DADOS BIOGRÁFICOS

 

Inaldete Pinheiro de Andrade nasceu em 1946, na cidade de Parnamirim-RN. Aos 20 anos, mudou-se para Recife, onde cursou Graduação em Enfermagem e Mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde jovem participa ativamente de ações em prol da igualdade racial e do respeito às diferenças. Foi uma das fundadoras do Movimento Negro na região e participa de organizações da sociedade civil voltadas para a defesa dos direitos humanos.

Pesquisadora e militante, tem se dedicado ao resgate da multifacetada herança africana presente em nossa formação. Seus trabalhos vêm contribuindo para a constituição de uma bibliografia voltada para o ensino da História e das culturas africana e afro-brasileira, notadamente em suas manifestações pernambucanas e nordestinas. Filiada à União Brasileira de Escritores (UBE), tem em seu currículo a produção de mais de uma dezena de livros, alguns ainda inéditos. Dentre eles, destacam-se escritos voltados para crianças e jovens, sempre com foco na valorização da afrodescendência enquanto individualidade e coletividade.

Publicou também um vigoroso trabalho de crítica literária, em que analisa a presença do preconceito de cor em nossa literatura infantojuvenil. Suas ações em prol do fortalecimento da cultura afro-brasileira são significativas e incluem intervenções no campo educacional, através de programas de capacitação que realiza em escolas do Recife e de outros municípios do Estado.

A abolição – Há abolição?

A escravização dos povos africanos foi a tática mais deprimente de inferiorização de uma coletividade. Tudo fizeram para retirar-lhe a humanidade, salvo o momento que valiam moeda. No mercado de troca e venda, os anúncios de jornais exibiam tributos à beleza física, à disposição para o trabalho, aos hábitos sadios; alcançado o objetivo de lucro retomavam à desgraça da desumanização, objetos descartáveis e entraram para a história oficial vinculados à única condição de escravos, como uma condição natural, inata, nada mais do que escravo. Foi esta história que a minha geração conheceu.

O que fui encontrar escrito para as novas gerações?

Mudando um pouco a forma de contar a história oficial, Viriato Correia (1967) escreveu a História do Brasil para crianças. O autor fala da história do tráfico negreiro, a escravidão, as fugas para os quilombos, num relato acessível sem as deformações costumeiras. Ao relatar a abolição da escravatura, cita a luta dos abolicionistas, os de sempre dos livros didáticos, porém faz uma distinção especial ao jangadeiro Francisco do Nascimento, o grande abolicionista cearense, que a história oficial omite. Este revoltado contra aquele sistema interrompeu o tráfico de escravos nas costas do Ceará, não os levando, ele e seus colegas jangadeiros, da praia até o navio ancorado, de onde os africanos seriam transportados para outras províncias. No final, Correia entrega a glória da abolição à Princesa Isabel.

Dentro do mesmo tema, com pretensão didática, a Editora Brasil-América publicou O Tigre da abolição, de Osvaldo Orico (s/d). Este tigre é José do Patrocínio, mulato, bastardo, que teve acesso ao bom ambiente jornalístico da época. O texto mostra a sua militância na luta pela abolição da escravatura e termina com José do Patrocínio beijando a mão da Princesa Isabel, pela assinatura da lei áurea. Multiplicando seu agradecimento, idealiza e forma a guarda negra, um corpo militar de negros, a fim de proteger a qualquer modo, na paz ou no sangue, a imagem semidivina da redentora. Entre duas correntes de abolicionistas, a moderada e a democrática, Patrocínio foi representante da primeira, a qual previa a abolição gradual dos escravos, enquanto era urgente a libertação já. No dizer de Joel Rufino dos Santos (1978, p.3), José do Patrocínio “porque foi retrógrado é que passou para a história como herói oficial, o tigre da abolição, grande jornalista, etc.” – ou seja, fez o jogo dominante.

A mesma editora (Brasil-América) publicou A Libertação dos escravos, de Pedro Anísio (1970). A leitura inicia-se com a exaltação à luta de Ganga Zumba, Zumbi, Zandu, Chico Rei, Luíza Mahim, Dandara, Francisco do Nascimento. Exalta também a figura militante de Luiz Gama, negro liberto, advogado primeiro dos escravizados: ao lado deste, José do Patrocínio e André Rebouças, dois mulatos que viviam a tiracolo da corte. Concluindo, o texto repete o que a história oficial faz há muitos anos – a honra à Princesa Isabel. Na produção literária sobre a escravidão no período anterior a 1978, aqui registrada, é um discurso bem articulado que reforça a incapacidade da população negra escravizada de fazer a sua própria libertação, o discurso do livro didático vai para a literatura para jovens e crianças, para as ruas, praças, pontes, prédios, calendários, filmes, campos e cidades, condicionando uma eterna gratidão dos beneficiados, isto é, a população negra. É reforçada a lembrança das correntes, o chicote, a senzala, o sim senhor, o sim senhora, referências para manter a memória do passado escravo vivo. Escravo sem vida própria, escravo – sinônimo de negro. O branco, ora o branco, é o dono, o superior – isto está escrito nas entrelinhas nem tanto invisíveis da história oficial e permanece como uma prática do condicionamento da memória da descendência africana. Joaquim José, a História de Tiradentes para crianças de H. Farias (1985) é contada por um Preto-Velho. O personagem contador da história durante a narração elabora com ricos detalhes e eloquência o que foi a inconfidência mineira, articulando bem o vocabulário e o raciocínio e se auto-identifica como Preto-Veio. Soa estranha a expressão “Veio” para alguém que pronuncia tão bem todas as palavras. Fala de raspão sobre os escravos, sem acrescentar nada às circunstâncias daquela condição, enquanto lembra nome e posição social dos inconfidentes. É a marca da autorrejeição, do não pertencimento veiculados na história do Brasil, mesmo contada na figura do oprimido.

Fazendo a diferença, a Editora Ática tem comprovado a sua independência e responsabilidade através das suas publicações. Entre estas, encontramos Os abolicionistas, de A. da Costa Farias e Luiz C. de Barros (1983) que revela a luta dos caifazes, personagens nunca citados no ensino oficial, porque fizeram um trabalho ao lado dos escravizados, colaborando inclusive com as fugas para os quilombos. A leitura mostra o engodo que foram as leis emancipadoras até a lei áurea, a qual no dia seguinte colocou inúmeros mendigos nas calçadas, que se juntaram aos atingidos pela lei dos sexagenários. Restou a essa massa a mendicância, o biscate e quando a situação piora, a cadeia ou o manicômio. Com a mesma responsabilidade, as Edições Paulinas publicaram a série Caminhos da escravidão (1981 e 1982) e a série Caminhos da liberação (1984). As referidas séries não estão catalogados como literatura infanto-juvenil, mas pelo texto e pela ilustração podem ser análogas.

Trapezunga e Ferreirão – uma fábula da abolição, de Chico de Alencar (1987), é o cenário da escravidão na perspectiva da população escravizada. Os personagens são antropomorfizados: galinhas e galos são escravizados por outros galos e galinhas. Trapezunga é um lugar onde há liberdade, em Ferreirão há a escravidão e a imposição da violência – o castigo, a vigilância armada, a senzala, o trabalho excessivo – como a maneira de manter a submissão, o medo, a opressão. Ao longo do texto fica explícito o desejo do grupo oprimido alcançar a liberdade, enquanto o outro grupo quer continuar usufruindo da exploração do primeiro. A organização é importante a fim de conseguir o objetivo daquele, apesar das dificuldades. Assim, é a expressão do movimento negro.

É saudável encontrar alternativas de outras visões diferenciadas da história que um grupo quer perpetuar. Nesse sentido, convém reiterar as contribuições de Costa Farias, Luiz de Barros, Chico Alencar e as citadas séries das Edições Paulinas que têm um compromisso com a história e tentam diminuir as mentiras sustentadas há tantos anos, por todos os meios, cujo fim é garantir o lugar dos quais se acham no direito de comandar o destino de outros, criando um problema racial habilmente camuflado. O problema existe e não foi criado pela população negra, é bom reforçar. 

(In: Racismo e antirracismo na literatura infanto-juvenil p. 19-22)

 


PUBLICAÇÕES

Obra Individual

Cinco Cantigas para você contar. Olinda: Produção Alternativa, 1989.

Pai Adão era Nagô. Olinda: Produção Alternativa, 1989.

A Calunga e o Maracatu. Recife, 2007.

Baobás de Ipojuca. Recife: Bagaço, 2008.

Coleção Velhas Histórias, Novas Leituras. Recife: Edição do autor, 2010.

Não ficção

Racismo e Anti-Racismo na Literatura Infanto-Juvenil. Recife: Etnia Produção Editorial, 2001.

Antologia

Uma aventura do Velho Baobá. In: Revista Palmares. Brasília, v. 8, n. 1, p.78-81, Novembro 2014.

 


TEXTOS

 


CRÍTICA

 


FONTES DE CONSULTA

 


LINKS