Prefácio

Roland Walter*

 

My race began as the sea began/with no nouns,
and with no horizon/with pebbles under my
tongue/with a different fix on the stars/ ... with
no memory (Derek Walcott)

 

As artes negras das Américas nasceram do “cri” como dizia Édouard Glissant. Para Glissant é necessário escutar os gritos de todos os seres neste planeta; gritos dos quais um tipo iniciou-se nas costas africanas e se prolongou nos negreiros e nas plantações do continente americano. Segundo o poeta Derek Walcott, os gritos dos migrantes afrodescendentes, — “migrantes nus” nas palavras de Glissant — continuam ecoando no mar, sem palavras e sem memória. Existem traços mnemônicos nas terras, nos mares, entre lares preenchidos de emoção e imaginação constituindo os lieux de mémoire que nascem da não memória: uma contramemória das artes da diáspora negra que preenche os vazios e retifica as distorções e falsificações da História oficial. Esta contramemória das artes negras constitui diversas encruzilhadas de uma episteme transculturada: espaços onde formas, práticas, costumes, línguas, ritos e mitos de diversas culturas e povos se encontram e agem de maneira heterotópica, criando círculos que ligam gerações, tempos e lugares num processo de contínua transculturação. Elio Ferreira, em diálogo sincópico-rizomático-analítico com dois grandes poetas das Américas Negras, o brasileiro Solano Trindade e o norteamericano Langston Hughes, coloca-se nesta encruzilhada capoeirando a energia ritmica da poesia negra. Neste processo, ao utilizar as artes negras como lugar de memória, ele nos faz  lembrar a importância da memória no processo da descolonização da desumanização negra pela ideologia supremacista branca e da reconstrução das coisas e mundos em terras americanas que se tinham despedaçados (Chinua Achebe) em terras africanas. Uma reconstrução de identidades, epistemes e línguas enquanto viagem — este motivo par excellence que caracteriza a experiencia negra, tanto vivida quanto imaginada —, entre a distopia e a utopia. Uma reconstrução-viagem entre a desterritorialização e a reterritorialização que implica um processo multidimensional de resignificação, o que Henry Louis Gates, Jr., no seu estudo seminal The Signifying Monkey: A Theory of African-American Literary Criticism (1989) teoriza como signifyin’.

Se, segundo Hélène Cixous (1976), “a escrita é o espaço que pode servir de trampolim para o pensamento subversivo, o movimento precursor de uma transformação das estruturas sociais e culturais”,[1] então gostaria de acrescentar que o que Linda Hutcheon (1988) problematiza como “reordenação ex-cêntrica da cultura”, na transescrita afrodescendente das Américas envolve tanto resistência quanto assimilação ou colaboração enquanto estratégias de potencialização/ sobrevivência para redefinir a posição do sujeito mediante uma afirmação da diferença recriada. Na transescrita negra trata-se de uma reconstrução do self ligada à busca de um lugar coletivo dentro e entre espaços/estados/condições, ou seja, entre lugares e mares onde a colonização e a descolonização, a dominação e a resistência dançam de rostos colados aos ritmos esquizofrênicos do poder. Este movimento entre a distopia e a utopia é de suma importância porque gera uma dinâmica de tensões que implica o sujeito em constantes cruzamentos e recruzamentos de fronteiras e neste processo estilhaça o sentido estável e unitário do eu. Se, segundo a escritora afro-canadense Dionne Brand (2002), o esquema cognitivo dos africanos da diáspora interamericana é caracterizado pelo cativeiro, situando-os “sempre no meio de uma viagem”, “neste espaço inexplicável” do “mar intervalar”, a viagem e existência intersticial de tantos personagens da ficção negra demonstram que este cativeiro — uma vida nômade dentro do gueto ou entre regiões, nações e continentes — contém seus lugares livres de descoberta, conscientização e criatividade. Em outras palavras, a consciência interior da diáspora negra, que, segundo Brand, é “a porta da não volta” determinada por uma história apocalíptica e esquizofrênica, é, ao mesmo tempo, a porta de novos horizontes constituída por diversos atos de resistência, inclusive aquele da escrita.

Isto significa que a recuperação da memória no processo de estabelecer um saber epistêmico é algo mais do que a simples recuperação arquivística de dados. É uma vontade/ necessidade de sentir, cheirar, ouvir, ver, tocar, cantar, escrever, dançar e entender que estabelece a continuidade entre o passado e o presente; uma dialética heterotópica em fluxo entre o interior e o exterior, o próprio e o alheio, o oral e o escrito, a camuflagem (opacidade) e a revelação (transparência), o deslocamento e a reterritorialização, entre lugares (e em entre lugares), tempos, cores, vozes e consciências; entre a fusão e a fissura identitária, cultural e epistêmica: le chaos du tout-monde em constante processo de metamorfose; ou melhor, um quilombismo mitopoético cujo objetivo principal é o remapeamento das relações culturais por meio dos “imaginários da circularidade ou da espiralidade”, como dizia Glissant (2006), estabelecendo um saber terra-mar enquanto legitimidade cultural que serve de base para a (re)construção da identidade humana.

Este processo mnemônico, que revela um saber terra-mar, deve ser considerado uma “prática social” por duas razões: (1) retifica as distorções e vazios da História oficial por meio de histórias subalternas, iluminando as atrocidades bárbaras cometidas em nome do progresso civilizador e (2) esboça uma vivência alternativa. Elio Ferreira em diálogo antifónico com Solano Trindade e Langston Hughes utiliza o lugar da memória para revelar, no sentido sartreano de “révéler c’est changer”, e assim descolonizar a “não história” esquizofrênica dos afrodescendentes. Para que uma revelação se traduza em transformação é necessário conscientizar-se que segundo o pensador afrocaribenho René Depestre a “historia da colonização é o processo da zumbificação geral do ser humano”. Esta zumbificação vibra como fantasma na violência neocolonial da América Negra, onde segunda o poeta Elio Ferreira (2004), “o que passou, não passou [...]” deixando seus traços (in)visíveis como parte de, para usar a frase memorável de Eduardo Galeano (2001), la memoria secuestrada de toda América.

O outro lado desta zumbificação é o que Depestre descreve como “o sal revitalizante capaz de restaurar o uso da imaginação e cultura ao ser humano”. A música, a dança, a escrita, entre outras artes, é este “sal” purificador capaz de curar os efeitos da colonização — o que Houston Baker (1991) chamou de os horrores de “uma economia e política americana de violação”; sal este cuja substância crucial é a memória. O processo de lembrar o passado é um dos, se não o mais importante meio para os afrodescendentes a) reunirem os pedaços estilhaçados da sua identidade fragmentada; b) assumirem a responsabilidade pelos seus atos e pelas suas atitudes; c) resistirem ao silêncio da amnésia nacional institucionalizada pelo discurso supremacista branco.

 A contramemória dos afrodescendentes das Américas é uma “re-visão”, que Adrienne Rich (1979) define como “o ato de ver com novos olhos, adentrando um texto antigo a partir de uma nova direção crítica” para explicar e conscientizar-se, nas palavras de Toni Morrison (1987), “onde estávamos, através de que vale corríamos, como eram as margens, a luz que havia lá e o caminho de volta ao nosso lugar original”. Além de uma estrutura espacial, o ato da memória precisa da experiência individual e coletiva, de fatos, emoção e imaginação. A memória somente pode conduzir à compreensão e agência, a um conhecimento produtivo da condição do indivíduo e das forças e práticas históricas e socioculturais que a ocasionaram, se as experiências individuais e coletivas estiverem entrelaçadas.

O blues/ jazz / reggae,/ capoeira, a música e dança negra, portanto, constituem uma matriz poderosa para o entendimento cultural: transformam as experiências de uma paisagem extremamente e continuamente opressiva para as energias de ritmos e movimentos que possibilitam sobrevivência e resistência à injustiça, perda, ausência, desesperança, dor e sofrimento. Ao lembrar em performance, a música, dança e escrita perlaboram o trauma sofrido em memória sedimentada, estabelecendo um círculo que liga o passado no presente com o futuro entre as gerações passadas, vivas e ainda não nascidas. Neste sentido, nas palavras do escritor e jazzista afro-americano Ralph Ellison (1995), cujo romance Homem Invisível é um clássico mundial, o impulso do blues “é manter vivo na consciência [...] os detalhes e episódios dolorosos de uma experiência brutal [...] e transcendê-la”. Destarte, a música, dança e escrita constituem a encruzilhada performativa e fluida entre o fixo e as infinitas mudanças e possibilidades do móvel, entre a dor e a alegria, a perda e a recuperação; enfim, a viagem entre as mortes e as vidas, ou seja, a viagem-vivência entre mares e lares na diáspora negra.

Onde se encontra e como encontrar um lar neste entre mar, eis, um dos assuntos-chave desta tese do poeta, ensaísta, professor universitário e capoeirista Elio Ferreira. Ao comparar dois gigantes da arte negra das Américas, os poetas Solano Trindade e Langston Hughes, Elio se coloca entre mares e lares geográficos, o Brasil e os Estados Unidos, e epistêmicos criando um “atonal ensemble” (Said, 1994) com base em interdisciplinaridade e comparatismo intersemiótico que liga três artes negras — música, poesia, dança — que não somente revolucionaram as artes mundiais, mas, e talvez mais importante, contribuíram crucialmente para a reconstrução do “colapso do ego” individual e coletivo dos afrodescendentes na “zona de não ser” (Fanon, 1952); neste processo, transformaram-na numa zona de estar.

Assim, a tese do Elio Ferreira é um importante trabalho que contribui para criar um mapa de uma geografia epistêmica crítica que revela, teoriza e problematiza semelhanças e diferenças do Dasein negro nas Américas; um mapa que é urgente se traçar porque existem fronteiras invisíveis entre as comunidades já que problemas de língua, entre outros, estabelecem uma zona de não conhecimento na diáspora negra das Américas.

Com imensa alegria e orgulho enfatizo, como orientador desta tese, que o processo da orientação foi uma via dupla: uma relação de aprendizagem mútua onde dois seres humanos de diferentes contextos étnico-culturais se deram as mãos lutando pelos mesmos objetivos, ou seja, a humanização deste mundo. Neste sentido, esta tese de Elio Ferreira, além de ser uma fonte rica e indispensável para pesquisadores de qualquer área dos Estudos da Diáspora Negra das Américas, é um símbolo de que, nas palavras de Édouard Glissant (2006), as fronteiras existem para ser transcendidas.

 

Recife, em 01 de outubro de 2017

Referência

SOUZA, Elio Ferreira de. Poesia negra: Solano Trindade e Langston Hughes. Curitiba: Appris Editora, 2017.

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* Roland Walter é Doutor em Literatura Comparada pela Johannes Gutemberg Universität, pesquisador do CNPq e Professor Titular da UFPE. Autor de Magical realism in contemproray chicano fiction (1993), Narrative identities:  (inter)cultural in-betweenness in the Americas (2003) e Afro-América: diálogos literários na diáspora negra das Américas (2009). É também organizador do volume crítico As Américas: encruzilhadas glocais (2007) e coorganizador de Narrações da violência biótica (2010) e de Centros e margens: literaturas afrodescendentes da diáspora (2014).


[1] As traduções neste Prefácio são minhas.

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