DADOS BIOGRÁFICOS

Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970 em Ibiá, Minas Gerais. Publicitária por formação, residiu em São Paulo por treze anos até se cansar do ritmo intenso da cidade e da profissão. Em viagem à Bahia, encantou-se com a Ilha de Itaparica, onde fixou moradia por cinco anos e descobriu sua veia de ficcionista, passando a se dedicar integralmente à literatura e ao multifacetado universo cultural da diáspora africana nas Américas. Sua estreia no romance se dá em 2002, com a publicação de Ao lado e à margem do que sentes por mim – “livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica”, segundo o depoimento de Millor Fernandes. O texto teve circulação restrita, em primorosa edição artesanal. Em 2006, a autora torna-se conhecida em todo o país com o lançamento de Um defeito de cor, narrativa monumental de 952 páginas. O romance encena em primeira pessoa a trajetória de Kehinde, nascida no Benin (atual Daomé), desde o instante em que é escravizada, aos oito anos, até seu retorno à África, décadas mais tarde, como mulher livre, porém sem o filho, vendido pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo. O texto dialoga com o modelo pós-moderno da metaficção historiográfica e remete às biografias de Luiza Mahin – celebrada heroína do Levante dos Malês, ocorrido em Salvador em 1835 – e do poeta Luiz Gama – líder abolicionista e um dos precursores da literatura negra no Brasil, também vendido como escravo pelo próprio pai. Um defeito de cor conquistou o importante Prêmio Casa de Las Américas de 2006 como melhor romance do ano.

Após residir alguns anos em New Orleans, nos Estados Unidos, Ana Maria Gonçalves retornou ao Brasil em 2014, fixando-se novamente em Salvador. Mesmo fora do país, esteve sempre presente e atuante nos debates públicos envolvendo a questão étnica no Brasil. Por ocasião da denúncia de racismo no livro As caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, produziu diversos artigos sobre o tema e manteve acesa a polêmica, que envolveu diversos intelectuais, entre eles o cartunista Ziraldo. Mais tarde, quando das reações a um comercial de televisão da Caixa Econômica Federal, em que a representação de Machado de Assis era feita por um ator branco, novamente a escritora veio a público e se uniu aos protestos que redundaram num pedido de desculpas da CEF e na produção de outra peça, agora com um ator negro.

Dotada de aguçada visão crítica quanto às relações sociais vigentes e solidária com os estratos subalternizados da população, Ana Maria Gonçalves vem participando de inúmeros debates no Brasil e no exterior. Além disso, faz da Internet e das redes sociais um importante meio para trazer a público seus questionamentos em textos marcados por poderosa argumentação. Seu projeto literário não abdica, pois, de a todo instante provocar a reflexão do leitor quanto às condições históricas que levam à permanência da desigualdade, do racismo e de demais formas de discriminação. Entre outros projetos, finaliza no momento romance voltado para o público juvenil, mas com a mesma perspectiva crítica de nossas mazelas sociais que vem se tornando a marca registrada de seus escritos.

 


PUBLICAÇÕES

Obra Individual

Ao lado e à margem do que sentes por mim. Salvador: Borboletras, 2002. (romance).

Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006. (romance).

Antologia

Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 3, Contemporaneidade.

 


TEXTOS

 


CRÍTICA

 


FONTES DE CONSULTA

ARRUDA, Aline Alves. A errância diaspórica como paródia da procura em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Anais do XII Seminário Nacional Mulher e Literatura III Seminário Internacional Mulher e Literatura. Ilhéus: UESC, 2007. CD-ROM. (disponível em: http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/PDF/ALINE%20ALVES%20ARRUDA.pdf)

CAMPOS, Maria Consuelo Campos. Representações da mulher negra na literatura brasileira. Anais do XII Seminário Nacional Mulher e Literatura III Seminário Internacional Mulher e Literatura. Ilhéus: UESC, 2007. CD-ROM. (disponível em: http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/PDF/Mesas/Maria%20Consuelo%20Cunha%20Campos.pdf)

CAPUANO, Cláudio de Sá. História e africanidade em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. In: DEALTRY, Giovanna; LEMOS, Masé; CHIARELLI, Stefania (Orgs.). Alguma Prosa - ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007, v. 1, p. 85-95.

CÔRTES, Cristiane Felipe Ribeiro de Araujo. Viver na fronteira: a consciência da intelectual diaspórica em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Dissertação (Mestrado em Letras). Faculdade de Letras, UFMG, 2010.

CÔRTES, Cristiane Felipe Ribeiro de Araujo. O entre e o duplo: a alegoria da figura diaspórica em Um defeito de cor. In: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas e I Congresso Internacional da Associação Brasileira de HispanistasEd. Sara Rojo [et al].  Congresso Brasileiro de Hispanistas  Belo Horizonte, MG, Brazil: Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minais Gerais, 2009.  CD-ROM. P. 503-511.

CRUZ, Adélcio de Sousa. Memórias da violência primordial: cenas primordiais em Um defeito de cor. Trabalho apresentado no XI Simpósio Nacional de Letras e Lingüística (SILEL), 2006, Uberlândia.

DUARTE, Eduardo de Assis. Na cartografia do romance afro-brasileiro, Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. In ROCHA, Enilce Albergaria et alii (Orgs.) Culturas e diásporas africanas. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2009. Republicado em TORNQUIST, Carmen Suzana et alii (Orgs.) Leituras da resistência: corpo, violência e poder. Florianópolis: Editora Mulheres, 2009.

DUARTE, Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In: DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, Maria Nazareth (Org.) Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, vol. 4, História, teoria, polêmica.

FERNADES, Millôr. Orelha. In GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.

FIGUEIREDO, Eurídice. Resiliência como resistência na escrita de Ana Maria Gonçalves. In: BOLAÑOS, Aimée G.; BENAVENTE, Lady Rojas. (Org.). Vozes negras das Américas: diálogos contemporâneos. Rio Grande (RS): Editora da FURG, 2011, p. 275-288.

FIGUEIREDO, Eurídice. Kehinde. In: SOUZA, Lícia Soares de (Org.). Dicionário de personagens afro-brasileiros. Salvador: Quarteto, 2009, p. 180-186.

FIGUEIREDO, Eurídice. Arquivos da escravidão: resiliência e artes de fazer. In: GONÇALVES, Ana Beatriz; CARRIZO, Silvina Liliana; LAGE, Verônica Lucy Coutinho (Org.). Literatura, Crítica e Cultura III, Interfaces. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2009, p. 87-102.

MÉRIAN, Jean Yves. O negro na literatura brasileira versus uma literatura afro-brasileira: mito e literatura. In: Revista Navegações. Porto Alegre: março, 2008. v.1 n.1. p. 50-60.

OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A invenção da memória do povo brasileiro. in: Revista Estudos Históricos (Rio de Janeiro), v. 39, p. 157-160, 2007 (disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/444.pdf)

RODRIGUES SILVA, Amauri. Presença e Silêncio da colônia à metrópole: sinais do personagem negro na literatura brasileira. Tese (Doutorado em Literatura). Brasília: Universidade de Brasília, 2007.

 


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