DADOS BIOGRÁFICOS

Elio Ferreira (Elio Ferreira de Souza) nasceu em Floriano, no Estado do Piauí, em 14 de maio de 1955. Poeta, ensaísta, professor de literatura, capoeirista, rapper, e técnico em educação, Elio Ferreira é uma figura múltipla que, como ele próprio afirma, gosta de “viver de acordo com o tipo de poesia q [sic] escreve”1. Durante a época de lançamento do seu livro O contra-lei (O ciclo do fogo), vestia-se com uma capa preta, pintava o rosto e saía pelas ruas carregando uma bandeira do Brasil e um megafone para realizar performances com suas poesias. Além de todas essas profissões, o poeta exerceu, dos nove aos vinte anos, o ofício de ferreiro, que aprendera com o pai. Apesar de ter deixado a profissão para estudar letras em Brasília, Elio Ferreira não deixou de usar o ferro, o martelo e o fogo como instrumentos de trabalho, convertendo-os em algumas das imagens mais recorrentes em sua poesia. A temática de seus poemas, que oscilam entre uma forte influência do concretismo e o uso de formas mais simples, é bastante vasta. Pode-se, no entanto, destacar neles a atestação do impacto da diáspora negra nas Américas, bem como a crítica política e social. E é através desses núcleos temáticos que a tarefa de escrever se define para ele:

“[Escrever] é uma maneira de falar para o mundo, contar a história dos meus antepassados negros e a minha própria história, influindo e participando na transformação da sociedade através da denúncia contra as violências racial e social” 2

Publicou os seguintes livros de poesia: Canto sem viola (1982), Poemartelos (o ciclo do ferro) (1986), O contra-lei (o ciclo do fogo) (1994), O contra-lei e outros poemas (1997) e América Negra (2004). Publicou também, em 2005, o livro Identidade e solidariedade na literatura do negro brasileiro: de Padre Antônio Vieira a Luiz Gama, com o qual obteve a primeira colocação no concurso de ensaios Mário Faustino, da Fundação Cultural do Piauí - FUNDAC. Estudioso da cultura e literatura afro-brasileiras, concluiu, em outubro de 2006, sua tese Poesia negra das Américas: Solano Trindade e Langston Hughes, recebendo o título de Doutor em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco.

Atualmente, Elio Ferreira é professor de literatura pela Universidade Estadual do Piauí e curador do Projeto Roda de Poesia & Tambores.

Disponibilizamos, abaixo, a entrevista com o poeta Elio Ferreira, realizada em Maio de 2008, via e-mail. Destacamos que nossas perguntas foram elaboradas com base na leitura de dois dos livros do autor: América Negra (2004) e O contra-Lei e outros poemas (1997). Reorganizamo-la para publicação, retirando apenas alguns trechos para evitar redundância.

Entrevista - Elio Ferreira

Portal Literafro - Primeiramente gostaríamos de perguntar-lhe sobre a Abracadabra Edições. A edição desses livros foi feita de forma independente? Queríamos que você me contasse o por quê dessa escolha e o motivo do nome que, pelo visto, veio de dentro de sua poesia.

Elio Ferreira – Sim, a edição é minha. Tenho publicado meus livros por conta própria. O nome Abracadabra Edições foi sugestão de um amigo, que fez a arte final do livro. “Abracadabra” foi o carro-chefe, o poema que me popularizou e abriu espaço na mídia de Teresina – Piauí, quando publiquei o livro de poemas O contra-lei (1994). Pra mim um poema só está no ponto quando se pode declamar ou cantar. Trago isso comigo desde os 17 anos, quando comecei a declamar meus próprios poemas e a publicá-los no Jornal Tribuna do Sul da minha cidade, em 1973. Em 1976, fui morar em Brasília com o objetivo de estudar e trabalhar. Em julho/1979, concluí Letras no CEUB. No mesmo ano, me mudei pra Campo Grande-MS. Lá fiz teatro amador. Em 1983, abandonei o teatro. Passei a me dedicar unicamente à poesia, quando no mesmo ano publiquei o livro de poemas Canto sem viola. Juntamente com outros poetas de Campo Grande – MS, criamos O Movimento dos Escritores Independentes de Mato Grosso do Sul. Em fevereiro de 1984, estava de volta a Brasília. Isso foi nos dias agitados das campanhas pelas Diretas - Já. Declamação de poemas nas manifestações públicas e bares noturnos. Filiação e militância no MNU - Brasília e na Revista Trabalho - PT.

Em 1985, depois de nove anos em Brasília/CampoGrande-MS/Brasília, regressava à minha cidade natal, Floriano/PI. Permaneci ali de 1985/1989. Ali, juntamente com os estudantes da cidade, criamos movimentos literários, culturais, antologia de poemas e um programa de rádio: Quintal aberto, na antiga Rádio Irapuá, de cunho lítero-musical e jornalístico. Em 1990, mudei pra Teresina. Neste ano, comecei de fato a declamar meus poemas com megafone. Falava poesia em toda parte, nos bares, escolas, universidades, adro das igrejas, estação de metrô, rodoviária, praças, ruas, atos públicos, nas campanhas do impeachment do Collor, rádio, televisão, etc. Usava um corte de cabelo meio hastafari/moicano, fazia uma pintura tribal no rosto e mais “– o megafone, a capa preta / e o parangolé da bandeira do Brasil – puído”. Fui conquistando o público pouco a pouco. Quando lancei O contra-lei (1994), a imprensa, o rádio e a tv publicaram várias matérias sobre o livro. Quando declamava o poema “Abracadabra”, as pessoas repetiam o coro: “Abracadabra ABRA abracadabra” e ainda: “Bit bit digitando bit”. Era algo contagiante e mágico. Nas praças, na frente do Teatro 4 de Setembro de Teresina, as pessoas paravam pra ver, faziam círculo. Nas escolas as crianças interagiam, cantavam o coro, ficavam fascinadas. Cantavam comigo. A própria palavra “Abracadabra” era usada pelos sacerdotes e feiticeiros antigos pra afugentar o mal, as doenças, as guerras, os infortúnios das sociedades tribais.

A primeira edição de O contra-lei (1994, 81 p.) é em papel reciclado, tamanho 22 / 23 cm. Viajei com este livro e fiz performance em várias capitais e cidades brasileiras. A tiragem de mil exemplares se esgotou em menos de um ano. A poeta e professora da UNB, Lourdes Teodoro escreveu: “Sua poesia encanta as crianças e assusta os adultos”. O livro é isso mesmo. O contra-lei foi também escrito com esse propósito de dar uma sacudida nas pessoas, provocar reações. Poderia dizer que O contra foi um livro mais do presente, do aqui-e-agora, um poema criado num momento de crise social e dos valores moral, ético, político. Este livro é um poema de confronto. Naquele momento eu me sentia no centro do universo. Acreditava que a poesia podia mudar o eixo do mundo. Fazer a revolução social, racial, espiritual e ecológica. Inicialmente, tive problemas com a polícia, em Teresina e em Brasília, por causa da bandeira do Brasil. Antes do tetra, a bandeira era um fetiche, intocável. Não podia ser exposta ou vestida em lugares públicos. O poema incomodava muito. Os jovens e as crianças eram mais receptivos. Levei muitas vaias também. Mas fui mais aplaudido do que vaiado. Eu não estava nem aí. Sempre assumi meu passado histórico, minha cultura, minha raça, minha classe. Não conseguia separar a poesia da minha vida. Fui mudando com o meu poema. Creio.

Portal Literafro – Notamos uma mudança bem grande em vários sentidos entre os poemas do livro América Negra em relação aos do O contra-lei e outros poemas. Aliás, nos pareceu mesmo que a proposta é diferente em cada um deles. Considerando os oito anos que separam a publicação de ambos, você acha que mudou sua forma de ver e produzir poesia? E de entender a poesia afro-brasileira?

Elio Ferreira – O contra-lei é um poema de confronto. É possível que eu tenha avançado mais ao redefinir a temática afrodescendente já presente nos livros anteriores. Mas a África sempre estivera presente nos poemas através do legado das narrativas, contos, canções populares de origem africana e reinventados na diáspora. Minha infância foi ouvindo essas narrativas ou canções afro-brasileiras, contadas ou cantadas por minhas tias, meu pai, amigos ou pessoas mais velhas do que eu, todos negros. Isso é inerente à escritura dos autores negros. Não creio na acepção de que só é literatura afro-brasileira, quando o autor negro se auto-afirma, de maneira direta, negro no seu texto. “Abracadabra” é a história de uma criança negra fugindo de um grupo policial de extermínio, salvo por tripulantes de uma nave movida a energia solar. O poema foi escrito num momento que houvera várias chacinas contra crianças e adolescentes na periferia das metrópoles brasileiras, na primeira metade dos anos 90. Os versos misturam realidade, denúncia, ficção científica e ao mesmo tempo um pedido de socorro. Na época, esse tipo de crime vinha acontecendo em muitos lugares do Brasil, inclusive aqui em Teresina. A narrativa é na primeira pessoa.

Poemartelos (o ciclo do ferro) é um poema narrativo, longo, reeditado pela terceira vez no Contra-lei & outros poemas. No Poemartelos queria apenas contar minha história, falar dos meus antepassados e das pessoas com quem convivi. Contar a história das pessoas comuns. É um poema que está mais próximo das narrativas de experiência, autobiográfica, que recupera evoca minhas memórias, a dos meus familiares negros e consequentemente a cultura popular da diáspora negra. É uma espécie de narrativa de refundação, pós-escravidão que se articula com a realidade, a cultura, o mito e o imaginário popular numa época em que a tv ainda não havia chegado na minha cidade, no interior do Piauí. Poemartelos é demarcado pela oralidade das narrativas e contos populares maravilhosos que ouvi na minha infância. É o projeto de um poema pra ser falado, marcado por metáforas, prosopopéias e onomatopéias evoca o ritmo do martelo a repicar, martelando sobre o ferro e a bigorna. Evoca a batida do ferro contra o ferro, o martelo sobre o ferro a retinir na bigorna. Da marreta e o malho sobre o ferro na bigorna, etc

Em América Negra, as referências à África e à memória histórica da diáspora são feitas de forma mais sistemática, apontando mais para a história da escravidão, a travessia, a diáspora, os mitos, as lendas, a cultura, a religiosidade, a utopia afrodescendente. O poema “Mãe África” (1996) é um rap. Escrevi-o com objetivo de informar os meninos do Movimento hip hop no Piauí, falando da história, da resistência, da cultura africana. O poema incorpora a concepção informativa do hip hop. Estive no Movimento entre 1995-1998 e, por bem dizer, abri o espaço nos jornais e na tv para o movimento, pois meu último livro de poesia, as performances, as publicações de artigos literários nos jornais de Teresina facilitaram o meu trânsito na mídia. O lançamento de O contra-lei foi uma festa. Fiz uma performance de rua, a rigor. Isso foi em junho de 1994. Falei poesia através do percurso entre a Igreja São Benedito e o Teatro 4 de Setembro, uns quatrocentos metros, com megafone, cara pintada, capa preta, parangolé da bandeira do Brasil. Populares acompanharam a caminhada. Defronte ao Teatro, havia mais de trezentas pessoas. Oferecemos um banquete de frutas e pães aos moradores de rua. Foi emocionante. A mídia deu total cobertura ao evento. No início de 95, montei uma banda de rap Os contra-lei.

Já os 10 cantos do poema “América Negra” foram escritos no primeiro semestre de 2004, quando estava escrevendo a tese de doutorado. O poema “Né Preto” é de 1986, editado em 2004 (já se tornara um samba enredo de uma escola de samba na minha cidade, em 89) e fazia parte do livro Poema Flagrante (inédito). A maioria dos meus livros é constituído por poemas narrativos, longos. Esse elemento está presente em todos os livros. Seja como narrativa de memória, histórica, experiência, testemunhal, imaginária, etc. Mas cada livro tem suas particularidades. O contra-lei & outros poemas reúne quatro livros em um só volume. O livro Outros metais é um poema de ficção científica, que evoca a energia solar como energia do futuro, escrito concomitantemente a O contra-lei, entre 1990 a 1994, publicados na primeira edição de 1994 juntamente com o Poemartelos. Na segunda edição de O contra-lei & outros poemas (1997) foram acrescidos os poemas de “Eldorado dos Carajás & outros poemas”.

Portal Literafro - Observando a forte relação com o ferro em seus poemas, surgiu-nos a curiosidade: seu sobrenome, Ferreira, é mera coincidência?

Elio Ferreira – O nome é pura coincidência. Meu pai tinha outros primos que eram Ferreira e ferreiros. Aprenderam na mesma oficina de ferreiro em Floriano. Após a abolição da escravatura, foram criados na minha cidade alguns desses modelos de oficinas ou pequenas indústrias artesanais, que ensinavam o ofício de ferreiro e marcenaria aos filhos ou descendentes de escravos. Meus avós eram oleiros e meu pai também o fora até os 14 anos, quando foi para a oficina de ferreiro, pois esta profissão se tornava mais promissora. Eu também fui ferreiro e bombeiro hidráulico na oficina do meu pai dos 9 aos 20 anos de idade, quando concluí o Ensino Médio. No início de 1976, fui trabalhar e tentar o vestibular em Brasília. Naquela época, a maioria das pessoas ainda aprendia uma profissão e estudava. Na oficina do meu pai, o trabalho da criança e adolescentes não era espoliativo, era apenas um horário. Eu e os outros meninos aprendizes éramos também dispensados nos dias de prova ou nos horários extra-classe adotado pela escola. A profissão era valorizada. Um operário bem sucedido, como o dono de uma oficina, vivia razoavelmente bem. Meu pai costumava dizer – “se não conseguir se formar, terá ao menos a profissão”. Muitos artefatos eram feitos nessas pequenas indústrias Não era muito comum a produção em série. Nas oficinas se trabalhava o ferro forjado a martelo ou na bigorna, como também na fundição de peças de cobre, alumínio, latão, etc. Meu pai gostava de livros e cinema, o que não era muito comum entre os operários da minha cidade. Na minha casa, havia uma pequena biblioteca. Meu pai costumava contar histórias do Antigo Testamento para mim e outras histórias criadas por ele mesmo. Quando minha mãe morreu, eu acabara de completar 6 anos. Me lembro muito dela, mas era bem instruída. Tinha o 5º ano primário. Sabia ler e escrever muito bem.

O meu primeiro livro publicado é Canto sem Viola (1982), um poema narrativo longo, com vários cantos e uma espécie de épica autobiográfica, assim como o Poemartelos, que traçava a trajetória da minha infância, o presente e a memória próxima: Floriano, Brasília e Campo Grande-MS. Em Canto sem viola já falava de pessoas conhecidas, parentes, amigos do meu bairro ou das coisas do meu dia a dia, a problemática da degradação do meio ambiente no Pantanal mato-grossense, a opressão militar, etc. Já trazia também o propósito de aproximar minha poesia com a batida do martelo sobre o ferro e a bigorna, prosopopéias, onomatopéias criadas a partir das imagens da oficina do meu pai, memórias pessoais, como nos versos: “a sucata de ferros moribundos” e muitos outros. Recorro muito às onomatopéias, às minhas memórias da oficina, meu pai, a alquimia do ferro, o fogo, a bigorna, o ferreiro, etc. É uma coisa de vivência mesmo, autobiográfica. Muita coisa que escrevo faz parte dessa experiência do passado e do aqui e agora. Em Poemartelos, esses elementos se tornaram mais acentuados. Foi um poema projetado, ou seja, de linguagem poética projetada. Na minha infância, ouvia muitas histórias. Queria também confundir o imaginário com a realidade, recuperar esse passado, reviver as pessoas amigas e da minha família na minha poesia e mais do que isso – perpetuar essas pessoas e lugares na minha vida e nos meus versos – algo parecido - me desculpe se estou sendo pretensioso. Quis fazer que se parecesse com a minha vida, minha experiência. Reconstruir minhas memórias: minhas tias negras, pais, irmãos, sua história, seus afetos, etc. Minha poesia tem muito disso. É como se cada verso fosse um conto, e o livro de poemas vários contos ou narrativas em versos.

Portal Literafro - Poemartelos tem algo a ver com o martelo agalopado dos repentistas do Nordeste?

Elio Ferreira - Do ponto de vista da métrica, não. Nem também da acentuação rítmica. Não me deparei pra ver se há alguma relação com a estrutura poética. Se tiver é intuitivo. Sei que tem muito é das narrativas que ouvia quando criança, do som metálico do ferro, representado pelas onomatopéias. Gosto muito de ler e ouvir poesia de cordel, repente, embolada etc. Li de tudo. Todas as literaturas imagináveis. Uma infinidade de livros de poesia e romances. A épica, a lírica e a dramaturgia clássica: a antiga e a renascentista. As mil uma noites, os clássicos, os russos, os africanos, os modernos e contemporâneos. As literaturas das Américas de língua espanhola, a literatura da diáspora africana nas Américas, etc. Contudo, nos últimos dez anos tenho me dedicado mais à literatura dos autores afrodescendentes. Sou um leitor compulsivo. Aprendi com todas as literaturas e hoje tento reaproximar minha escrita das narrativas, memórias, contos, cantos e canções, que ouvi dos meus familiares e pessoas negras que conheci na minha infância, como também das novas experiências adquiridas através da leitura de autores negros de ontem e de hoje. Inclusive, tive um tio paterno que foi repentista, Samuel Ferreira, já falecido. Ele publicou alguns livros. Infelizmente, apesar de ter procurado suas obras, ainda não consegui resgatar nenhuma delas. Eu era bem pequeno. Sei que era muito irreverente. Me lembro dos comentários de quando menino. Há pouco um amigo me apresentou dois de seus versos, que dão prova do seu veio poético, do seu talento como poeta, cujos versos são de cunho existencial.

Portal Literafro - Em sua bioPOETAgrafia você destaca o diálogo com movimentos artísticos como a tropicália e o concretismo. De fato, notam-se certos traços em comum com esses movimentos na poesia de O contra-lei & outros poemas. Gostaríamos que você falasse um pouco do processo de carnavalização na sua poesia, que parece dialogar antropofagicamente com esses movimentos. É interessante a forma pela qual você põe todo o mundo (o Papa, o rei Pelé, Godard, Zé do Caixão, Itamar Assumpção, Jô soares, você mesmo) num mesmo patamar, dançando (ou gingando ao ritmo da sua linguagem capoeirista) com máscaras de deus.

Elio Ferreira – Eu também sou capoeirista. Sou graduado, corda azul. Me desculpe, mas não gosto muito dessa palavra antropofagia ou “antropofagicamente”, como forma de tradução da minha poesia. Mas isso fica a critério do leitor ou pesquisador. Essa história de antropofagia é uma invenção dos invasores para justificar a barbárie, a violência contra africanos e indígenas. Inclusive, os africanos achavam que os brancos eram canibais, que estavam sendo capturados pra serem devorados pelo europeu invasor.

Li e ouvi os tropicalistas e os concretistas. Vivi intensamente os anos 80. No final dos anos 80 e início dos 90, escrevi vários artigos sobre a poesia de Torquato Neto. É verdade que me utilizei de elementos desses movimentos literários. Foi proveitoso. Um aprendizado importante. Mas não foi tudo. Pra mim, aquilo foi uma experiência que me deu disposição para as performances de rua, para o confronto. Mas eu já havia iniciado isso em Campo Grande, com as caminhadas poéticas e com os recitais de rua em favor das Diretas-já.

Quando criança, na minha casa, gostava de falar poesia com a minha irmã, ao balanço da rede de dormir. Depois, foi nas salas de aula, nos eventos das escolas; nas serenatas de despedidas, com meus amigos ao som do violão. Isso nas vésperas minha partida para Brasília. Ao retornar de férias a Floriano, reunia os amigos na minha casa e nos bares pra falar poesia sob o acompanhamento de violão. Sentia um grande fascínio em falar poesia. Lancei o Canto sem viola (fevereiro, 1983), à beira do rio Parnaíba, no cais do porto, em Floriano - PI. Experimentei várias formas e ritmos. Já fiz performance sob a batida de martelos sobre o ferro e a bigorna, com sax, tambor, etc.

Atualmente, em Teresina, sou o curador e idealizador do projeto Roda de Poesia & Tambores, iniciado há 8 anos. Já na sua 49ª edição e no 25º Concurso de Poesia Falada e Escrita. A Roda acontece na primeira sexta-feira de cada mês, quando reunimos poetas e escritores para falar seus poemas sob o acompanhamento de tambores. Hoje, o projeto tem boa aceitação e tem o apoio da Fundação Cultural do Município. Até chegar a esse ponto, foi difícil. Mas temos um público cativo de poetas e amantes da poesia de todas às idades.

1 SOUZA, E. F. O contra-lei & outros poemas. 2. ed. Teresina: Abracadabra edições, 1997. p.143.

2 Entrevista de Elio Ferreira concedida para o grupo Quilombhoje. Disponível em: http://www. quilombhoje.com.br/afroescritores/afroescritores.swf.

 


PUBLICAÇÕES

 

Obra individual

Canto sem viola. Brasília: edição do autor, 1983. (poesia).

Poemartelos (o ciclo do ferro). 3. ed. Teresina: edição do autor, 1986. Né Preto. Teresina: Corisco, 1987. (poesia).

O contra-lei (o ciclo do fogo). 2. ed. Teresina: edição do autor, 1994. (poesia).

O contra-lei & outros poemas. Teresina: Abracadabra edições, 1997.

América Negra. Teresina - PI: Abracadabra Edições, 2004. (poesia).

América Negra & outros poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2014.

Ensaio

Poesia negra: Solano Trindade e Langston Hughes. Curitiba: Appris Editora, 2017.

Antologias

Poemas premiados – XV Concurso de Poesia Falada do Norte e Nordeste. Organização Djaldino Mota Moreno. Aracaju: Editora da Universidade Federal de Sergipe, 1996.

Poemas – autores do Piauí. Nordeste. Recife: Fundação Joaquim Nabuco – Brasília: Ministério da Cultura, 1999.

 Cadernos Negros 27 – Poemas Afro-brasileiros. Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2004.

Cadernos Negros 29 – Poemas Afro-brasileiros. Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. São Paulo: Quilombhoje, 2006.

Cadernos Negros 31 – Poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2008.

Estas flores de lascivos arabescos. Organização de Feliciano Filho e Wellington Soares. Teresina: Fundação Quixote, 2008.

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 3, Contemporaneidade.

Não ficção

O negro na poesia de Carlos Drummond de Andrade. Jornal da Manhã , Caderno 2, Teresina - PI, p. 02 - 02, 24 jul. 1988.

Torquato Neto e a poética da inversão. O Dia, Teresina - PI, p. 11 - 11, 09 nov. 1989.

O negro em Dão-Lalalão e relação de preconceito racial. Jornal da Manhã, Teresina - PI, p. 09 - 09, 21 jul. 1990.

Torquato Neto: o último romântico da geração dos poetas malditos. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 14 - 14, 21 nov. 1991.

[Torquato Neto] O poeta na condição de torto. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 10 - 10, 19 nov. 1991.

A face da poética de Torquato Neto - Parte I. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 14 - 14, 17 nov. 1991.

Abracadabra - poema. O Estado, Teresina - PI, p. 06 - 06, 19 maio 1991.

Negritude e invenção estética: Agostinho Neto, Aimé Césaire, Luís Gama e L. G. Damas. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 10 - 10, 17 maio 1992.

Soy loco por ti: antropofagia & tragédia pop na Terra do Sol. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 14 - 14, 01 fev. 1992.

Electra, uma tragédia de Sófocles. Cadernos de Teresina, Fundação Cultural Monsenhor Chaves / Prefeitura Municipal de Teresina, Teresina - PI, p. 50 - 55, 10 ago. 1993.

Quem tem medo de ser preto? 300 anos de Zumbi dos Palmares e resistência. Meio Norte, Teresina - PI, p. 03 - 03, 19 nov. 1995.

Nilson Coelho: música de vanguarda, inovação e regionalismo. Jornal da Manhã. Cultura, p. 12 - 12, 09 jul. 1996.

Linha direta e o Movimento Hip Hop. O Gurguéia. Floriano-PI, p. 07 - 07, 01 jan. 1996.

Mário Faustino: um mestre nos trópicos. Meio Norte .Alternativo, p. 04-04, Teresina, 24 out. 1998.

Mário Faustino e a geração 60. Meio Norte. Alternativo, p. 04-04, Teresina, 25 out. 1998.

Mário Faustino: o último "Verse Maker". Meio Norte. Alternativo, p. 04-04, Teresina, 27 out. 1998.

Vida, amor e morte na poesia de Mário Faustino. Meio Norte. Alternativo, p. 04 - 04, Teresina, 28 out. 1998.

O homem e sua hora [poesia de Mário Faustino]. Meio Norte. Alternativo, p. 04 - 04, Teresina, 29 out. 1998.

A metalinguagem em O homem e sua hora, de Mário Faustino. Meio Norte. Alternativo, p. 04 - 04, Teresina, 30 out. 1998.

Mário Faustino: uma poesia grandiosa que eterniza a linguagem. Meio Norte. Alternativo, p. 04 - 04, Teresina, 31 out. 1998.

Luiz Gama: O poeta fundador da literatura afro-brasileira.  Meio Norte, p. 03, Teresina, 20 nov. 1999.

Eldorado dos Carajás: uma ópera rap sobre o 17 de abril. Café das Artes, Fortaleza. v. 02, p. 15, 01 out. 1999.

Luiz Gama: o primeiro porta-voz da literatura negra no Brasil. Café das Artes, Fortaleza, v. 3, p. 29 - 30, 01 out. 1999.

Torquato Neto: A correspondência com a Negritude e com a estética dos concretistas. Meio Norte. Alternativo, p. 04, Teresina, 22 maio 1999.

Torquato Neto: a correspondência [da poesia] com a vida do homem comum. Meio Norte.  Alternativo, p. 03, Teresina, 15 maio 1999.

Torquato Neto: Residualidade e correspondência afetiva na poesia. Meio Norte. Caderno Alternativo, p. 03, Teresina, 08 maio 1999.

Torquato Neto: Os substratos acústicos do poema "Cogito". Meio Norte. Alternativo, p. 03, 01, Teresina, maio 1999.

Torquato Neto: A dinâmica do discurso poético. Meio Norte. Alternativo, p. 03, Teresina, 24 abr. 1999.

Torquato Neto: a poesia de tensão existencial. Meio Norte. Alternativo, p. 03, Teresina, 17 abr. 1999.

Oito correspondências para a poesia de Torquato Neto: correspondência número Meio Norte. Alternativo, p. 01 e 04, Teresina, 10 abr. 1999.

Identidade e solidariedade na literatura do negro brasileiro: de Padre Antônio Vieira a Luiz Gama. In: Ensaio: Concurso Literário do Piauí. Teresina: Fundação Cultural do Piauí - Halley S.A. Gráfica e Editora, 2005.

Outra canção do exílio e do regresso. Meio Norte. Alternativo, p. 03, Teresina, 18 ago. 2000.

O amor segundo a história dos deuses e dos homens. Meio Norte, p. 04, Teresina, 26 nov. 2000.

Identidade e memória na poesia negra de Solano Trindade e Langston Hughes. In: IX Congresso Internacional da ABRALIC – Travessias. Porto Alegre. ABRALIC/ UFRGS, 2004.

Roda de Poesia & Tambores - XXI edição: Poeta homenageado: Chico Miguel de Moura. Das Artes das Letras, Portugal, 28 jun. 2004.

A escrita da mulher negra: uma leitura da "Carta" da escrava Esperança Garcia e de poemas de autoras afro-brasileiras do Quilombhoje. In: LIMA, Wanderson (Org.). Saqueadores de hegemonia: ensaios sobre literatura e cinema. Teresina: Amálgama, 2005.

Algumas vozes da poesia afro-brasileira. In: FARIAS, Sônia Lúcia Ramalho; LEITE João Denys Araújo (Org.). Imagens do Brasil na Literatura. Recife: Programa de Pós-graduação em Letras, UFPE, 2005.

Histórico da Roda de Poesia & Tambores. Revista Literária do Projeto Cultural Roda de Poesia & Tambores, v. 01, p. 03-09, 2008.

A geração CLIP - Círculo Literário Piauiense. Revista Literária do Projeto Cultural Roda de Poesia & Tambores, v. 01, p. 14-14, 2008.

Literatura Afro-Brasileira: memória e cantigas do Bumba-meu-boi do Piauí. In: LIMA, Solimar Oliveira (Org.). Sertão negro: escravidão e africanidades no Piauí. Rio de Janeiro / Teresina: Matizes, 2008.

Memória, narrativa popular e intertextualidade na poesia negra de Solano Trindade e Langston Hughes. In: LIMA, Maria Auxiliadora Ferreira; FILHO, Francisco Alves (Org.). II EnMEL Linguagem e Discurso: Estudos Lingüísticos e Literários. Teresina: UFPI / EDUFPI, 2008.

Histórico da Roda de Poesia & Tambores. Revista Literária do Projeto Cultural Roda de Poesia & Tambores, v. 1, p. 04-12, Teresina, 06 dez. 2008.

A Geração CLIP - Círculo Literário Piauiense. Revista Literária do Projeto Cultural Roda de Poesia & Tambores, v. 1, p. 14, Teresina, 06 dez. 2008.

O negro fala da Serra Vermelha. Revista do Projeto Cultural Roda de Poesia & Tambores, p. 26-27, Teresina, 05 dez. 2008.

Memória, construção de identidades e utopia em "Canto dos Palmares", de Solano Trindade. In: Anais do XI congresso internacional da ABRALIC. São Paulo: ABRALIC, 2008.

Mensagem do Salmo: o Evangelho segundo Júlio Romão da Silva. Sapiência Teresina: FAPEPI, v. 25, 2010.

O curso da memória autobiográfica e coletiva na poesia afro-brasileira de Solano Trindade. In: SANTOS, Derivaldo dos; HOLANDA, Lourival; CABRAL, Valdenides Cabral e DUARTE, Zuleide. (Org.). Trama de um Cego Labirinto: ensaios de literatura e sociedade. João Pessoa: Ideia, 2010.

A mensagem do salmo: o evangelho recriado e o teatro da negritude brasileira. Revista Literária do Projeto Cultural Roda De Poesia & Tambores 2, Teresina, 05 jul. 2011.

O Haikai afro-brasileiro de Luciano Almeida: o legado samurai na poesia do Piauí. Revista Literária do Projeto Cultural Roda De Poesia & Tambores 2, Teresina: 05 jul. 2011.

Poesia negra das Américas: Solano Trindade e Langston Hughes. Recife: LETRAS EM REVISTA, v. 02, p. 130-151, 2011.

Memória, construção de identidades e utopia em canto dos palmares, de Solano Trindade. In: FERREIRA, Elio; MENDES, Algemira de Macedo. (Org.). Literatura afrodescendente: memória e construção de identidades. São Paulo: Quilombhoje, 2011.

Poesia afro-brasileira e seus diálogos com a cultura popular da diáspora negra: gênese, memória e cantigas do Bumba-meu-boi do Piauí. In: Anais do II encontro internacional de literaturas, histórias e culturas afro-brasileiras e africanas: Memórias e Construções Literárias, Teresina: 2011.

Poesia negra, jazz e capoeira: o canto, a performance e a memória do corpo. In: Anais do XII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2011.

Literatura Afrodescendente, blues e baião: migração, cidade, trem de ferro, amor infeliz, pactos e sensualidade na poesia de Langston Hughes e nas canções de Robert Jonhson e de Raimundo Machado de São Francisco do Piauí. In: CARVALHO, Diógenes Buenos Aires; MAGALHÃES, Maria do Socorro Rios; LOPES, Sebastião Alves Teixeira (Org.). Caminhos e bifurcações: ensaios em estudos literários. Teresina; Rio de Janeiro: Editora da UFPI; Booklink., 2012,.

Quem é Júlio Romão da Silva? O Jornalista, o Escritor, o Precursor do Teatro e da crítica literária afrodescendente no Movimento da Negritude. In: FERREIRA, Elio; CAMPELO, Ací (Org.). Júlio Romão da Silva: entre o formão, a pena, e a flecha: fortuna da obra de um escritor negro. Teresina: EDUFPI, 2012.

A Mensagem do Salmo: o Evangelho segundo Júlio Romão da Silva, o teatro da Negritude Brasileira e o griot nos tempos da ditadura militar. In: FERREIRA, Elio; CAMPELO, Ací. (Org.). Júlio Romão da Silva: entre o formão, a pena, e a flecha: fortuna da obra de um escritor negro. Teresina - Piauí: EDUFPI, 2012, v. 1, p. 33- 39.

A mensagem do salmo: o evangelho segundo Júlio Romão da Silva, o griot transplantado e o teatro afro-brasileiro no tempo do governo militar. In: Anais do XIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada, Campina Grande-PB: 2013.

Literatura afrodescendente: uma escrita em forma de espiral das narrativas escravas aos relatos autobiográficos, poemas e romances contemporâneos de autores negros. In: SOUZA, Elio Ferreira; FILHO, Feliciano José Bezerra (Org.). Literatura, narrativas e identidades culturais: afrodescendência, africanidades e cultura indígena. Teresina: FUESPI, 2014.

A carta da escrava Esperança Garcia do Piauí: um texto precursor da literartura afro-brasileira. In: SOUZA, Elio Ferreira de; FILHO, Feliciano José Bezerra (Org.). Literatura, narrativas e identidades culturais: afrodescendência, africanidades e cultura indígena. Teresina: FUESPI, 2014.

Literatura afro-brasileira: o quarto de despejo, de Maria Carolina de Jesus. O dia, p. 4-5, Teresina, 19 dez. 2014.

Coautoria

Imagens do Brasil na Literatura. LEITE, J. D. A. ; FARIAS, S. L. R. ; FERREIRA, E. (Org.): Recife: Programa de Pós-Graduação em Letras - UFPE, 2005.

CARVALHO, Elmar; FERREIRA, Elio. Um olhar sobre Rosa dos ventos gerais. In: CARVALHO, Elmar. (Org.). Lira dos Quintuentanos. Teresina: FUNDAPI, 2006.

Literatura afrodescendente: memória e construção de identidades. FERREIRA, Elio, MENDES, Algemira M. (Org.) São Paulo: Quilombhoje, 2011.

FERREIRA, Elio; CIRÍACO, Manuel; RODRIGUES, Jálinson. Revista Literária do Projeto Cultural RODA DE POESIA & TAMBORES 2. Teresina: Abracadabra Edições, 2011.

SILVA, Júlio Romão da; FERREIRA, Elio; CAMPELO, Ací (Org.). Júlio Romão da Silva: entre o formão, a pena, e a flecha: fortuna da obra de um escritor negro. TERESINA: Editora da UFPI, 2012.

SOUZA, Elio Ferreira de; BEZERRA FILHO, F. J. (Org.). Literatura, história e cultura afro-brasileira e africana: memória, identidade, ensino e construções literárias. Teresina: EDUFPI, 2013, vol. 1.

SOUZA, Elio Ferreira de; MENDES, A. M.; Margareth Torres de Alencar Costa (Org.). Literatura, História e Cultura Afro-Brasileira e Africana: memória, identidade, ensino e construções literárias, Teresina: EDUFPI: 2013, vol. 2.

SOUZA, Elio Ferreira de; SANTOS, A. E. A. A resistência negra no conto a casa de Fayola, de Abílio Ferreira. In: SOUZA, Elio Ferreira de; FILHO Feliciano José Bezerra (Org.). Literatura, narrativas e identidades culturais: afrodescendência, africanidades e cultura indígena. Volume 1. Teresina: FUESPI, 2014.

 


TEXTOS

 


CRÍTICA

 


 FONTES DE CONSULTA

 OLIVEIRA, Leni Nobre de. Elio Ferreira. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 3, Contemporaneidade.

LIMA, Tânia. O baticum afrocibernético de Elio Ferreira. In: FERREIRA, Elio. América negra & outros poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2014.

SANTOS, Derivaldo dos. Memória e resistência na lírica de Elio Ferreira de Souza. In: FERREIRA, Elio. América negra & outros poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2014


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