Desço Bahia

Susto
Eu frente ao pilão
A preta de mim
Mina(s)
Pedra e sabão
essa coisa de tanque
que é coisa de rio
“Bate a ropa até maciá”
desço, não desço
paro de caminhar
macero meu corpo até meio fio
sangro
remendo de roupa
desço subo bainhas
cirzo a primeira esquina.

 

(In:http://poetasdeagosto.wordpress.com/category/jussara-santos)

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Indira

Acordei com um medo danado de não ver mais Washington. Tomei café apressando minha mãe, que não entendeu tanta afobação. Saí de casa com o coração apertado, mas o alívio chegou assim que o vi lá na entrada do Boqueirão, segurando a mão de Dona Fia. Dessa vez, não me importei de ouvi-lo gritar o meu nome, nem de ele segurar minha mão e minha pasta. Quis falar muitas coisas pra ele, porém, não consegui. Caminhamos em silêncio até a escola.

Nessa manhã, não me concentrei. A professora gesticulava muito lá na frente e enchia o quadro de informações. Os meninos jogavam, de vez em quando, bolinhas de papel nas outras meninas, que viravam para trás tentando reconhecer o engraçadinho. Mas eu ficava pensando na possibilidade de o Washington ir mesmo morar com a avó no interior. Nós nos conhecemos há bastante tempo, ele é meu melhor amigo. E se ele fosse mesmo embora, como seriam as idas para a escola?

Washington nem sabe que eu estou aqui pensando nele. Ele está concentrado, a aula é de história (disciplina que adora). Eu também gosto, mas não sei por que estou aqui reparando nas mãos dele, no jeito que ele morde a tampa da caneta (hábito que Dona Fia detesta). Só agora percebo um certo brilho naquela pele muito negra. Os cabelos de Washington são bonitos e crespos, e o pai dele, quando o leva ao barbeiro, pede para Seu Juca fazer um corte diferente, bater a nuca, fazer uns desenhos que homenageiam suas raízes africanas. O Washington adora esses desenhos na nuca; ele diz que marcam sua diferença, e, agora, vejo que ele é mesmo diferente.

Quando cheguei em casa, perguntei a minha mãe:

– O Washington vai mesmo embora?

– Não sei minha filha. Talvez, por quê?

Não respondi.

(Indira, p. 15).

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A Paixão e o Vento

 

O morro desceu para o grande triunfo. Saiu nos cabeçalhos dos grandes jornais, dez em tudo, a escola foi a primeira.

Bira procurou um ponto mais alto em meio ao povo. Queria, precisava encontrar a Ritinha, impossível aquilo ter acontecido... Escapar entre os dedos...

Recordou a moça, menina ensaiando os primeiros passos na quadra, pernas crianças tropeçando, desafiando o repique do tamborim. Apreciava-a, ela olhou para ele ingênua no pedido de ajuda, me ensina a fazer moço! Largou o instrumento, rodopiou em volta dela, é assim menina, os pés rápidos desenharam na quadra o sapateado do samba nascido com ele, compassos que os ouvidos levavam aos calcanhares. Ela procurou imitar os volteios com graça, riu feliz, tu levas jeito, criatura, é só soltar o corpo, o ritmo faz o resto, assim que nem eu, rodou mais algumas vezes, o apito parou a batucada, algumas palmas, foi para o barraco pensando na menininha com um sorriso nos lábios, poxa, essa vai longe ...

Agora estava à sua procura, a menina crescida, a passista número um, a melhor da ala, Ritinha, que desabrochou pouco a pouco na frente de seus olhos, tomara o corpo de uma deusa, os quadris sinuosos que se fizeram assim, com o chegar da idade, a estreita fita dividindo as nádegas salientes, os seios ao léu.

Afastou com os cotovelos a multidão, que se comprimia no desejo de participar da comemoração... queria dizer-lhe que a queria depois de tudo, coisa fora de moda, respeito, remorso, sei lá, dúvidas que não existiam mais depois do último ensaio, foi ela quem provocou, saíra com ele, ainda comentou, não disse que tu ia ser a melhor passista, taí, tá vendo, a rapaziada toda se amarra em tu, ela mostrou as continhas brancas brilhando entre os lábios carnudos, um sorriso infantil. Bira foi tu que me deu força, aí deu uns requebros na frente dele, roçando a bunda nas calças dele, as mãos deslizaram pela pele lustrosa da cintura dela, fez mais devagar se apertando de encontro ao corpo dele, deu vontade de espremê-la, trazê-la para mais junto... Te vi menina, garota, pirralha... Eu sei que só num sou mais, sente só, deixou o pescoço dobrar em volta do ombro dele, olhou dentro dos olhos de Bira, quase um apelo, forçou o braço para estreitá-lo contra o corpo suado, fervente, saiu baixinho, parecia dizer sem querer... Me possui, Bira... Empurrou-a bruscamente para desvencilhar-se, toma tenência garota, tu ainda é uma fedelha, pô, aí ó, adepois tu fica cheia, o morro todo vai saber, e aí como é que fica o papai aqui... Saiu se ajeitando enquanto ela, lépida, foi se esgueirando pelo labirinto dos barracos em busca de água para abrandar-lhe as chamas... Naquela noite, Mirtes, nega de fé, até achou que seu homem amava mais ela do que antes, nem ouviu quando ele a chamou de Ritinha!

 

***

 

Cara de idiota, coração pequenino, à cata de Ritinha. Fechou os olhos, os refletores incendiando, as arquibancadas aplaudindo, o surdo marcando, os taróis rufando, ala evoluindo com precisão e ela girando debochada em volta dele, o corpo negro se contorcendo sensual, no samba rasgado se inclinou num passo que ela sabia dar. Ela repetiu o gesto, desafio, estava mais mulher que nunca, tremeu os peitos... Tu tá vendo só... Tomou pela cintura, foi deixando que o corpo escorregasse, se desdobrasse até ter-lhe o ventre seminu deslizando pelo seu rosto, as coxas que se abriram para que ele deixasse a dança executar sua coreografia, o dor acre do suor veio forte, trouxe-lhe a realidade... Instinto, abandonou-o em busca de outro componente da ala, chegou o fim da passarela, a escola em bloco foi dispersando, fim de festa, voltou ao morro pensando na glória, na Mirtes e na Ritinha. Olhou com ar de enfado a companheira, tinha outro cheiro, tirou a fantasia, adormeceu com a outra... Logo seria dia, então iria mostrar àquela foguenta quem era o Bira!

 

***

 

Sabe, num é por nada, mas achava que tu era uma criança, os olhos iam acompanhando, estreitando, enquanto Ritinha ia tirando as peças, um corpo desconhecido, embora já o tivesse visto e sentido diversas vezes, mas só que agora parecia diferente, real, tentação sedutora na brejeirice dos anos, viu-a nua, tesão, a ânsia de extravasar o gozo prometido... Bira puxou-a contra seu corpo, rolaram sobre o carpete macio, refez o quadro, a menininha tropeçando na quadra, o sorriso criança, ela pediu baixinho, faz gostoso Bira, a paixão dele era tão grande que após tanto tempo se convertera em fogo, quis fazer... No dia em que finalmente se deram a conhecer, de suas entranhas brotou uma língua flamejante que reduziu o membro tão esperado a um montinho de cinzas.

 

***

 

Levantou-se da cama, foi à janela e, do parapeito, com carinho, começou a soprá-las ao vento... Bira, você brochou... Ele vestiu a roupa em silêncio, falou para o moço da portaria, vê lá o que a menina quer, subiu seu morro, no caminho vendeu o tamborim...

(Cadernos Negros: três décadas, p. 217-219)

 

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Curió

Ele era sempre sorriso e riso
e gargalhadas escancaradas.
Dançava samba de roda, jogava capoeira,
animava bailes
O cabelo bem cometido sob a leve camada de óleo
Os sapatos de um engraxado absoluto,
o brilho retumbante.
A tranquila camisa de seda.
No pescoço, a conta grossa de aço.
Simpatia e adjacências. Mútua reciprocidade.
Curió de Vila Isabel. Gostavam dele. Ele, de todos.
De pé ele estava, ali na parada do ônibus;
A viatura se aproxima.
“Abra os bolsos! Vire de costas! Mostre as mãos!”
Alguns protestos. O policial se redobrou.
“Entre na viatura...”
Curió, o rosto anoitecido, retrucou:
Nestas terras, seu moço, nunca ninguém não ousou.
Nenhuma afronta sem troco.
Nem agravo sem resposta.
A lei chamou outro da lei.
Tiros, gritos, correria...
O Curió calou o canto do encanto.
Só o sussurro das asas
em sumida revoada.
Assassinato diário de pássaros.

(Cadernos Negros 19, p. 126)

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