O ensaio negro ibero-americano em questão: apontamentos para uma possível historiografia

 

Gustavo Bicalho*

O ensaio, gênero cuja história é comumente associada ao século XVI e à figura de Montaigne, reencontra sua tradição entre os escritores afrodescendentes nas américas. Em tempos de numerosa propagação de blogs voltados para temas como a cultura, a moda e a arte negra, nos quais o ensaio ocupa lugar privilegiado, não seria exagero dizer que esse gênero – ou “forma”, como prefere Theodor Adorno1 – representa hoje um dos principais campos de expressão do pensamento da diáspora africana. Sua história dentro da cultura negra ibero-americana é, no entanto, bem mais antiga que seu uso nas mídias digitais e ainda não foi propriamente contada. Ainda, ressalte-se, pois o livro O ensaio negro ibero-americano em questão: apontamentos para uma possível historiografia, organizado por Rodrigo Vasconcelos Machado, acaba de ser publicado pela UFPR, provando que há gente qualificada com a preocupação de preencher esta lacuna.

O livro é resultado do Primeiro Encontro Nacional do Ensaio Negro Ibero-Americano, ocorrido em novembro de 2015, em Juiz de Fora e, como ressalta o organizador da edição, busca cobrir a demanda de estudos de uma tradição escrita que, embora de existência há muito atestada, “não foi colocada em relação”. Pode-se dizer, em outros termos, que o ensaio negro ibero-americano é, sim, conhecido, mas permanece pouco reconhecido. Somados, os artigos do volume ajudam a mostrar que o ensaio, por sua capacidade de atravessar campos com poder argumentativo e de debate, sem submeter-se a grandes ritos metodológicos, é ferramenta fundamental para difusão de um conhecimento diaspórico vivo, que alimenta a prática política e social, ao mesmo tempo em que se retroalimenta dela.

Talvez a face mais evidente dessa retroalimentação esteja nos artigos que sugerem, em seus objetos de estudo, a produção de uma episteme negra transnacional. É o caso do texto de Luiz Henrique Silva de Oliveira, que, por meio de uma leitura atenta da produção ensaística de Cuti, pseudônimo de Luis Silva, nos coloca em contato com um pensamento questionador da epistemologia racista e denunciador de seus disfarces na cultura brasileira, seja no nível da linguagem, da autoria, do ponto de vista, da identidade ou do público leitor. Enunciação semelhante é encontrada nos textos de Quem ama literatura não estuda literatura, livro de Joel Rufino dos Santos detalhadamente resenhado por Natã do Espírito Santo, que consegue extrair dos textos do historiador e professor de literatura um conjunto de seus posicionamentos diante de questões ligadas ao ensino e aos cânones das ciências humanas no Ocidente e no Brasil. O estudo reforça a imagem de Rufino como intelectual engajado, além de demonstrar o uso do ensaio como texto favorável à crítica indisciplinada, capaz de incomodar e transformar.

Compondo ainda a diversidade da episteme negra, somos apresentados ao pensamento de Edimilson de Almeida Pereira por dois artigos. O primeiro deles, de Prisca Augustoni compara a obra ensaística de Pereira com seu vasto trabalho poético, fazendo notar como referências explícitas ao repertório afro-brasileiro nos textos teóricos ou críticos se contrastam com uma figuração camuflada no tecido poético. Já o artigo de Deviane Moreira e Silva esboça um mapeamento dos textos críticos de Pereira, dando destaque aos diálogos que estabelece com a formação do cânone nacional e os debates sobre Literatura Negra. A incorporação do silêncio e da musicalidade, bem como a inscrição de uma visão aberta da literatura afro-brasileira são alguns dos índices que aí despontam. E, nesse diapasão da corporalidade presente no repertório afro-brasileiro, o próprio Edimilson de Almeida Pereira contribui com um artigo para a coletânea, no qual aborda alguns aspectos da obra da professora, poeta e ensaísta Leda Maria Martins, ressaltando suas importantes contribuições aos estudos sobre as poéticas banto-católicas articuladas por agentes dos grupos de Congado em Minas Gerais. Destacando a singular e profunda interação entre pesquisador e pesquisado nos ensaios de Martins sobre o Congado, o artigo de Pereira demonstra porque a considera como uma das intelectuais afro-brasileiras mais instigantes da atualidade. Também Mãe Beata de Yemonjá, cujos textos de teor ensaístico são estudados por Felipe Fanuel Xavier Rodrigues, exemplifica a importância da oralidade afro-brasileira traduzida para o plano escrito. Tudo isso sem o prejuízo dos saberes tradicionais corporificados do candomblé, que se atualizam nos ensaios de Mãe Beata como expressão de uma escrevivência.

A atualização da tradição corporificada une-se à questão epistêmica no artigo que Cristiane Veloso de Araújo Pestana dedica às importantes contribuições dos estudos feitos pela educadora Nilma Lino Gomes para os temas das ações afirmativas, bem como da estética e da autoestima ligadas à identidade negra. O trabalho faz uma revisão importante das contribuições de Gomes como pesquisadora em um momento em que se reconhece nacionalmente a importância de sua atuação na educação e na política. A revisão de seu trabalho com os salões de beleza étnicos aponta para um recorte feminino da tradição ensaística afro-brasileira, presente no artigo de Maria Aparecida Salgueiro. O texto destaca e discute a contribuição de três importantes ensaístas negras: Alzira Rufino, Lelia Gonzales e Conceição Evaristo, contribuindo para a historiografia a que o livro se propõe ao trazer as vozes de mulheres negras que “se recusaram a se calar diante da avalanche de injustiças e violências de uma sociedade racista, machista e que (...) ainda se recusa, majoritariamente, a se reconhecer como tal”. As duas últimas citadas têm sua contribuição resgatada individualmente na obra. Lélia Gonzales é estudada com foco no conceito de “amefricanidade”, cunhado com o intuito de questionar um ideal elitista de latinidade. Uma noção de América entrelaçada nas malhas da diáspora africana e nas lutas sociais pelos direitos de negras e negros no continente se desprende do conceito crítico e propositor da ativista. Já Conceição Evaristo tem seu pensamento crítico-literário estudado por Jair Rodrigues dos Santos como parte do projeto de revisão das histórias da África e da diáspora. Espelhando entrevistas, depoimentos, textos críticos e a ficção da autora, ele identifica um projeto de subversão de modos contemporâneos de escravização da psyché e do corpo negro, opondo-os a uma “geografia da resistência”.

Compondo a mesma geografia, encontramos os artigos de Dejair Dionísio sobre a escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt e de Ciomara Breder Kremsper centrado na figura da poeta angolana Paula Tavares. Dionísio estuda a crônica “Sucupira”, de autoria de Bettencourt, por meio de sua relação com um ethos da insularidade e os temas da transculturação e da ressignificação da identidade cabo-verdiana sob um ponto de vista feminino. Já Kremsper situa a escrita de Tavares em um entre-lugar discursivo, diante de um panorama do ensaio em Angola. Valendo-se de conceitos derivados dos Estudos Culturais, a autora do artigo toca em temas fundamentais da poesia de Tavares, como a oralidade, o corpo, o exílio e a ancestralidade. Como último exemplo desse traçado resistente, há ainda o estudo de Maria Cristina Chaves de Carvalho acerca de textos literários e ensaios de Mia Couto e Luandino Vieira. A inovação literária mostra-se indissociável da esfera política dos textos desses autores, lida no contexto mais geral da formação de uma historiografia literária do ensaio nos países africanos de língua portuguesa.

Além da identificação de geografias e historiografias de resistência, há ainda a abordagem arquivística. É o caso do artigo de Anelito de Oliveira, que recupera a correspondência entre os abolicionistas André Rebouças e Joaquim Nabuco. Desvelando o pensamento do engenheiro Rebouças da sombra de Nabuco e expondo criticamente o diálogo entre os dois intelectuais, Oliveira contribui para a construção do que ele próprio chama de “uma história das ideias negras”. Já Maria Nazareth da Fonseca realiza um perfil crítico-biográfico do intelectual angolano Mário Pinto de Andrade, nascido em 1928. Fonseca apresenta ainda um interessante conjunto de entrevistas concedidas por Andrade a Michel Laban entre 1984 e 1987, contribuindo para a ideia de que a entrevista possui forte potencial para a produção de material ensaístico. Alfeu Sparemberger delineia a herança intelectual de Amílcar Cabral, defendendo serem seus textos ensaios de cunho revolucionário com profunda coerência. Para ele, o dirigente da libertação dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde assassinado em 1973 soube conciliar teoria e ação com organicidade, servindo de exemplo e referência para os contemporâneos. Ainda neste trabalho de recuperação arquivística, o estudo de Sandro Gomes dos Santos vale-se do fato de o poeta sergipano Tobias Barreto nunca ter ido à capital do Império como exemplo de sua independência e singularidade, as quais analisa por meio de suas posturas de vida e intelectuais.

Os dois artigos que se debruçam sobre a obra ensaística de Manuel Zapata Olivella (1920-2004) parecem sintetizar toda a proposta do livro, por apresentarem um escritor cujos posicionamentos diante de questões políticas, estéticas e culturais reverberam questões fundamentais para se pensar as identidades negras no espaço ibero-americano. Rodrigo Vasconcelos Machado, preocupado em recuperar um conceito de “ensaio negro” transnacional, investiga a produção do escritor afro-colombiano notando nele a defesa de um lugar de enunciação negro fortemente marcado, sem o prejuízo de suas especificidades e diferenças. Já Uruguay Cortazzo Gonzáles traz uma importante reflexão sobre o conceito de mestiçagem (ou mestizaje), a partir dos ensaios de Olivella. Distintas da visão de hibridismo cultural que alimentou os racismos disfarçados de nacionalismo em toda a América pós-colonial, as reflexões de Olivella apresentam o pensamento crítico de um mestizo sobre a mestiçagem que não dilui as tensões raciais que denuncia.

No terreno revirado de tensões que marcam a diáspora africana nas américas, o olhar meticuloso para esses ensaios e seus ensaístas revelam a diversidade e as confluências do pensamento negro ibero-americano. Gênero, forma ou modelo de escrita, o ensaio favorece a insistente renovação desse pensamento por meio da capacidade dos autores em articular as vozes tradicionais e inovadoras da diáspora.

Referência

MACHADO, Rodrigo Vasconcelos (Org.). O ensaio negro ibero americano em questão: apontamentos para uma possível historiografia. Curitiba: UFPR-SCHLA, 2016.

1 ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In: ADORNO, Theodor. Notas de literatura I. São Paulo: Editora 34, 2003, p.15-45.

* Gustavo Bicalho é doutorando em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UFMG e pesquisador do NEIA/UFMG. É Bacharel em Letras/Português e mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG.

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