Carolina Maria de Jesus

Retorno à cidade**

 

Achei horroroso ter que comprar um quilo de arroz, um quilo de feijão. Por que é que nós não podíamos ter terras para plantar, e não podíamos comprar? Na cidade era horrível a convivência com aquelas pessoas que não se respeitavam. E havia briga todos os dias, com a interferência dos policiais que espancavam os rixentos. Aquele povo não mudava os seus hábitos, que eram trabalhar, beber e dançar. Que saudades da vida ridente do campo! Recordava quando a mamãe torrava farinha. A água acionando um monjolo. Quando fazíamos o pão, com vinte ovos para ficar macio. Tudo era preparado com leite. Tinha saudades da minha enxada. Sentia saudades dos calos nas minhas mãos. Do cavalo, o Maçarico. O amanhã não me preocupava. Não era nervosa, porque vivia com fartura em casa.

Na roça não havia distrações, mas não existia o sofrimento. Mas para que sonhar se as terras não eram nossas? O meu padrasto estava triste porque aquela agitação diária nos aborrecia. A nossa casa era um entra-e-sai. Meus primos os seus amigos e outros intrusos.

Conseguimos trabalho no sítio do japonês, o Napoleão, para carpir arroz. Eu ganhava três mil-réis, o meu padrasto cinco mil-réis. Recebíamos aos sábados. Comprávamos dez quilos de arroz e feijão. Fomos suportando aquela vida. Minha mãe lavava roupa para os ricos.

Por infelicidade minha, minhas pernas ficaram cheias de feridas. Cozinhava ervas para banhar as pernas, e as feridas não cicatrizavam. Fiquei apavorada quando terminou a colheita. Com as pernas cheias de feridas, não podia trabalhar nos serviços domésticos. E viver dependendo do meu padrasto e da minha mãe era uma agonia para mim.

Um dia, apareceu um preto procurando empregado para trabalhar na lavoura de café no estado de São Paulo. O senhor Romualdo aceitou. Reunimos oito pessoas porque íamos carpir café. Era necessário várias pessoas.

Embarcamos numa segunda-feira. Na estação de restinga, uma carroça estava nos esperando. Eram onze horas quando chegamos à fazenda Santa Cruz. O proprietário era o senhor Oliveira Dias, o Loló. Dormimos no solo como animais, porque os nossos cacos estavam na estação. De manhã o meu padrasto foi retirálos.

O administrador era um mulato, José Benedito. Deu uma casa para nós morarmos. Tinha luz elétrica só na casa do fazendeiro. Na frente de sua casa, tinha um cruzeiro iluminado com luz elétrica. Ficava no topo da estação de Restinga, viase o cruzeiro à noite.

Não tínhamos permissão para plantar. O fazendeiro nos dava uma ordem de cento e cinquenta mil-réis para fazermos compras num armazém lá em Restinga. Tínhamos que andar quatro horas para ir fazer as compras, o dinheiro não dava. Comprávamos feijão, gordura, farinha e sal. Não tomávamos café por não ter açúcar. Não tinha sabão para lavar a roupa de cama. Que fraqueza!

Serviço tínhamos demais até, comida pouquíssima. No fim do ano, ele fazia um baile numa casa que eles diziam ser a fazenda velha. Comprava chope. Dava roupas velhas para os colonos. Até escovas de dentes usadas. Eu ficava olhando e pensando: “Isto é injustiça.”

O meu padrasto era triste, todos os colonos eram tristes. Depois do almoço, o Loló ia percorrer a fazenda e ver se os colonos estavam trabalhando e contava.

– Está faltando um, por que é que ele não veio trabalhar?

– Está doente.

– Aqui na minha fazenda é proibido adoecer.

Montado num cavalo preto e roendo as unhas, nos olhava reclamando que o nosso serviço não rendia. Na presença dele, nós carpíamos mais depressa. Quando ele saía, nós sentávamos porque estávamos fracos.

No quintal da fazenda tinha verduras, vacas de leite. Ele vendia para os colonos. Quando alguém ia procurá-lo para acertar as contas, ele dizia:

– Vocês estão me devendo.

Se pedíamos vale, recriminava:

– Eu só vejo vocês comer, não vejo serviço.

A Dolores, minha prima, arranjou serviço em Franca. Minhas feridas cicatrizaram, eu fui trabalhar na cidade. Empregada doméstica. E estava contente. O meu padrasto fugiu, fomos buscar a minha mãe e o Adãozinho, o filho de minha tia, que havia falecido com barriga-d’água. Foi por sofrer muito nas fazendas que escrevi uma poesia: “O colono e o fazendeiro.”

O pobre, não tendo condição de viver dentro da cidade, só poderia viver no campo para ser espoliado. É por isto que eu digo que os fornecedores de habitantes para as favelas são os ricos e os fazendeiros. Se eles consentissem que plantássemos feijão e arroz no meio do cafezal, eu até voltaria para o campo. A terra onde está plantado o café é fértil, é adubada. O feijão dá graúdo, e o arroz também.

Eu não gosto dos fazendeiros da atualidade. Gostava dos fazendeiros da década de 10 até 1930. Que incentivavam o pobre a plantar. Não expulsavam o colono de suas terras.

Atualmente eles fazem assim: dão as terras para os colonos plantarem; quando vai-se aproximando a época da colheita, o fazendeiro expulsa o colono e fica com as plantações e não paga nada para o colono.

O fazendeiro tem uma atenuante:

– As terras são minhas, eu pago imposto. Sou protegido pela lei.

É um ladrão legalizado. E o colono vem para a cidade. Aqui ele transformase. O homem simples não sabe mais amainar a terra. Sabe trabalhar na indústria que já está enfraquecendo. E as fazendas também.

Atualmente, há uma minoria para trabalhar na lavoura e uma maioria para consumir. Mas o povo miúdo lutou muito para ver se conseguia viver na lavoura. São incriticáveis. O país que tem mais terras no globo é o Brasil; portanto, o nosso povo já deveria estar ajustado.

(Diário de Bitita, p. 137-140).

** Neste capítulo do Diário de Bitita, Carolina Maria de Jesus discorre sobre suas agruras de adolescente acossada pela pobreza e pela fome. Escrito após a publicação de Quarto de despejo, o texto volta ao passado para tratar do período anterior à vinda da autora para a capital paulista.