Caminhos percorridos, sendas descobertas:

Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento

Thamyris Rodrigues*

Gustavo Tanus**

Um retrato
Um retrato,
Um espelho.
Um rosto,
Um outro rosto.
Quantas faces de si em si mesma?

(Beatriz Nascimento, p. 36).

 

O livro Todas [as] distâncias: poemas, aforismos, e ensaios de Beatriz Nascimento, organizado por Alex Ratts e Bethânia Gomes, é uma importante publicação, lançada pela editora Ogum's Toques Negros em 2015, por reunir escritos de Beatriz Nascimento. Ela, “mulher, negra, nordestina, migrante, professora, historiadora, poeta, ativista, pensadora”, militou no movimento negro, principalmente em favor das mulheres negras, integrando, assim, "[...] uma linhagem de mulheres que não se cala(ra)m". (RODRIGUES, 2016).

O projeto do livro surgiu da "amizade-irmandade" entre o professor-pesquisador Alex Ratts, autor da obra Eu sou Atlântica, sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento1, e da filha, Bethânia Gomes, que desejava publicar os poemas deixados por sua mãe. Assim, o livro é resultado do encontro profícuo do pesquisador com a guardiã dos escritos de Beatriz. Resultado, pois, de "duas leituras, duas intenções" (p.16), em que cada um, à maneira de seu odu, de seu destino, aponta caminho (em distâncias diferentes) em relação à Beatriz.

O volume é muito bem acabado, e apresenta-se por uma capa incitante, cuja imagem indica movimento, gestos que caracterizam um discurso de Beatriz, portanto, sugere, a nós, seu lugar de fala, em que podemos contextualizar a mulher militante. Aliado a esse efeito, a ilustração que compõe a quarta capa (ver acima), sugere representatividade, sendo constituída a imagem pela silhueta, que sabemos ser (obviamente) da própria Beatriz, mas que, não tendo identificação evidente/patente, remete a toda mulher negra. Percebemos, nisto, a representação gráfica da sororidade. Destacamos o primor das ilustrações de Iléa Ferraz que compõem as páginas capitulares, desenhos afroidentificados de traçados próprios, autorais, com um estilo que recupera certa tradição africana de composição. Vale dizer que essas imagens não são apenas ilustrações de um texto verbal, senão um modo de ver (dentro do mecanismo de visão de "longe-perto", proposto por este livro) que suplementa os textos de Beatriz.

O livro, que é resultado da reunião de textos variados, contém as seções: Poesias, Aforismos, Ensaios, e uma parte intitulada "Leituras de longe-perto". Esta divisão por gêneros literários e críticas, esse modo de reunir textos da intelectual-escritora Beatriz Nascimento e os paratextos que circundam esses textos, reconstrói as noções mais conservadoras das reuniões de textos, sendo múltiplo: antologia de poesias, seleta de aforismos, reunião de ensaios, e livro de críticas, tornando-o publicação contemporânea.

A seção dedicada aos poemas subdivide-se em três: "Próxima, primordial"; "Mítica, histórica"; e "Existencial, cósmica". Na primeira parte da seção estão os poemas que se relacionam ao período da infância, à constituição da família e sobre as pessoas de seu trato na vida adulta. A subseção seguinte traz a leitura que Beatriz Nascimento faz dos ancestres primeiros da Cosmogonia Africana, e dos ancestrais terrenos como Zumbi, das resistências no quilombo, das transgressões, crises, das relações raciais, das marcas da escravidão, da ditadura etc. A última, intitulada "Existencial, cósmica", trata do "fazer poético", das questões de ordem particular em metáforas para assuntos relacionados à existência.

De modo geral, são poemas bastante intimistas, em que a voz poética negra e feminina constrói-se concomitante ao processo de leitura-interpretação do mundo que a cerca, desvelando o racismo pela desconstrução dos mecanismos que fundamentam as atitudes racistas, e denunciando o gasto de energia consumido na tentativa de autoconhecer-se, como mulher − e como mulher negra − dentro desta sociedade machista, racista e excludente.

A seção "Aforismos"2 dispõe textos mais prosaicos, mas não afastados de uma poética, comportando características estilísticas − versos, ritmos cadenciados, repetições etc. Os textos aforísticos de Beatriz Nascimento são inolvidáveis, porque formalizam um processo de constituição do eu (comum a todos, mesmo que não (d)escrevamos de modo poético como ela faz); e constantes, mesmo que ela desconstrua esse contínuo íntimo, por inquirições sobre o que é, na busca de constituir-se como ser humano, com mulher, como mulher negra.

Na parte dedicada aos "Ensaios" estão os textos mais analíticos em uma prosa muito bem articulada e cuidadosa, em que a voz narrativa (um eu feminino de presença marcante e que não se ausenta) é bastante ponderadora, que trata do embate periódico entre as resistências diárias frente às possibilidades de desistência. Nestes ensaios vemos uma operação de ponderação sobre ser negro e as questões que marca(ra)m a questão racial no Brasil. O caminho que a voz narrativa perfaz é o de questionar o racismo como uma instituição histórica que não se finda com a abolição da escravatura, sendo pedagogicamente difundida pela linguagem através dos tempos. O racismo fornece modos de ver o negro, vide a cena do porteiro e do elevador cujo questionamento da humanidade do negro é análogo ao gesto do menino, no episódio em que este levanta sua saia para certificar o sexo de Beatriz. A desculpa dada pelo porteiro é a mesma do menino violador − de que não tinha como adivinhar −, isso não ameniza os danos causados. E mais, não reduz a brutalidade dos gestos. Destarte, os ensaios revelam o racismo como um problema social e atual, além da obviedade de suas raízes históricas, e desvelam seus sintomas, o que torna os textos atuais importantes para uma reflexão contemporânea.

Na seção final, "Leituras de longe-perto", é onde se completa a metáfora das distâncias, porque relativas são as distâncias em relação à Beatriz Nascimento − e como leitores colocamo-nos em um ponto em que é possível calcularmos todas essas distâncias. Esta parte contém uma poesia de Arnaldo Xavier, textos crítico-teóricos de Alex Ratts, Lúcia Gato, Christen A. Smith.

"Beafricanção" recria poeticamente a multiplicidade/complexidade de Beatriz, a partir de uma tática poética afrocentrada, que lhe é bem própria. Assim, o sobrenome "Nascimento" pode ser lido como origem, aliado às substâncias − importantes para o imaginário negro das quais ela deriva − e as quais ela reconstrói por meio de sua atividade intelectual.

 

BeaTRIZ do Nascimento da Luz
BeaTriZ do Nascimento do Ori
BeaTRiz do Nascimento do Luar
BeatriZ do Nascimento da semente
BeaTriz do Nascimento do fogo
Beatriz do Nascimento da cor
BeaTRIZ do Nascimento da noite
BeatriZ do Nascimento do vento
BeatrIZ do Nascimento de Oxum
BeatRIZ do Nascimento da flor
BeaTRIZ do Nascimento da negra
BeaTRiz do Nascimento do negro
BeaTriz do Nascimento do mar
BeaTRiz do Nascimento da terra
BeaTRIZ do Nascimento de raiz
BeatRIZ do Nascimento da lágrima
BeaTRiZ do Nascimento do tempo
BeaTrIz do Nascimento da chama
BeaTrIZ do Nascimento da flecha
BeATRIZ do Nascimento da pedra
BeatRiz do Nascimento do Sol
BeatriZ do Nascimento do Quilombo
BeatrIZ do Nascimento do tambor
BeaTRIZ do Nascimento dÁfrica
Beatriz do Nascimento da escuridão
BeatRIZdo Nascimento de Iansã
Beatriz do Nascimento QUE DOR

(XAVIER, p. 118).

 

Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento demonstra extrema atualidade, abrindo caminhos de identificação com o sujeito leitor de agora. Beatriz humaniza a mulher militante. E sua voz − poética, e narrativa − inspira uma intimidade profunda que é como se ela fosse a vizinha que nos viu crescer; ou como se fosse a nossa primeira prima que conseguiu entrar na universidade pública e se formou, e percebe a importância e a necessidade de ser inquiridora e ativista política, e tomar a luta contra o racismo como motivo de vida. E de escrita.

Todas [as] distâncias..., por sua forma e pela substância reveladora, emerge também como uma biografia literária. E permite perceber a literatura, a fala-gesto das mulheres, como atitude de resistência frente ao sistema literário que ainda hoje é de maioria branca, masculina, com autores ligados aos espaços privilegiados de produção do discurso. (DALCASTAGNÈ, 2012).

O leitor de poesia/prosa terá às mãos textos tocantes e complexos em variados gêneros e sentidos, resultados dos caminhos percorridos por Beatriz Nascimento. Falecida em fins do século passado, ressurge no livro como uma intelectual negra dos tempos de hoje, que faz poesia, e nos mostra, como sendas descobertas, que a reflexão e o "ativismo" são atividades que comportam o belo, uma estética, portanto, formadora de uma poética.

 

Referências

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro: Editora da UERJ; Vinhedo: Horizonte, 2012.

MARIA BEATRIZ NASCIMENTO. In: OLIVEIRA, Eduardo de (Org.). Quem é quem na negritude brasileira. v. 1. São Paulo: Congresso Nacional Afro-brasileiro; Brasília: Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, 1998. p. 192.

NASCIMENTO, Beatriz. "Um retrato". In: RATTS, Alex; GOMES, Bethânia (Org.). Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Salvador: Ogum's Toques Negros, 2015. p. 36.

RATTS, Alex; GOMES, Bethânia (Org.). Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Salvador: Ogum's Toques Negros, 2015.

RODRIGUES, Thamyris. Biografia. Poema Inédito, 2016.

XAVIER, Arnado. Beafricanção. In: RATTS, Alex; GOMES, Bethânia (Org.). Todas [as] distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento. Salvador: Ogum's Toques Negros, 2015. p. 118.

1 RATTS, Alex. Eu sou Atlântica, sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Instituto Kuanza; Imprensa Oficial, 2006.

2 Gênero textual [literário-filosófico] composto por sentenças carregadas de breves conceitos que visam perceber o mundo por meio de uma expressividade concisa e precisa.

 

* Thamyris Rodrigues é formada pela Escola Pública Estadual Professora Benvinda de Carvalho, ex-aluna da Educafro Minas e, atualmente bacharelanda em Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação, da Universidade Federal de Minas Gerais.

** Gustavo Tanus é Licenciado em Letras/português, bacharel em Edição, ex-professor da Escola Estadual Professora Benvinda de Carvalho, é atualmente mestrando em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFMG, bolsista CAPES, pesquisador do NEIA/UFMG; e atua como bolsista do Programa de Incentivo à Formação Docente, no curso de Formação Intercultural para Educadores Indígenas, FIEI/FaE/UFMG.

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