Afeto fértil, fértil poema: a lírica de Jenyffer Nascimento

Fernanda Rodrigues de Miranda*

Terra Fértil porque a poesia é terreno propício para o plantio
e a colheita.
Terra Fértil porque somos continuidade de outras mulheres negras que já haviam preparado a terra para nós.
Terra Fértil
para que outros possam semear e espalhar novas sementes. Terra Fértil porque os astros puxam para o elemento Terra.
Terra Fértil porque acredito que o coração é terra fértil sempre.

Jenyffer Nascimento

A poeta semeia. Nós, leitoras/es, colhemos 80 frutos ritmados. Terra fértil, primeiro livro de Jenyffer Nascimento, foi publicado em 2014 pelo coletivo MJIBA – também responsável pela publicação da coletânea Pretextos de mulheres negras (2013), que reúne textos de 22 escritoras negras contemporâneas.

Em seu fundamental texto “Poesia não é luxo”1, Audre Lorde ilumina o alcance profundo que a escrita poética pode desempenhar na vida das mulheres negras, concebendo a “poesia como uma destilação revelatória da experiência”, como uma força vital que permite afirmar: “eu sinto, logo, eu posso ser livre”, pois “é pela poesia que nós damos nome àquelas ideias que estão – até o poema – sem nome e sem forma, a ponto de ser paridas, mas já sentidas” (In: Santos, 2014, p. 133-136). Terra fértil, na sua hora do parto, parindo as janelas de sentir o mundo, enuncia, sobretudo, o plural de afeto – água de aproximar, de reconhecer, que nos vivifica diante do poema.

Terra Fértil é um livro cultivado. Assentado está o verso no plantio do cotidiano de uma mulher negra, jovem, da periferia de São Paulo, que cultiva, numa lírica de amor próprio, um lugar para o feminino livre: “pulsando vermelho/ na carne, na voz, no trato” (p.41); e carrega seu esteio garantido: “Iansã na frente vai comigo / sem endereço ou vestígio” (p. 27). Poemas que versam o afeto fotografando o amor presente, experimentado: “A cebola, o alho, o vinho, as ruas e a música são pretextos (p. 63). Entre um metrô e outro, o amor interroga: “Avançar, retroceder? e a resposta é o encontro, ainda que “Na contramão. Um no sentido Santo Amaro, outro sentido Capão”. (p. 51). Versos nos quais um sujeito lírico feminino flerta com seu desejo, e a nós, atira um conselho: “dizer um sim muda tudo” (p.75), criando um espaço, no poema, para um feminino que “sorri, feliz”, em versos que parecem ecoar Nina Simone dizendo: “Liberdade para mim é não ter medo”:

Pediram um corpo escultural / Eu não tinha. / Quiseram uma mulher ignorante/ Eu já tinha lido o suficiente para me proteger. (...) Discursaram que as mulheres são frágeis / Eu não tive tempo de exercer fragilidades. Orientaram que não frequentasse bares / Eu não pude negar as esquinas. (...) Disseram que eu não amamentasse para o peito não cair / Eu amamentei até cair. (p. 96-97)

As poesias de Terra Fértil são permeadas de narratividade, sustentadas por uma matéria visual que nos guia por um fluxo imagístico que “provoca /permite/manuseia/malandreia” (p. 31) o/a leitor/a, concedendo-lhe ampla aproximação ante os sentidos da escrita, através de imagens que tornam palpáveis os caminhos do sujeito lírico: “te quero doce / mel e jabuticaba, escapando saudade / arriscando carinho / deixando de lado a postura fria / de quem viveu amores gris” (p. 44), tecendo uma poética do cotidiano que desvela o lado sensível da experiência, revelando fotografias poéticas de um eu mulher que se mira no espelho de suas águas presentes e passadas e por/com/para elas fala. Fala ansiada, que há muito tempo vem sendo gestada e semeada pelas vozes-mulheres de outra poeta negra, Conceição Evaristo, que ecoam a vida-liberdade:

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

(EVARISTO, p. 10-11)

 Reconhecendo-se em seus abebés, a poeta não anda só: chama sua descendência posicionando sua voz, rompendo o silenciamento historicamente imposto às mulheres negras.

O grito

Tenho um grito entalado na garganta.
Um grito longo, fino, estridente,
Um grito dolorido, abafado.
Um grito de mulher.
[...]
E mesmo antes de saber
O grito já estava lá.
Sempre esteve
Sufocado.
Em toda a parte
Em todos os lugares.
[...]
Carrego comigo o legado
De minha mãe, de minha avó
E de tantas outras que me antecederam.
O grito que carrego também é delas.
Pelos prazeres que não puderam ter
Pelo corpo feminino que não puderam explorar
Pelo voto e palavras negadas
Pelo potencial não exercido
Pelo choro em lágrimas secas.
Tenho um grito entalado na garganta.
Um grito denso, volumoso,
Um grito ardido, de veias saltadas.
E hoje ele vai sair.
– O corpo é meu! (p. 28). 

São Paulo,
10 de julho de 2017 

Referências

NASCIMENTO, Jenyffer Silva do. Terra Fértil. São Paulo: Ed. da autora, 2014.

EVARISTO, Conceição. Vozes-mulheres. In: Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

SANTOS, Tatiana Nascimento dos. Letramento e tradução no espelho de Oxum: teoria lésbica negra em auto/re/conhecimentos. Tese (Doutorado em Estudos da Tradução) – Florianópolis, UFSC, 2014.

1 Originalmente Poetry Is Not a Luxury (1977). Os textos de Audre Lorde ainda não estão publicados em português, porém é possível acessar a tradução de alguns de seus escritos na tese de Tatiana Nascimento dos Santos:Letramento e tradução no espelho de Oxum: teoria lésbica negra em auto/re/conhecimentos” (2014).

* Fernanda Rodrigues de Miranda é professora, Mestra e Doutoranda em Letras pela Universidade de São Paulo. Autora da dissertação Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética. Atualmente pesquisa a escrita literária de autoras negras brasileiras com ênfase no romance. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.