DADOS BIOGRÁFICOS

Miriam Aparecida Alves nasceu em São Paulo em 1952. É assistente social e professora. Começou a escrever aos onze anos, conforme relatou para a revista estadunidense Callaloo (1995, p. 970-2). Na década de 1980, passou a integrar o coletivo Quilombhoje Literatura, responsável pela produção dos Cadernos Negros, publicação na qual estreia no número 5, de 1982. Em sua apresentação, afirma: “comecei chorando, agora grito palavras e lágrimas, os soluços e as agulhas da opressão que ferem fundo minha pele negra”.(1982, p. 44). Com efeito, a retórica militante e o impulso de protesto, presentes na maioria dos textos dos Cadernos em seus primeiros anos, vão alicerçar o desenvolvimento de sua escrita, empenhada em falar por si e pela comunidade com a qual se identifica. Seu primeiro livro, Momentos de busca (1983) é resultado de exercícios e experimentos praticados e reelaborados desde a adolescência e o convívio com o projeto coletivo das duas últimas décadas do século, empenhado em dialogar com a tradição da literatura negra ocidental. Em “Magma”, publicado no ano anterior nos Cadernos, pode-se ler: “Por amor ao mundo / eu o odeio (às vezes) / cravo nele minhas garras / arranho suas costas / ou encostas / Cravo-lhe semente / e vejo nascer a planta / colho e vejo morrer / o fruto” (1983, p. 33).

Em 1985, lança seu segundo livro de poemas, Estrelas no dedo, no qual o lirismo se mescla à contundência do embate com uma sociedade que ainda veta ao negro o acesso à plena cidadania. Em 1988, elabora, ao lado de Arnaldo Xavier e Cuti, o texto teatral Terramara, também publicado em forma de autoedição. No ano seguinte, a autora se desliga formalmente do grupo gestor do Quilombhoje Literatura, mas desde então continua contribuindo para a série com seus contos e poemas.

Como intelectual moderna e atenta às relações entre poesia, ficção e metalinguagem, Miriam Alves desde o começo da carreira exercita também a crítica, tendo participado dos volumes Reflexões sobre a literatura afro-brasileira (1985) e Criação crioula, nu elefante branco (1987), além de artigos publicados no Brasil e no exterior. Nessa linha, participou da organização de duas antologias bilíngues reunindo escritos de autoras negras brasileiras, a saber: Enfim nós/Finally us: contemporary black brazilian women writers (EUA, 1995), em parceria com Carolyn R. Durham; e Women righting/Mulheres escre-vendo: afro-brazilian women’s short fiction. (Inglaterra, 2005), com Maria Helena Lima. Esse pendor analítico e reflexivo mantem-se vivo ao longo do tempo e leva à escrita de BrasilAfro autorrevelado (2010), volume crítico e historiográfico, em que trata da literatura afro-brasileira e de seus contextos de produção e recepção.

Nessa linha, a autora, além de ter seus escritos presentes em diversas antologias brasileiras e estrangeiras, vem participando de inúmeros debates, palestras e eventos acadêmicos, sempre tendo como foco de interesse a produção feminina e negra. Dentre eles, pode-se destacar o “1996 International Conference of Caribbean Women Writers and Scholars" e o “Latin American Speaker Simposium”, este último realizado em 1997 em Nova York. Em 1995, ministrou palestras na Áustria e na Alemanha. E, em 2007, cursos sobre literatura e cultura afro-brasileira nas universidades do Texas e do Novo México, nos Estados Unidos, além de outros cursos e oficinas posteriores.

Seu volume de contos Mulher mat(r)iz foi lançado em 2011, por ocasião do XIV Seminário Nacional Mulher & Literatura / VI Seminário Internacional Mulher & Literatura, realizado na UnB, em que foi uma das homenageadas. O livro reúne trabalhos inéditos e publicados anteriormente nos Cadernos Negros e mantém o tom lírico e, ao mesmo tempo, incisivo que constitui a marca registrada de seus escritos poéticos.

Ainda no campo da ficção, em 2015 publica seu romance Bará na trilha do vento, no qual se mantém fiel ao projeto afro-brasileiro de resgate da identidade e da humanidade de toda uma parcela da população subalternizada até hoje por comportamentos e atitudes herdadas da escravidão. A propósito, afirma a crítica Moema Parente Augel no prefácio ao romance: “a voz plural da narradora nos faz ouvir a menina, a mãe, a avó – a linhagem da mulher forte.”

Presença constante na cena literária afro-brasileira, Miriam Alves vem tendo seus trabalhos estudados por diversos pesquisadores e objeto de artigos, teses e dissertações em universidades brasileiras e estrangeiras.

Referências

ALVES, Miriam. Momentos de busca. São Paulo: Ed. da Autora, 1983.

Cadernos Negros 5. Org. Quilombhoje. São Paulo: Ed. dos Autores, 1982.

Callaloo. vol. 18, nº 4, Org. Charles H. Rowell, Autumn, 1995, p. 970-972. Disponível em: http://muse.jhu.edu/journals/callaloo/v018/18.4int_alves_p.html

 


PUBLICAÇÕES

Obra individual

Momentos de busca. São Paulo: Edição da autora, 1983. (Poemas)

Estrelas no dedo. São Paulo: Edição da autora, 1985. (Poemas)

Mulher mat(r)iz. Belo Horizonte: Nandyala, 2011. (contos).

Bará na trilha do vento. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2015. (romance).

Coautoria / Antologias

Cadernos Negros. Nº 5, 7-13, 17-20, 24, 25, 26, 29, 30, 31. São Paulo: Quilombhoje, 1982-2008.

Axé - antologia da poesia negra contemporânea. Org. Paulo Colina. São Paulo: Global Ed., 1982.

Mulheres entre linhas - II concurso de poesia e conto (revelação de novos valores femininos no Estado de São Paulo). São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura; Conselho da Condição Feminina, 1986.

A razão da chama - antologia de poetas negros brasileiros. Org. Oswaldo de Camargo. São Paulo: Edições GRD, 1986.

Pequena Antologia Temática. In: CAMARGO, Oswaldo de. O negro escrito: apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira. São Paulo: Secretaria do Estado e da Cultura, 1987.

Terramara. São Paulo: Ed. dos Autores, 1988. (Texto teatral, coautoria Arnaldo Xavier e Cuti)

1979-1988- 10 Anos de luta contra o racismo. São Paulo: Confraria do Livro, 1988.

Schwarze poesie - Poesia negra. Org. Moema Parente Augel. St Gallen/Köln/São Paulo: Edition diá, 1988. (edição bilíngue alemão português).

Poesia negra brasileira: antologia. Org. Zilá Bernd. Porto Alegre: AGE; IEL; IGEL,1992.

Ad libitum Sammlung Zerxtreuung, nr 17, Berlin; Volk und welt (poemas). Antologia, 1992.

Schwarse prosa/Prosa negra. Org. Moema Parente Augel. Berlim/São Paulo: Edition diá, 1993.

Zauber gegen die ka"lte, (Herausgegeben Von Deustcheb Welthugerhife) Bonndortmund germany, dw shop. Antologia, 1994.

Contra Lamúria. São Paulo: Casa Pindahyba, 1994.

Finally us / Enfim nós: contemporary Black Brazilian woman writers. (org. Miriam Alves e Carolyn R. Durham). Edição bilíngue português/inglês. Colorado: Continent Press, 1995.

Moving beyond boundaries. (org. Carole Boyce Davies). London: Pluto Press, 1995. 116-23.

Nueva poesia latinamerikaniche, Literatumagazin, (Herausgegeben von Tobias burgghardt, Martin Lüdke und Delf (schnidt) Gemany Rowoht, n.38, 1996.

Presença negra na poesia brasileira moderna. Org. Sebastião Uchoa Leite. In Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. São Paulo, n.25, p.142-43, 1997.

Pau de sebo: coletânea de poesia negra. Org. Júlia Duboc. Brodowski: Projeto memória da cidade, 1998.

Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje; Fundo Nacional da Cultura, Ministério da Cultura, 1998.

Cadernos Negros: os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje; Fundo Nacional da Cultura, Ministério da Cultura, 1998

Callallo. Baltimore, v. 23, n. 4, p.1315, 2000.

Callaloo. Baton Rouge, v.23. n.4, p. 1315-1316, 2000. (edição bilíngue inglês português).

Women righting/Mulheres escre-vendo: Afro-Brazilian women’s short fiction. Edição, com Maria Helena Lima. Londres: Mango Publishing, 2005. (edição bilíngue inglês português).

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Org. Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 3, Contemporaneidade.

Não ficção

Axé Ogum. In: Quilombhoje (Org.) Reflexões sobre a literatura afro-brasileira. São Paulo: Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, 1985.

Cem palavras. In: SEMOG, Éle. Corpo de negro rabo de brasileiro - Textos do II Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros. Rio de Janeiro, 1986. p.26-31. (apostila).

Discurso temerário. In: ALVES, Miriam, SILVA, Luiz (Cuti), XAVIER, Arnaldo (Org.). Criação crioula, nu elefante branco. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1987, p. 83-86.

Lésbica virtual – configurações de uma cibercultura. In: LYRA, Bernadette, GARCIA, Wilton (Orgs.). Corpo e cultura: ensaios. São Paulo: Xamã: 2001. p.65-72.

Cadernos Negros 1 – o postulado de uma trajetória. In: DUARTE, Constância Lima et alii. Anais do IX Seminário Nacional Mulher & Literatura. Belo Horizonte. CD-Rom, 2001.

Cadernos Negros 1 – o postulado de uma trajetória. In: DUARTE, Constância Lima, DUARTE, Eduardo de Assis, BEZERRA, Kátia da Costa (Org.). Gênero e representação: teoria, história e crítica. Belo Horizonte: Pós-graduação em Letras, Estudos Literários, UFMG, 2002, p. 67-73.

Empunhando bandeira: diálogo de poeta. In: SANTOS, Rick, GARCIA, Wilton (Org.). A escrita de Adé – perspectivas teóricas dos estudos gays e lésbicos no Brasil. São Paulo: Nassau Comunity College; ABEH, Xamã, 2002, p. 153-161.

Cadernos Negros (número 1): estado de alerta no fogo cruzado. In: FIGUEIREDO, Maria do Carmo, FONSECA, Maria Nazareth Soares (Org.). Poéticas afro-brasileiras. Belo Horizonte: Mazza Edições; Editora PUC Minas, 2002, p. 221-240.

Negra e lésbica: a leitura do corpo. In: LYRA, Bernadette, GARCIA, Wilton (Org.). Corpo&Imagem. São Paulo: Ed. Arte & Ciência, 2002.

BrasilAfro Autorrevelado: Literatura Brasileira Contemporânea. Belo Horizonte: Editora Nandyala. 2010.

 


TEXTOS

 


CRÍTICA

 


FONTES DE CONSULTA

http://unjobs.org/authors/miriam-alves

http://mixbrasil.uol.com.br/cio2000/redoma/negras_umas/negras_umas.shtm

http://www.quilombhoje.com.br

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SZOKA, Elzbieta. Fourteen female voices from Brazil: interviews and works. Austin: Host Publications, 2002.

 


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