Aprender e ensinar: Os Erês em A Lua cheia de vento, de Mel Adún

 

Pedro Henrique Souza da Silvai

O primeiro contato da criança com um texto geralmente é por meio das histórias contadas oralmente, sejam por familiares ou outros sujeitos participantes desse processo pedagógico. Este é o início da aprendizagem, compreensão e consolidação de valores caros à formação do pequeno leitor e de seu letramento literário, visto que “é ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes como: a tristeza, a raiva, a irritação, o medo, a alegria [...]” (ABRAMOVICH, 1989, p. 17).

Sabemos que esse processo de produção-reprodução de saberes não é isento de ideologias e notamos em muitas obras destinadas ao público infantil um lastro do projeto de manutenção dos padrões de discriminação vigentes na sociedade. No contexto do preconceito à brasileira temos diferentes exemplos, talvez o caso mais explícito seja o autor do Sitio do pica-pau amarelo, que construiu a série literária a partir de ideais de supremacia racial, social e de gênero.

No entanto, numa mirada rápida, percebemos que, em pouco mais de uma década da lei 10.639/2003, há no mercado editorial a significativa presença de obras cujo intento é a desnaturalização desses preconceitos. Há, pois, um movimento formado em paralelo ao grande mercado, constituído por editoras especializadas nesse segmento, a saber, Pallas, Mazza Edições, Nandyala, a recente Ogum’s Toques Negros, entre outras. É possível notar que estas editoras – principalmente depois da lei – possibilitaram a chegada de autores e obras em importantes espaços de legitimação do saber, como escolas e universidades, não mais pelas portas dos fundos, mas pelas portas principais.

É nessa seara que a Editora Ogum’s Toques Negros forja caminhos para a afrodescendência. Na mais recente empreitada inaugurou o segmento para crianças, com a criação do selo Ogum’s Toquinhos e presenteou o leitor mais jovem com o primeiro volume da série “contos de Mel” – A Lua cheia de vento (2015), de autoria de Mel Adún e ilustrado por Reane Lisboa. Jornalista de formação, Mel Adún, ganhou visibilidade como escritora ao participar de diferentes volumes da coleção Cadernos Negros, do grupo paulista Quilombhoje e atualmente cursa o mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Por sua vez, Reane Lisboa é artista plástica e ilustradora, especializada na produção infantil.

Nesse volume Mel Adún se mostra uma habilidosa contadora de histórias ao narrar as peripécias de Gotinha e Ventania, seres encantados da natureza, uma referência-reverência aos deuses-crianças do panteão africano e afro-brasileiro (Erê, Vunji, Ibejis). As vozes dos deuses, os erês são os intermediários entre a divindade e o recém-iniciado, responsáveis por transmitir os pedidos e orientações deste e reproduzir os medos, incertezas e dúvidas daquele. Detentores dos encantamentos próprios das crianças, cabe a esses encantados aprender e ensinar as rezas e danças, de maneira a moldar o corpo que será o peji (altar) do orixá. A partir dessa relação de aprender-ensinar-moldar, Mel e Reane buscam formar o pequeno leitor de modo a rejeitar as imposições e naturalizações dos discursos de preconceito presentes na literatura infantil, pois com esse impresso conseguem:

[...] penetrar,enfrentando, onde o racismo soube melhor se alojar para proliferar: na subjetividade. Mel e Reane, em parceria, produzem uma saída prazerosa contra o racismo e o sexismo. Elas não relatam e desenham uma história infantil, apenas, mas um estado de espírito: a lua cheia de vento (OLIVEIRA, 2016).

Desenvolvido a partir da relação afetuosa de Gotinha e Ventania, o enredo é enriquecido por signos que rememoram a ancestralidade africana viva nas comunidades tradicionais brasileiras. Ancestralidade, essa, sutilmente transcriada por Mel Adún e perceptível no emprego do léxico e nas imagens poéticas que constituem o texto:

Gotinha vivia numa lagoa profunda e bela localizada entre o oceano Atlântico e o Índico. Passava seus dias a brincar com os peixes e a se banhar na lagoa de sua mãe. Era entre otás e cavalos-marinhos que Gotinha brincava com o tempo uma vez ou outra olhava para o céu e sonhava em como seria viver por lá, entre nuvens e estrelas. Imaginava que poderia ficar pulando de um brilho a outro eternamente (ADÚN, 2015, p. 6).

Na apresentação da protagonista o leitor é introduzido ao universo sagrado da natureza cultuado por africanos e brasileiros. Podemos reparar que Gotinha brinca na “lagoa”, ambiente de forte valor litúrgico, morada de “sua mãe” Oxum (senhora da fertilidade, Yabá das nascentes dos rios e lagoas) onde brincava com o “tempo” (divindade Bantu, senhor da nação de candomblé de Angola) junto aos otás (pedras) e cavalos-marinhos. Vemos nesse ponto uma reminiscência da dinâmica do culto aos orixás, que consiste na compreensão da natureza viva, lugar de deuses e encantados.

Ao se envolverem, Gotinha começa a se aventurar em terra firme bem como Ventania passa a visitar a lagoa. Isso gera a desaprovação do “[...] conselho invisível, que comandava as criaturas do seco e do molhado” (ADÚN, 2015, p. 18), a julgar que por serem de espaços distintos não poderiam se relacionar. Devido à reprovação dos seres da natureza, os personagens separaram-se e foram proibidos de transitar entre a água e a terra firme e, com isso, vieram “tempos de tristeza no molhado e no seco” (ADÚN, 2015, p. 21). Contudo,

Numa noite estrelada, que sempre movimentava a imaginação e embalava os sonhos de Gotinha, ela sentiu um vento mais forte que o normal. As árvores se batiam e as águas pareciam que iam mudar de morada. Até que ela percebeu que era o seu amor Ventania que estava no ar. Indo contra as ordens, ela saiu da água e abriu os braços a fim de ser abraçada pelo seu único afeto. O vento veio forte e envolveu Gotinha. Todos da terra e da água foram ver o que estava acontecendo. Antes mesmo que pudessem repreendê-los, Gotinha estava no ar (ADÚN, 2015, p. 22).

Percebemos aqui o “desfecho mágico” dos contos de fadas – característico da literatura para crianças – ser transportado a uma atmosfera da cultura negra. Nesse contexto os encantos voam juntos até as estrelas e passam a ser vistos na lua em “sua forma mais completa, cheia. A lua cheia de vento” (ADÚN, 2015, p. 21). Fortemente associado à figura feminina, o astro está ligado a Oxum, representação do amor e compreensão necessários para aceitação do relacionamento de Gotinha e Ventania. Destarte, esse A lua cheia de Vento surge como uma possibilidade contrária aos discursos preconceituosos ao passo que aponta para a autoafirmação e autoidentificação necessárias ao leitor mais jovem em tempos do recrudescimento do preconceito.

Referências

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: Gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989.

ADÚN, Mel. A lua cheia de vento. Ilustrações de Reane Lisboa. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2015.

OLIVEIRA, Eduardo. Lançamento do livro Lua cheia de vento, de Mel Adún. Disponível em: <https://www.facebook.com/editoraogums/posts/1653317864950963>. Acesso em: 05 mar. 2016.

PRANDI, Reginaldo. Mitologias dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

iPedro Henrique Souza da Silva é licenciado em Letras/Português e bacharelando em Edição, pela Faculdade de Letras da UFMG; bolsista de iniciação cientifica pelo Probic/FAPEMIG e pesquisador do Neia/UFMG.

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