A poética exusíaca de O dom de Casmurro

Harion Custódio*

Exu, entidade do princípio e da transformação. Ele se multiplica, transmutando. Instaura o princípio da reciprocidade, da transformação e do movimento. Nem bom, nem mau: reúne em si todas as contradições do homem. Exu resolve conflitos, mas também pode provocar. Separa e une. Nas palavras de José Endoença Martins: “Exu é capaz de neutralizar polaridades e polarizações para ensejar fusões e combinações” (p. 12-13).

Nada melhor do que a imagem e a ideia de Exu para perceber o objeto desta resenha: O dom de Casmurro, romance escrito pelo referido autor e lançado em 2016. A dinamicidade da narrativa, o conjunto de leis que regem sua forma e sua estética constroem uma poética exusíaca1. O enredo, aparentemente, é simples. Durante a era dos “anos de chumbo”, Casmurro, um dos personagens centrais, após se envolver em uma confusão com um coronel, foge da perseguição de militares. Desesperado, encontra abrigo e hospitalidade na casa de quatro personagens: Bento, professor universitário negro; Eileen, uma jovem descendente de imigrantes alemães; Anamária, filha de imigrantes italianos; e Bertília, cuja ancestralidade reporta aos tempos de escravidão.

A essa altura o leitor já deve ter percebido alguns nomes familiares: trata-se de uma obra paródica, cujos personagens Capitu, Casmurro e Bento são transplantados, violentamente, das páginas machadianas de Dom Casmurro, transmutados em peles negras. Ademais, ocorre ainda um duplo movimento: tais personagens, com exceção de Casmurro, migraram, também, de outras narrativas ficcionais. O Bento afro-brasileiro salta de Legbas, Exus e Jararacumbach Blues (2012); já a negra Capitu nascera em Enquanto isso em Dom Casmurro (1993), ambos de autoria de Endoença Martins.

Não somente a tríade machadiana navegou de outros textos. Bertília é originária, também, de Legbas, Exus e Jararacumbach Blues. Eileen viaja do romance Verde Vale (1979), da escritora Urda Alice Klueger, enquanto Anamária sai dos poemas de Lindolfo Bell (Anamárias, 1979). Endoença, portanto, lança mão de recortes, empréstimos e intertextualidades para construir uma narrativa epistolar inovadora e polifônica, em que os pontos de vista e narração são intercalados por diferentes personagens, imprimindo uma aparência líquida e múltipla ao texto. Além disso, a referida ficção é marcada por uma auto-reflexividade em relação às suas potencialidades, insuficiências e aporias ao mesmo tempo em que, paradoxalmente2, contextualiza eventos históricos de forma crítica, como a época da ditadura militar, os movimentos de imigração de alemães e italianos durante conflitos e escassez de alimentos e, mais importante, a escravidão.

Tais feitos literários podem permitir que a obra do escritor seja recebida como uma metaficção historiográfica,3 forte tendência entre os romancistas da contemporaneidade. Entretanto, a grandiosidade de O dom de Casmurro não se encerra somente nisso. Forma e conteúdo se unem, dramatizando, assim, o ser negro brasileiro – motivação que reside o núcleo do romance.

Casmurro, como num toque de mágica, deixa as páginas do nosso Bruxo do Cosme Velho, metamorfoseia-se em negro e torna-se alvo de militares. Começa, então, com seu novo corpo, resistindo. Sob a proteção dos quatro personagens, passa a conhecer diferentes tipos de realidades e histórias: brancas e negras. É nesse ínterim que os espaços da ficção adquirem significado profundo e metafórico. Jararacumbach, local imaginário de ambiência da narrativa, que remonta ao município de Blumenau, em Santa Catarina, região de nascimento do autor (o que, juntamente com a história de Bento como seminarista e professor universitário, aponta para traços de autoficção), representa o lócus de manifestação concomitante de conflitos e diferenças culturais e étnicas:

Marcada pela fusão de um termo alemão (Bach) a um elemento de ligação (Um), e os dois a uma palavra brasileira (Jararaca), explicitava, linguisticamente, a dualidade cultural da vida do migrante. Resultado: Jararacumbach se transformava – para mim e para outros – numa metáfora funcional para a comunicação entre as várias etnias, quando o limitado conhecimento da outra língua impedia o uso da expressão Ribeirão das Jararacas. (p. 109).

A narrativa se passa, então, em um ambiente de confluência cultural. Nesse espaço, o negro se encontra no centro. De um lado, há a imponente morada dos alemães, representada pela rua Seckendorf Strasse. De outro, a Strada Giuseppe Dalfovo, representando a comunidade dos italianos. No meio, a rua Felipa Xavier da Rocha, local de abrigo de seus habitantes afro-brasileiros. Apesar de adversidades, miséria, precariedade e subalternidade em relação aos imigrantes brancos, o Jararacumbach, para suas almas negras, é local de descoberta e (re)invenção: “[...] Minha iniciação poética foi a dura realidade da sobrevivência” (p. 47), Relata Bento sobre sua experiência no lugar de origem. Em seguida: “– A gente só sabe que é negro, e só entende o tipo de negro que é, quando a gente vive entre brancos”. (p. 49). E ainda:

Em casa, meu pai pedreiro e minha mãe lavadeira me haviam ensinado que, no Jararacumbach, a sobrevivência de um negro dependia do equilíbrio que conseguisse manter entre dois comportamentos: de um lado, ser negro demais; do outro, tornar-me negro suficiente. (p. 56-57).

O ser negro compreende, antes de tudo, um descobrir-se negro. Esse estado ontológico revela uma peculiaridade corporal, cultural, subjetiva e sócio-histórica, como também, conjuntamente, uma performance, isto é, uma práxis “diferente” em relação ao mundo, marcada por táticas e estratégias de sobrevivência e vivência, delineadas por uma projeção, um vir a ser no mundo. Nesse contexto, a interação, o diálogo e a partilha, elementos ficcionalizados pela prosa de Endoença, são propriedades compósitas da existência negra.

Ademais, cabe ressaltar que uma ontologia negra é marcada pela dimensão da “dupla consciência”,4 como nos disse Dubois, que se manifesta tanto objetiva quanto subjetivamente. Um sentimento de duplo pertencimento, (ou, talvez, de pertencimento e não-pertencimento). É por isso que Bento, ao rememorar o passado em suas correspondências com Capitu (negra), afirma: “Infelizmente, cheguei ao seminário com a cor e o cabelo errados” (p. 54). Preto entre brancos, o choque se dá justamente na tentativa de supressão de sua negritude por parte dos colegas e seminaristas: “[...] me deixaram praticamente careca. Adeus, pixaim amigo” (p. 54); “[...] o seráfico mestre, que também detinha a posição de Padre-Prefeito, despejou uma lata de talco branco sobre a minha careca negra” (p. 55).

Percebendo os grandiosos muros, aparentemente inexoráveis, que se erguiam em torno de si e seus semelhantes, o personagem proveniente das páginas de Dom Casmurro, percebe a necessidade de adotar estratégias e improvisos como forma de resistência. Aprofunda-se nos estudos como nenhum outro aluno, destaca-se e funda, juntamente com outros amigos afro-brasileiros, um grupo de poesia. Porém, a “dupla consciência” e o “véu” da discriminação serão forças perenes em sua vida. Por isso uma aluna questiona sua capacidade como professor universitário de literatura; ou daí o motivo do conselho de professores o impedir de pleitear uma vaga para a chefia do departamento de letras; e, entre o grupo de dissidentes da ditadura militar, seu corpo negro e do amigo errante Casmurro serem os mais visados e seus espaços mais violados.

A dualidade, o deslocamento, a transformação, a troca e a partilha, portanto, compõem a imanência da obra, de uma maneira, permitam-me a expressão, exusíaca. O personagem que mais representa essa essência móvel do negro (entre outras várias) é Casmurro (não é à toa que ele sempre se metamorfoseia ao transitar entre as casas dos personagens), o principal alvo dos militares. Como já dito, no intuito de protegê-lo da força de repressão, ele é hospedado de maneira alternada nas casas de quatro personagens: Bento, Eileen, Anamária e Bertília. Com o primeiro, ambos discutem sobre aspectos literários. Eileen, imigrante alemã, o ensina aspectos de sua cultura representada pela Blumenalva, mesclada, porém, com características brasileiras. A italiana, Anamária, em movimento igual, o leva a conhecer sobre as tradições da comunidade itálica. A principal troca acontece entre Bertília, descedente de indivíduos ex-escravizados e agentes da cultura afro-brasileira, que o introduz a alguns princípios do candomblé e da vivência negra no Jararacumbach. Esse compartilhamento, vale dizer, não se encerra somente no campo eufórico, como também na esfera disfórica do sofrimento e da perda caracterizada pela imigração forçada, exílio e escravidão.

Casmurro, representa, destarte, uma metáfora do negro em diáspora. A adaptação, a transfiguração e a interculturalidade, são, além de produtos da interação entre diferentes povos e espaços, uma forma de sobrevivência, preservação e resistência:

Ou o escravo significava ou desaparecia, linguisticamente, culturalmente, literariamente. Para o escravo, para o negro e, depois, para o escritor negro, significar sempre implicou a aplicação de quatro estratégias de reescritura diante da hegemonia branca, na cultura, na língua e na literatura: imitação, repetição, revisão e diferença. Primeiro, em relação à estética branca, para edificar uma estética negra. Depois, no seio da estética negra, para expandi-la. (p. 264-265).

Sobrevivência, portanto, que não gera somente sobrevida, como também novas práticas políticas e culturais de socialização, transformação do espaço e de si, e, sobretudo, artísticas. O movimento do ser negro diaspórico é, acima de tudo, uma forma de romper barreiras e cerceamentos, projetando-se a um futuro redentor. Uma das imagens finais do romance é sintomática nesse sentido: Os exilados, brancos e negros, celebram uma espécie de união, multifacetada, democrática, sem, contudo, supressão ou apagamento das múltiplas diferenças.

Exusíaco, O Dom de Casmurro possui diversas dimensões a serem apreciadas e estudadas. Contudo, caro leitor, o drama móvel do negro é matéria de grande relevância na narrativa de José Endoença Martins, algo que, possivelmente, ele deseja nos comunicar. Uma “mensagem” antiga, que é visível na realidade e que ecoa ainda nos dias de hoje, em direção a um eterno devir.

Belo Horizonte
20 de março de 2017

Referências

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Tradução de Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

MARTINS, José Endoença. O dom de Casmurro. Curitiba: Appris, 2016.

XAVIER, Arnaldo. Dha lamba à qvizila: a busca de uma expressão literária negra. In: DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, Maria Nazareth Soares (org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, v. 4, História, teoria, polêmica.

1 O termo foi criado por Arnaldo Xavier, em texto inovador apresentado no I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros e primeiramente publicado em Criação crioula, nu elefante branco, organizado por Miriam Alves, Cuti e o próprio Arnaldo Xavier. Com exusíaco, o ensaísta se refere a uma forma de linguagem transgressora – no sentido contrário aos paradigmas excludentes da literatura brasileira – e afeita aos modos de existir do negro brasileiro, em suas dimensões culturais e sócio-históricas. Para melhores detalhes, cf. DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, M. N. S. (org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, v. 4, História, teoria, polêmica.

2 Refiro-me ao paradoxo entre verdade e ficção, intrínseco ao romance histórico.

3 Sobre o conceito, cf. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Tradução de Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

4 Sobre o conceito, conferir a obra de W. E. B. Du Bois As almas da gente negra, primeiramente publicada em 1903.

* Harion Custódio é graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade desta Instituição.

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