Corpo, cabelo e identidade

 

Rafaela Pereira*

Meu cabelo enrolado
Todos querem imitar
Eles estão baratinados
Também querem enrolar
Macau

O gosto de Nilma Lino Gomes por ouvir e contar histórias é um traço herdado de sua mãe e presente em sua vida desde a infância. Ao tornar-se professora, interessou-se pela cultura negra no Brasil e em África a partir de trabalhos relacionados à origem das práticas da oralidade. Em sua trajetória conheceu pessoas que lutam e ensinam a lutar por uma sociedade mais igualitária e valorizam a cultura afro-brasileira. Inspirada pelos ensinamentos de sua mãe, Nilma presenteia o leitor com duas histórias encantadoras, Betina (2009) e O menino coração de tambor (2013), cujos protagonistas representam o ideal autoral de afirmação de sua identidade afro-brasileira.

Em O menino coração de tambor (2013), Nilma Lino Gomes nos apresenta a história de um bailarino e coreógrafo que, ainda no ventre da mãe, manifestava o seu gosto musical pelo ritmo das batidas de seu coração. O nascimento deste menino acontece em Diamantina, cidade histórica mineira que possui forte tradição musical, destacando-se os bailes, as festas e o Congado. Enquanto ainda estava na barriga de Dona Conceição, todas as vezes que ela ia a uma festa de Congado, o ritmo do coração do bebê mudava. O garoto, Evandro Passos, cresce em um ambiente envolto por música, o saxofone tocado por seu pai é o motivo de sua admiração plena. Quando se inicia na escola, aprende a tocar vários instrumentos musicais e a cantar, e o gosto, também, pela dança o leva a desenvolver um ritmo próprio. Com o passar dos anos, Evandro prossegue tocando e dançando até que se tornar bailarino, coreógrafo e professor de dança afro-brasileira e, assim como quando estava na barriga de sua mãe, seu coração continua vibrando no ritmo dos tambores. A autora propicia ao leitor elementos da dança, da música e da cultura mineira, destacando o Congado e seus tambores, símbolos de ritos de fé que traduzem a memória da ancestralidade negra que deixou, dentre suas marcas no Brasil, as cantigas, as vestimentas, as performances, os ritmos e os penteados.

Já em seu outro livro, Betina (2009), a protagonista é uma menina que adora as tranças que a avó faz em seus cabelos, o entrelaçamento dos fios se transformando em verdadeiras obras de arte. Enquanto a avó elabora um penteado novo, a menina ouve atentamente as suas histórias. Betina fica cheia de felicidade com as suas trancinhas com continhas coloridas nas pontas, verdadeiras marcas registradas do carinho da avó. Na escola, suas coleguinhas curiosas queriam saber como eram feitas as tranças e a garotinha explicava muito orgulhosa como era todo o processo. É interessante notarmos a presença da oralidade, resgatada no momento em que a avó, percebendo que estava chegando a hora de se encontrar com seus ancestrais, preocupa-se em repassar à neta os ensinamentos recebidos e guardados ao longo da vida, para que a memória de seus antepassados não se perca e continue passando de geração em geração.

Sendo assim, ela resolve ensinar à menina a fazer as tão simbólicas tranças. Com o passar do tempo, Betina passa a exercer a atividade que um dia a avó lhe ensinara, trançando o cabelo da mãe, das irmãs e dos irmãos. A experiência adquirida com o correr da vida faz dela cabeleireira e dona de um salão especializado em cuidar de penteados afros. Seu trabalho ganhou notoriedade dentro e fora do país. E tal reconhecimento leva Betina a fazer palestras em escolas mostrando às crianças afro-brasileiras a não se sentirem subestimadas por causa de seus cabelos crespos. Além disso, mostra a possibilidade de fazer vários arranjos com os cabelos afros, o que desperta o interesse de muitas crianças que se intimidavam por esta razão.

A temática do cabelo é discutida em profundidade por Nilma Lino Gomes em outra publicação: Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra (2008), resultado de sua tese de doutorado. A partir de pesquisa realizada em salões de Belo Horizonte, a autora analisa o cabelo como corpo social e linguagem que expressa o conflito racial vivenciado por negros e brancos. O estudo revela como a identidade negra é construída pela estética do corpo e do cabelo, e como estes espaços de embelezamento acabam se revelando como espaços culturais. Dessa forma,

o cabelo crespo, objeto de constante insatisfação, principalmente das mulheres, é também visto, nos espaços onde foi realizada a pesquisa, no sentido de uma revalorização, o que não deixa de apresentar contradições e tensões próprias do processo identitário. Essa revalorização extrapola o indivíduo e atinge o grupo étnico/racial a que se pertence. Ao atingi-lo, acaba remetendo, às vezes de forma consciente e outras não, a uma ancestralidade africana recriada no Brasil. (GOMES, 2008, p. 22).

O cabelo é um dos principais elementos de afirmação de identidade da população negra e é, também, o símbolo representativo do desafio enfrentado pelos sujeitos num espaço em que ainda prevalecem os padrões de beleza europeus. O ato de ir a um salão de beleza nos leva a ver que o afrodescendente busca não só uma mudança estética. Junto a isso, existe – consciente ou inconscientemente – a tentativa de recuperação de sua autoestima, além da construção e reafirmação de sua subjetividade e identidade negra frente a uma sociedade que o subjuga.

Destarte, de forma singela, Nilma conta histórias de indivíduos que contribuíram e contribuem para a valorização da cultura afro-brasileira, apresentando ao público infantojuvenil e adulto indagações a propósito da estética, da música e da dança e sobre o papel do negro em todo esse processo.

Referências

GOMES, Nilma Lino. O menino coração de tambor. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013.

______. Betina. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009.

______. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo da identidade negra. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

* Rafaela Pereira é graduanda da Faculdade de Letras da UFMG.

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