Um corpo lido: Carolina de Jesus por Elzira Perpétua

Laura Padilha*

 

Chega a nós, no espaço das comemorações dos 100 anos de Carolina Maria de Jesus, uma obra por catorze anos esperada por muitos estudiosos da questão negro-africana no Brasil. Trata-se de A vida escrita de Carolina de Jesus, assinada por Elzira Divina Perpétua, na origem uma tese de doutorado, defendida, em 2000, na Universidade Federal de Minas Gerais. A “vida escrita” se faz “corpo lido” que os leitores hão de percorrer, a princípio, talvez com uma certa dose de espanto, quando estiverem frente a frente com um texto tecido de modo absolutamente apaixonado por sua autora que, como professora, não desconhece o rigor que a deve mover.

Em meu entendimento, só escrevemos sobre aquilo que nos abisma e seduz (lição de Barthes), pois, apenas assim, como um dia afirmei, o livro lido se faz um objeto que desliza suave entre nossos dedos, em toque de corpo com corpo, levando-nos para um lugar onde nos deparamos com as engrenagens de um mundo apenas possível, construído pelo imaginário de alguém. Depois desse mergulho no abismo, iniciamos nossa luta com a obra já lida, tentando desvendar-lhe os meandros e, em certa medida, fazê-la nossa também, quando sobre ela escrevemos.

Parece-me ser esse duplo movimento o que o leitor de Elzira Perpétua encontrará neste seu belo e rigoroso ensaio. Como hábil “caçadora”, ela penetra a magia do objeto que seu prazer elegeu e, no caminho de volta (o do seu próprio texto) busca desemaranhar os fios que a escritura tecera, a nos lembrar Penélope ou Aracne. O resultado é que nós próprios, seus leitores, temos de nos entregar a um processo de igual destecelagem, já duplo, pois que estamos com Carolina e Elzira, tecidas em letras.

Como uma espécie de parêntese, quero lembrar que a chegada do Diário de Carolina entre nós brasileiros, a partir do ano de 1958, quando eu própria era ainda estudante de Letras Neolatinas, foi algo da ordem do memorável. Percorríamos, quase compulsivamente – nós, os alunos de então, e alguns dos nossos professores, e mesmo familiares – os jornais e/ou revistas em que os fragmentos deste Diário circulavam. Eram infindáveis telefonemas para trocarmos o que havíamos encontrado e discutir o Brasil com que sonhávamos.

O livro, ao ser editado, em 1960, causou um quase abalo sísmico, principalmente em muitos de nós, negros, que havíamos vivido, em nossa infância e mesmo adolescência, uma dupla exclusão: a de classe e de raça. Nele, víamos a esperança de que, um dia, viveríamos em um Brasil mais justo e que o legaríamos a nossos descendentes. Hoje, olhando para trás, vejo que muito já foi feito, mas que, ainda, há muito que fazer.

O ensaio da Professora Elzira Perpétua é um alento e, em certa medida, um chamado para que não esqueçamos aqueles que sonharam com um mundo melhor e mais justo, como Amílcar Cabral; Anísio Teixeira; Paulo Freire; Sérgio Buarque de Holanda; Dom Hélder Câmara e tantos outros. De certo modo, a sua obra sobre Carolina ainda sustenta nosso sonho dos anos 50 e 60, sonho que se suspende quando, em 1964, soam os sinos que anunciam um réquiem.

Ao abrir A vida escrita, senti a mesma emoção que vivera, em 2000, ao analisar a tese de doutoramento, como docente participante da banca da autora, momento em que me vi frente a frente com um texto que nada deixava de fora, recusando-se a seguir uma certa mesmice acadêmica, para fazer-se um gesto político de desvelamento, não apenas de uma obra literária, mas da história do tempo em que foi concebida. A ensaísta como que “descasca” a história do livro de Carolina, em todos os seus aspectos, desde sua produção até o seu ultrapassar das fronteiras nacionais, quando é traduzido em um número infindável de países. A meu ver, o processo de feitura desta obra de Elzira é o resultado de uma espécie de “tradução”, que vai muito além da tradução stricto sensu.

No belo ensaio “O mundo enquanto Índia. A Conferência São Jerônimo sobre tradução literária”, Susan Sontag defende “a tese de que o exame adequado da arte de tradução literária é essencialmente uma afirmação da literatura em si.” (2008, p. 167). O que Elzira faz é um pouco isso, embora tenhamos que ampliar o sentido de “tradução”, sentido sobre o qual ela também trabalha, quando demonstra como as versões de Quarto de despejo cobrem a obra, já que ela ganha a roupagem de uma outra língua e, sendo o mesmo, já se faz um outro, pois é impossível ser-se exato e rigoroso quando se traduz, apesar de todo o esforço para que o sentido não se perca. A “tradução” de Elzira realiza também isso, transformando o “corpo escrito” em “corpo lido”, em claro processo de simbiose, que eu chamaria de amorosa.

Os que leram, e ainda lêem, Quarto de despejo, sabem o processo que o institui como livro, quando o organizador brasileiro apresenta-o como um objeto tangível, que já passara por seu crivo de leitor, o que faz com que o texto passe do singular para o plural, pois o que o leitor lê já são dois “tipos de textos”, como bem o explicita a autora de A vida escrita. O trabalho de desmontagem desse processo, a meu ver, é um dos mais consistentes resultados de leitura da obra de Carolina, que eu conheço, e revela todo o pacto que se estabelece entre essas duas mulheres de escrita.

Como exímia “caçadora”, conforme aqui já dito, a estudiosa não pára nesses dois “tipos de textos”, aqui recuperados, indo muito além. Resgata as reportagens, quando o diário aparecia como fragmento; os debates que sobre ele se fizeram; o impacto que causou o livro; as suas diversas edições brasileiras, etc. Daí, parte para as traduções em várias línguas, ou seja, para a recepção da obra de Carolina em outros contextos culturais. Com isso, Elzira Perpétua propõe um recorte analítico que leva o seu leitor a descobrir as várias camadas que cobrem o livro e sua recepção, desde que ele sai das mãos da sua autora e ganha o mundo.

Ao se debruçar sobre os textos e seus paratextos, por exemplo, não apenas no que se refere ao Brasil, mas no que se dá no âmbito das traduções estrangeiras, a autora de Vida escrita comprova, pelo manto da diversidade por ela criado, como é densa a obra da escritora que agora completa 100 anos. Em certo sentido, a sua é uma obra de celebração que, ao mesmo tempo, revela o gesto amoroso que a move em direção ao texto que a abismou como leitora, e o rigor da pesquisa que realizou e que acaba por dar força àquilo que seria uma simples celebração. Desse modo, ela atinge com precisão um terceiro corpo, o do seu leitor, que também foi leitor de Carolina. Os imaginários se encontram nesse mar de dizeres entrelaçados.

Tenho por princípio que, quando se apresenta um livro, não se pode interferir no prazer da descoberta dos leitores que o têm nas mãos. É ele, livro, que se deve apresentar, como dádiva e doação. Assim, concluo lembrando o que Barthes nos diz, em sua Lição, ou Aula, sobre o que, para ele, os gestos de ensinar e difundir um saber acabam por trazer para nós, que os recebemos. Trata-se do que ele chama de “Sapientia” e que, a seu ver é algo que se constitui de: “nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível”. (1997, p. 41).

Que os leitores de Elzira possam desfrutar do seu saber, de sua sabedoria e, principalmente, do máximo sabor que o seu texto passa para nós, que conhecemos Carolina Maria de Jesus e o que ela pôde fazer com seu Diário, em que dor e prazer se cruzaram para, afinal, nos fazer compreender que a vida não acaba com a morte, quando esta vida é escrita, em fragmentos embora, mas com muito sabor.

Elzira Divina Perpétua, por sua vez, também nos leva a entender que, afinal de contas, é este sabor que todos perseguimos. Desejo-lhe que não pare por aqui, pois sei que ainda tem muito a dizer sobre Carolina e sua Vida escrita. Nós, seus leitores, antecipadamente agradeceríamos se ela não nos fizesse mais esperar catorze anos. Bem hajam o livro e sua autora.

* Laura Cavalcanti Padilha é Doutora em Letras pela UFRJ e Professora Emérita da UFF – Universidade Federal Fluminense –, com larga experiência no estudo das literaturas africanas de língua portuguesa. Dentre suas publicações destacam-se Entre voz e letra (2. ed., 2007) e Novos pactos, outras ficções (2002), ambos publicados no Brasil e em Portugal.

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