DADOS BIOGRÁFICOS

Mãe Beata de Yemonjá, nome pelo qual foi conhecida Beatriz Moreira Costa, nasceu em Salvador, BA, em 20 de janeiro de 1931, radicando-se em Miguel Couto, Nova Iguaçu, RJ. Neta de portugueses e africanos escravizados e conduzidos ao Brasil, passou a sua infância nos arrabaldes de Cachoeira do Paraguassu, Bahia, cercada pela presença de mãe Afalá e por outras mulheres de origem africana, essencialmente, pela avó paterna, mulher que, segundo Mãe Beata em seus relatos, “tratava de todos no engenho com suas ervas e mezinhas”. (Caroço de Dendê, p. 12).

Ialorixá do Ilê Omi oju Aro – Casa das Águas dos Olhos de Oxossi – Mãe Beata, por volta de 1980, transformou-se em umas das mais celebradas personalidades do candomblé do Rio de Janeiro. Foi uma das integrantes do ICAPRA, Instituto Cultural de Apoio e Pesquisa das Religiões Afros, o qual visa a difusão das heranças e tradições dos povos brasileiros de origem africana, centrando-se, especialmente, na transmissão religiosa.

Em toda a sua existência, Mãe Beata sempre batalhou por justiça social, realizou trabalhos com soropositivos e doentes de AIDS, foi também conselheira do MIR (Movimento Inter-Religioso), membro do Unipax (que luta pela paz), integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, tendo sido também presidente de honra da ONG CRIOLA.

No ano de 1997, lançou o livro Caroço de Dendê: a sabedoria dos terreiros, pela Pallas editora e em 2004 Histórias que a minha avó contava, pela Terceira Margem. Hábil contadora de histórias, buscou sempre resguardar em seus relatos as tradições e heranças da cultura africana, que passou a conhecer desde a infância cercada por descendentes de ex-escravos. 

Jovem ainda, já arquivava e difundia essa memória coletiva, com histórias e  mitos que permeiam a formação da cultura afro-brasileira. Nos dizeres de Vânia Cardoso, “A dinâmica da transmissão oral destas histórias dentro das comunidades-terreiro e a interação entre contadores e ouvintes no dia-a- dia dos terreiros nos levam a pensar nos contos de Mãe Beata como, de certa forma, uma criação coletiva destas comunidades, individualizados pela sua criatividade como contadora de histórias.” (Introdução a Caroço de Dendê , p. 13). Observar-se-á, nas suas narrações, que os mitos da tradição e a memória coletiva são delineadores do seu estilo de construção literária. Na realidade seus contos são as vozes de um tempo e de um espaço, os quais representam a sociedade afro-brasileira. Beata de Yemonjá assim narra o seu nascimento:

Minha mãe chamava-se do Carmo, Maria do Carmo. Ela tinha muita vontade de ter uma filha. Um dia, ela engravidou. Acontece que, num desses dias, deu vontade nela de comer peixe de água doce. Minha mãe estava com fome e disse: 'Já que não tem nada aqui, vou para o rio pescar.' Ela foi para o rio e, quando estava dentro d'água pescando, a bolsa estourou. Ela saiu correndo, me segurando, que eu já estava nascendo. E eu nasci numa encruzilhada.

Tia Afalá, uma velha africana que era parteira do engenho, nos levou, minha mãe e eu, para casa e disse que ela tinha visto que eu era filha de Exu e Yemanjá. Isso foi no dia 20 de Janeiro de 1931. Assim foi o meu nascimento." (Caroço de Dendê, p. 11).

Griotte dotada de grande talento para performar em público narrativas imemoriais às quais dava vida e encanto, Mãe Beata de Yemonjá sempre ligou o mar de histórias oriundo de seus ancestrais à luta incansável por equidade social. Foi sem dúvida uma grande expoente da cultura negra no Brasil, e uma das vozes da tradição religiosa de matriz africana em nosso país. Filha de Exu e Yemanjá – a mensagem e a comunicação – narra em suas obras componentes de relevo do vasto continente cultural e histórico dos povos de origem africana presentes no Brasil.

Mãe Beata faleceu em Nova Iguaçu-RJ, em 27 de maio de 2017.

 


PUBLICAÇÕES

Obra individual

Caroço de dendê: a sabedoria dos terreiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2002. (Contos).

Histórias que a minha avó contava. São Paulo: Terceira Margem, 2004. (Contos).

Antologias

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, v. 2, Consolidação.

Não ficção

Tradição e religiosidade. In: WERNECK, Jurema. (org). O livro da saúde das mulheres negras. Rio de Janeiro: Pallas, 2000.

 


TEXTOS

 


CRÍTICA

 


FONTES DE CONSULTA

BERNARDO, Terezinha. Prefácio. In: YEMONJÁ, Mãe Beata de. Histórias que minha avó contava. São Paulo: Terceira Margem; CESA, 2004.

CARDOSO, Vânia. Mito e memória: a poética afro-brasileira nos contos de Mãe Beata. Introdução a Caroço de dendê. 2 ed. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2002.

COSTA, Haroldo. Mãe Beata de Yemonjá - guia, cidadã, guerreira . Rio de Janeiro: Editora Garamond / Fundação Biblioteca Nacional, 2010.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2005.

SILVA, Glória Cecília de Souza. Os 'Fios de Contos' de Mãe Beata de Yemonjá: mitologia afro-brasileira e educação. 2008. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal do Rio de Janeiro.

EVARISTO, Conceição. Mãe Beata de Yemonjá. In DUARTE, Eduardo de Assis. (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2, Consolidação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

 


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