As fronteiras da palavra em Carolina Maria de Jesus

Maria Madalena Magnabosco*

Inicialmente agradeço o convite realizado pelo Grupo de Estudos Mulheres e Letras para a participação de um evento que nos devolve histórias e memórias de mulheres, principalmente daquelas que transgrediram os cânones e lutaram para serem ouvidas em contextos nem sempre muito acolhedores, como foram e ainda são diversos desses pautados por uma hegemonia patriarcal.

No ano do centenário de Carolina Maria de Jesus é uma honra compor essa mesa e partilhar com vocês da evocação da memória e da palavra testemunhal como constituinte de suas histórias.

Inicio utilizando um refrão da música “Angélica” de Chico Buarque de Hollanda: “Quem é essa mulher que canta sempre esse estribilho? Que canta sempre esse lamento? Que canta como dobra um sino?”

Quem é Carolina Maria de Jesus?

Podemos partir de diversos pressupostos para responder a essa pergunta, mas quando nos perguntamos “Quem?” Perguntamos pela ontologia, pela origem, pelo que principia Ser. E, Ser é linguagem. Nos dizeres de Heidegger (1927): “a linguagem é a morada do Ser”.

É desse princípio que parto para esboçar um fragmento da memória de Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo.

Sabemos que a escrita sempre acompanhou Carolina, desde a mais tenra idade, a ponto de Eurípedes Barsanulfo ter se referido a ela, ainda criança, como Poetisa de Sacramento. Assim, apesar de todos os sofrimentos, faltas, discriminações, dificuldades de sua história, Carolina encontrava na escrita uma ressonância que lhe permitia transcender os cenários da realidade sócio-histórica-cultural e política em que vivia.

Escrever relatando o cotidiano de dentro da favela a retirava, por momentos, da ordem do trágico, de uma desolação para com o mundo. Através da escrita diária Carolina se reconstituía, não pela descrição linear do vivido, mas pela (re-) descoberta de seu eu. Carolina se reconhecia pela narrativa, pelo desafio em ultrapassar pela palavra o obstáculo entre sua vida e a realidade sufocante da favela. Escrever para esquecer a fome, a dor, a miséria. Escrever para suspender temporariamente a ordem do trágico. “Quando fico nervosa, não gosto de discutir. Prefiro escrever.” “Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes brilhantes. [...] É preciso criar esse ambiente de fantasia para esquecer que estou na favela” [sic].1

Quem é essa mulher que narra o cotidiano de sua situação-limite feminina, em um mundo basicamente formado pelos então considerados atributos masculinos da violência, da agressividade e da luta pela sobrevivência? Quem é essa “mulher negra num mundo dominado por brancos”, num espaço ditado por homens, sem posses em uma cidade moderna onde “administrar o pouco dinheiro é mais difícil que ganhá-lo”,2 escritora de livros em um ambiente de elite intelectual refinada e europeizada?

Vítima ou louca? Uma pergunta astuta para aqueles que não consideravam o “Quem”, que não ouviam o “Ser”, mas o substituíam pelo “Que” e consumiam modernamente os versos, palavras e rimas como elementos à margem de um cânone literário.

Desconsiderando essa dicotomia da vítima ou louca, própria da modernidade das letras e corpus cientificistas, Carolina (como Quem) sofreu a passionalidade daqueles que vivem as antinomias da existência sem conhecimento suficiente para compreendê-las e, se possível, transformá-las. Passionalidade da fome, do excesso de falta, da solidão na luta pela sobrevivência. Passionalidade da tragédia onde se dá a luta incessante entre potências antagônicas, tanto no mundo dos sentimentos como no mundo objetivo do fazer humano, o qual ainda não encontrou palavras e símbolos para representar determinadas vivências e emoções.

Nos dizeres de Albin Lesky:3 "Não é a oposição entre o homem e a sorte decretada [...] que constitui o núcleo essencial, mas sim o ser humano, sozinho, na patética expressão da coragem com que porta seu destino. À enormidade da dor responde o borbotar na paixão".

Essa patética expressão da coragem torna-se um núcleo que anima Carolina em seus movimentos intermitentes de potência-impotência, de dentro e fora das relações de gênero. A instabilidade de seu humor, o modo passional com que buscava firmar seu espaço no mundo, suas explosões, se ritmavam a partir desse núcleo. Afinal, após todas suas histórias, podemos dizer que a passionalidade— nesse contexto histórico-cultural da modernidade — nada mais é que uma resposta possível às vivências limites, que interditam a luta, a comunicação, a projeção criativa e construtiva da agressividade. É a expressão patética dessa coragem de ainda lutar pela vida lá onde não existem nem palavras, nem significantes que encenem uma troca comunicativa com o outro. É a expressão do ainda-não-saber-dizer, da palavra na fronteira, não pela falta de um desejo de comunicação, mas porque está ausente um significante que poderá suportar outras referências e significações do que seja o viver de uma mulher, como Carolina, nesse mundo já conhecido e reconhecido pelas “tecnologias de gênero” (Teresa de Lauretis).

Pelo ainda-não-saber-dizer ou pelas fronteiras de sua palavra surge na cena relacional a repetição de um comportamento que reincide como resposta à violência simbólica sofrida por Carolina. O trecho do texto e da vida que repete pode ser uma comunicação pela fissura, pela ruptura a partir da qual se buscam outras referências, onde se procuram outras respostas às interpelações sobre si própria, isto é, sobre a própria imagem e identidade, tal como nos coloca Homi Bhabha.

Assim, retorno a pergunta: “Quem é essa mulher?” e também a reincidência do estribilho: “Levantei. [...] Fui buscar agua. Cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. [...] Levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. [...] Despertei as 7 horas com a conversa dos meus filhos. Deixei o leito, fui buscar agua” (sic).4

Movimentos que se repetem e reincidem podem ser uma estratégia utilizada para comunicar o desejo de uma outra escuta sob outras leituras e escritas. Utilizando uma linguagem psicológica, o sintoma — enquanto reincidir de respostas — já é comunicação de outras consciências onde o sujeito, pelo exílio de antigos sentidos, viu-se expulso da familiaridade de seus conhecimentos e reconhecimentos. Seja essa familiaridade uma identidade de gênero, de classe, de raça, ideológica, da imagem corporal, o sujeito sente-se exilado dela e nela. Ele estranha e, ao mesmo tempo, inicia uma travessia, uma desconstrução no próprio estranhamento.

Esse é um dos momentos mais delicados do processo de habitar a fronteira das palavras pelo contexto de situação nas zonas potenciais e ambíguas da construção de novos símbolos que representem outras imagens. Se acolhido e valorizado como alteridade, esse momento é frutífero e transformador de significados. Entretanto, se rechaçado e concebido como loucura, perigo, sujeira e contaminação negativa, ele será apenas a reafirmação do então cultuado e valorizado por um raciocínio e por uma linguagem hegemônica da medicina, da psicologia e dos estudos sobre gênero, recolocando a dúvida: Vítima ou louca?

É no próprio conflito entre potências, no embate com as forças antagônicas e contraditórias que percorrem sua história que Carolina se defronta com a força/fragilidade de sua palavra testemunhal. A palavra reincidente no cotidiano de seu diário — que a devolve à sua ética — é a mesma que negativiza sua imagem perante o outro, já que nas escutas deste, ela (palavra) perde a função mediadora e transcendente entre o Ser de Carolina e a objetividade do mundo que passou a viver, principalmente após a publicação do livro Quarto de Despejo. Sua escrita tinha por objetivo suspender — pela mediação do testemunho narrativo — as vivências patéticas do dia a dia na favela através de uma linguagem que lhe despertava sonhos, desejos, bem como lhe possibilitava organizar sentimentos e pensamentos. Essa função mediadora de suas palavras, quando da recepção por um público progressista, torna-se não mais mediação, mas experiência dolorosa da dificuldade de transpor eticamente o mundo do progresso e desenvolvimento da modernidade. O que era mediação torna-se obstáculo, negatividade que explicita e acirra a angústia de Carolina ao perceber as parcas possibilidades de transformar o mundo pela justiça que ela tanto desejava.

Quanto mais sua palavra voava mundos através de eventos políticos dos quais participava — viagens a outros países, traduções para outros idiomas —, mais Carolina se debatia em seu deslocamento-exílio. Da palavra que agia como bálsamo sobre seu sofrimento surge a palavra com a qual ela deverá lutar exaustivamente para tentar consolidar politicamente5 sua liberdade e expressão da alteridade. Digo politicamente, pois essa palavra balsâmica, ao se tornar pública receberá julgamentos e avaliações de uma estrutura institucional e acadêmica inteiramente diversa da realidade da autora. Sob essas avaliações, suas palavras são interpretadas por critérios canônicos literários, comportamentais, estilísticos, políticos e sociais que não condiziam com o objetivo de sua escrita. Nas palavras de Meihy & Levine: 

Os leitores brasileiros reagiram ao diário de Carolina de forma consistente, objetiva e pesada, contrastando as visões de mundo expressas no texto com suas preferências políticas. Jânio Quadros deixou-se fotografar abraçando a escritora que ia, assim, oferecendo munição à crítica que a via como um sema sem controle da própria imagem. Ao mesmo tempo, outros filtravam passagens do livro para vazar suas mensagens: dom Helder Câmara, arcebispo progressista de Recife, disse que “haverá quem chorará como comunista quando ver um livro como este”. [...] Luís Martins, distanciando-se da autora, afirmava que “não sabia se Quarto de despejo seria, rigorosamente falando, um trabalho decente de literatura, mas é um livro que deixa marca. Outros aclamavam o livro como um manifesto que deveria ser lido pelos “políticos, administradores, e candidatos a cargos públicos”.6 

Cobrada pelas pessoas quanto a posicionamentos políticos, fidelidade partidária, pertença a grupos religiosos e comunitários, domínio sobre sua linguagem, Carolina torna-se uma mercadoria amada e odiada através da mídia. As brigas, irritações, agressividades de Carolina podem ser a luta dilacerante contra essas pressões para que fosse e pertencesse ao que nem conhecia e, também, contra a distorção ética de sua palavra quando interpretada pelas regras institucionais de um mundo já transfigurado por valores progressistas e partidário-higienistas. Seu humor intransigente e oscilante que a caracterizou como louca pode ser o modo que tinha para dizer: “Não é isso que quero falar. Vocês não estão entendendo. Me ouçam!” Em outras palavras, recorrendo a Zaratrusta, “seus ouvidos não são para o que diz minha boca”.

Infelizmente, no moderno contexto higienista do sexo-raça, para Carolina ser ouvida seria necessário uma “desinstitucionalização da escuta” por parte daqueles que participavam ativamente da formação ideológica das representações e imaginários sociais da modernização. Todavia, isto não aconteceu.

Perdida a mediação da palavra contextual (já que “não ouvida”) diminui-se a força do sujeito para defender-se, já que ele se torna minoria entre grupos e concepções legitimadas por instituições socioculturais e políticas hegemônicas. Perdida, confundida e misturada, Carolina passa a ser o emblema da contradição, da inconstância, da agressividade e, porque não dizer, da loucura. Diante de sua ingenuidade e pouco preparo para lidar com o mundo consumista das imagens e com os jogos sociais e políticos da época, ela se tornou o protótipo não só do favelado como oportunista, mas também da mulher perigosa que necessita ser colocada em seu devido lugar, ou seja, às margens da palavra ou no “quarto de despejo” da feminilidade.

Nesse contexto ruidoso, a consolidação política (de cidadã da pólis) de sua liberdade como alteridade foi se esgarçando, enfraquecendo e perdendo o sentido à medida que sua palavra era ouvida sob determinados significados já estruturados por categorias hegemônicas acima mencionadas.

A ordem do trágico — enquanto a desolação própria de uma incomunicabilidade com o outro, própria da irrepresentabilidade da experiência — presente nos textos-vida Quarto de despejo e Casa de alvenaria – diário de uma ex-favelada, não foi para esconder ou mesmo deformar a realidade do modernismo no Brasil, mas para realçar como uma representação simbólica pode tornar inaudível uma alteridade que busca, passionalmente, inserir-se e apropriar-se da e na voz, através da mediação de outros jogos de linguagem.

Esse ainda tem sido um dos grandes dilemas da mulher, ou seja, o conflito do dizer sem ser ouvida por outros paradigmas. A inaudibilidade torna a existência trágica e patética, torna a palavra uma sonoridade esvaziada, impedida de bordear outros sentidos. Sem sentido, a palavra volta-se contra o próprio sujeito, como em um efeito boomerang, e onde poderia haver o início de novos diálogos e novas escutas ocorre apenas uma reafirmação dos significados já instituídos e autorizados por representações legitimadas pela cultura. Nesse momento de impotência, ou melhor, do silêncio ruidoso da palavra, o sujeito fragilizado pelo ainda-não-saber-dizer (já que sem representações que o auto-representem) corre o risco de avaliar-se pejorativamente como “fora-da-ordem, louco, nervoso”, isto é, sem condições de trocas simbólicas e comunicativas com o outro.

Mediante tais argumentações, afirmo que a inaudibilidade de significados contextuais e enunciativos da dor leva o sujeito a reinscrever-se em símbolos legitimados pela cultura, dada a necessidade de vínculos que tornem possíveis algumas identificações com grupos e identidades culturais. Retirando-se do corpo vivido que sofre e do corpus linguístico que legitima e também estigmatiza sentidos da dor, o sujeito se (re-)inscreve na situação-limite da incomunicabilidade.

Creio ser esta uma das impotências vivenciadas pelas mulheres que — ao resistirem aos discursos autorizados de gênero — ainda-não-podem-dizer. É o encontro com a palavra silenciada que, muitas vezes, as levam a se acreditarem habitantes dos quartos de despejo da feminilidade. Esta seria uma das ordens do trágico que levam Angélicas, Marias, Veras e Carolinas a se desconhecerem e a cantarem sempre o mesmo estribilho, por não poderem embalar, agasalhar e acolher o s(eu) filho que estava para nascer: a palavra nova já inscrita e escrita em seus corpos-testemunhos e auto representadas por outros símbolos, signos, significantes e linguagens: as narrativas testemunhais.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

LAURETIS, Theresa. As tecnologias do gênero. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.). Tendências e impasses – o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo. 5. ed. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

LESKY, Albin. A tragédia grega. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1990.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom; LEVINE, Robert. Cinderela Negra - a saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994.

Notas

1 JESUS. Quarto de despejo, p. 19 e 52.

2 MEIHY; LEVINE. Cinderela Negra – a saga de Carolina Maria de Jesus, p. 63.

3 LESKY. A tragédia grega, p. 183.

4 JESUS. Quarto de despejo, 1995. O trecho foi transcrito conforme escrita original da autora.

5 O conceito de política utilizado no projeto encontra seus fundamentos em ARENDT. A condição humana, p. 15: “A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que os homens, e não o Homem, vivem na terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas essa pluralidade é especificamente a condição — não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam — de toda vida política. (...) A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir.”

6 MEIHY; LEVINE. Cinderela Negra – a saga de Carolina Maria de Jesus, p. 31.


* Psicóloga Clínica, Psicopedagoga, Doutora em Literatura Comparada, Pós-doutora em Estudos Culturais. Professora de cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia.

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