O negro na encruzilhada da representação

Eduardo de Assis Duarte*

Quem percorre as páginas do livro de Luiz Henrique Oliveira já de início se admira da amplitude da pesquisa, que cobre praticamente todo o século XX, a fim de abordar textos exponenciais de nossa produção romanesca voltada para o protagonismo afrodescendente. A surpresa diante da abrangência do recorte – que vai de Macunaíma (1928) a Viva o povo brasileiro (1984) – amplia-se ainda mais ao constatar que, ao lado dos seis romances objeto do estudo, o crítico percorreu dezenas de outros, de praticamente todas as décadas do século. E ainda se debruçou sobre o Cubismo europeu e suas inspirações africanas, além de se dedicar a Nicolás Guillén e demais expoentes da “Cubanía” negrista dos anos 30 e 40 e a poetas brasileiros da “fase heroica” do nosso Modernismo. O propósito ou eixo central dessa busca é o negro e sua construção enquanto personagem. Negro inscrito em texto a partir de olhares alheios, objeto do discurso do branco, na condição de não ser ainda sujeito da própria escrita.

Integrante de uma geração de jovens pesquisadores que encara de frente a complexa diversidade cultural que nos constitui, o crítico mergulha fundo na questão e, como não poderia deixar de ser, começa pelos começos. Volta-se para a herança africana presente na ante cena de obras cubistas de mestres como Picasso e Braque, para nelas detectar a apropriação de opções estéticas e procedimentos formais, logo batizados de “primitivos” pelo olhar vanguardista do começo do século. Percorre então os primeiros passos da descoberta moderna do Outro como forma de ruptura estética e, num plano mais amplo, de questionamento do contexto repressivo traduzido pelo que Freud chamou à época de “mal estar da civilização”.

Em seguida, mergulha na produção do Negrismo Cubano da primeira metade do século, a fim de apontar suas consonâncias e dissonâncias, tanto com a produção dos escritores da Renascença do Harlem estadunidense, quanto da Negritude francófona dos anos 30 e 40. O crítico detecta a presença de um olhar que tende, em muitos momentos, a manter a representação das expressões culturais da diáspora africana nas Américas ainda presa a uma perspectiva tendente ao folclórico e ao exótico. Tudo isto para adentrar em seguida à poesia de Mário de Andrade, Raul Bopp e Jorge de Lima, com vistas à leitura do negro enquanto inovação temática frente às heranças literárias do século XIX. E somente após percorrer todas essas manifestações precursoras, passa o autor a examinar a ficção que tem como objeto o afrodescendente num país marcado por mais de três séculos de escravidão.

E começa justamente por Macunaíma – verdadeiro monumento de uma década de profundas mudanças na literatura brasileira. Seu protagonista, nascido índio-negro, é embranquecido no trajeto do espaço primitivo até São Paulo, torna-se “herói sem caráter” e, para um de seus mais respeitados intérpretes, símbolo das “desvirtudes nacionais”. Luiz Henrique Oliveira trabalha com recortes precisos do texto e se afasta de apreciações totalizantes. Embora reconhecendo o valor literário da rapsódia de Mário, analisa passagens específicas, em que o ser negro se destaca enquanto diferença física e cultural, para ali perceber o rebaixamento que irá despontar em outras representações posteriores. De Macunaíma chega a João Felício dos Santos e seu Xica da Silva, popularizado nas versões para cinema e televisão. E de novo lança seu olhar crítico sobre os estereótipos que, inclusive, comprometem o projeto sério-cômico que fundamenta a representação da personagem.

Em seguida, analisa dois romances do que denomina “negrismo historicista”: A marcha, de Afonso Schmidt, e Tambores de São Luiz, de Josué Montello, ambos localizados no tempo das lutas contra a escravidão e no contexto da sociedade preconceituosa e excludente que persiste após a Lei Áurea. Destes, passa a Antônio Olinto e sua trilogia africana, da qual destaca A casa da água – narrativa centrada na vida dos ex-escravos retornados à terra dos ancestrais. E fecha seu estudo com uma leitura inovadora de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, interpretado como um dos pontos culminantes da trajetória negrista em nosso romance do século XX.

Enfim, tem o leitor acesso não apenas a uma conceituação ausente dos estudos literários brasileiros. Nela, o negrismo emerge como operador teórico de força similar à do indianismo, sempre útil para uma correta interpretação da visão romântica de nosso período colonial. Tem igualmente em mãos exercícios críticos densos e bem elaborados quanto à aplicabilidade do negrismo como ferramenta analítica eficaz na distinção do negro objeto frente àquele que fala por si e por seu lugar de cultura. Depois de Poéticas negras, livro de estreia em que confronta Cuti e Castro Alves, Luiz Henrique Oliveira põe de pé uma inestimável contribuição para a crítica literária contemporânea.


* Eduardo de Assis Duarte é professor da Faculdade de Letras da UFMG. Autor de Literatura, política, identidades (2005) e de Jorge Amado: romance em tempo de utopia, (1996). Organizou, entre outros, Machado de Assis afrodescendente: escritos de caramujo. (2007), a coleção Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica (2011, 4 vol.) e os volumes didáticos Literatura afro-brasileira, 100 autores do século XVIII ao XXI e Literatura afro-brasileira, abordagens na sala de aula (2014). Coordena o Grupo Interinstitucional de Pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira” e o literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, disponível no endereço www.letras.ufmg.br/literafro.