A mulher mais bela

                               Wesley Correia

Fragmentos dispersos do puro espírito
são filtrados na clareira vista da janela,
na qual contempla a mulher mais bela.

Ali, nada retrai ou precipita,
nem o amor em primeiro plano,
que não conforma nem agita,
nem a sentida ilusão ao fundo,
que não cala nem grita.

Paralisada, a estranha narrativa
nos inaugura um fluxo,
nos obriga à festa.
As cenas banais,
aí, também, excepcionais,
conhecem a raiz de cada desejo.

Do peito intumescido,
do couro, da luz e da mística,
de tudo isso, nós sabemos,
e nada é bom ou mau em si,
mas da mulher mais bela,
dela, só quem sabe é Juraci.

     (In: Laboratório de incertezas, p. 64)

 

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Abdias Nascimento

Autobiografia

EITO que ressoa no meu sangue
     sangue de meu bisavô pinga de tua foice
     foice de tua violação
     ainda corta o grito de minha avó

LEITO de sangue negro
     emudecido no espanto
     clamor de tragédia não esquecida
     crime não punido nem perdoado
     queimam minhas entranhas

PEITO pesado ao peso da madrugada de
                                          chumbo
     orvalho de fel amargo
     orvalhando os passos de minha mãe
     na oferta compulsória do seu peito

PLEITO perdido
      nos desvãos de um mundo estrangeiro
      libra... escudo... dólar... mil-réis
      Franca adormecida às serenatas de meu pai.
      sob cujo céu minha esperança teceu
      minha adolescência feneceu
      e minha revolta cresceu

CONCEITO amadurecido e assumido
      emancipado coração ao vento
      não é o mesmo crescer lento
      que ascende das raízes
      ao fruto violento

PRECONCEITO esmagado no feito
      destruído no conceito
      eito ardente desfeito
      ao leite do amor perfeito
      sem pleito
      eleito ao peito
      da teimosa esperança
      em que me deito
     
                             Búfalo, 25 de janeiro de 1979

            (In: Axés do sangue e da esperança, p. 25-6)

 

Abdias Nascimento

Mãe

(Em memória de minha mãe Josina
Georgina Ferreira do Nascimento)

Quero navegar Franca tuas Campinas
onde ao roçar teu capim mimoso
as siriemas de alongadas pernas
me devolvem aos ouvidos
cansados de tanto ouvir
o eco do seu canto metálico
martelando espasmódico teus
horizontes de fugitivas miragens

Navego teus cafezais
(outros navegaram canaviais)
à fresca lima transparente
refresco a febre ressecante
da minha ânsia adolescente

Não navego ainda
(conforme deveria)
as águas primordiais de Olokum
pois
temerário navegador das águas secas
remando vou a terra roxa
da qual o joão-de-barro
incessante
constrói sua morada

Nado braçadas de léguas
léguas dos teus cafezais
que infinitam em verde
este escuro olhar
gerado ao tempero cheiroso do marmelo
ao caldo suculento do mocotó
à pasta fervente da goiaba
escarificando nos
reluzentes braços de minha mãe
buquês de queimaduras e cicatrizes

Navego o sangue de tua terra
arroxeada ao sangue pisado
no plantio das árvores
na colheita rubro-negra do
"melhor café do mundo"

Mergulhador do sangue nasci
de nascença sei que pouco importa
ao sangue a
peripécia sofrida
quando o próprio sangue
o teu mãe
nos ensina ao coração
que desfalece e renasce
de tua bondade humana
de teu amor valente
jamais enfraquecido
na queixa ou na lágrima

Navego teu leite
perfume da flor de laranjeira
mergulho teu seio materno
que me devolve à boca
o leite primal de Isis
irmãe
amantesposa
Isis que me pariu
em seus negros seios
leite negro me nutriu

Navegador do sangue
navegador do leite
sei dos que vieram
e se foram antes de mim
pois no sangue deles flutuo

Navego a santificação
do seu martírio de escravos
celebro seus quilombos levantados
suas Áfricas
enfurecidas em minhas veias
plenas de eguns antepassados

Navegador de auroras e desastres
um sabiá canta no meu sangue
esta gota rubra trazida pela manhã
ao gotejar dos meus crispados olhos

O bisturi da madrugada
revolve as feridas enquanto
o sonho mal sonhado
intensifica a pulsação dorida
deste navegar de morte e vida
protoplasma do meu leite
                  do meu sangue
viagem sem volta
                  só de ida

Piloto das tempestades
com Efrain e Gerardo
navego o absurdo
as piranhas da peripécia
neste navegar aos pegos e pagos
a caminho em Villaguay descerei
no sorriso angélico
del hombre verde
uma ardente orquídea plantarei
em Ipueiras um presente
do africano Apolo
(disfarçado em grego)
entregarei
bacamarte chapéu de couro
alpercata de rastreador ao
poeta do rastro dos Mourões
tripulantes da irmandade
Raul Bó Godo Napoleão
no rastro da liberdade
desde o prata ao solimões
navegamos a maldição
deste navegar de solidões

Mergulho a doçura da mãe
adoçada no amargo doce
ígneo algoz queimador da
beleza dos teus braços

Braços vigorosos nos quais
navego teus abraços
nesses braços que são teus
traço a ternura dos lábios meus
à flor borbulhante do sangue
que chamusca tua pele escura
no tacho da tua existência
tão curta de alegria
tão sofrida de vivência
raiz fincada na terra
ao infinito de tua compaixão
unicamente partilhada
à graça pura da doação

Navego os que virão
e nem semente ainda são
no espelho refletida
esta rubra gota tua
me vejo e me reconheço
membro da raça daqueles
esculpidos de rochas e troncos
de cujo vinho junto a
Ogum nos embebedaremos e
à direita e à esquerda
à frente e atrás
deceparemos cabeças
neste atlântico sanguinolento
aos gemidos do sangue maldito
navegaremos
do mar de orelhas cortadas
ao mar do sangue vindicado
navegando nossas armas da liberdade

Navego o pus e o luto
que rutilam a gota do teu sangue
profanado
jorrando em mim
séculos de gritos
milénios de ritos 

Esta terra roxa
terra francana
principio da navegação
não te enterrou
mãe
não foi tua amarração
esta terra se alimentou
                  do teu suor
                  dos teus ossos
                  da tua carne
golpeada pela necessidade
mas
a verdade de ti mesma escapou
da cova aberta neste chão 

Soluçando meu pranto
navego minha alegria
na gota infinita da tua presença
nutrindo os bagos vermelhos da romã
infundindo delicadeza ao ramo da avenca
afinando o gorgeio dos pássaros

Navego tua gota em mim
espessa gota nos
bagos do meu pai José
não o carpinteiro
mas o sapateiro
José Ferreira do Nascimento
em tua gota navegante
nos bagos de José
vieram o Benedito e o Rubens
também chamado coronel Café
o José Filho alcunhado Dedé
depois o Oliveira metalúrgico
António o doador de coragem e alegria
iluminado dos Orixás 

e da materna valentia
perdido vim eu
o navegador sem bússola
da mesma gota tua
fertilizante dos óvulos
da maninha Ismênia
frágil mãe adolescendo
nos doces olhos contritos
protegendo a criança
fundida a seu corpo
num corpo único
sem costura nem conflito
lentamente submergindo
a juventude dos seus gritos
no inocente silêncio
da correnteza dos aflitos

Gotejando vermelha gota
arroxeando a terra dos espaços
arrochando os espaços do tempo
do Egito antigo a Oshogbo a Franca
tua é a gota miraculosa
a gotejar as águas prístinas
dos mares e oceanos de Olokum
nestas águas escuras
todos nós
à proteção dos girassóis de Xangô
os que vieram ontem
os de hoje
os que virão amanhã
enia dudu de sangue imperecível
nadaremos nosso mar de sangue
mergulharemos nosso oceano de leite
varando os cabos de tormentas
náufragos do sonho
bêbedos da esperança
bebedores do sangue e
das águas da
liberdade
na fonte do
teu ventre
                          mãe

                                     Búfalo, 1977

(In: Axés do sangue e da esperança, p. 16-23)

 

Abdias Nascimento

 

Contraponto de um negro e
um paternalista branco

(Para Ironides Rodrigues, esteta da Negritude)

Irmão negro meu irmão
   não amargue tua boca em vão
   evoque a memória do senhor bom
   reza ladainha procissão

– A lembrança esta indelével
   na roleta da opção
   risquei ponto laroiê
   ave o Exu da libertação 

Irmão negro meu irmão
   esqueceu nossa bonita relação
   contada até no folclore de
   mamãe preta e pai João? 

– Está tudo registrado
   com cuidado e devoção
   tambor do sangue martirizado
   batendo toque de rebelião 

Irmão negro meu irmão
   por que morder no ódio
   a hóstia do perdão
   perder a ressurreição? 

– Ressuscitarei gritando não
   ao cristo da consolação
   do meu caminho quero a paixão
   do humano amor expresso em ação

                    Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1980

         (In: Axés do sangue e da esperança, p. 56-7)

 

Abdias Nascimento

O sangue e a esperança

Corre corre o sangue nas veias
Rola rola o grão das areias
Só não corre só não rola a esperança
Do negro órfão que só corre e cansa

Cansa do eito corre das correntes
Corre e cansa do bote das serpentes
Só não corre só não cansa de amar
O amor da Mãe-África no além-mar

Além-mar das águas e da alegria
Mar-além do axé nativo que procria
Aqui é o mar-aquém do desamor frio
Aquém-mar do ódio do destino sombrio

Sombrio corre o sangue derramado
No mar-aquém de tanta luta devotado
Mas o sangue continua rubro a ferver
Inspirado nos Orixá que nos faz crescer
 
Crescer na esperança do aquém e do além
Do continente e da pele de alguém
Lutar é crescer no além e no aquém
Afirmando a liberdade da raça amém

               Rio de Janeiro, 14 de março de 1982

     (In: Axés do sangue e da esperança, p. 83)