DADOS BIOGRÁFICOS

Antonieta de Barros, pseudônimo Maria da Ilha, nasceu em Florianópolis, Santa Catarina em 11 de junho de 1901, filha de Catarina e Rodolfo de Barros. Órfã de pai, foi criada pela mãe, uma lavadeira, de quem recebeu as primeiras lições de conduta e relacionamento humano. Marcada desde cedo pela pobreza, aprendeu a enfrentar as barreiras impostas pela origem humilde e pelo preconceito de cor. Sua mãe, escrava liberta, trabalhou como doméstica na casa do político Vidal Ramos, pai de Nereu Ramos, que viria a ser vice-presidente do Senado e chegou a assumir por dois meses a Presidência da República.

Aos cinco anos foi alfabetizada numa escola particular e dois anos mais tarde entrou no curso primário. Porém, não teve como prosseguir de imediato os estudos, conseguindo ingressar na Escola Normal apenas aos dezessete anos. Ali, deu asas ao sonho de educadora e, antes mesmo de concluir o magistério, já mantinha um curso primário de alfabetização, que tinha o seu nome: “Curso Particular Antonieta de Barros” (oficializado em 1922 e que funcionou até 1964). Em diversos discursos afirma que a educação é o caminho para o futuro: "Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços; é transportar às almas que o Senhor nos confiar, à força insuperável da Fé.” Mas Antonieta de Barros não se limitou ao magistério; tornou-se oradora, jornalista, escritora e militante, com atuação na Liga do Magistério. Em 1934, ingressou na política através do Partido Liberal Catarinense, sendo a primeira mulher de seu Estado a se eleger para uma cadeira na Assembléia Legislativa. Enquanto presidiu trabalhos no Congresso Legislativo dedicou-se a propostas relacionadas ao magistério, entre elas a que institui o dia 15 de Outubro como o Dia do Professor.

Como cronista, esteve presente em periódicos da Capital, chegando a fundar e dirigir os jornais A Semana (1922-1927) e Vida Ilhoa (1930). Os artigos publicados no jornal República foram reunidos e editados em 1937, no volume Farrapos de Ideias. Além dos jornais citados, publicou também em Folha Acadêmica, O Idealista, Correio do Estado e O Estado. Antonieta de Barros deixou uma considerável produção escrita e sempre optou pela imprensa como forma de atingir um número cada vez maior de leitores. Em sua obra há aspectos da vida cotidiana da cidade, comentários sobre ocorrências nacionais e, principalmente, ensinamentos de cunho moral. Aí, dentro dos limites cristãos, encontramos uma Antonieta preocupada com o pacifismo, com a necessidade de uma campanha nacional pela alfabetização, com as diferenças sociais e com os papéis sexuais. Suas preocupações estavam voltadas para questões sociais em que sempre procurava deixar ensinamentos como uma contribuição para um crescimento educacional, como é possível perceber em uma publicação no Jornal República, em que Antonieta defende o acesso das mulheres ao ensino superior:

Não se pode negar, Santa Catarina tem progredido quanto ao ensino superior. [...] Há, contudo, uma grande lacuna na matéria de ensino: a falta dum ginásio, onde a Mulher possa conquistar os preparatórios, bilhete de ingresso para os estudos superiores. O elemento feminino vê, assim, fechados diante de si, todos os grandes horizontes. [...] O máximo de ilustração oficial, proporcionado às mulheres em Santa Catarina, está restrito a um curso de normalistas e nada mais. (12/07/1932).

Na perspectiva de Antonieta, o sistema educacional apresentava falhas e para ela o governo estava preocupado em alfabetizar, mas não em possibilitar que os cidadãos e cidadãs dessem prosseguimento aos estudos, sobretudo nas classes menos favorecidas e entre as mulheres. Para a catarinense era preciso tornar a educação acessível a todas as pessoas e a independência moral e educadora só seria alcançada com a cultura. Em suas crônicas, publicadas no jornal O Estado, questionava os atos do Governador da época, Irineu Bornhausen no que concerne à Educação, o que causou certa polêmica na cidade e acabou gerando acusações a Antonieta, muitas vezes sendo destinados a ela termos pejorativos e racistas. Em resposta ao insulto de Oswaldo Rodrigues Cabral, que disse que o trabalho de Antonieta nos jornais era uma “intriga de senzala”, ela responde:

[...] Não é do nosso feitio essa modalidade de comportamento. Somos leais. Leal e agradecida. Sempre fomos. E é um característico dos negros. Fizemos do Magistério o nosso caminho, e agimos sempre respeitando a professora que não morreu em nós, ainda, graças a Deus. Como, pois, a intriga? Compreendemos que a delicada sensibilidade do nobre Deputado tenha sofrido diante daquela frase. Sua Excelência, para a felicidade de todos quantos são arianos – apesar de portador de um diploma de jornalista – não milita no ensino público. Dizemos felicidade porque, à sua Excelência, falta uma das qualidades de professor: não distinguir raças, nem castas, nem classes... (O Estado, 06/05/1951).

Nesta passagem, fica evidente que o tema central está relacionado a uma prática racista que Antonieta voltou a comentar em artigos posteriores, o que fez até pouco antes de sua morte. A autora faleceu em 28 de março de 1952, vítima de complicações diabéticas, mas é lembrada até hoje como mulher ilustre, que alimentava o sonho de construir um Brasil mais igualitário, com educação e trabalho para todos. Foi uma mulher atuante tanto como escritora quanto professora, mas sua atuação mais destacada foi na política.

Por seu exemplo de vida, foi criada a “Medalha de Mérito Antonieta de Barros”. Este prêmio homenageia as pessoas físicas e jurídicas que realizaram relevantes trabalhos ou se destacaram na defesa dos direitos das mulheres. Nossa primeira deputada negra empresta também seu nome ao “Prêmio Antonieta de Barros”, criado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e voltado para jovens comunicadores negros brasileiros. Em 2015, a cineasta paulista Flávia Person concluiu o documentário Antonieta, no qual resgata do esquecimento a história de vida desta filha de escravizados que se tornou porta-voz de sua comunidade e que, décadas atrás, já defendia reivindicações até hoje presentes na sociedade brasileira: educação para todos, emancipação feminina e valorização do negro e de sua cultura.

Referências

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante. Enciclopédia da Literatura Brasileira. São Paulo: Global Editora; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/DNL: Academia /Brasileira de Letras, Vol I. p. 335.
BITTENCOURT, Adalzira. Dicionário bibliográfico de mulheres ilustres, notáveis e intelectuais do Brasil. Rio de Janeiro: Pongetti,1969-72, vol. I, II e III.
MOTT, Maria Lúcia de Barros. Escritoras Negras resgatando a nossa história. In: Papéis Avulsos 13. Rio de Janeiro, 1989: CIEC – Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos/UFRJ.


PUBLICAÇÕES

Obra individual
Farrapos de idéias, 1937 (crônicas). 2 ed. Florianópolis: SCP, 1971.

Antologias
Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 1, Precursores. Organização de Eduardo de Assis Duarte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.


FONTE DE CONSULTA

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante. Enciclopédia da Literatura Brasileira. São Paulo: Global Editora; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/DNL: Academia /Brasileira de Letras, Vol I. p.335.
BITTENCOURT, Adalzira. Dicionário bibliográfico de mulheres ilustres, notáveis e intelectuais do Brasil. Rio de Janeiro: Pongetti,1969-72 vl.I,II e III.
MOTT, Maria Lúcia de Barros. Escritoras Negras resgatando a nossa história. In: Papéis Avulsos 13. Rio de Janeiro, 1989: CIEC – Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos/UFRJ.
PISANI, Josefina da Silva. Antonieta de Barros. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 1, Precursores. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

 


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