Mise-En-Scène
 
Fechem as janelas!
Abram o coração!
E que esse trovão se espalhe
Pela palma de qualquer mão!
 
Refestelem-se!
Ontem resolvi rir...
Ri ao rubro raio!
Ri até me partir!
 
Claro que ninguém me fez eco!
Ninguém uma alegria verteu ...
Jamais saberão quão simples é entender-me...
Jamais saberão quão simples sou eu ...
 
Sou artista de plateia alguma!
Meu texto é recital de pavores!
Declamo lágrimas...
Enceno beijos sem sabores...
 
Este tablado é meu!
Dele sou seu pó...
Pólipo que sou deste teatro
Que é a vida!
Vivo a interpretar no escuro...
Só!...
 
Eu, mais que ninguém,
Sou o ator da melancolia...
Finjo carência, careço de harmonia!
Harmônica sinfonia em dó menor!
 
Eu, mais que ninguém,
Nos holofotes banho o corpo...
E afogo a alma no breu, calado...
Pois de minha dor escura eu sei de cor!
(O Baile dos Versos, p. 48).
Negra mente
 
Nego, grato, que sou negro ingrato
Amo-me por negro ser à luz do dia
Grito nagô gravado na garganta
Gratificantemente negro sem agonia
 
X.X.X
 
Sem culpas, nem grutas, negrume ao sol
Nem grades, nem grotesco
Negros textos sejam lidos no arrebol
 
X.X.X
 
Negras, negros, sejamos qual os gregos
Agreguemo-nos, guerreiros, em massa
Castro Alves nos espera na praça
Negrifique-se e faça-se grande
Nasça nessa nossa cor, pois ela é raça.
(Cadernos negros 21, p. 22).

Do ponto de vista militar temos de ver que — na maioria das vezes — a luta dos escravos no Brasil não foi um simples espocar inconsequente de u'a malta descontrolada de desordeiros que investia contra tudo e todos a fim de satisfazer instintos baixos ou intenções inconfessáveis. Tinham esses escravos um objetivo, que era precisamente derrotar militarmente seus senhores; para isso estabeleciam planos de ataques, muitas vezes demonstrativos de alguma perícia, e que somente por fatores que os escravos não controlavam deixaram de surtir efeitos mais sérios. De fato: alguns dos povos africanos que vieram para o Brasil – principalmente Bahia- eram grandes guerreiros na África e para aqui trouxeram sua experiência militar, aplicando-a em função da libertação dos seus irmãos de infortúnio. Isso talvez explique por que os nagôs e aussás foram líderes incontestáveis das lutas dos escravos na Capital baiana: eram povos já experimentados militarmente no Continente Negro, principalmente os últimos. Até em Palmares, movimento onde predominou o elemento banto, encontramos um mouro de capacidade militar superior aos demais, construindo o sistema de defesa palmarino e industriando os ex escravos na arte da guerra.

Suas armas eram de duas espécies: usavam as que já conheciam os povos africanos e também armas de fogo. No Quilombo dos Palmares além das armas típicas dos africanos – arcos, flechas, lanças, etc., os escravos da República negra alagoana já manejavam com pericia as de fogo. Nas diversas investidas contra o reduto dos ex escravos as armas de fogo dos negros imporão derrotas aos colonizadores que desejavam esmagá-los.

No início exercerão uma atividade predatória muito grande nas vizinhanças, a fim de conseguirem víveres, armas e munições. Não tinham ainda uma estrutura econômica estratificada, eram seminômades.

Com o crescimento do número de escravos e o consequente surgimento da agricultura, a técnica militar desses ex escravos sofrerá uma evolução, como veremos. A agricultura ali praticada e a consequente formação de relações escravistas dentro da própria República palmarina, a sedentariedade a que se viam obrigados, tudo isso os levou à formação de um exército regular que garantisse a defesa do território da República. Daí o aparecimento de uma espécie de casta militar entre os palmarinos. A guerra de movimento, sustentada por inúmeros outros quilombos, não pode ser continuada em Palmares. As guerrilhas foram transformadas em operações de envergadura que, depois de realizadas, tinham um local fixo de regresso, local que era conhecido pelo inimigo. O nomadismo inicial dos ex escravos do quilombo foi substituído pelo sedentarismo e, à medida que as atividades agrícolas se desenvolviam, iam transformando a técnica e tática militares que eles aplicavam. A flexibilidade inicial que existia na força palmarina, foi sendo substituída pelo peso numérico. Seu exército deverá ter crescido muito, embora não possamos avaliar até que número. O certo é que, ocupando uma superfície de cerca de 27.000 quilômetros quadrados, tinham de manter uma tropa considerável que os garantisse. Essa população – da qual participavam inúmeras crianças, mulheres e velhos, não podia sustentar-se de simples produtos de aventuras venatórias ou de assaltos eventuais. O desenvolvimento da agricultura palmarina marcou o início de sua transformação militar. Assim, parece-nos, adestravam-se constantemente para a guerra. Tinham o quartel-general localizado no mocambo de Subupira onde ficavam certamente instalados os principais chefes militares, Palmares passou, assim, a uma tática meramente defensiva. Ao invés dos ataques iniciais aos colonos, modificaram suas relações com eles: cobravam uma espécie de tributo quando não mantinham comércio mais ou menos pacífico "dando-lhes (os colonos) armas, pólvora e balas, roupas, fazendas da Europa e regalos de Portugal, pelo ouro prata e dinheiro que traziam dos que roubavam, e alguns víveres", (Rocha Pita).

Ainda em 1678, quando o Rei Ganga-Zumba aceitou a paz com os senhores de escravos — razão pela qual foi morto pelo seu povo e substituído pela casta militar na pessoa do Zumbi, o mais capaz e valente dentre todos — os palmarinos tinham algum poder ofensivo. Depois, passaram à completa defensiva, deixando a ofensiva nas mãos das forças legais. À proporção que a expedição de Blaer, em 1645, avança, encontrará vastos campos cultivados, lavouras importantes. Posteriormente os atacantes descobrirão que o maior mal que podiam causar aos negros, era destruir suas roças. Em 1678 essa observação é feita pelo ex-governador Aires de Sousa Castro. E daí em diante a destruição lavrará nos campos cultivados de Palmares.

À medida que suas roças eram destruídas e suas terras ocupadas, a base territorial e econômica que havia transformado os palmarinos em sedentários, vai derruindo, e suas tropas adotando uma tática mais de movimento, de guerrilhas. Após o último grande combate entre as forças dos colonos e dos palmarinos, as primeiras chefiadas por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo e as segundas pelo Zumbi, em 1694, quando o último foi dado como morto, os palmarinos passaram a agir em grupos de guerrilheiros até ser o seu chefe assassinado.

Debelado Palmares e morto seu chefe, seus antigos combatentes se embrenharam nas matas do Nordeste e começaram a organizar os quilombos, fato que motivou a denúncia de um em Cumbe, destruído tempos depois, como vimos. Ainda os encontraremos na mesma época: na Patente de Capitão-mor concedida a Manuel Nogueira Ferreira há referência a um mocambo que novamente se formava naquela Capitania, dos negros que fugiam dos Palmares de Pernambuco, e que era preciso acudir-se logo, antes que se fortificassem." Outros se aliarão aos índios. Estava extinto, definitivamente, o exército dos ex escravos palmarinos, que se transformou em grupos guerrilheiros, isolados nos diversos pontos do Nordeste em que foram parar. E o capítulo de Palmares foi encerrado.

Aliás, as guerrilhas serão constantes nas lutas dos escravos. Os quilombolas baianos, desde 1704, agiam nas estradas praticando "roubos c escândalos", providos de armas de fogo. Atacavam, também, as estra das de Salitre, Jacobina, Tucano etc., usando a tática de guerrilhas. Onde, porém, usando essa tática parece que os escravos obtiveram maior êxito, foi em Sergipe. Antes de Palmares já atuavam e, no ano de 1874, ainda darão trabalho considerável ao governo, que não consegue localizá-los para um ataque definitivo. Essa tática deixará em desespero os dirigentes da Província. Unidos aos escravos das senzalas — com quem mantinham estreito contato serão sempre bem informados e nunca travarão combate de envergadura, mas desgastarão com ataques de flanco seus adversários até o fim. Nunca serão derrotados. Usarão armas de fogo e não constituirão grupos muito consideráveis, durante os ataques. Grupos de 10 ou 12, bem armados e montados, serão suficientes para ocupar vilas e povoados, onde conseguiam víveres e de onde se retiravam em seguida. Várias expedições foram enviadas contra eles, sem resultado. Jamais ocuparão território. O movimento é sua salvação.

Será o movimento a salvação dos quilombolas. Todas as vezes que o abandonam são derrotados. Em Minas Gerais, sempre que os escravos das cidades se preparam para os levantes, dentro delas contarão com os escravos fugidos das estradas, a "rapaziada fugida das matas" para a ação. Outras vezes, quando os escravos mineiros caem para o ajunta mento maciço, são facilmente derrotados. O quilombo do Rio das Mortes foi facilmente destruído, apesar de ser "um tão grande que já parecia um reino."

Nas revoltas baianas os escravos da cidade combinarão com os negros refugiados nas matas próximas a união das forças de dentro da cidade com as de fora, para o ataque. Essa tática já era usada desde 1807. Quando aguardavam auxílio dos escravos dos engenhos próximos, fato que se repete, em 1826, de maneira inversa — os quilombolas do Urubu é que se revoltavam, esperando os da cidade. Os governantes sabiam muito bem das tentativas desses escravos, cujo desejo era justamente a junção de suas forças para um ataque comum, e tudo faziam para frustrá-la. Aos quilombolas, certamente adestrados nas guerrilhas, juntar-se-ia a tática dos negros maometamos, que já traziam da África uma longa e bem assimilada experiência de lutas. E delas se aproveitariam não só do ponto de vista militar mas do organizativo também. Além de instruírem os escravos nos rudimentos de estratégia de que eram conhecedores – sem o que não se explicam os êxitos conseguidos contra as forças da Polícia em lutas como a de 1835 — como criando associações secretas como a "Ogboni", que desempenhará papel muito saliente no desenrolar dos acontecimentos. O uso de armas de fogo não será desconhecido por esses escravos. Já muito antes das revoltas citadinas — como vimos — os quilombolas usarão essas armas e atuarão no interior da Província com relativo êxito. Nas revoltas da Cidade do Salvador muitos dos seus participantes descendiam dos povos do Sudão ou de lá eram filhos, conhecedores profundos de trabalhos em metais, fundido res exímios e, certamente, se empenharam em forjar armas — quando não espingardas pela sua complexidade — pelo menos facas, lanças etc. Além disso, encontraremos rudimentos de uma indústria de guerra na fabricação de "cartuchos de pau cheios de pólvora", descobertos na revolta de 1826, em um dos casebres próximos à mata do quilombo. Os alufás baianos estabelecerão, mesmo, rudimentos de um plano militar na revolta de 1835. Tudo isso mostra como os escravos não se deixaram dominar nas suas revoltas por simples paixões momentâneas que vinham à tona em movimentos inconsequentes, nas planejavam seus movimentos detalhadamente. Temos ainda a anotar que existiam rudimentos de uma hierarquia militar entre esses negros, embora fundamente mesclada – como não podia deixar de ser – à hierarquia religiosa. Os "capitães" teriam, certamente, uma função militar que não podemos subestimar se atentarmos no fato de serem nossos escravos ciosos dessa prerrogativa militar que só era concedida aos mais aptos na guerra. Ainda devemos ponderar o fato de existirem até soldados entre os quilombolas, ou orientando-os — como aconteceu em 1826, na Bahia - para vermos que seu potencial estratégico não era nulo. Na revolta de 1835 Os escravos usarão armas de fogo em quantidade, pelo menos no início da ação, o que lhes valeu superioridade evidente sobre a força da Polícia que com eles se bateu. Em 1813 tinham como plano atacar a casa da pólvora, apoderando-se do necessário e inutilizando o resto.

Eram lutas, como vemos, em que os escravos ajustavam métodos aprendidos no Continente Negro com outros adquiridos em contato com os brancos.

Na Balaiada, porém, quase que não há diferença fundamental entre a tática dos ex escravos do preto Cosme e o grosso das tropas que participaram do movimento. No início — antes de participarem da luta – quando ainda aquilombados na Lagoa Amarela, podemos dizer que os negros de Cosme tinham algumas características especiais de luta, características que consistiam no estabelecimento de piquetes avançados, na invasão das rocas próximas, na defesa periférica do quilombo, digamos assim. Operações meramente predatórias a fim de conseguirem, também, víveres. Ao engrossarem, porém, o contingente da Balaiada, passaram a atuar como guerrilheiros, correndo em tropelias o interior da Província, em rápidas lutas, até que a espada repressora de Caxias esmagasse o movimento. Então, cairão na formação de pequenos grupos que lutarão desorganizadamente na Província maranhense. No ano de 1840 ainda agiam, sendo Caxias obrigado a criar um Corpo de Guardas Campestres para lhes dar combate.

Quando o escravo Manuel Congo dirigiu a luta dos escravos aquilombados no Estado do Rio, foi, com relativa facilidade, liquidado. Em bora ameaçando por vezes a Cidade de Vassouras, esses escravos plantam-se definitivamente em um lugar, estabelecem um reino, proclamam seus soberanos e ... São derrotados. Caxias encontra-os inteiramente des. controlados, por faltar-lhes uma direção mais consequente. A derrota desses escravos foi tarefa muito fácil. Assim em inúmeros lugares. Os escravos tinham como aliado o movimento e como adversário o sedentarismo, a luta de posição.

 

(In: MOURA, Clovis. Rebeliões da senzala. 3. ed. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1981, p. 239-245)

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Negra mente
 
Nego, grato, que sou negro ingrato
Amo-me por negro ser à luz do dia
Grito nagô gravado na garganta
Gratificantemente negro sem agonia
 
X.X.X
 
Sem culpas, nem grutas, negrume ao sol
Nem grades, nem grotesco
Negros textos sejam lidos no arrebol
 
X.X.X
 
Negras, negros, sejamos qual os gregos
Agreguemo-nos, guerreiros, em massa
Castro Alves nos espera na praça
Negrifique-se e faça-se grande
Nasça nessa nossa cor, pois ela é raça.
(Cadernos negros 21, p. 22).
 
 
A paz de negro ser
 
Eu crio e solto
As pombas negras da paz
Pelos jardins sem fim
Que margeiam meus ninhos
 
Eu detenho e hasteio
As bandeiras negras da paz
Pelos confins de mim
Por meus constantes caminhos
 
Meu âmago ama com calma
Toda a minha pele
E que às outras dermes se revele
Que a alma tem a cor de Deus
 
Se minha melanina é a menina
Que melindra tanta sina
Assassinem-se esses conceitos “pré-cínicos”
Prevaleçam os ninhos e caminhos meus!
(Cadernos negros 21, p. 19).
 
 
Ecos de egos
 
Em todo lado de alguém há alguém.
Por todo lado, um de alguém a sós.
Um de nós é esse alguém
e o outro, quem será de nós?
 
Para toda voz, multi eco.
Para todo eco, tão nenhuma voz...
De quem de nós é essa voz de ego?
Nesses ecos de egos, qual é o de nós?
(Poeticário, p. 75).
 
 
Mise-En-Scène
 
Fechem as janelas!
Abram o coração!
E que esse trovão se espalhe
Pela palma de qualquer mão!
 
Refestelem-se!
Ontem resolvi rir...
Ri ao rubro raio!
Ri até me partir!
 
Claro que ninguém me fez eco!
Ninguém uma alegria verteu ...
Jamais saberão quão simples é entender-me...
Jamais saberão quão simples sou eu ...
 
Sou artista de plateia alguma!
Meu texto é recital de pavores!
Declamo lágrimas...
Enceno beijos sem sabores...
 
Este tablado é meu!
Dele sou seu pó...
Pólipo que sou deste teatro
Que é a vida!
Vivo a interpretar no escuro...
Só!...
 
Eu, mais que ninguém,
Sou o ator da melancolia...
Finjo carência, careço de harmonia!
Harmônica sinfonia em dó menor!
 
Eu, mais que ninguém,
Nos holofotes banho o corpo...
E afogo a alma no breu, calado...
Pois de minha dor escura eu sei de cor!
(O Baile dos Versos, p. 48).
 

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               Meu Rosário

                                                  Conceição Evaristo

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do
meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, onde as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas, nas casas,
nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria porém que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos
sonhos de esperanças.
Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas do meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas de meu rosário,
eu falo de mim mesma em outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuda em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
               
      (In: Poemas de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 43-44)