Adão Ventura sob o olhar de Édimo de Almeida Pereira

 

Gustavo Tanus*

 

Neste ano de 2014 completam-se dez anos da ausência de Adão Ventura, falecido em 12 de junho de 2004, cuja obra deixou suas marcas na a poesia brasileira contemporânea. Não obstante isso, sua obra não foi, até bem pouco tempo, objeto de estudos que a analisassem a partir de um eixo, senão pela apreensão de alguma das suas faces. Em busca de uma análise mais sistematizada e transversal, o pesquisador Édimo de Almeida Pereira publicou Metamorfoses do abutre: a diversidade como eixo na poética de Adão Ventura. O livro não é lançamento recente, pois foi editado em 2010, entretanto, dada a sua importância, merece destaque neste decenário.

Édimo de Almeida Pereira, de formação em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é músico, escultor e escritor, tendo publicado diversos títulos em literatura infantojuvenil. Doutorando em Estudos Literários por essa mesma instituição, e proveniente de uma família de escritores e intelectuais, Édimo pesquisou, no mestrado, a poesia de Adão Ventura, cujo resultado é tão importante quanto necessário, porque perpassa a obra, desde o primeiro livro – a prosa poética de verve surrealista Abrir-se um abutre ou mesmo depois deduzir dele o azul –, até o último, Litanias de cão, de poemas mais concisos e diretos, não se detendo apenas no A cor da pele, evidentemente seu livro mais importante, porém inserido dentro de uma produção maior.

Adão Ventura Ferreira dos Reis, neto de homens escravizados, que trabalhavam em fazenda e mina, nasceu no dia 5 de julho de 1939 em Santo Antônio do Itambé, antigo distrito do Serro, no vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, lugar de uma cultura popular riquíssima, que marcou o poeta de tal maneira a se manifestar em sua obra. Bacharel em Direito pela UFMG, em 1971, Adão trabalhou na redação do Suplemento Literário do Minas Gerais. Lecionou Literatura Brasileira Contemporânea e participou do Congresso Internacional de Escritores, nos Estados Unidos, num momento fecundo, de grandes lutas pelos direitos civis dos afro-americanos, experiência que foi fundamental para maturação de sua poesia, que atinge seu ápice na assunção da afro-ancestralidade. Na década de 1990, Adão Ventura atuou como juiz classista e foi o segundo presidente da Fundação Palmares, instituição na qual trabalhou para consolidação de sua missão e de seus valores. Recebeu, durante a vida, diversos prêmios e homenagens, por relevância de sua obra, composta de seis livros de poesia, um de literatura infantojuvenil, tendo diversos poemas publicados em antologias, nacionais e internacionais, possui valor poético e social inestimáveis.1 Faleceu aos 64 anos, de complicações devido ao câncer de estômago. Possui, apesar da qualidade e importância de sua obra, uma fortuna crítica que não acompanha a estatura de sua poética.

Em Metamorfoses do abutre, o pesquisador interpreta a poesia de Ventura a partir da fragmentação, do descentramento do sujeito, próprios da pós-modernidade, “[...] uma das marcas do sujeito contemporâneo é buscar novos caminhos que o capacitem para a compreensão da realidade que o envolve” (PEREIRA, 2010, p. 10), retomando os grupos sociais e seus discursos que diferem dos discursos hegemônicos. Dentro dessa perspectiva, há, na produção de Adão Ventura, reflexões sobre várias temáticas, considerando uma dimensão plural, étnica, cultural, estética, social e política, que também caracteriza a sociedade brasileira. No caminho da interpretação, o ensaísta identifica e evidencia aspectos que possibilitam que

[...] a produção literária do poeta mineiro Adão Ventura se configure como instrumento de reflexão acerca de seu tempo, na medida em que a abordagem da fragmentação se converte em elemento significativo em seu roteiro de apreensão de questões relacionadas tanto à história passada quanto aos fatos da vida contemporânea. Esse embate, antes de dividir a obra do autor em faces irreconciliáveis, transforma-a no lugar privilegiado, onde a natureza estética e de reflexão sobre a cultura brasileira se nos apresenta desde o ângulo provocador da diversidade. (PEREIRA, 2010, p. 8).

Essa diversidade está, conforme demonstrado pelo ensaísta, é temática que se estende nos livros de Adão Ventura. Em seus dois primeiros livros, Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul, de 1969 e Musculaturas do arco do triunfo, de 1975, percebe-se o uso de imagens “carregadas de nuances surrealistas”, num “mergulho nos espaços oníricos gerados pela palavra” (PEREIRA, 2010, p. 13). Nos demais é possível perceber uso de notas biográficas, por meio das quais o poeta insere sua ascendência, seu cotidiano familiar, a vida no interior de Minas Gerais, em sua riqueza cultural, vereda geográfica e estética, permitida pelo Jequitinhonha – poemas do vale, de 1980. Ou mesmo “um deslocamento ideológico da herança da escravidão [...] como em A cor da pele (1980), obra em que, decididamente, a voz do poeta se alça como a voz indignada de seu povo contra a discriminação racial”, são caminhos dos quais o leitor pode percorrer. (PEREIRA, 2010, p. 13).

Para além da consideração apenas do aspecto étnico-social, a pesquisa de Édimo vai adiante e busca uma perspectiva mais abrangente, observando as diferentes fronteiras que a obra oferece, entre a “história e literatura, a autobiografia e a metalinguagem, o engajamento e a pesquisa estética” (PEREIRA, 2010, p. 13), estabelecendo os elos das diversas temáticas e da diversidade, por meio da identificação dos elementos de sentido expressos pelo gênero, pelo mundo rural, pela cultura popular, pela periferia, pela margem. (PEREIRA, 2010).

O procedimento de considerar na poética de Adão Ventura a fragmentação do sujeito em relação à noção de unidade e a diversidade temática da obra como um todo torna a leitura mais transversal. Para tanto, o crítico utiliza o conceito de “caminho do meio”,2 que significa a opção que fazem aqueles que se encontram à margem do cânone por um caminho de significação que se contrapõe ao “mundo edificado pela razão dos dominadores”, um caminho que possibilita escutar a voz dos dominados, dos excluídos, dos que estão à margem, daqueles que se encontram na periferia. (PEREIRA, 2010, p. 11). E o autor continua:

Esse caminho representa [...] uma quebra do modelo que opta somente pela razão ou pela magia, a fim de determinar uma forma única e definitiva de o ser humano alcançar o conhecimento do mundo em que vive. Pelo contrário, no caminho do meio, instaura-se uma dinâmica que considera os conflitos e as negociações como partes do próprio processo de criação e no qual, questões como a da identidade cultural de um grupo ou de um sujeito tendem a ser apreendidas como realidades abertas, ou seja, em processo de construção e de reelaboração. (PEREIRA, 2010, p. 11).

Estes são os pressupostos teóricos trabalhados na Introdução, que o pesquisador toma como um princípio para uma leitura das “paisagens e roteiros”, percebendo “[...] a utilização da linguagem poética como veículo de idéias marcantes acerca de assuntos da contemporaneidade” (PEREIRA, 2010, p. 19), articulando uma metodologia que o auxiliou na apreensão e interpretação de “entrecruzamentos” que definem a poética de Adão Ventura. Para tanto, lança mão de conceitos importantes, “tais como identidade cultural, hibridação, gênero, surrealismo” entre outros, de autores como “Zilá Bernd, Stuart Hall, Lília Moritz Schwarcz, Jacques Derrida [...], Muniz Sodré, etc.”, como aporte teórico para a análise da obra de Adão Ventura. (PEREIRA, 2010, p. 19-20).

Na segunda seção, intitulada “Desdobramentos do discurso de Adão Ventura: tempos de engajamento”, o autor traça a história do negro brasileiro, trazido do continente africano para ser escravo nas Américas, sendo obrigado a adotar a língua do colonizador como “forma de viabilizar a comunicação”, o que, segundo ele, contribuiu para a fragmentação da noção de identidade e para a exclusão do negro, por um discurso que o inferiorizou e o reificou. Para tratar desse processo compulsório de aculturação, Édimo trabalha com a ideia foucaultiana de discurso como instância de poder, em que o discurso dominante se faz como representante de uma vontade de verdade e cria estratégias de inclusão e de exclusão de outros discursos, como o dos negros. Nesta parte são apresentados não só todos os esforços das elites brasileiras para manter e justificar o domínio exercido pelo homem branco em sujeição do homem negro, mas também apresenta os movimentos de resistência, o movimento da Negritude e o discurso de tomada de consciência, que culminaria nos processos de independência dos estados africanos, e na alteração do ponto de vista do Ocidente em relação à África (PEREIRA, 2010, p. 28). São apresentadas também as discussões sobre o conceito e critérios para a identificação da Literatura Negra ou Afro-brasileira, ressaltando a relação entre a transposição e continuidades das culturas africanas no Brasil, em aspectos relacionados à tradição/memória, a questão da assunção da identidade negra, que “[...] exige um contínuo processo de afirmação e re-construção dessa identidade”. (PEREIRA, 2010, p. 31-32). Para isso, segundo o autor, são utilizadas estratégias discursivas, que constituem um “repertório de recursos de linguagem”:

Elementos estéticos comuns nas frases populares, as metonímias e as referências aos festejos populares são utilizados para ampliar a rede de significados das palavras. (PEREIRA, 2010, p. 35).

Com isso, inicia-se a parte mais aguardada do trabalho, em que o pesquisador examina criticamente as poesias conforme suas afinidades temáticas. Observa que o poeta, ao retomar as velhas imagens sobre/de negro, do branqueamento, e da “[...] admissão da noção [...] de que no Brasil não existe preconceito e segregação, constituindo-se entre nós uma democracia racial [...].”, retoma-as para transformá-las.

A terceira seção, intitulada “Afrodescendência: antonímia da estranheza”, trata da constituição da concepção do negro como um estranho, e como essa noção é construída a partir do ponto de vista do observador. Essa estranheza foi associada, ao longo da história da colonização européia, aos indivíduos provenientes de universos culturais considerados não civilizados, ou seja ao Outro. O autor utiliza, para caracterizar esse conceito, argumentos da psicanálise freudiana, da linguística e da literatura, e os relaciona à estranheza atribuída ao negro e ao afrodescendente no Brasil. Para tanto, perfaz o longo caminho histórico, discutindo o Iluminismo, o século das luzes, e seu discurso em relação às culturas não-europeias, que “deu margem à criação de uma imagem do negro como criatura estranha e selvagem, hierarquicamente inferiorizada em relação ao branco. (PEREIRA, 2010, p. 60). Observa que tais discursos fizeram parte das justificativas para a colonização, mesmo que suas impressões sobre as terras e a população africanas tenham sido baseadas nos relatos dos viajantes, orientados, sobretudo, “[...] pela curiosidade, pelo exótico, que pelo olhar científico”. (PEREIRA, 2010, p. 61). E demonstra que esse conjunto de ideias foram “importadas” pelas elites brasileiras, e serviram para a criação da imagem da violência atribuída ao negro, um “[ser] demoníaco, horrível e assustador”, “bárbaro, homicida e torturador” (PEREIRA, 2010, p. 62-63).

Ainda nesse capítulo são tratadas questões sobre a estética negra, em que o ensaísta indaga sobre a adoção, no Brasil, dos paradigmas culturais eurocêntricos, entre eles, o padrão estético que diz o que é belo/feio. Esse modelo – em que a cor negra é classificada como negativa – é danoso para os negros, que buscam embranquecer-se como forma de busca pela felicidade e aceitação. Manifestados de maneira sutil, carregados de uma camuflada discriminação racial, desenvolvem no afrodescendente um senso de autodiscriminação, por vezes, pela negação de sua identidade. A contrapeso dessas práticas, há “[...] paralelamente ao desenvolvimento dos discursos de exclusão, as tentativas para a formação de uma fala de valorização das populações negras como forma de resistência aos padrões estéticos impostos por uma elite social notadamente branca [...]” (PEREIRA, 2010, p. 70), ao que pode ser inserida a produção de Adão Ventura.

No quarto e último capítulo, intitulado “Outros caminhos na poesia de Adão Ventura”, o pesquisador delineia a trajetória poética, diferente de uma em que interesse ao percurso apenas a face em que assume e afirma sua identidade negra. Assim, são consideradas todas as fases (ou faces) como prova de um contínuo e ativo processo de mudança e experimentação – o uso do padrão estético do surrealismo, e dos aspectos da cultura e linguagem populares –, até o maior envolvimento com as questões sociais.

Não é suficiente apontar apenas a escolha pela estética surrealista nos dois primeiros livros, sem, com isso, estabelecer as razões de ser dessa escolha frente à obra completa. Percebendo as lacunas, o crítico busca preenchê-las e, assim, estabelece um histórico desse movimento artístico (proveniente dos anos 20 do século passado, cuja motivação se deu pela insatisfação pela ordem imposta pela valorização do racionalismo e a busca da libertação do espírito). Dessa forma, relaciona às temáticas “do sonho, da poesia e da visão sobre o feminino”, e investiga os “entrecruzamentos, diálogos e aproximações que permitem um melhor entendimento da ampla atmosfera estética, histórica, social e imaginária explorada por Adão Ventura” (PEREIRA, 2010, p. 77).

Em procedimento análogo, à vertente popular contida em Jequitinhonha (poemas do vale), Édimo considera que ele amplia “as fronteiras de sua poética, abordando temas como a religiosidade, a memória, a música, a dança, o trabalho, a família, o conflito entre a vida no meio rural e a vida nos grandes centros urbanos – temas que possuem, simultaneamente, um significado regional e universal” (PEREIRA, 2010, p. 86).

Por fim, vale ressaltar o destaque para o aspecto formal do poema em prosa, “que vai se manter até o último livro”, que, nas palavras do pesquisador, “abre as portas de sua poética para os ares da polêmica (a que se levantou em torno de Baudelaire, em As flores do mal) e da hibridação. (PEREIRA, 2010, p.93). Com isso, o ensaísta retoma a discussão em relação à prosa poética sobre sua suposta inferioridade frente à poesia em versos, mas que marca, efetivamente, “um momento de crise em que a problematização de uma diferença se torna o discurso sobre a diferença”. Para a discussão sobre essa crise, é citado o questionamento de Bárbara Johnson, que possui relevância para as estratégias de Ventura: “Que dizer de um corpus literário tão heteróclito quanto inegável, cujo gênero só pode ser designado por uma expressão que destroça a própria noção de gênero?” (JOHNSON citada por PEREIRA, 2010, p. 93). Conclui que a opção de Adão Ventura por esse gênero textual – que é veículo de um questionamento sobre a própria diferença – é bastante revelador, por ser um recurso “[...] transgressivo, [que] fornece elementos formais adequados para a discussão de temas [...]” estabelecendo “[...] a ligação entre a polêmica que caracteriza o gênero textual [...] e a potencial perturbação e o incômodo gerados a partir da discussão dos temas que ele aborda” (PEREIRA, 2010, p. 95-96).

A partir da proposta do livro – que reconhece a riqueza dos aspectos temáticos e estéticos da obra de Adão Ventura, nomeadas como outras vertentes, outros caminhos, para além das questões étnico-raciais – foi possível “mapear os questionamentos do poeta em relação a outros temas [...] como as relações de gênero, [...] a religiosidade, a memória, a cultura popular e a relação do homem com sua terra de origem”. (PEREIRA, 2010, p. 97), revelando a diversidade como uma propriedade estética, o que permite a reconfiguração de sua crítica. É um trabalho cuidadoso e torna-se, pela seriedade com que a obra de Adão Ventura é estudada, uma referência indispensável para quaisquer estudos que se pretendam fazer deste que é um dos maiores poetas brasileiros dos últimos tempos.

 

Referências

ADÃO VENTURA. Dados biográficos. In: literafro. Faculdade de Letras. NEIA. Disponível em:< http://www.letras.ufmg.br/literafro/verAutor.asp?id=16>. Acesso em: 14 abr. 2014.

BERND, Zilá; UTÉZA, Francis. O caminho do meio: uma leitura da obra de João Ubaldo Ribeiro. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2001.

PEREIRA, Edgar. Adão Ventura. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência: antologia crítica. Volume 2. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. p. 193-205.

PEREIRA, Édimo de Almeida. Metamorfoses do abutre: a diversidade como eixo na poética de Adão Ventura. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.

SANTIAGO, Silviano. A cor da pele. In: ADÃO VENTURA. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/verAutor.asp?id=16>. Acesso em: 14 abr. 2014.

 

1 Conferir o artigo "A cor da pele", de Silviano Santiago, disponível no verbete dedicado ao poeta, no portal literafro. Ver Referências.

2 Termo proposto por Bernd & Utéza (2001), e citado por Édimo de Almeida Pereira (2010, p. 11).

* Gustavo Tanus é graduado em Letras pela UFMG e professor da rede pública estadual de ensino de Minas Gerais.

 Texto para download