Carolina Maria de Jesus

Sonhei

Sonhei que estava morta
Vi um corpo no caixão
Em vez de flores eram livros
Que estavam nas minhas mãos
Sonhei que estava estendida
No cimo de uma mesa
Vi o meu corpo sem vida
Entre quatro velas acesas
 

Ao lado o padre rezava
Comoveu-me a sua oração
Ao bom Deus ele implorava
Para dar-me a salvação
Suplicava ao Pai Eterno
Para amenizar o meu sofrimento
Não me enviar para o inferno
Que deve ser um tormento
 

Ele deu-me a extrema-unção
Quanta ternura notei
Quando foi fechar o caixão
Eu sorri... e despertei.
(Antologia pessoal, p. 174)

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Muitas fugiam ao me ver
pensando que eu não percebia
Outras pediam para ler.
Os versos que eu escrevia
Era papel que eu catava
para custear o meu viver.
E no lixo eu encontrava
livros para eu lêr
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconçêito
Se eu extinguir quero renascêr
Num país que predomina o preto.
Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E dêixo êstes versos ao meu país
se e que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz
[...]