao inferno, no qual permanecerão eternamente. Salvo os que se arrependeram, emendaram-se e declararam a verdade, a esses absolveremos porque somos o Remissório, o Misericordiosíssimo.

Quinto dia de açoite

Bilal acha pitoresco descobrir até graça no dia.

Céu azul que o faz lembrar de sua mãe.

Seu pai.

Irmãos de sangue.

Irmãos de luta.

Dos filhos de carne que não teve.

É pitoresco, sim!

– Combatei-os! Deus os castigará, por intermédio das vossas mãos, aviltá-los-á e vos fará prevalecer sobre eles e curará os corações de alguns fiéis.

Sexto dia de açoite

... e BilaI Licutan, escravo batizado de Pacífico e de propriedade do médico Antônio Pinto de Marques Varella, desmaiou.

Pela segunda vez.

Na praça só os negros viram.

Sentiram.

Temeram.

O outro feitor jogou água nele. Chacoalhou.

Chutou. Cuspiu até que ele acordou.

Bilal sorriu como se tivesse tido um bom sonho.

Recebeu o restante do açoite do dia.

– A verdadeira virtude é a de quem crê em Deus, no Dia do Juízo Final, nos anjos, no Livro e nos profetas; de quem distribuiu seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos e em resgate de cativos. Aqueles que observam a oração pagam o zakat, cumprem os compromissos contraídos, são pacientes na miséria e na adversidade ou durante os combates; esses são os verazes, e esses são os tementes.

Sétimo dia de açoite

– Num sei se é verdade, mas que vi, eu vi...

– Foi?

– Foi, sim. O lazarento tava outro dia aqui, e bastou o Pacífico olhar pra ele que parou de gemer.

– Foi?

– Foi. Parou de doer, e um dia depois tava curado. Sem nada. Limpinho!

– Foi.

Depois de cinquenta:

– Regozijam-se com a mercê e com a graça de Deus, e Deus jamais frustra a recompensa dos fiéis.

Oitavo dia de açoite

Arranjaram um negro para açoitar o escravo Pacífico, este é o alufá mais respeitado de toda Salvador. Arranjaram outro negro para punir com chicotadas o negro que deve flagelar Pacífico, caso hesite em sua tarefa.

O primeiro negro bate como se sua vida dependesse disso: com dó e piedade.

– O homem nasce para labutar e porfiar; e, se ele sofrer, será devido à austeridade reinante. Deverá exercitar a paciência, porquanto Deus lhe amenizará o caminho. Por outro lado, ninguém deverá vangloriar-se dos seus bens terrenos ou da sua prosperidade terrena.

Nono dia de açoite

– Viu só?

– o quê?

– Tiveram que trazer um novo carrasco.

– Foi?

– Ninguém quis mais.

– Verdade... Mas por que você não foi? O dinheiro é bom?

– Num pude...

– Porquê?

– Minhas costas estão no bagaço.

Depois de cinquenta:

– Quanto aos tementes, viverão em jardins e em felicidade. Gozando daquilo com que o seu Senhor os houver agraciado; e o seu Senhor os preservará do suplício infernal. Ser-lhes-á dito: Comei e bebei, com proveito, pelo que fizestes!

Décimo dia de açoite

Sempre depois da trigésima chicotada era necessário lavar as chagas com pimenta-do-reino e vinagre. Assim as carnes podiam até cicatrizar; era mesmo para evitar a putrefação.

– Cremos em Deus, no que nos tem sido revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos; no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi dado aos profetas por seu Senhor; não fazemos distinção alguma entre eles e nos submetemos a Ele.

Décimo primeiro dia de açoite

Nos primeiros, o dia somente começava depois da dor. Bilal não conseguia comer ou dormir ou pensar. Temia as dores e elas vinham mais fortes que a do açoite anterior.

Mas agora não: é apenas parte da sua vida.

Acorda e faz suas rezas.

Conversa com os irmãos cativos. Ensina alguns a escrever.

Distribui conselhos.

Ora.

Vai até o Campo da Pólvora. Apanha, desmaia, retorna e agradece em oração.

– A justiça é uma fortaleza inexpugnável, construída no alto de uma montanha que não pode ser abatida pela violência das torrentes nem demolida pela força dos exércitos.

Décimo segundo dia de açoite

Tem dia em que Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, duvida.

Não acredita que este seja o real caminho: o verdadeiro! O que irá iluminar!

Será que vale a pena?

Vê um menino, negrinho, se despregar da multidão e correr em seu encontro.

Luiz!

Luizinho, filho de Luiza Mahin.

Não é!

Parecido. Lembra. Este é maior!

Vem e abraça as suas pernas. Chora.

Com muito custo, a mãe desgruda o menino.

Pacífico pensa no pai branco do Luiz. Onde está o meu menino?

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, chora de saudade e medo.

Depois das cinquenta:

- Não é pela força nem pelo teu poder que tu triunfarás, mas pelo meu espírito, diz o Senhor todo-poderoso2.

Décimo terceiro dia de açoite

Chegou sabendo que Luís Sanim, companheiro batalhador e também cativo, conseguiu um segundo julgamento: o dono dele ajudou com os advogados. Talvez o amigo também seja condenado ou apenas açoitado.

– Contempla o arco-íris e bendiz o seu criador, ele é magnífico em seu esplendor. Forma no céu um círculo de glória, as mãos do Altíssimo o estendem3. – Sua voz até saiu forte. Muito mais do que esperava.

Décimo quarto dia de açoite

Bilal vai para o açoite preocupado. Triste, talvez. Sem saber o que pensar ou dizer.

Um negro banto, negro de dentro, preso também por causa de dívidas dos seus senhores com os frades, chegou quieto e ficou em um canto amuado. Logo foi cuidado por um velho negro que há muito estava cativo e se recusava a dizer o nome de seu dono.

O banto e o ancião ficavam sempre juntos.

Até que uma noite, depois de suas orações, Bilal testemunhou o outro fazendo o banto de mulher. Irado, Bilal investiu contra o violador. Bateu. Surrou.

Tirou o banto das garras do amaldiçoado. Levou e lavou o meninote de casa.

– As ações devem ser julgadas de acordo com as intenções4.

Quando recobra a consciência, vê o banto chorando muito, de soluçar.

– Que foi?

– Saudade.

– De quem?

– Do meu velho...

Décimo quinto dia de açoite

– Tem gente vinda de longe para ver o flagelo do Pacífico.

– Dizem que ele só se interessa pelos seus.

– Dizem que ele sempre pede ajuda.

– Dizem que ele é arrogante com os maiorais.

– Dizem que ele sempre deseja só o bem.

– Dizem que ele não tem medo de estar errado.

– Dizem que ele escuta dez vezes mais do que fala.

– Dizem que ele é impaciente.

– Dizem que ele é estúpido com os pequenos.

– Dizem que é formoso.

– Dizem que o médico recorreu e o negro vai ter outro julgamento.

– Dizem que ele até faz milagres.

Depois das cinquenta:

– E não caminhe sobre a terra exultante. Veja, você não pode abrir a terra nem se esticar até a altura das montanhas.

Décimo sexto dia de açoite

O negro que arranjaram para açoitar o Bilal caiu em prantos. Disse que não aguentava mais, que todos o olhavam com nojo e até raiva. Seus filhos tinham medo dele.

O outro, que foi arranjado para açoitar o negro que deveria flagelar o Bilal, parte para cima do chorão.

Bilal, atado, intervém.

– Bate em mim.

– Não, minha tarefa é bater nele.

– Você irá açoitá-lo e depois a mim. Ele não vai mais.

– Como você sabe?

– Os olhos dele estão sem brilho, embaçados. Bate em mim.

E então o outro, que foi arranjado para açoitar o negro que deveria flagelar o Bilal, o chicoteia cinquenta vezes.

– A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo5.

Décimo sétimo dia de açoite

Um padre tenta dar a extrema unção para Bilal depois das sofridas cinquenta do dia.

O negro se levanta. Firme. Superando a dor. Olha para o sacerdote e muito baixo pede que se afaste.

– Deixa-os, pois, até que se deparem com o seu dia em que serão fulminados! Dia esse em que de nada lhes servirão as suas conspirações, nem serão socorridos. Em verdade, os iníquos, além desse, sofrerão outros castigos; porém a maioria o ignora.

Décimo oitavo dia de açoite

Sim, Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, está cada dia mais magro, mais fraco e muito mais flagelado. No entanto, mantém o corpo ereto. Com excelentes aprumos, ossatura e temperamento altivo. Suas roupas pouco cobrem as partes. Bilal expõe-se menos.

As felizes, as escravas, as decididas, as casadas, as amigas, as fiéis, as primas, as novas, as livres, as teimosas, as Fátimas, as desesperadas, as Dalilas, as baixas, as altas, as roliças, as pacientes, as magras, as inimigas, as tristes, as faladeiras, as descrentes, as companheiras, as avós, as alforriadas, as religiosas, as nunca santas, as mães, as silenciosas e as velhas contemplam as passagens de Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, até o campo de açoite.

– A Deus pertence tudo quanto existe nos céus e na terra, para castigar os malévolos, segundo o que tenham cometido, e recompensar os benfeitores com o melhor.

Décimo nono dia de açoite

– E o delito será expiado com o talião, mas, quanto àquele que indultar, possíveis ofensas dos inimigos, e se emendar, saiba que a sua recompensa pertencerá a Deus, porque Ele não estima os agressores.

– Dizem que o juiz ouviu o médico.

– Foi?

– Foi...

Vigésimo dia de açoite

Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, tem o cotação em chamas. Inflama, dói.

Sempre soube que a morte é um dos caminhos. Não o amo.

Sempre soube que a luta é digna, porém sem dignidade. Sempre soube.

– Ó Senhor nosso, cremos! Perdoa os nossos pecados e preserva-nos do tormento infernal.

Mas saber que os irmãos de luta morreram fuzilados, feito porcos, faz a alma arder.

Vigésimo primeiro dia de açoite

– Quando a adversidade açoita os humanos, suplicam contritos ao seu Senhor; mas, quando os agracia com a Sua misericórdia, eis que alguns deles atribuem parceiros ao seu Senhor, para desagradecerem o que lhes concedemos. Deleitai-vos, pois logo o sabereis!

A branca velha e a velha negra derrubam lágrimas quase iguais.

Vigésimo segundo dia de açoite

– Estes possuem a orientação do seu Senhor e serão os bem-aventurados.

Hoje foi estranho. Não teve toda a determinação. Não sentiu que seu coração alegrou.

Ontem, depois das lições um cativo veio e questionou:

– E se nada disso for verdade?

– O quê?

– Se não existir nenhum Deus?

– Como?

– Se não tiver nenhum Paraíso? Ou inferno ou coisa alguma?

– Não sei...

– Já pensou se só existir isto aqui?

– Não...

– Eu já...

Vigésimo terceiro dia de açoite

Bilal constata a visão turva. Sensação de que o chão sobe. Nada está firme. Sente um vento fresco, acolhedor. Seus pés apreciam um chão macio, um jardim tenro. Fértil. É o seu paraíso. Céu celeste que nem azul parece. Vivo. Sente-se forte, ágil, maior. Como um oásis que nunca tinha visto. Rios de leite e mel, de vinho e de doçura, de carne, de tudo aquilo que se sacrificou. Suas houris, suas setenta e duas virgens, correm para ele. Disparam em sua direção. Alegres, com sorrisos graciosos, nuas. Suas. Prontas para serem dele. Mas elas param. Semblantes fechados, preocupação e medo. Bilal olha para trás e vê Luiza Mahin. Linda, altiva, formosa. Bilal sente seu coração disparar. Apercebe-se que estar com ela é a sua recompensa maior. Agora é ele que corre em direção a ela. Quando vai abraçar e agradecer o seu amor, sente uma forte chicotada.

Acorda.

– Quanto aos tementes, viverão em jardins e em felicidade. Gozando daquilo com que o seu Senhor os houver agraciado; e o seu Senhor os preservará do suplício infernal. Ser-lhes-á dito: Comei e bebei, com proveito, pelo que de bom fizestes!

Vigésimo quarto dia de açoite

Acordou das últimas cinquenta.

– Pode ir... Acabou.

– Pode levantar e seguir o seu rumo.

– Pode...

– Ir.

– Sabei que aqueles que contrariam Deus e Seu Mensageiro serão exterminados, como o foram os seus antepassados; por isso nós lhes enviamos lúcidos versículos.

Recurso aceito e o Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico e de propriedade do médico Antônio Pinto de Marques Varella, foi condenado a somente seiscentas chicotadas.

(Outras Vozes: contos sobre o negro escravizado no Brasil, p. 47-64).

 

1 Do relato do chefe de polícia Francisco Gonçalves Martins – 29 de janeiro de 1985.

2 BÍBLIA, Zacarias 4, 6.

3 BÍBLIA, Eclesiástico 43. 11, 12.

4 Frase de Maomé

5 Frase de Maomé

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