mátria e/ou terra mãe

 

repetem repetem
mátria
com tanta certeza
como se a palavra
existisse
no dicionário
o último lugar de validação. 

mas não é mãe
se permite
que te arranquem
o solo e os pés
no mesmo instante

não é mãe
se inventa um navio
quando te jogam
ao mar
se força as ondas
para que chegue
mais rápido
ao desconhecido

não é mãe
se permite que grite
até a rouquidão
mas num idioma
que ninguém compreende.

repetem repetem
mátria
com tanta certeza
como se a palavra
existisse
no dicionário
o último lugar de validação.

de onde eu vim
pra onde sempre vou
eu chamo de pátria

         (Um corpo negro, p. 19).


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A caixa de surpresa (trecho)

O menino procurou em gavetas. Mexeu. Remexeu. Não achou nada muito interessante. Procurou no fundo do quintal. Lá onde guardava seus tesouros! Coleção de conchinhas do Mar de Itaparica. Pedras roladas do leito do Velho Chico. Botões de três gerações. Tampinhas históricas do antigo jogo de botões do avô que já partiu...

O menino não conseguiu abrir mão de nenhum daqueles objetos. Eram muito preciosos... O menino pensou, então, em ser mais previsível. Juntou flores do campo. Fez um enorme buquê. O buquê ficou lindo durante algum tempo.

Logo, logo, o menino percebeu que aquela não tinha sido uma boa ideia. O buquê ficou mal humorado. Buquê emburrado. Com saudades da planta mãe... Esse não seria um bom presente.

O menino (que se chamava Victor) catou cristal na trilha de pedras. Guardou, em vidro, o cheiro do capim gordura. Guardou, nos olhos, o azul e preto da borboleta lenta que passou... Guardou na pele, nos cabelos e na roupa o molhado, gelado de espirro de nuvens...

Victor ainda tentou alcançar um arco-íris, que se exibiu no céu como cauda de pavão, mas uma nuvem chegou primeiro e levou o arco colorido para longe...

Naquela altura da tarde, começou a colher raios de sol poente... mas, todos que restavam, brincaram de esconde-esconde atrás das montanhas oeste. Primeira estrela que vejo no céu, vem morar no meu chapéu? Estrela piscou de longe, mas não desceu do céu...

Como era difícil alcançar um presente natural sem ter que gastar moedas do porquinho de barro... Mas, Victor não pensava em desistir.

[...]

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MAIS UMA HISTORIA DE XANGÔ E O QUIABO

Existe uma qualidade de Xangô, chamada Baru, que não pode comer quiabo. Ele era muito brigão. Só vivia em atrito com os outros. Ele é que era o valente. Quem resolvia tudo era ele. Xangô Baru era muito destemido, mas, quando ele comia quiabo, que ele gostava muito, lhe dava muita lombeira. Dormia o tempo todo! E pôr isso perdeu muitas contendas, pois quando ele acordava. Então, resolveu consultar um oluô, que lhe disse: - Se é assim, deixa de comer quiabo. - Eu deixar de comer o que eu mais gosto? – respondeu Xangô Baru.- Então, fique pôr sua conta. Não me incomode mais! Será que a gula vai vencê-lo? – perguntou o oluô. Xangô baru foi para casa e pensou:- Eu não vou me deixar vencer pela boca. Vou voltar lá e perguntar a ele o que faço, pois o quiabo é meu prato predileto.E saiu no caminho da casa do oluô, que já sabia que ele voltaria. Lá chegando, disse:- Aqui estou. Me diz o que eu vou comer no lugar do quiabo.- Aqui neste mocó tem o que você tem que comer. São estas folhas. Você temperando como quiabo, mata sua fome – lhe mostrou o oluô.- Folha?! – perguntou Xangô Baru.- Sim – respondeu o oluô – Tem duas qualidades, uma se chama oyó e a outra, sanã. São tão boas e gostosas quanto o quiabo. Xangô Baru foi para casa e preparou o refogado, e fez um angu de farinha e comeu. Gostou tanto, e se sentiu tão bem e tão fortalecido, e não teve mais aquele sono profundo. Aliás, ele se sentiu bem mais jovem e com mais força. E não ficou com a Lombeira que o quiabo lhe dava. Aí ele disse:- A partir de hoje, eu não como mais quiabo.Daí a sua quizila com o mesmo. É como eu disse no começo: “Todo caso é um caso. ”Esse caso me foi contado pelas minhas mais velhas; assim, agora quem quiser dar quiabo a Baru, que dê!

(Caroço de dendê: a sabedoria dos terreiros , p. 107).

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Lápis de cor

Luan é um menino muito antenado aos acontecimentos do nosso século. Ele joga bola, solta pipa, brinca de esconde-esconde. Adora fazer experimentos científicos, observar planetas, pessoas e bichos. Usa o celular mais para mandar mensagens, poemas, cartas e enigmas... e menos para bater papo.

No computador, Luan navega nos sites de jogos, brincadeiras e, claro, pesquisa sobre tudo que lhe dá na teia. Ele também fica de olho nas campanhas de preservação do meio ambiente. Ele é ainda menino, mas já está preocupado com a saúde do nosso Planeta.

Um dia, observando o corte de árvores em sua rua, Luan resolveu tomar uma providência. Pegou lápis de cor e de escrever. Pegou papel. Pegou apontador.

Começou a fazer um cartaz em defesa da natureza...

 

CORTAR ÁRVORES, NÃO!

PLANTAR ÁRVORE, SIM!

 

Luan desapontava o lápis verde. Coloria dezenas de folhas, na folha de papel branco. Copa de árvores levantadas. Cartaz a favor da natureza.

Enquanto coloria as folhas em tons de verde novo, verde escuro, verde claro, limão, bandeira, primavera, musgo e água, o menino parou e percebeu ter, ali, um grande problema: olhou pro papel, olhou pro lápis...

Quanto mais árvores ganhavam vida em seu cartaz, mais perdiam em lápis e papel.

A reserva: caixa de céus e sóis, de rosas, boninas, terra e breu, ia se minguando a cada árvore salva. [...]

 

(Lápis de cor)

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A PENA DO EKODIDÉ

Existia numa aldeia uma sociedade só de mulheres virgens. Essas mulheres eram compradas por homens de posse só para casar com reis e príncipes, e elas passavam por ensinamento das anciãs. Existia, nesta aldeia, uma mocinha muito pobre e feia. Seu pai vivia muito triste e, um dia, disse: - Eu sei que nunca vou achar um comprador para você, Por isso vou te levar eu mesmo para o ensinamento das anciãs. A menina ficou muito triste, chorou e foi deitar. Então, chegou uma mulher muito bonita à sua cama, com uma cuia tampada na mão, e disse: Olhe, amanhã é dia dos compradores virem. Eles vêm trazendo um príncipe para ele mesmo escolher uma mulher. Tem aqui ossum, waji, obi e ekodidé. Você come o obi e o resto passa no corpo. A pena de ekodidé você coloca na testa como enfeite. Fique na janela, porém não diga nada a seu pai, pois ele vai para a roça e não deve saber. A mulher entregou-lhe a cuia e a mocinha tornou a pegar no sono. De manhã, deixou o pai sair e fez tudo como a mulher mandou. Atou a pena na testa com uma iko, uma palha da costa. Neste momento, vinha passando uma caravana com o príncipe. Ele olhou para a janela e, vendo a mocinha, ficou encantado. -Que coisa linda! Será que é o que estou vendo? Chegou perto da janela: -Minha iyaô! Minha noiva! Todos ficaram boquiabertos e ajoelharam-se em frente à janela, admirados com tanta beleza e com a luz que emanava da bela donzela. O pai da menina veio chegando e o príncipe fez a oferta de casamento. Até o pai ficou admirado com tanta beleza. O casamento foi no outro dia e, quando ela foi dormir, sonhou que outra vez chegava junto à sua cama a mulher, que lhe dizia: - Olha, eu sou Oxum. Você é minha filha! – e sumiu. E a menina tornou-se princesa.

(Caroço de dendê: a sabedoria dos terreiros , p. 43)

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