Navegando no universo dos microcontos de Vera Duarte

Simone Caputo Gomes¹

 

Desassossegos & acalantos, de Vera Duarte, encontra um lugar especial, inovador, na ficção cabo-verdiana da contemporaneidade.

Do ponto de vista temático, porque a tragicidade de nossos tempos, em plena pandemia (“O inimigo invisível”), dá aos seus microcontos um poder de impacto internacional. Constelados à volta desse fio que conduz, sob o signo do medo, nossas vidas neste ano de 2020, nos 4 (2+0+2+0) cantos do mundo, outros problemas afligem a humanidade, e a eles a escrita de Vera derrama sua luz: guerras, ditaduras, corrupção, fronteiras visíveis (a odisseia dos emigrantes clandestinos em busca de refúgio) e invisíveis (desigualdade social, preconceito, racismo como sequela da escravatura), o efeito do consumo exagerado do álcool, as manifestações violentas do patriarcalismo (feminicídio, excisão genital feminina, paternidade irresponsável, ciúme possessivo), as mulas de drogas, o tráfico de órgãos, as crianças de rua, a exploração infantil, a pedofilia...

Julio Cortázar, com propriedade, afirmava ser o conto um análogo da fotografia (Valise de cronópio, 1974). Em assim sendo, os microcontos de Vera Duarte são o que podemos denominar de flash fiction ou sudden stories, já que traçam, pela via da representação literária, o retrato da sociedade do nosso tempo em verdadeiros instantâneos.

Em que pese a escassez de produção teórica sobre a microficção, do ponto de vista estrutural, os textos brevíssimos que aqui se apresentam contam a história do gênero literário conto que, nas últimas décadas, passou a outro estatuto,

Se, tradicionalmente, o gênero conto era comparado com o romance, a década de 1990 assistiu à assunção de novas formas de narrar, o miniconto, microconto microficção ou nanoconto, em sintonia com formas de representação imediatas, digitais, mais objetivas e velozes, que supõem a economia de tempo do leitor. A literatura, assim, tem acompanhado a eclosão dos multimídia, e as narrativas vêm reduzindo seu tamanho, tratando temas candentes de modo cada vez mais condensado, radicalizando este aspecto teórico do conto (a condensação), por similitude com o mundo virtual.

O microconto tem um poder atomizante, realizando o que Edgar Allan Poe preconizou em seus Poemas e ensaios, para a avaliação da obra de arte: mais importante é a impressão que provoca do que o tempo ou o esforço que o autor levou para produzi-la. O texto mínimo produz o máximo potencial de abertura à significação quando a unidade de efeito tem os suportes da intensidade e da condensação, obtidos pela miniaturização.

Na América hispânica e nos EUA, o gênero já se desenvolve com maturidade, exercitado por várias gerações de microficionistas. No Brasil, Dalton Trevisan, Marina Colasanti, Fernando Bonassi, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Mário Baggio podem ser destacados, entre outros, como adeptos da hiperconcisão ficcional.

No universo dos países africanos de língua portuguesa, esses microcontos de Vera Duarte destacam-se pelo seu papel inovador, produzindo instantâneos que conseguirão o efeito de unidade da recepção, ou seja, manter a atenção do leitor em tempos de comunicação vertiginosa.

Luciene Lemos de Campos, no resumo do artigo “Entre frinchas, a poética do microconto brasileiro” (ABRALIC, 2011), afirma que:

O microconto, no âmbito dos estudos literários, carece de referencial e estudos mais aprofundados, quer no domínio da estética, quer no âmbito da poética, quer na atuação da crítica literária. A proposta estética que o microconto realiza não surge como decalque da prosa tradicional, mas como espaço intervalar, uma terceira-margem poética, um entre-lugar que desloca e anula a antiga noção de centro cultural hegemônico, de certo modo realizando a fórceps a proposta goetheana da weltliteratur.

Vera Duarte, na coletânea em destaque, sintoniza sua ficção com os problemas mundiais, de direitos humanos, de violências várias, de mortes sem sentido, atingindo, também, no tecido texto, o que chamamos de Literatura Mundo, no diálogo com a escrita de autores consagrados em âmbito planetário (como Shakespeare, Agatha Christie, Manuel Bandeira), além de escritores de origem cabo-verdiana. Do local para o global espraiam-se os contos mínimos de Vera Duarte.

Grandes teóricos do conto, como Poe, Cortázar e Quiroga, concordam com a proximidade entre conto e poema, e Vera Duarte já praticava a poesia em prosa curta em alguns textos de seus primeiros livros, Amanhã amadrugada (1993, em alguns “Momentos”, poemas do caderno I e nos “Exercícios poéticos” do Caderno II) e O arquipélago da paixão (“Reflexões”, Caderno 3, 2001).

Em Desassossegos & acalantos, os microcontos assemelham-se a essas estruturas poéticas, mas dando relevo aos aspectos de narratividade e coloquialidade, de mistura com a metaficcão, a intertextualidade, o humor, a ironia, o inusitado. Acrescente-se que muitos dos temas tratados em sua poesia ecoam nessas microficções, atestando uma sintonia conceitual entre os dois gêneros experimentados pela escritora. Esses microcontos apontam para novas formas de ler e reescrever o mundo, como postula Lauro Zavala no ensaio “El cuento ultracorto: hacia um nuevo canon literário” (2006), que reflete sobre a natureza da narrativa contemporânea.

Vale aqui evocar outra renomada escritora, Dina Salústio, que em Mornas eram as noites (1994) já expressava esta tendência para a narrativa curta, condensada, que transitava entre conto e crônica e retratava histórias do universo feminino,provocando grande impacto no cânone literário cabo-verdiano no tratamento de temas sociais arrebatadores.

Vera Duarte, por sua vez, radicaliza esse pendor em seus microcontos, dando aos textos o estatuto de flashes que levam às últimas consequências a economia de meios aventada por Poe, transformando-a em hiperconcisão. Nesse processo de tornar cada vez mais breve a narrativa, a crítica social recrudesce, hiperboliza-se.

Mapeando rápida e panoramicamente os textos, podemos observar que a maioria trata de situações que envolvem mulheres em contexto patriarcal: maternidade precoce, grande número de filhos, vitimização por violência física ou moral, adultério (masculino e feminino), relações amorosas (em geral mal sucedidas, à Romeu e Julieta).

Contudo, esse cenário apocalíptico esconde, no fundo da caixa de Pandora, a luz da esperança: heroínas despontam do escuro da tristeza, como Antígona (com eco de dedicatória do livro de poemas O arquipélago da paixão), Rainha Ginga, Nefertiti, Marielle e como as mulheres anônimas que subvertem as situações de opressão masculina ou as heroínas quotidianas como Djamiilia, a “passionária invisível”.

Não obstante o cenário de tragicidade que o fio condutor da obra ̶ o tempo presente, seus reveses, atrocidades e a pandemia catastrófica que o impacta ̶ , a mensagem final é de liberdade e utopia. Vejamos.

O microconto “Infâmia tem nome” pode alegorizar o auge do cenário apocalíptico do mundo, que resume o ápice da insanidade ou da maldade: a mãe e seu companheiro cometem pedofilia contra o filho bebê.

Indignada com o calamitoso contexto que representa o pano de fundo de seus microcontos, a narradora (autobiográfica), em “Cronos”, questiona o deus do Tempo: quando tanto sofrimento terminará? Para quando, interpela, “em nome da humanidade, a chegada de um tempo novo, sem guerras nem corrupção, sem crimes, nem calamidades, mas, sobretudo, sem pandemia”?

Entretanto... o mundo tem salvação, indiciada no primeiro microconto, “Autobiografia”: o encontro, a liberdade. E o sonho... afinal, “Sonhar não é proibido”. As mulheres, as crianças, os homens, podem ser tudo o que quiserem. Podem dançar sem precisar de pernas, em “Superação”. Podem dançar à ”Txuva”, num “lindo petitpays” (Cabo Verde), de “afortunadas [estas] ilhas à beira mar plantadas, jangada de pedra, deslizando no atlântico e levando sua mensagem de morabeza ao continente e ao mundo”.

Ao sol escaldante, símbolo da redenção, chega-se ao epílogo da obra, ao ápice do macrotexto composto de brevíssimos retratos. No final da viagem, pode-se, sob a chuva “abençoada”, com esperança e alegria, colher uma flor, dar um beijo no amante, escutar o canto dos pássaros, contemplar um céu salpicado de estrelas, iluminado por uma lua esplendorosa. Apetece sonhar uma África sem guerras e calamidades, vislumbrar um planeta melhor, um ser humano melhor.

O final do texto e da estória/História? Deixo aberto à epifania do leitor...

                                                                                                                                                                                   São Paulo, Brasil, outubro de 2020

Referência

DUARTE, Vera. Desassossegos & acalantos: microcontos. Salvador: Katuka Edições, 
2021.

 

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¹ Simone Caputo Gomes é Doutora em Letras, Literaturas de Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é Professora Sênior de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo. Pós-Doutorados (5) realizados, respectivamente, nas Universidades Jean Piaget de Cabo Verde, de Aveiro, de Lisboa (2) e de Coimbra, nas áreas de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (em especial, Literatura Cabo-verdiana e História da Literatura Cabo-verdiana) e Poesia Portuguesa Contemporânea. Autora de Cabo Verde – Literatura em chão de cultura (2008), Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe (1993), além de coautora, organizadora ou autora de capítulos de livros como: Literatura e cultura de Cabo Verde: navegando pelas ilhas e pelo mundo (2021), Liberdade, sempre! (2020), Luis Romano: comentários literoverdianos 1960-2002 (2017), Claridosidade: edição crítica (2017), Cabo Verde –100 poemas escolhidos (2016), Literatura Cabo-Verdiana: seleta de poesia e prosa em língua portuguesa (2015), Contravento, pedra-a-pedra: conferências do I Seminário Internacional de Estudos Cabo-verdianos (2015).

 

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