Bibiana e Eleonora andavam pela praia a procura de chapéus de palha, Bernardo se encontrava sentado num veleiro, Eleonora foi apresentada, e recusou a apertar a mão de Bernardo, deixando Bibiana decepcionada, Bernardo se afastou mas antes informou que dona Catilê confeccionava chapéus lindíssimos. Bibiana falava com Eleonora: - Não devia ter feito isso, ele é inteligente, sensível, seu gesto foi muito desagradável.

Eleonora respondeu: - Sou uma mulher de fino trato, não iria apertar a mão desse negro que só tem água salgada na cabeça, tenho nojo dos negros.

Uma bofetada forte fez Eleonora soltar um grito de dor. Bibiana lhe falava em voz alta:

– Respeite essa raça, eles vão achar a solução para salvar o mundo.

– Esse gesto é por amor a raça negra, ou é apenas histerismo? – Perguntou Eleonora zombateiramente.

– Entenda como quiser, queria ter por um dia a força da mente desse povo que você tanto desvaloriza.

Respondeu Bibiana sem demonstrar o sorriso que sempre tinha nos lábios.

– Por que ficou tão ofendida? Por acaso é protetora dessa gente?

– Seria muita sorte ter o poder de proteger esse povo, gostaria de ser filha do primeiro casal de IGNUM: - Disse Bibiana olhando para “A Filha Doce”.

– Que diabos é IGNUM? – Perguntou Eleonora sorrindo.

– É melhor nada responder, seu materialismo me impede.

(A mulher de Aleduma, p. 56.)

Texto para download

Trechos de A mulher de Aleduma

Em certo continente da Terra, há milênios atrás, proveniente do espaço longínquo surgiu um negro de aparência divina, com uma missão de iniciar a proliferação de uma raça que futuramente viria a se tornar, na história desse continente, um componente de relevante importância. Era Aleduma, um Deus Negro, de inteligência superior, vindo do planeta IGNUM, governado pela Deusa Salópia. Seu porte altivo, pele reluzente, ligeiramente corcunda, com pés voltados para trás, barba trançada, caída até o chão, dava-lhe um aspecto singular. Veio para a escolha do local onde se desenvolveria raça negra. Em IGNUM era dia de festa em honra à Deusa Salópia. As mulheres usavam bonitos penteados e seguravam fortemente suas tranças de tiumja. Estavam preparadas para montar no IZIBUM, animal feroz que bufava e enfrentava-as com seus grandes cornos. A vencedora terá como prêmio uma viagem ao planeta Terra e, juntamente com um parceiro de que já fôra vencedor em uma competição anterior, viajará para povoar a região escolhida pelo Velho Aleduma.

Aleduma acompanhava telepaticamente o desenrolar dos acontecimentos em IGNUM e, se preparava para o encontro com o casal, já a caminho da Terra.

O velho Aleduma encontrava-se em uma floresta densa, de árvores verdejantes e animais ferozes, que curiosamente foram se tornando mansos e amigos daquele ser desconhecido. Era como se o ambiente sofresse modificações para brindar aquele encontro que, a qualquer momento, ocorreria alí, entre as árvores. O Deus Negro estende as mãos e num gesto místico mostra ao casal recém-chegado a região a ser povoada, dizendo: - “ Eis o vosso novo lar, dai-lhes frutos, e cuidai bem do vosso solo”.

O casal extasiado percorria com os olhos todos os cantos. Estavam nus e mostravam os seus órgãos genitais que curiosamente tinham formas bem diferentes. O pênis trazia, em toda a extensão, uma película que lembrava uma barbatana de peixe, e desembocava na região do ânus. A vagina possuía uma adaptação em um dos lábios que se acoplava àquela película do pênis, formando verdadeiras peças correspondentes durante o ato sexual. A prole aumentava cada vez mais e aquele região da Terra ia sendo povoada conforme o estabelecido por IGNUM.

Algumas modificações genéticas ocorreram nesses descendentes talvez motivadas pela ação do ambiente no casal procriador. Já se percebia que os pés não eram totalmente voltados para trás como acontecia com seus progenitores, assumindo uma posição lateral que determinava nesses indivíduos uma postura acentuadamente curvada para frente.

Os negros de IGNUM não possuíam células nervosas típicas, mas uma bolsa localizada no cérebro cheia de cargas elétricas, que regulavam todas as sensações do corpo, dando-lhes um potencial de inteligência muito elevado.

A população originada aqui na Terra, já trazia neurônios típicos e crendice de inteligência, embora sendo mais reduzido do que seus originadores.

O Velho Aleduma via com satisfação o cumprimento da sua missão. A raça negra estava implantada na região escolhida. Milhares e milhares de anos se passaram, e o Deus Negro observava as transformações genéticas que operavam em seus descendentes. Todos agora tinham os pés voltados para a frente, o corpo erecto e o caminhar possante, apesar do grau de inteligência ser bem menor que o seu.

Só ele continuava íntegro geneticamente.

IGNUM, planeta de mar, dos mais belos e majestosos, e exerce uma total influência nos mares terrenos. A bravura da maré aqui na Terra, é coordenada pela atividade do mar de IGNUM, o grande mar, o rei dos mares, o começo e o fim de todos os mares do universo. Quando a maré torna vazante na Terra, é porque o mar de IGNUM se encontra calmo como a brancura de uma pomba que serenamente voa nos céus.

Velho Aleduma sente um chamado de Salópia e se prepara para a partida. Dirige-se para seu povo e com voz mansa lhe diz: “Devo partir, mas não temeis, serão superiores aos sofrimentos que virão...”

IGNUM é todo festa para receber o Velho Aleduma que, sorridente e reverentemente, se dirigia até a Deusa Salópia que estende sua mão direita, toca na sua testa e observa: - “O seu regresso nos alimenta energicamente, somos todos fluídos benéficos...”.

A tempestade caiu sobre os negros da Terra, aquele sofrimento previsto pelo Velho Aleduma estava presente, a escravidão tomou conta daquela gente, o canto alegre do ibedejum emudeceu, e toda a história do continente estremeceu.

Agora o vazio se abateu sobre seus sítios, seus filhos estavam espalhados por todos os cantos da Terra, pisoteados pelo egoísmo branco, acorrentados pelo desejo branco do senhor feudal, tudo consoante as previsões de Aleduma. O Preto Velho, chefe tribal invocava a ajuda de IGNUM: - “Oh Velho Aleduma, volte e salve-nos”.

(A mulher de Aleduma, p. 7-10.)

Texto para download

APARTHEID

Tempo presente gera
negros gera
brancos
e a convivência
com a vida
mistura sono com
luta
os seres fazem a divisão
diferença geográfica
mudam a língua
cultuam a racionalidade
da máquina
repartem a nossa cultura
esquecem nossos líderes
símbolos mortos

nascem negros
formam trincheiras
crescem em sonhos
trocando lágrimas
aventuras guerreiras
loucos que perguntam
o significado das palavras
“é inútil resistir”

 (Eu, mulher negra, resisto, p. 26.)

 

Texto para download