Da responsabilidade com a poesia

Edimilson de Almeida Pereira*

Os leitores que acompanham a trajetória de José Carlos Limeira – desde a edição de Atabaques, (1983), em parceria com Éle Semog – reconhecem nela a ligação com uma linhagem poética que conta com nomes como Luís Gama, Solano Trindade, Agostinho Neto e Langston Hughes. Nessa mesma linhagem, José Carlos Limeira estreita os laços com as poéticas de Carlos Assumpção, Oswaldo de Camargo, Adão Ventura, Luís Silva (Cuti), apenas para iniciarmos uma longa lista de poetas que articulam um diálogo crítico entre a criação poética e a análise da vida em sociedade. Por demonstrar o quanto da experiência poética se exprime como experiência humana no tempo e no espaço (e, portanto, como vida socialmente construída) e o quanto a percepção da sociedade se revela por meio da linguagem (e, por isso, como produção de sentido decorrente das relações que os indivíduos estabelecem entre si), essa linhagem se oferece como instrumento crítico aos poetas que pensam o trânsito do homem no mundo como um jogo tenso, articulado a partir de embates e negociações.

Não por acaso, o Camões do episódio do Velho do Restelo, no canto IV d’Os Lusíadas; o Baudelaire de As flores do mal; o Cruz e Souza dos poemas “Crianças negras” (O livro derradeiro) e “Emparedado” (Evocações); o Pessoa de Mensagem; o Drummond de A rosa do povo; o João Cabral de Melo Neto de Morte e vida severina; o Thiago de Melo de Faz escuro, mas eu canto; o Moacyr Félix de Em nome da vida; a Maria Teresa Horta de Mulheres de abril – apenas para citarmos alguns poetas, dentre outros, que se viram, em algum momento de suas trajetórias, impelidos a indagar o porquê de tanta angústia em meio a tanta beleza gerada pela sociedade da qual participamos.

Na base dessa linhagem que dispõe em estado de tensão a experiência poética e as relações sociais, estão as práticas de dominação que entendem ser possível extrair do sujeito o seu pertencimento à história, lançando-se mão de mecanismos de exclusão e violência. Porém, mesmo que o próprio sujeito agredido não perceba, não se pode retirar dele a dimensão da poesia, substrato intangível, mas fundante, da sua e da nossa vida. Ou seja, para impor-se sobre um determinado sujeito, a quem chama de “outro”, um grupo social privilegiado nega ao dominado o direito à sua própria história; no entanto, não são raras as vezes em que a linguagem artística reinventa um sentido para a ausência forjada da história do oprimido. É, portanto, no vazio de sua história sequestrada que o oprimido descobre a possibilidade de gerar o seu discurso poético. Algo dessa estratégia desenha-se no final do poema “A morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade (1992, p. 131-133): destituído de sua história, deliberadamente confundida com a não-história dos suspeitos e criminosos, o jovem “morto por engano” rasura com a sua história silenciada a história de uma parcela social que se julga mais privilegiada do que as demais. É com o signo poético do leite misturado ao sangue – alusão a uma aurora que se espraia como utopia de uma nova ordem social – que a Ausência do trabalhador sacrificado se transfigura em Presença, em repto às práticas da dominação.

O fato dessa linhagem poética ser atravessada por contradições (uma delas, a pressuposição de que a linguagem fugidia e plurissignificativa da poesia apenas delineia um contorno para a realidade também fugidia e instável) não impede o sujeito de moldá-la de acordo com as suas próprias escolhas. Relativiza-se, assim, a apreciação do poeta como ser ungido pelas Altas Esferas e ilumina-se, na tensa paisagem da história, o sujeito que se constrói a partir de suas opções políticas e ideológicas. Sem deixar de admirar o horizonte do sonho, esse sujeito poético mira os conflitos da vida diária, sonhando em sobreviver, em recuperar a dignidade de seus semelhantes.

Em seu livro Que é literatura?, Jean-Paul Sartre (2004) abordou os aspectos que configuram a literatura do engajamento social. Sartre considera o ato de escrever como um ato de desnudamento, através do qual o escritor revela o mundo mediante o modo como escolhe escrever certas coisas deste mundo. Ao agir dessa forma, o escritor assume a responsabilidade em relação ao que escreve e como escreve. Se associarmos essa perspectiva à do sujeito que teve a sua história sequestrada, não será impróprio afirmar que para José Carlos Limeira a responsabilidade implica em desejar escrever a história que foi extraída à fórceps dos negros e negras no Brasil. Em decorrência dessa responsabilidade, José Carlos Limeira sabe que a sua história e a de seus semelhantes tem sido escrita por mãos que não as suas. O poeta caminha sobre as trilhas ideológicas que violaram, e ainda violam, as identidades do sujeito negro; por isso, os seus materiais de reconstrução da própria história são amargos. Exemplos não faltam dessa herança de escombros a que se tentou, e ainda se tenta, reduzir as vivências culturais da África e da afrodescendência. Eis um legado de Sir Samuel Baker, um dos representantes da Sociedade Etnográfica de Londres que, regressando de uma viagem ao Alto Nilo, em 1866, afirmou: “a mente dos Africanos está tão estagnada como o pântano que forma o seu insignificante mundo” (DAVISON, 1981, p. 24). Atento às ruínas desse legado, José Carlos Limeira, desde a edição de Atabaques, contesta o scprit da não-história imposto aos negros brasileiros, como demonstra o poema intitulado “Consciência” (1983, p. 17):

Vou expor o gosto das tramas

estarei em cada gueto

no grito de rebeldia,

em cada beco,

no atrevimento

de mudar no papel

os versos dos poetas

estarei nas gravuras,

nos livros de história

em sua fúria

Segundo a perspectiva de Sartre, depreende-se dessa voz poética o desnudamento de uma realidade adversa ao sujeito negro e, ao mesmo tempo, a proposição de uma outra realidade, definida criticamente a partir do abandono a que foi relegado este sujeito. Sem dúvida, José Carlos Limeira, braços dados com outras vozes, apresenta em sua poética um gesto radical que não curva a sociedade brasileira ao peso da culpa, atitude tantas vezes encenada em cerimônias oficias e frases feitas do tipo “enfim, somos todos um pouco negros no Brasil”. Para além disso, a poética de José Carlos Limeira insta a sociedade brasileira a mostrar o seu rosto fraturado – um rosto do qual se exige a tomada de responsabilidade em relação aos infortúnios impostos, e ainda não reparados, aos descendentes dos mais de quatro milhões de negros e negras que aportaram forçadamente no território e na história do país.

Os leitores que acompanham o percurso de José Carlos Limeira, repetimos, terão observado que, ao longo dos anos e em meio à sua poética de desnudamento da realidade social, o poeta entreteceu um viés lírico, que percorre os caminhos consolidados – e, por vezes, desgastados – da lírica amorosa ocidental relacionados, sobretudo, ao Romantismo. Sob essa reiteração do mesmo, o poeta insere o discurso lírico-amoroso, um tema relevante para o conhecimento das vivências íntimas do sujeito, e aqui, particularmente, do sujeito negro. Para uma ordem social dominante, responsável pela redução do sujeito negro à condição de objeto, a lógica tem sido aguardar a explosão do grito de revolta, transmudado, geralmente, em grito coletivo. Todavia, a incursão de José Carlos Limeira no lirismo – domínio por excelência do sujeito, da individualidade reconhecida e afirmada – rompe com a expectativa em torno do negro-objeto e instaura a urgência do reconhecimento de uma subjetividade negra também constituinte das formulações identitárias da sociedade brasileira. Os poemas da coletânea Encantadas revelam, por opção do poeta, uma subjetividade que se quer afrodiaspórica, ainda que desenhada sobre os temas e formas da lírica canônica. Numa sequência, que pode ser vista como um mote para todo o livro, o poeta revisita temas como:

 

- as relações íntimas entre o eu e o outro/o amado e a amada:

Jamais te negarei minha maior ternura

Vez que despidos

Reinventamos bailes e batalhas

Generais, cortesãs, virgens e santos

(“Ternura”)

- a sensualidade como metáfora da vida e da liberdade:

Descobri como navegante

O caminho do teu corpo

Abrigo, porto

Onde me atrevo e fico

Sem amarras ou outras mais

(“Tanto mar”)

- a idealização do feminino:

Por nunca me causares mágoa

Minha doce filha das águas

Eu só te entendo perfeita.

(“Tua perfeição”)

- o emprego da linguagem coloquial:

Minha namorada querida

É a luz do meu caminho

E o amor da minha vida.

(“Minha namorada”)

O fato de retomar a lírica canônica demonstra, por um lado, a inserção da poética de José Carlos Limeira no âmbito de uma tradição que, sabidamente, abriu poucos espaços para o negro apresentar-se como autor ou como tema literário. Quando o fez, essa tradição restringiu a presença do negro aos limites do estereótipo. Por outro lado, ao apropriar-se dos instrumentos dessa tradição, Limeira procura transfigurá-la, inserindo em seus meandros os temas da afrodiáspora. Todavia, essa estratégia funciona de maneira contraditória, quando o poeta aborda a relação amado/amada com a intenção de valorizar as representações da mulher negra. Em vários poemas da coletânea Encantadas as restrições impostas pela lírica canônica ao poeta vão além da forma, principalmente quando se trata de buscar um modo de exprimir as especificidades do sujeito feminino negro. Em outros termos, sob o olhar da lírica tradicional a mulher tende a ser retratada como um obscuro objeto. Por desejá-la sem, no entanto, reconhecer-lhe o papel de gestora do próprio discurso, o eu lírico masculino subjuga a mulher mesmo quando a elogia e a idealiza. No poema “Para uma mulher” e em outros, inseridos no livro Encantadas, José Carlos Limeira reitera esse script:

Falando dos teus olhos mornos

Descobrindo minha carne

Teus lábios macios

Tua pele negra, negra

Falando dos teus braços, teu colo

Esta vontade rude que me dá

De morder tuas coxas

Para matar esta fome doentia

De tuas ancas

Tem-se, então, sob o discurso de valorização do feminino a indelével pergunta: quando e onde no discurso desse eu lírico poderão aflorar o pensamento, a utopia e a ação dos indicadores dos modos de ser do feminino? E, em particular, do sujeito feminino negro? Se as poéticas de autores negros e não negros, que se guiam pela lírica canônica, não respondem satisfatoriamente a essa indagação, não podemos ignorar o tanto que as próprias poetas negras e não negras fizeram e têm feito para atuarem como sujeitos dessa pergunta e de suas possíveis respostas. Diante disso, o olhar de Limeira e de outros poetas negros sobre a mulher negra precisa ser analisado levando-se em consideração as elaborações teóricas e literárias das mulheres negras, dentre as quais destacamos Sueli Carneiro, Nilma Lino Gomes, Carole Boyce Davies, bell hooks, Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Audre Lorde e Cheryl Clarke. Há à nossa disposição um repertório de discursos tecidos desde a perspectiva da mulher negra, no qual sobressaem os enunciados de sua autoafirmação, tal como nos revela a poeta e prosadora Conceição Evaristo:

Antevejo

Antecipo

Antes-vivo.

[...]

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo. 1 (1994, p.70).

A contradição que atravessa a lírica de José Carlos Limeira, no tocante à abordagem do tema amoroso, está radicada, como vimos, na tradição lírica ocidental. Porém, ao realçar especificamente o sujeito feminino negro, Limeira reenvia a necessidade de superação dessa contradição a si mesmo e aos demais poetas negros e não negros. Se Luís Gama resolveu essa contradição reivindicando um lugar para a “musa de azeviche” no imaginário lírico brasileiro, isso não quer dizer que outros realizaram o mesmo objetivo. Sendo assim, a partir da poética de José Carlos Limeira e de seu confronto com as poéticas das poetas negras impõe-se na Poesia Brasileira Contemporânea uma discussão que não pode mais ser adiada. Ou seja, torna-se cada vez mais imperioso saber o que a sociedade brasileira pretende fazer do seu repertório cultural africano e afrodescendente: desprestigiá-lo, massificá-lo e rejeitá-lo são atitudes que já não nos surpreendem. A surpresa virá à medida que formos capazes de deslindar as contradições que envolvem os nossos vínculos com as práticas culturais da afrodescendência. Em função disso, a poética de José Carlos Limeira, ao expor-se como afirmação e contradição na interpretação dessas práticas, cumpre o papel fundamental de indicar o que é flor e o que é ferida em nossos modos de ser e de pensar a nossa realidade.

Para os leitores que acompanham os movimentos de José Carlos Limeira, e para os que chegam agora à sua casa poética, a presente coletânea reencena, sob o viés lírico, os embates do poeta com as tensões decorrentes da relação entre a vida pessoal e as demandas sociais. O desnudamento da realidade social e a aproximação amorosa ao outro, indicadas como linhas de força de sua poética, relacionam o autor a outros nomes importantes da lírica ocidental. A partir desse reconhecimento, é oportuno ressaltar que a inserção das especificidades socioculturais da afrodescendência nessa tradição lírica resulta, como aponta o crítico Eduardo de Assis Duarte, no “abalo da noção de identidade nacional una e coesa” e na “descrença da infalibilidade dos critérios de consagração crítica, presentes nos manuais que nos guiam pela história das letras aqui produzidas. (2010, p. 73).

Considerando a proposição crítica de Assis Duarte, somos apresentados, de imediato, a uma poética afrodescendente e/ou negra e/ou afro-brasileira à qual estão ligados José Carlos Limeira e outros poetas já mencionados. Sob essa perspectiva, sua poética centra-se na particularidade do ser negro para contrapor-se à espoliação imposta aos afrodescendentes: sua voz é, portanto, a voz da coletividade específica com a qual se identifica. Porém, a extensão e a profundidade da poética de José Carlos Limeira, bem como a sua recepção em círculos que atingem, passo a passo, fronteiras além do seu próprio grupo social, nos permitem assinalar o quanto de universalidade há nas heranças da afrodescendência no âmbito da sociedade brasileira. O fato de sua poética ter surgido como uma poética da margem revela mais a dificuldade de nossa sociedade em lidar com as suas alteridades (embora sejam essas alteridades um de seus elementos instituintes) do que a confiança do poeta em saber-se universal a partir do seu pertencimento à uma ordem cultural particular.

A reedição da obra de José Carlos Limeira é um acontecimento de relevo na cena literária brasileira, por tratar-se de uma voz poética consolidada e atenta às provocações contemporâneas. A densidade de sua escrita decorre da maneira como enfrenta a desigualdade e a injustiça social no país e, também, os percalços da própria escrita. Por isso, o espírito crítico do poeta não descuida das armadilhas do seu ofício e, ao mesmo tempo, não perde o entusiasmo de quem se empenha em traduzir vontades que são suas e, tantas vezes, de uma comunidade maior. O legado de José Carlos Limeira, assim como uma grande árvore, acolhe os visitantes, alimenta-os e os reenvia à grande aventura da vida.

Juiz de Fora, outono de 2015.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Volume único. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 131-133.

DAVISON, Basil. Os africanos: uma introdução à sua história cultural. Tradução de Fernanda Maria Tomé da Silva. Lisboa: Edições 70, 1981. p. 24.

DUARTE, Eduardo de Assis. “Literatura e afrodescendência”. In: PEREIRA, Edimilson de A. (Org.). Um tigre na floresta de signos: estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010. p. 73.

EVARISTO, Conceição. “Eu-mulher”. In: ALVES, Mirian; DURHAM, Carolyn R. (Org.). Enfim...nós/ Finally Us: Contemporary Black Brazilian Women Writers. Boulder, Colorado: A Three Continents Press, 1994. p. 70.

LIMEIRA, José Carlos e SEMOG, Éle. Atabaques. Rio de Janeiro: Produção Resistente e Independente, 1983.

SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura?. 3. ed.. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 2004.

1

* Edimilson de Almeida Pereira é professor titular da faculdade de Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora. Possui doutorado em Comunicação e Cultura e pós-doutorado em Literatura Comparada. Autor de mais de 50 títulos, entre poesia, crítica, pesquisa etnográfica e literatura infantil, com destaque para o volume crítico Um tigre na floresta de signos (2010).

Texto para download