Não vou mais lavar os pratos
 
Não vou mais lavar os pratos.
Nem vou limpar a poeira dos móveis.
Sinto muito. Comecei a ler. Abri outro dia um livro
e uma semana depois decidi.
Não levo mais o lixo para a lixeira. Nem arrumo
a bagunça das folhas que caem no quintal.
Sinto muito.
Depois de ler percebi
a estética dos pratos, a estética dos traços, a ética,
 
A estática.
Olho minhas mãos quando mudam a página
dos livros, mãos bem mais macias que antes
e sinto que posso começar a ser a todo instante.
Sinto.
 
Qualquer coisa.
Não vou mais lavar. Nem levar. Seus tapetes
para lavar a seco. Tenho os olhos rasos d’água.
Sinto muito. Agora que comecei a ler quero entender.
O porquê, por quê? e o porquê.
Existem coisas. Eu li, e li, e li. Eu até sorri.
E deixei o feijão queimar...
Olha que feijão sempre demora para ficar pronto.
Considere que os tempos são outros...
 
Ah,
esqueci de dizer. Não vou mais.
Resolvi ficar um tempo comigo.
Resolvi ler sobre o que se passa conosco.
Você nem me espere. Você nem me chame. Não vou.
De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi,
você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida,
passou do alfabeto.
 
Desalfabetizou.
Não vou mais lavar as coisas
e encobrir a verdadeira sujeira.
Nem limpar a poeira
e espalhar o pó daqui para lá e de lá pra cá.
Desinfetarei minhas mãos e não tocarei suas partes móveis.
Não tocarei no álcool.
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler.
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar
meu tênis do seu sapato,
minha gaveta das suas gravatas,
meu perfume do seu cheiro.
Minha tela da sua moldura.
Sendo assim, não lavo mais nada, e olho a sujeira
no fundo do copo.
Sempre chega o momento
de sacudir,
de investir,
de traduzir.
Não lavo mais pratos.
Li a assinatura da minha lei áurea
escrita em negro maiúsculo,
em letras tamanho 18, espaço duplo.
 
Aboli.
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata,
Cozinha de luxo,
e jóias de ouro. Legítimas.
Está decretada a lei áurea.
(Cadernos negros 23: poemas afro-brasileiros, 2000).
 
 
Sonho de Consumo
 
Se você me quiser vai ser com cabelo trançado
Resposta na ponta da língua
Teste de HIV na mão.
Se você me quiser desligue a televisão
Leia filosofia e decore o kama sutra. Muito bem!
Se me quiser esteja em casa
Retorne as ligações e traga flores.
Não venha com teoria sobre ereção
ou centímetros a mais.
Nem sempre vou querer sexo
Nem sempre vou dizer tudo
Ou acender a luz.
Posso usar ternos ou aventais. Qual a diferença?
As noites serão sempre intensas à luz de velas.
Se você realmente me quiser, ouse digerir a contradição.
Me ajude a ser uma mulher diante de um homem.
Quem disse que seria fácil?
(Cadernos negros 25, p. 50).
 
 
Rosas lilás
 
Saio de casa com a sensação de que, caso encontre uma flor pelo caminho, e mediante a beleza e a contundência de sua aparência, talvez eu não vá trabalhar e me deixe levar por uma outra atividade: a contemplação.
 
Chove, tornando a cidade um tanto melancólica e os horizontes meio embaçados. Qualquer um adivinharia um domingo, no entanto, o número correto é dois. O segundo dia da semana.
 
Passo por entre todo este chão molhado com uma certa delicadeza tentando preservar a boa aparência dos meus sapatos. Jamais confiei em alguém com os sapatos sujos. O guarda-chuva preto envelhecido precocemente por falta de bons tratos protege meus cabelos e a garganta de uma ocasional gripe.
 
Tento prestar atenção na música do dia, sim, porque caso estejamos atentos, é perfeitamente possível deixar tocar, dentro das nossas cabeças, a música do dia, aquela companheira do subconsciente que traz, como o interior de um biscoitinho da sorte chinês, uma mensagem com total livre arbítrio.
 
Nenhum sinal de qualquer flor, muito menos de uma rosa. A rádio subconsciente deve ter sido apanhada por alguma interferência consequente da chuva, e não toca absolutamente nada hoje. Um dia pálido, propício a desejos de encontros com rosas lilás.
 
Rumo ao trabalho. À procura de rosas que jamais apareceram numa segunda feira, sigo. Rosas dificilmente sobrevivem após o assédio de fim de semana dos cães e das crianças no térreo dos prédios da minha organizada vizinhança. Sigo. Com uma estranha forma de contemplar, com a firme convicção de olhar tudo à minha volta. Com uma conhecida esperança. Persistente. Sagrada.
 
Os sonhos permanecem embora eu não anote todos. Também as tempestades e as crianças famintas por toda parte. Alguns velhinhos continuam fugindo da loucura de suas famílias, frequentando asilos, e praticando diferentes tipos de evasão mental. Nesses asilos, os velhos continuam voltando a um passado, onde com certeza não existiam pitbulls. Onde crianças brincam de bem-me-quer e mal-me-quer. Onde as crianças brincam.
 
Ainda procuro a tal rosa. Ainda sonho com o instante sagrado em que brincarei de esconde-esconde. Escancararei meu medo e plantarei um jardim de rosas lilás no meu quintal, regadas com parcimônia. Sonharei bem alto. Abrirei a janela. Darei de cara com o sol. Abrirei a janela e darei de cara com a chuva. Abrirei a janela e darei de cara com a lua.
 
Aqui estou eu. Em meio à minha própria estrada. Contemplo a vida como uma possível história, que um dia contarei aos meus filhos, aos meus cães, à minha menopausa, e às minhas rugas. Rugas com desenhos de rosas lilás, de pétalas, de espinhos, de sapatos limpos, de fiapos de guarda-chuva velho, de manhãs de sol, de pingos de chuva, de banhos de lua, rugas de expressão de uma geração que ainda está a caminho e insistentemente em busca de algo, rugas da geração filtro solar.
(Cedido pela autora).
 
 
 
Memórias
 
Seria fácil para um menino de onze anos com boa memória lembrar com nitidez das cores daquela segunda­-feira? Eu lembrei. Em uma família com pai, mãe e nove filhos, cinco mulheres e quatro homens, eu era o mais novo dos rapazes. Meninos caçulas são sempre protegidos, ao mesmo tempo em que precisam manter o elo afetivo entre os irmãos depois que crescem.
 
Para o começo da história já temos o dia, uma segunda-feira com muito sol. O lugar é um daqueles guardados na cabeça em uma pasta de arquivos essenciais à própria existência. O cenário? O pátio de uma escola particular na zona nobre de uma grande cidade foi o escolhido.
 
A hora do intervalo é um acontecimento único em todas as escolas. A um toque do sinal sonoro, agudíssimo, começa a festa coletiva e a permuta dos lanches. Eu era o preferido da merenda porque tinha uma tia cujas mãos fabricavam a melhor comida do mundo. Seus biscoitos trançados passados no açúcar eram os meus prediletos.
 
Coincidentemente, Tia Olga sempre usava tranças corridas esculpidas em seus belíssimos cabelos crespos e dizia que as tranças eram a síntese da transformação da vida. Gostava de cozinhar porque, segundo ela, o sucesso consistia em saber misturar as coisas certas na proporção devida.
 
De volta ao cenário da sala de aula é chegada a hora do clímax da cena. Eu estava sentado na frente, o meu lugar preferido como um garoto com miopia usuário de óculos, quando a professora pediu a colaboração de um voluntário. Eu me ofereci, como o bom menino negro bolsista, filho da faxineira gorda e simpática, a quem todos chamavam carinhosamente de tia Edna.
 
Levantei animado, arrumei as calças do uniforme (feitas pela mamãe) e despenquei bem no meio da sala. Fugiu dos meus olhos instantaneamente a claridade habitual do mundo sempre branco daquela escola de meninos ricos onde eu só estava porque, em minha opinião, alma e inteligência vão além de qualquer cor.
Em um passe mágico, voltei a enxergar com nitidez e percebi estar em um outro ambiente composto por uma gelada cama de hospital, após um desmaio súbito decorrente de fraqueza por anemia. Nunca gostei de comer verduras e legumes. O fato é que esta foi a primeira vez em que "me deu um branco", experiência que beira a perda total da identidade, algo que, infelizmente, algumas pessoas sentem a vida inteira sem perceber.
 
Internado naquele hospital público onde as inúmeras páginas do sofrimento físico descortinaram-se pela primeira vez diante dos meus olhos, eu comecei a investigar. Como um menino de óculos assumido, sempre sonhei em ser detetive. Mesmo nas minhas mais incríveis fantasias, nunca descobri porque pela janela de alguns hospitais é possível enxergar meninos jogando futebol. Talvez Deus não goste de ver meninos doentes, e com essa paisagem envie a cura e a rápida recuperação. Talvez seja mesmo porque o Brasil é o país do futebol.
 
Ainda na cama fechei os olhos lentamente e senti o meu corpo levitar por um segundo. Ao abri-los, surgiu outro cenário, no lugar que àquela altura eu considerava o mais precioso do universo: o colo de meu pai. Seus braços negros, enormes, como que revestidos de aço, sempre envolveram o meu corpo com carinho. Ouvi ao longe a voz do simpático médico com cara de Papai Noel:
 
– O menino terá que ficar de repouso em casa.
 
A sentença trouxe uma imediata sensação de alívio. Para completar a alegria, meu pai conseguiu dispensa no trabalho para ficar comigo a tarde toda. Era mesmo um sonho. Poderíamos assistir juntos à sessão da tarde. A realidade não perdeu para a fantasia naquela segunda-feira com cara de domingo, dia em que pude desfrutar de um tempo a mais na companhia inenarrável do meu paizão.
 
Esta história tem um sentido especial e por isso resolvi separá-la. Do baú das minhas memórias, exatamente na ocasião em que acabei de chegar da maternidade com o meu herdeiro nos braços. Meu tão sonhado primeiro filho. Ele já está diante do mundo de olhos abertos. Respirando novidade, tenta entender a realidade com seus olhos negros e profundos. Quero ser para ele um espelho negro à altura dos seus sonhos mais coloridos.
 
Depois de algumas longas horas nesta madrugada inesquecível, coloquei o infante no berço e tombei em minha cama, móvel antigo que herdei da vovó. Ansioso, tentei acordar a minha esposa como o menino ansioso e inebriado pelas surpresas que sempre fui.
 
– Acorda, amor! (Ela continuou a dormir e esboçou um sorriso de sonho). Eu só queria dizer que aquela pérola negra sonhada desde o dia do nosso primeiro beijo está nos olhos do menino!
 
De fato a felicidade estava ali, traduzida na nossa realidade de lutasdiárias para enfrentar o medo e a inércia do mundo cheio de desafios lá fora, No seio das famílias negras, com lugar para inúmeros filhos do corpoou do coração, aprendemos a conviver com nossas misériase farturas, simplesmente porque sempre épossível colocar mais água no feijão, temperar e sorrir ou chorar e seguir em frente. Os nossos velhos não morrem na amnésia dos asilos luxuosos.
 
Estou aqui deitado na cama que foi da vovóLina imaginando a cena final deste capítuloda minha memória. A vovó sempre preservou suas memórias, sempresoube como terminar suas histórias com maestria. Ficoaqui a tentar tomar posse das minhas heranças.
 
Sigo a crer nos meus espelhos mágicos. Uma coisa é certa: a nossa ancestralidade continuará na memória dos nossos descendentes enquanto pudermos lembrar e levar adiante os seus princípios.
 
– Seja bem-vindo, Luther!
(Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção, 2011).
 
 
 
O último ensaio antes da estreia
 
Naquele dia, enxergou os seus abismos disfarçados sob as olheiras que deturpavam a visão da mulher bela que aquele rosto tinha refletido um dia. Estava tão desesperadamente só, que abriu todos os remédios de sua caixa de providências para qualquer mal-estar. Para ganhar tempo diante do desejo de morte, resolveu recitar as bulas de remédios em voz alta.
 
Ali, sentada no vaso sanitário, estava nua, enquanto aguardava os quarenta minutos para o efeito da tintura para cabelos cor vermelho sangue que comprou na drogaria da sua quadra. Com os pés descalços tentando evitar o chão gelado do banheiro, mas sem tanta flexibilidade para tentar outra posição de pernas, interpretava o texto farmacêutico à moda textocentrista: sem uso de expressões mais consistentes, nem muitos gestos, em tom declamatório.
 
As indicações foram recitadas como num drama moderno; os efeitos colaterais tiveram certo tom propício à tragédia grega, os nomes dos remédios foram ditos como pura comédia farsesca. Resolveu colocar no rosto uma máscara facial e um creme depilatório para o buço, para lembrar qualquer Colombina da Comédia Dell Arte e flertar com algum elfo ou fada, para ressuscitar os modelos clássicos gregos revisitados por Shakespeare.
 
O chão de pequenas pastilhas quadriculadas estava muito gelado, hostil, escorregadio. Nada convidativo. Tudo cheirava a monólogo, a água sanitária, a divagação cáustica. Nunca havia conseguido esperar os quarenta minutos da tintura. Dessa vez perdeu a noção do tempo.
 
Quando a polícia chegou, sua pele negra estava misturada ao sangue e à tintura de cabelo, enquanto o rosto exibia as manchas provocadas pela queimadura do creme depilatório exposto em suas mucosas por um tempo demasiado longo. Parecia ter mesmo escolhido os moldes da tragédia grega, embora desconhecesse que não era uma personagem em potencial.
 
Não era nobre, nem heroína, não tivera o seu destino traçado pelos deuses, sua história não tinha traços de hamartia, não cometera nenhum erro trágico. Pelo contrário, era uma mulher comum, vivendo um drama urbano, ignorava que as cenas de terror e violência, nas verdadeiras tragédias, não poderiam jamais ser apresentadas à vista do público. Mas teve o seu fim trágico.
 
Aquela moça, desconhecida no bairro, ocupou todas as manchetes dos jornais do dia seguinte. Virou notícia. Quem era ela? Por que o suicídio? O seu enterro foi a sua estreia. Numa existência feita de ensaios e nenhuma cena digna de divulgação.
(Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção, 2011).
 
 
 
Espelhos Negros
 
Diante do colapso enfrentado pelo país em decorrência da crise de imagem, o Presidente decidiu anunciar um decreto. Em atitude emergencial, entrou em rede nacional para pronunciar um discurso oficial com a divulgação de uma nova lei: A partir daquela data, o uso de espelhos ou outros aparelhos e objetos com propriedades reflexivas estava permanentemente proibido.
 
Toda crise traduz um momento de ruptura anunciado. Essa crise atingiu imediatamente a reputação, ponto nevrálgico daquele país emergente com profundas cicatrizes mal curadas de um passado escravocrata e colonial.
 
Esta nação de terceiro mundo vivia urna crise diante do avassalador sistema capitalista de consumo desenfreado. A obsessão pela "boa" aparência e a extrema vaidade atingiu as raias da loucura na maior parte da população. As empresas informaram prejuízos decorrentes dos constantes atrasos dos funcionários, preocupados com sua apresentação pessoal; dos frequentes atestados médicos destinados à recuperação após a realização de cirurgias plásticas e outros procedimentos estéticos; a polícia estava enfrentando uma crise nunca antes vista, em virtude da dificuldade de identificação dos prisioneiros, a ludibriar o sistema com a exibição de novos rostos, e até mesmo de novos sexos. Todos queriam ser como os artistas, viver como eles, enfim, criar paraísos na terra, ilhas de salvação, encontros perfeitos, enquanto a desigualdade e a fome estavam a crescer em torno das cidades "grandes".
 
Até mesmo as crianças já não brincavam como antes, preocupadas com a aparência, exigiam procedimentos estéticos dos mais diversos e alguns pais chegavam até a comprar lentes de contato para os bebês, loirinhos, lamentavelmente sem olhos azuis, alegando uma correção genética; as pessoas passavam horas a cuidar da aparência enquanto a violência e o uso de drogas cresciam assustadoramente; ninguém queria investir nas ciências, na assistência social, todos queriam estar impecáveis diante de um mundo mágico criado pela televisão. O realismo fantástico televisivo estava mesmo engolindo o mundo real.
 
A notícia atingiu a população como um raio. O decreto do Presidente foi recebido com revolta e desespero: as pessoas estavam cometendo o suicídio em massa nas praças, nas escolas. As clínicas de estética estavam sendo fechadas, assim como os salões de cabeleireiros - nas ruas o trânsito estava caótico, sem direção.
 
As pessoas vagavam em busca de um miradouro, de um ponto turístico onde pudessem enxergar a si mesmas. Infelizmente, as fontes de água estavam escassas, não havia um lago, um córrego, um fiapo de rio onde pudessem mirar­se. As cidades beiravam o caos, com pessoas perdidas, enlouquecidas, à deriva dos afetos.
 
Moisés era um repórter investigativo incansável na busca pela notícia. Também estava devastado pelo decreto. Em seus 43 anos, tinha o orgulho de ter se reinventado, pois construíra, junto ao seu meio referencial, a crença de que nascera feio.
 
Não estava muito à vontade com a sua identidade negra, nem com o seu cabelo crespo, que detestava. Acreditava não ter muitos atributos físicos especiais e investira muito tempo e dinheiro para tornar-se um homem melhor, diante da inevitável evolução: branco, ou quase isso, devido ao tom de pele que conseguira com o auxílio da cosmética, magro, alto, lindo, um exemplo a ser seguido, já que apresentava semanalmente um programa televisivo. E agora não poderia contemplar a sua própria imagem?
 
Resolveu investigar a fundo. Logo descobriu que o sistema não estava de brincadeira. Várias pessoas estavam desaparecendo misteriosamente após terem sido flagradas portando espelhos. Alguns clubes de senhoras foram bombardeados após a denúncia anônima de que esses locais praticavam cultos de imagem fechados a sete chaves.
 
Pessoas estavam sendo torturadas após a denúncia de práticas de tráfico de espelhos. Nas ruas da cidade, nos becos, você poderia pagar uma fortuna para que alguém lhe permitisse olhar, ainda que de relance, a sua imagem no espelho. Moisés estava desnorteado, sem saber a quem procurar, quando foi apresentado a um jovem engenheiro de vinte e cinco anos, "nerd", artista plástico. Foram apresentados durante um coquetel badalado e Moisés ficou sabendo por fontes seguras que o rapaz era "hacker", e que tinha informações a revelar. Marcaram um encontro para o dia seguinte. Num café, no centro da capital. Moisés não queria rodeios:
 
– Fiquei sabendo que você sabe mais do que a maioria, tenho interesse, pago pelas informações e prometo sigilo.
 
O jovem sorriu, um riso largo que escorria pela boca e inundava o corpo inteiro. Um sorriso de satisfação.
 
– Vocês jornalistas são mesmo insensíveis. Não vai me oferecer um café? Conversar sobre amenidades? Sempre engolidos pelo tempo... Sei que foram moldados durante a faculdade a manifestar-se de forma clara, direta e objetiva, mas uma boa oratória é parte das relações humanas... Nesse momento não tenho o menor interesse em colaborar com você, digamos que nós, os humanos, somos movidos pelas sensações...
 
Moisés ficou irritado. Era mesmo o que faltava. Um filósofo, existencialista...
 
– Como é mesmo o seu nome? Pedro? Desculpe, mas estou muito aflito, há dias não me enxergo diante de um espelho, estou meio abalado, confuso... Mas você parece estar tranqüilo?
 
Pedro está a fazer palavras cruzadas. Totalmente concentrado.
 
Meu caro, nem todos têm as mesmas preocupações... Moisés quer voltar ao assunto, está impaciente.
 
– Preciso de informações sobre um movimento rebelde, ouvi dizer que eles ainda têm espelhos, sei que você conhece o assunto. Eu pago bem.
 
Pedro interrompe a jogada. Olha Moisés com atenção.
 
– Você é um cara decifrável em poucas letras. Já vi muitos assim. Guarda as palavras cruzadas. Podemos partir hoje ainda.
 
– Esse lugar existe mesmo? É seguro?
 
Pedro ri.
 
– A viagem é longa.
 
Os dois tomam um farto café da manhã. Saem juntos.
 
Para chegar à cidade esperada, sete dias são necessários. Nos dois primeiros, Pedro não disse palavra alguma. No terceiro dia também não. No quarto, percebendo que Moisés estava muito só, resolveu falar:
 
– O funcionamento dos espelhos sempre me intrigou.
 
Quando soube da existência desse grupo, logo quis mudar de vida, aderir ao movimento. Estava sentindo falta de pertencer a algum lugar.
 
Moisés está impaciente:
 
– Mas como eles conseguem ter espelhos lá?
 
Mais um dia de viagem sem palavras. Moisés nunca vivera em meio ao seu silêncio. Foi necessário esperar um dia para obter a resposta desejada.
 
– Não estão preocupados com as tradições. Já ouviu falar em espelhos negros?
 
Moisés esboça certo nervosismo.
 
– Não fico muito à vontade com a palavra "negro". Acho uma palavra muito pesada, carregada. Gosto mais das cores claras, trazem mais leveza.
 
Pedro está pensativo, os dois continuam a caminhar por uma estrada deserta, já é noite, venta muito. No dia seguinte, Pedro comenta, em tom reflexivo:
 
– Um espelho negro reflete tanto quanto os outros, mas vai além, pois a imagem que ele forma é diferente, a superfície negra cria diferentes perspectivas, valoriza outros aspectos.
 
Moisés fica indignado:
 
– Você quer que eu enxergue alguma coisa diante de um espelho negro? Isso é coisa de maluco, de artistas, de viciados, de gente que não tem o que fazer! Espelhos negros! E eu perdendo o meu tempo acreditando que iria fazer a reportagem da minha vida! Isso é uma igreja, ou sei lá o quê!
 
Pedro continua com o seu sorriso dialético.
 
– E você? Um negro que não assume a própria identidade, que procura um espelho para reafirmar o branqueamento que comprou com o auxílio da indústria cosmética porque não é capaz de olhar, de enxergar a si mesmo diante da dialética da percepção? Realmente somos artistas, e muitas vezes aproveitamos o nosso tempo para não ter o que fazer, não vivemos em função do que temos, e sim do que somos. Sim, estamos diante dos nossos espelhos negros, olhando para nós mesmos, enxergando as nossas memórias, a nossa ancestralidade, sem medo da nossa escuridão.
 
É o sétimo dia da viagem. Moisés está exausto, tenta sentar e desaba. Chora intenso, com lágrimas que se propõe a desfazer máscaras, a limpar a alma cansada. Vive o seu mistério profundo. Renasce durante um tempo sem fim. Quando volta a si, percebe que já estão às portas da cidade. Há um portal onde se lê "Seja bem-vindo a Miradouro".
 
Pedro convida:
 
– Se você se enxergar diante de um espelho negro, aprenderá a conviver com as suas sombras, com as suas luzes, alterando a sua percepção. Isso influenciará decisivamente a sua existência. Vamos, Moisés, não olhe para trás, senão vai virar uma estátua de sal!
 
Moisés, trêmulo de medo, levanta, com certa dificuldade, amparado por Pedro. É quase noite. O fim do dia mostra um intenso tom de vermelho, acolhedor. Ao longe é possível ouvir sons de festa na cidade dos vivos. Os dois chegam a Miradouro, um ponto de onde se desfruta um largo panorama, aberto às dialéticas da percepção. Pelo menos por enquanto, estava completa a jornada dos espelhos.
(Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção, 2011).
 
 

Cena da madrugada
 
Madrugada. Casais forasteiros
passeiam e em seus braços há
negros bebês retintos. Que choram.
Crianças atônitas ouvem
texto sem mensagem (exportação de negrinhos)
 
Madrugada. Gigantescas baratas
passeiam e, em seus dentes há
alimentos de outros filhos. Que fogem.
Saem do quarto, procuram seus pais.
 
Madrugada. E portanto gordos morcegos
(aladas codornas) sobrevoam por alimento.
Brilham famintos seus olhos e esperam.
E vigiam.
 
Longa madrugada: há negro doberman
à espreita de nossos filhos. Seus e meus filhos.
 
Há muito do que fugir: da rede, do inseto,
do vampiro e do cão. Cabeças explodem
em mil e o sangue,
 
o sangue se espalha pela cama.
Ainda é madrugada
(Seminovos em bom estado, 2003, p. 37).

Cena sertaneja
 
Serpentes negras foscas invadem
ameaçando o sertão
incompreensíveis na paisagem
avançam canaviais adentro
rebolando sinuosas no ventre
miserável. A fome
se instala às margens de
mãos e rostos enegrecidos
 
Sol, fuligem e muita dor
sugam canas impróprias
não mais caules em fruto
apenas seca matéria-prima
rostos e mãos carregam armas
afiadas (para o trabalho) e cegas
(na parelha com a justiça)
 
A serpente asfáltica
plana e lisa ressalta na paisagem
(estrada do coronel
asfalto do coronel)
fazendas canaviais usina.
Por enquanto a Miséria estende o braço
e implora por mais um dia
((re)confesso poesia, 2009, p. 78).

Cena rodoviária
 
No ônibus
a moça branca faceira
flerta
o moço preto bonito
 
Trocam bancos se avizinham
se dão mãos braços bocas
se bolinam publicamente
contam moedas dos bolsos
- poucas para o motel
 
Súbito
ela se pinta
se penteia
se afasta
O ônibus alcança
a última ponte
a última parte
 
O moço preto bonito
guarda moedas no bolso
guarda mãos no bolso
guarda os beiços no bolso
 
Vê a faceira donzela sair
se afastar célere
maquiada
sem olhar para trás
 
O moço preto bonito
suspira
aprende e
aprende
(Seminovos em bom estado, 2003, p. 36).

Da gata
 
Era uma vez a gata.
Prenha gata.
Sozinha no fim-de-semana
deu à luz quatro gatinhos.
Sem trauma, sem parteira, sem curativo.
 
Agora cinco gatos vagueiam pelo palácio
Saudáveis. Negros. Independentes como nunca fui.
(Biombo, 1989, p. 13).