A representação do negro na literatura de Patrícia Santana

Gustavo Tanus*

 

A representação do negro na literatura infantojuvenil é recente, iniciada nas décadas de 20 e 30 do século XX, com personagens secundárias dentro do espaço diegético ou como parte da cena doméstica cujas ações evidenciavam e reiteravam uma posição subalterna do negro. Conforme Souza & Lima (2006, p. 188), “os personagens negros não sabiam ler nem escrever, apenas repetiam o que ouviam, ou seja, não possuíam o conhecimento considerado erudito e eram representados de um modo estereotipado e depreciativo”. É mais recente ainda o início do rompimento com esse tipo de representação, marcado nos finais da década de 70, com obras que apesar de uma preocupação com a denúncia do preconceito e da discriminação racial não conseguem se afastar das imagens e representações do negro com as quais tinham a pretensão de romper. (SOUZA; LIMA, 2006).

Quando se aborda a inserção dos sujeitos nas práticas sociais de leitura e escrita, que se nomeia letramento literário, tão importante para o desenvolvimento pleno do leitor, a fim de que se torne um cidadão preocupado com a mudança do status quo – que desprivilegia a população negra – é mister que esses sujeitos se percebam retratados na literatura. E mais, com vistas ao desenvolvimento de um cidadão preocupado com o (re)conhecimento das culturas negras para a formação da cultura brasileira, é deveras importante que se vejam representados de maneira tal que sejam rompidos os modelos hierárquicos de representação que inferiorizem e desqualifiquem os negros, ou que aceitem apenas as contribuições que lhes são permitidas para a construção da cultura brasileira: culinária, música e superstições. (ALMEIDA, 1995).

Escritora, profissional da área da educação, Patrícia Santana produz uma literatura voltada para os leitores iniciantes, que alia a revelação de situações do cotidiano, sem a distorção deste, ou em nome de uma moral que, de certa forma, foi a tônica da literatura infantojuvenil até bem pouco tempo. É possível perceber em seu texto uma preocupação de que a literatura seja parte de um conjunto dentro do qual se efetuam o câmbio de valores, explorando a potencialidade das imagens, que auxiliem na construção da autoestima necessária para a resistência e o enfrentamento do preconceito, em construção de outra representação do negro na literatura.

Em seu primeiro livro, Entremeio sem babado (2007), a autora conta a história de Kizzy, uma menina negra cujas descobertas da infância, comuns a qualquer ser humano, se relacionam também à descoberta de suas origens, que remontam à África. É interessante perceber que a questão racial não está disposta na exaltação da diferença, ou no levantamento de bandeiras, mas por meio da representação de uma menina negra, como personagem principal, cuja qualidade de criança curiosa, de “perguntadeira”, que é um atributo imputado a toda criança, a conduz à descoberta de sua origem. Esta narrativa, na medida em que valoriza a inteligência infantil, estimula o leitor a ser também curioso e questionador quanto à ancestralidade africana.

Já no segundo livro, Minha mãe é negra sim (2008), a autora aborda mais diretamente a questão do preconceito racial, em especial o reconhecimento de si pela assunção da diferença, em um posicionamento crítico da personagem, iniciado pelo descontentamento frente ao preconceito revelado pelos estereótipos. Eno é uma criança negra que é obrigada pela professora, em um exercício escolar, a pintar a tez de sua mãe de amarelo, por ser uma cor “mais bonita”. Por este evento, que é revelador de uma sociedade cujo ideal de beleza não é a pele escura, Eno primeiro se sente desamparado e se enclausura em casa, não querendo mais ir à escola. Logo depois, reúne forças para dar a volta por cima, iniciando uma pesquisa no dicionário pelas definições da palavra “preto”. Ainda confuso e não conseguindo encontrar uma resposta aceitável que lhe explicasse com profundidade a questão, Eno desperta a preocupação de seu avô Damião, que percebe a tristeza do “menino-neto” e lhe pergunta:

Que banzo é esse, menino?’ Eno já sabia que banzo era uma tristeza de preto, vinha do tempo da escravidão, a saudade da terra, o medo da solidão em outros mares...

Eno não suportava mais tanto silêncio e resolveu contar ao avô o motivo da agonia.”. (SANTANA, 2008, p. 20).

Após ouvi-lo, o avô foi revelando ao menino alguns aspectos do racismo e as “dificuldades que as pessoas negras enfrentaram e enfrentam para serem aceitas neste mundo” (SANTANA, 2008, p. 22). O fato de o avô ser aquele que consegue nomear e explicar o que a criança sentia de modo difuso, é bem próprio de tradições africanas, que valorizam a pessoa mais velha como guardiã de conhecimentos, valores e práticas culturais – um elo vivo entre o passado, as origens africanas, com as mazelas da diáspora negra, e a esperança de um futuro diferente, menos violento, mais igual. Assim, Eno é tocado pela aula do mestre, do avô-professor, que o ensina sobre sua origem, e lhe fornece elementos essenciais para a construção de uma autoestima que será responsável pelo enfrentamento do preconceito e do racismo, “matérias” que lhe foram “ensinadas” pela professora, por meio da estereotipia. A narrativa não parte do preconceito e do racismo nomeados a fim de criar uma moral que vá contra a essas condutas repreensíveis. Ao contrário, parte da perspectiva de quem sente o problema na pele e que vai descobrir que há muito mais coisas por detrás da conduta da professora. Isso cria um lastro para os acontecimentos e permite à personagem, e ao leitor também, se posicionar frente a algo que se encontra velado por detrás da ideia de que se vive, no Brasil, em uma “democracia racial”.

No terceiro livro, Cheirinho de neném (2011), está representado o universo infantil de Iara, uma menina que vê seu mundo ser dividido pelo nascimento de Abayomi, seu irmãozinho. A personagem se descobre numa gangorra de sensações e pensamentos sobre a chegada do irmão que, sendo “o melhor presente de sua vida” (SANTANA, 2011), era aquele que a dotaria de uma nova qualificação: irmã. Isto a coloca diante de outras responsabilidades, de outras vivências e esperanças, sinestesicamente relacionadas aos diferentes olores presentes num recém-nascido. Este livro se relaciona mais ao primeiro, por não possuir questionamentos mais diretos sobre a questão racial. Mas o faz quando procura representar dúvidas existenciais de uma criança que, não por acaso, é negra, proveniente de uma família de classe média, afastando a narrativa da representação do negro em lugares sociais inferiores. Iara, seus pais e seu novo irmão, Abayomi, são afrodescendentes que provavelmente viverão situações de exclusão, visto que a sociedade ainda os discrimina, mas que neste livro vivem situações normais do cotidiano: as relações familiares, o crescimento cognitivo da criança, as mudanças de comportamento, de filha única ao de irmã mais velha. O que aparenta ser uma inocuidade frente às demandas pela igualdade racial é, talvez, uma maneira mais poderosa de se lutar em favor de uma sociedade mais igualitária, porque leva o leitor iniciante a uma narrativa que trata de questões universais a todas as etnias e classes sociais, tendo como elementos centrais personagens negras. Daí a criança negra se vê duplamente representada, por meio da cor e das inquirições próprias da idade. E a criança não-negra passará a ver como natural (como é bastante urgente e necessário que seja) a representação do negro fora dos papéis “normais” existentes na sociedade: em núcleos sociais mais pobres, em trabalhos subalternos, modelos de representação que os depreciam e inferiorizam sua cultura.

Se a literatura se afirma como estratagema para destruir o poder inscrito na linguagem, (BARTHES, 1978), e esta, diga-se de passagem, foi e é a base de sustentação da história oficial e através do qual esta se valida, a literatura de Patrícia Santana é boa estratégia para a representação dos negros – por elementos próprios da afro-brasilidade: respeito aos mais velhos, às rodas de conversa, à busca pela consciência da cor por meio do encontro com suas origens – representados como sujeitos da história e cultura brasileiras, porque são também sujeitos e protagonistas das suas próprias histórias.

Referências

ALMEIDA, Mauro de. Imagem do negro nos livros didáticos. In: RAMOS, Ítalo (Coord.). A Luta contra o racismo na rede escolar. São Paulo: FDE, Grupo de Trabalho para Assuntos Afro-Brasileiros, 1995. 92 p. (Série Idéias, n. 27).

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1978.

SANTANA, Patrícia. Entremeio sem babado. Ilustrado por Marcial Ávila. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.

SANTANA, Patrícia. Minha mãe é negra sim. Ilustrado por Hyvanildo Leite. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2008.

SANTANA, Patrícia. Cheirinho de neném. Ilustrado por Thiago Amormino. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2011.

SOUZA, Florentina; LIMA, Maria Nazaré (Orgs.). Literatura afro-brasileira. Brasília: Fundação Cultural Palmares; Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais, 2006.

 * Gustavo Tanus é graduado em Letras pela UFMG e professor da rede pública estadual de ensino de Minas Gerais.

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