Apresentação

Rosália Diogo*

Sou apaixonada por textos poéticos há muito tempo. Mas, como a maioria dos que estão em minha faixa etária, as poesias clássicas eram as mais acessadas. Sendo assim, iniciei o contato com a produção literária de negros e negras com mais afinco na última década. Comecei a observar os versos e prosas das mulheres negras de maneira muito mais restrita, se comparada aos que foram produzidos por homens. Os Cadernos Negros são uma publicação que possibilita uma oportunidade ímpar para tomarmos ciência e nos degustarmos das letras de homens e mulheres negras, mas não é um material de grande circulação, infelizmente.

Confesso que me aproximei dos escritos desses Cadernos quando eles já existiam há quase duas décadas, e me tomei de emoção e alegria em ver neles as escritas de algumas mulheres negras. Comecei então a pesquisar um pouco sobre as histórias de vida delas e quando iniciei o doutorado, em 2009, caí deliciosamente nos braços desta vertente da poesia feita no Brasil que alguns nomeiam como literatura afro-brasileira ou literatura negra.

Ao me aproximar dessas produções e, em especial, das que têm sido produzidas pela ótica feminina/mulher, fiquei arrebatada, entre outras, com a poesia de Cristiane Sobral. A partir daí, comecei a incluir seus poemas em minhas citações verbais e textuais. As pessoas em meu entorno, que até então não conheciam as suas letras, buscaram saber de quem se tratava e muitas começaram a compartilhar os textos de Sobral. Por que “consumimos” Sobral com tanto interesse?

Os motivos creio, são vários, mas a sua língua e textos são afiados para combater as tessituras machistas e racistas que entremeiam o tecido social brasileiro. O primeiro poema de Cristiane Sobral que me tocou absurdamente foi “Não vou mais lavar os pratos”. Depois me senti igualmente tocada com “Pixaim Elétrico” e tantos outros.

A poeta não economiza tinta e perspicácia para ferir mortalmente aquele que pratica a discriminação, o preconceito, o machismo, o racismo e a homofobia. Com doçura, ela tece os seus versos também para falar da maternidade. Com a mesma matéria lírica, por vezes ela ferozmente condena quem se atreve a desdenhar do cabelo do negro e da negra. Ela escreve sobre a política de discriminação que engendra a sociedade brasileira e que mantém uma situação estrutural e estruturante de colonialismo, com disfarce, para tentar ludibriar muitas pessoas.

Nesta nova e deliciosa obra que me foi dado o privilégio e a honra de apresentar – Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz – a escritora nos instiga a manter a altivez, a resistência, a elegância, o prazer e o gosto pelo viver afro.

Nos primeiros textos, nos deparamos com um volume especial de tessituras relacionadas ao processo identitário vivido por muitos homens e mulheres negros: o cabelo.

Só por hoje
Vou deixar o meu cabelo em paz
Durante 24 horas serei capaz
De tirar
Os óculos escuros modelo europeu que eu uso
Enfrentar a claridade
Só por hoje

No poema, nota-se a denúncia/resistência ao fenômeno da imposição estética que se relaciona aos cabelos. Em “Estética” está presente a negação a qualquer modelo de padronização; o que se intenta é um modo particular e subjetivo de experienciar a vida.

A manutenção deste posicionamento está presente em vários outros momentos desta produção literária, como, por exemplo, no poema “Retina Negra”, em que a personagem afirma:

Sou preta fujona
Preparada para enfrentar o sistema
Empino o black sem problema
Invado a cena.

Em “Tridente, o meu pente” a investida contra o preconceito adquire um tom de autoafirmação, da necessidade de explicitar o cabelo como bandeira política que espelha muitos sujeitos, além de questionar o sistema para que ‘abra os olhos’ para o lugar comum que se instaurou na sociedade e que reafirma o cabelo liso como o valoroso.

Em “Espelhos tortos” lemos o dilema de sujeitos que não sendo “carregados” na melanina, mas com a raiz ancestral manifestada na textura dos cabelos, sofrem muitas vezes pela impossibilidade de domar os cachos.

Assim, nessa primeira parte, a poeta se dedica com mais precisão à escrita das várias formas de visão do Outro e do próprio sujeito sobre o cabelo crespo, encrespado ou não liso. Lemos a incontestável tranquilidade das personagens ao interpretarem comportamentos dos mais variados possíveis sobre este tema tão importante quando se reflete sobre as relações étnico-raciais no Brasil, sobretudo no que tange à visão da sociedade sobre as mulheres negras e o que tem sido comumente considerado valor estético aceitável.

No que nomeio como segunda parte da obra, o ativismo político da autora se insurge, por meio de algumas personagens, no sentido de nos instigar à rebeldia necessária, no poema “Ancestralidade na alma”:

Eu não olho para o chão.
Minha alma não está nos meus pés
Não sou bicho de estimação

A escrita segue o seu curso abordando a necessidade e se afirmar a negritude em uma cidade descolorida. Esta é uma opção que se oferece ao leitor referências positivas para o seu pertencimento étnico-racial. Em “Escrava de estimação”, lemos:

Punhos sangrando
Seios jorrando
Sexo brotando
Pra servir de comida.

Mas também observamos a resistência a este estado de coisas, a crítica, a volta por cima, o basta, como no poema “Preto no Branco” que apresenta a imagem de um país racista e excludente por natureza!

A riqueza da obra não se finaliza com esses versos fortes, provocantes e instigadores. Em um terceiro momento, é possível ver deliciosas, líricas e, por que não, amargas leituras paralelas sobre o ser mulher, ora desejada, ora desejante, muitas vezes entristecida com a prostituição, com o assédio; muitas vezes fortalecida com as suas investidas contra o preconceito, o desamor, o descuido. Mulheres que aconselham os homens brancos de gravata a darem meia-volta e se conformarem com as suas escolhas brancas, famílias socialmente bem aceitas, obrigada. Fêmeas reprovando sujeitos de pele clara que buscam o calor nos braços da mulata, mas cometem um gravíssimo “Erro de Português”.

No belo poema “Amei”, lemos a singeleza deste sentimento que possibilita a humanização das relações e que perdura, ainda bem. Nos versos de “Tente me amar” o convite é para um companheirismo na relação amorosa, de maneira despretensiosa, solidária. Afinal, este convite deve mesmo ser de uma mulher, pois como dito no poema “Voo livre”, mulher é poderosa e pode, sim, enredar o Outro para uma relação em que o envolvimento seja real.

Outros textos seguem na mesma linha otimista, apontando a sobrevivência e resistência em uma sociedade permeada por sérios problemas na gestão administrativa. Em “Eu preciso aprender a parar”, por exemplo, a crítica ao transporte coletivo mostra a visão de um morador simples, que é vitimado por um sistema que é falho. Em “Língua de fogo” a personagem denuncia a opressão e mostra a sua tentativa de resistir a um código de fala impositivo.

Digo, por fim, que esta seleção de poemas escritos pela “poetriz” Cristiane Sobral é fecunda, necessária e oportuna, sobretudo neste momento em que atores sociais de várias vertentes da sociedade têm protagonizado cenas sistemáticas de extermínio da população afro-brasileira. Textos como esses, de lirismo, denúncia, reflexão e crítica são fulcrais para o processo de resistência em relação ao esquema de opressão e de exclusão da população negra e não negra no Brasil. Parabéns, Sobral! “Caminhos abertos”, pois acredito frontalmente, como você, que “Há liberdade nos pés que pisam a terra firme.” Axé!

* Professora e jornalista, Doutora em Literatura pela PUC Minas, autora dos livros Mídia e Racismo (2004) e Rasuras no Espelho de Narciso (2008).

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