Água de barrela, de Eliana Alves Cruz: a saga de uma família negra no Brasil em três séculos de história

Cátia Cristina Bocaiuva Maringolo*

Não queremos mais aquilo que embranquece a negra maneira de ser
Não queremos mais o lento e constante apagamento da cor de terra molhada suada, encantada...
Queremos os remendos dos panos, nas tramas dos anos sofridos, amados...
E, acima de tudo,
Apaixonadamente vividos.

(Eliana Alves Cruz).

 

As muitas mulheres negras presentes no romance Água de barrela, de Eliana Alves Cruz ― vencedora do Prêmio literário Oliveira Silveira da Fundação Palmares em 2015 ― encontram no lavar, passar, enxaguar e quarar das roupas das patroas e sinhás brancas um modo de sobrevivência em quase trezentos anos de história, desde o Brasil na época da colônia até o início do século XX. O título do romance remete a esse procedimento utilizado por essas mulheres negras de diferentes gerações e que garantiu o sustento e a existência de seus filhos e netos em situações de exploração, miséria e escravidão.

A narrativa inicia-se com a comemoração do aniversário de umas das personagens após viver um século de muitas lutas, perdas, alegrias, tristezas e principalmente resiliência. Damiana, personagem central para a narrativa, cansada das batalhas constante e ininterruptamente travadas pela liberdade, se vê rodeada por sua família e se recorda dos tempos de lavadeira.

Aqueles moços e moças que ali estavam certamente nunca tinham visto uma barrela – aquela água com cinzas de madeira que se colocava na rouparia para branqueá-la. Agora tudo é na máquina, batido com sabão em pó e ponto final. Antigamente lavar roupa era um longo processo artesanal. Primeiro se esfregava e batia-se bem; depois era colocar um pouco no molho da água de barrela, enxaguar mais e pôr no sol para quarar. Quando os panos secavam, entrava em ação o pesado ferro de engomar, que deslizava em cima do tecido com algumas gotas de água de cheiro. Vinco por vinco. Gola por gola. Pronto. Tudo perfumado. Tudo branco. (CRUZ, 2016, p. 17).

O romance baseia-se nas muitas herstories negras ― histórias de mulheres ― da escritora Eliana A. Cruz, de seus antepassados negros e negras que remontam até a travessia forçada de África em direção ao Brasil para servirem de força de trabalho para as plantações dos aristocratas brasileiros, que lucravam e viviam a base de suor e sangre negro.

Os primeiros a chegar são Akin Shangokunle, que posteriormente é batizado de Firmino, e sua cunhada Ewà Oluwa, grávida de seu irmão Gowon, que se torna Helena, oriundos da região do reino de Oió. Ambos sobrevivem aos tormentos do navio negreiro. Ao chegar no Brasil são comprados pelos Tosta, família que iria ter um longo destino entrelaçado aos da família de Akin e Ewà. Mesmo após passar por enormes sofrimentos, Ewà consegue dar a luz a uma menina chamada Anolina, que continuaria a história, a memória e as lutas dos vindos de África.

Divido em duas partes, “Martha e Adônis” e “Damiana e João Paulo”, o romance faz renascer diante dos olhos dos leitores personagens que são constantemente apagadas e desautorizadas do discurso da história brasileira enviesado por falsas noções de uma democracia racial. Eliana Cruz retoma no romance as tantas narrativas das crueldades realizadas pelos senhores de escravos durante o período da escravidão; reflete criticamente sobre a cultura do estupro, tão presente e justificada em tempos de cativeiro; demonstra as constantes lutas empreendidas pelos negros e negras escravizados pela liberdade: de seus corpos, de suas almas, de suas crenças e de suas existências. E, mais do que isso, reflete de modo contundente o tão sonhado fim da escravidão. Para as personagens do romance, parece em muitos momentos que o fim dos dias de cativeiro, de fato, ainda não chegou e que a luta contra o embranquecimento, contra a segregação, contra o sexismo, contra as opressões e contra o racismo precisa ser retomada diariamente.

Esse passado, revisitado por meio das narrativas das várias mulheres negras presentes no romance, possibilita a emergência de um discurso de lutas e batalhas pela liberdade e pela sobrevivência. Nesse sentido, a revisitação do passado deve ser entendido:

como senha para a busca daqueles recônditos ocultos nos discursos estabelecidos; esforço de compreensão da dinâmica histórica desde os começos até as heranças vivas no presente, em sua concretude material, social e, também, subjetiva; olhar indagador sobre aquele continente emudecido pelo tempo em busca de seus porquês, na pista dos porquês de agora. Encarada desta forma, a mirada rumo ao ontem da história pretende entendê-lo como antevéspera do hoje e não como monumento petrificado. O que para muitos é página virada, ainda não passou para os que almejam trançar roteiros de frente para trás, suplementares e alternativos à estrada real da verdade instituída. Roteiros estes traduzidos em formas distintas de literatura. (DUARTE, 2015, p. 167).1

A senha para a compreensão do presente destas personagens se dá por meio da rememoração das narrativas dos que aqui chegaram primeiro: os negros e negras retirados de África renegados a uma existência infra-humana. Firmino e Helena se deparam com uma situação de enorme exploração, constante humilhação e subjugação, justificados por um discurso humanitário e religioso por parte dos senhores e senhoras brancas da família Tosta. Por outro lado, estas narrativas instauram um espaço de luta e de resiliência destas personagens pela liberdade, que somente é conquistada após vários anos de embate e sofrimento.

Ao longo de toda uma geração de mulheres lavadeiras, empregadas domésticas, amas de leite, vendedoras de quitutes, doces, pamonha, etc., estas personagens negras demonstram, primeiro, o desempenho do papel de força de trabalho desde o período da escravidão até os dias de hoje. “– Pois eu vou lavar as privadas desses brancos, vou lavar louça, roupa, passar, engomar.... Mas ninguém depois de mim vai fazer isso outra vez na minha família, está ouvindo bem? Ninguém! E isso vai começar com essa – e apontou para Celina, que ficou encolhida em um canto.” (CRUZ, 2016, p. 354). Muito antes das mulheres brancas brigarem pelo direito de trabalhar fora de casa, as mulheres negras, antes escravizadas e depois libertas, já contribuíam economicamente para a manutenção do status quo dos senhores brancos, e posteriormente dariam uma grande contribuição no sentido de garantir o sustento de suas famílias, de seus filhos.

Por meio também da criação de redes de solidariedade, unidas por um sentimento de sisterhood, estas mulheres negras possibilitariam um futuro mais digno, livre e menos explorada para seus herdeiros e herdeiras de lutas.

Depois de tirar toda aquela roupa dos caldeirões com o alvejante, Isabela, Umbelina e Dasdô, cantando sambas de roda numa mistura mágica de português com nagô, ewe e outras línguas D’África, acomodaram tudo em balaios e se puseram na parte de trás do sobrado, a estender uma a uma as peças muito alvas no extenso varal e no gramado. Na varanda atrás da cozinha, Cecília pilhava milho. Risos misturados com os cantos e com o cheiro de limpeza. O sol fervendo e a roupa secaria cheirosa, alva e brilhante... (CRUZ, 2016, p. 17).

Além de recuperar o importante papel desempenhado pelas mulheres negras, o romance também problematiza a celebração da liberdade concedida pela Princesa Isabel. Assim, como aponta Damiana, o que a sociedade brasileira desejava e, de certo modo, ainda deseja, é o total apagamento do passado negro da escravidão, e mais do que isso, o genocídio da população negra e o aniquilamento das tradições e culturas africanas.

No fundo, ela achava que o que se queria mesmo era que tudo fosse mergulhado nessa água que branqueia. As roupas, as vidas, as pessoas. Todos mergulhados na água de barrela. Riu intimamente, imaginando a cena. Cem anos. Não entendia por que comemoravam com aquela explosão de alegria alguém que durou tanto. Olhava-se no espelho e não gostava de se ver tão velha, apesar de ter a pele surpreendentemente viçosa para alguém que estava prestes a soprar cem velas. (CRUZ, 2016, p. 18).

Ao ver-se refletida no espelho, após tantos anos e tantas gerações de vidas negras despedaçadas pelo racismo, pelo sexismo, pela segregação e pela opressão, Damiana questiona se, de fato, existe algo a ser comemorado, se o tão celebrado e conquistado 13 de maio teve alguma influência efetiva na vida destes sujeitos ainda presos. Para as personagens do romance, desde Firmino e Helena, até Damiana, suas filhas e posteriormente netos e bisnetos, o passado da escravidão ainda se faz presente em suas vidas, pela falta de escolha, pela miséria, pela humilhação. Nesse sentido, se para as personagens negras o passado parece não passar, as personagens brancas lutam com unhas e dentes para que mantenham a mesma posição de dominador dos séculos anteriores, sustentados pela força dos negros e negras. Como o narrador do romance afirma:

O tempo é como farinha numa peneira: não se pode impedir que escorra rápido até sobrar apenas o que não pode passar em seus orifícios. E ele seguiu seu curso implacável para os que cumpriam as tarefas braçais da vida e fluía em seu passo lento para os que desfrutavam do ócio nada produtivo. Na visão dos que viviam para servir, a maioria dos senhores apenas arrumava formas para não fazer nada. Maneiras inventivas certamente, mas mesmo assim inúteis. (CRUZ, 2016, p. 247).

Para além de destruir uma estrutura econômica e financeira sustentada por trabalho escravo, o romance também problematiza a própria noção de liberdade psíquica destes sujeitos. O fim da escravidão não poderia ser realmente conseguido pela simples assinatura de uma lei, uma conquista encharcada de sangue negro. A liberdade também deveria ser proclamada para e pelos corpos e almas destes sujeitos tornados subumanos e por senhores e senhoras brancas animalizados e sub-humanizados pelo sistema de exploração criados por eles próprios. Em um encontro entre Adônis e sua filha Dasdô – Adônis é esposo de Martha, filha de Anolina, ou seja, neta de Ewà Oluwa e Akin Shangokunle – é sintomático os estragos psíquicos ocasionados por séculos de trabalho escravo:

Ela abaixou a cabeça. Ele franziu a testa. No fundo, tinha muita pena da filha por não conseguir se libertar. Suspirou pesaroso, pois subitamente percebeu que ele, Martha e Damiana, embora estivessem livres, também estavam presos... Por alguns momentos, achou que foi em vão tanta luta. Era como se tivessem escapado de uma gaiola para cair em outra mais cruel que estava dentro de cada um deles. Grilhões pesados. Por alguns momentos, sentiu inveja da alienação da neta Nunu. Achou que ela era a única que estava realmente fora daquele “visgo”. A loucura dela aparentava para ele ser mais sã que aquela que atravessava intacta os tempos: a do eterno cativeiro. (CRUZ, 2016, p. 360).

Após servir durante anos a alguns membros da famosa família Tosta, Dasdô morre por causa do excesso de trabalho e pela total negligência dos seus empregadores por seu bem-estar. O que torna essa história mais irônica e cruel é que Dasdô é empregada e não mais escrava: já estamos no século XX, porém, os senhores brancos continuam a encontrar “maneiras inventivas certamente” de manter a posição de subalterno dos sujeitos negros, maneiras criativas e certamente cruéis.

Por outro lado, Água de barrela, por meio da revisitação do passado, demonstra também que nem todos os sofrimentos são eternos, e mais do que isso, que as injustiças terão um fim, mais cedo ou mais tarde. A rememoração destes passados, destas histórias destas mulheres, de Martha, Anolina, Umbelina, Dasdô, Josefa, Tia Nunu, Damiana, e também destes homens, de Firmino, Roberto, João Paulo, Manuel, destas mais diversas vidas marcadas por misérias, opressão, segregação e exploração serve como senha para uma melhor compreensão do presente, e também como força motriz para a construção de um futuro mais justo e igualitário.

Se Firmino estivesse ouvindo seus pensamentos, diria que não existia nada de exótico ou curioso nisso. Ele diria: ― Xangô é rei. Está pisando aqui comigo, e cedo ou tarde a justiça se fará. (CRUZ, 2016, p. 440).

Referência

CRUZ, E. A. S. Água de barrela. Brasília; Distrito Federal: Fundação Cultural Palmares, 2016. 454 p.

 

1 DUARTE, Eduardo de Assis. Margens da história: a revisitação do passado na ficção afro-brasileira. In: SISCAR, Marcos; NATALI, Marcos (Org.). Margens da democracia: a literatura e a questão a diferença. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Editora da USP, 2015. p. 167-189.

* Cátia C. B. Maringolo é professora, mestra em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/FCL e doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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