Quebranto 

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada
 
às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço
 
às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto
 
às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo no vazio
 
às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas
 
um dia fui abolição que me lancei de supetão no
espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante
 
também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser
 
às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
me sinto a miséria concebida como um eterno
começo
 
fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.
 
às vezes!...
(Negroesia, p. 53-54).