A literatura de São Tomé e Príncipe

Assunção de Maria Sousa e Silva*

Maria Nazareth Soares Fonseca**

Roberta Maria Ferreira Alves***

 

Contexto histórico

A República Democrática de São Tomé e Príncipe é um país insular localizado no Golfo da Guiné, na costa equatorial ocidental da África Central. Consiste em duas ilhas principais, São Tomé e Príncipe, que distam cerca de 140 km uma da outra e cerca de 250 e 225 km da costa noroeste e do Gabão, respectivamente. Outros países próximos são a Guiné Equatorial e a República de Camarões. É o segundo menos populoso Estado soberano africano, depois das Seicheles, bem como o menor país que tem o português como língua oficial.

Cremos que para compreendermos a formação da literatura de São Tomé e Príncipe, se faz necessário assinalar momentos cruciais do processo histórico do arquipélago, uma vez que essa literatura, desde os primórdios, ressoa a constituição identitária geográfica, social, cultural e política. Nesses termos, é importante salientar que, levando em conta as narrativas com suas controvérsias, as ilhas desabitadas foram ocupadas ou com a instalação dos povos angolares, ou com a entrada dos navegadores portugueses por volta de 1469, 1470 – 1471. Esse espaço será o lugar do “grande pousio1” às vias de trânsito das navegações entre África, Europa e América. Alguns pesquisadores, como Augusto Nascimento (2008), vão assegurar que a ocupação das ilhas se dá primeiramente pelos portugueses. Todavia, segundo ele, isso não resulta em grande importância, uma vez que este fato não “determinou a modelação do território no colonialismo recente” (2008, p. 17). Outros, especialmente os são-tomenses, dão crédito à narrativa da chegada do povo angolar, a partir de um possível naufrágio, permitindo que esse segmento se afirmasse nas ilhas demarcando suas identidades, sua língua e seus costumes.  

Perseguindo a história considerada oficial do arquipélago, a colonização portuguesa das ilhas, desencadeia mudanças severas na compleição físico-geográfica desse espaço. O poder colonial mandatário das ordens da metrópole vai fomentar um exaustivo controle sobre os vários âmbitos das esferas econômico-político-social como também da situação de precarização da terra e da condição de vida dos menos favorecidos. Desse modo, o povoamento da colônia constituído de degredados portugueses (1485 / 1486), colonos e escravizados e as concessões das capitanias hereditárias vão dinamizar o domínio colonial e as sucessões de controle das potencialidades econômicas da Ilha de São Tomé. O que se verifica é que tal procedimento será sucedido de tomada de medidas administrativas do poder constituído pelas elites de ambas as ilhas, da colônia e da Igreja. Por esse panorama inicial que se prolonga por “sucessivas concessões régias”, o comércio do açúcar vai ter incentivo e êxito na colonização das ilhas. Com seu declínio, porém, em razão da perda da “competitividade face ao produzido no Brasil”, entra em cena com mais vigor o comércio de escravizados, visto que a posição geográfica da ilha de São Tomé lhe conferia o lugar de entreposto, base comercial da costa africana para compra e venda de escravizados no século XVI.

Nos anos seguintes, com a alforria dos escravos e ascensão social de alguns habitantes da ilha antes escravizados, forma-se uma aristocracia local “composta por europeus radicados, mestiços e negros. Detentores de escravos e de terras, os membros desta elite acabaram por ascender a cargos institucionais e por obter patentes militares.” (NASCIMENTO, 2008, p. 24). Nesse processo, “a miscigenação tornou-se um instrumento de povoamento, tanto mais que, também por causa das condições epidemiológicas ou do ‘mal da terra’, os europeus constituíram quase sempre uma fracção mínima dos habitantes.” (NASCIMENTO, 2008, p. 24). O grupo de mestiços se sobressai e, a partir deles, vai se garantir a “soberania colonial” e a reprodução de um sistema econômico baseado na escravatura. Tal contexto e configuração social vai estabelecer um estado de instabilidade, conflitos entre essas camadas sociais cujo meio de manutenção do poder por parte da elite é a violência provocadora de embates sucessivos no corpo social de São Tomé e Príncipe. Essa predominância de conflitos se estende por motivos racial, social, econômico e político.

Nesse sentido, também se alimentava entre os explorados e escravizados pela opressão colonial a resistência que se concretizava em fugas, revoltas, ataques e destruição de engenhos. É nesse contexto que se registra a “eclosão da revolta de Amador2”, líder dos angolares – escravos fugidos - ocorrida em 1595. Essa rebelião é de grande importância para a história de São Tomé e Príncipe. Sob tal enfoque da disposição e disputa, insurgem os angolares, seguimento constituído dos negros escravizados e fugidos dos engenhos, que se confinavam no mato, constituindo uma sociedade apartada dos demais habitantes. Sua integração só seria efetivada no fim do século XVII para o início do século XIX, em virtude da “expansão das roças por toda a ilha” (NASCIMENTO, 2008, p. 28). Os angolares até então preservavam costumes específicos e língua própria, conforme salienta o Nascimento.

Outro fato histórico importante que nos ajuda a compreender aspectos ressoantes na literatura são-tomense são as profundas mudanças que ocorreram no século XIX, as quais resultaram na comercialização do café oriundo do Brasil, levado pelo governador João Baptista Silva e Lagos. Se ainda nesse momento vigorava a transação clandestina de venda de escravizados, por outro fortificava-se o movimento de promoção da cultura do café e posteriormente do cacau, e consequentemente um “renascimento agrícola de plantação nas roças”. Há nesse intento, o que se considera uma “recolonização” das ilhas. A dinâmica da economia internacional desencadeou grande reveses na economia local e procedeu uma recomposição demográfica no arquipélago.

Diante dessa reorganização, por pressão interna e externa ocorreu a abolição da escravatura, em 1875. Nesse processo, verificou-se uma resistência dos habitantes ao trabalho forçado nas roças resultando na contratação de mão de obra vinda de Angola, Moçambique e Cabo Verde, conhecidos como os serviçais. Com o declínio da cafeicultura, o investimento é todo direcionado para as lavouras de cacau, ocasionando, assim, o “boom” do cacau. A recolonização chega a seu ápice viabilizando “a edificação de roças e a economia do cacau, como por ter escorado a hegemonia dos respectivos proprietários, em particular dos europeus.” (NASCIMENTO, 2008, p. 33).

À medida que ocorre um endurecimento do poder colonial, desencadeiam-se mais conflitos, acirram-se preconceitos raciais e a proibição da liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, é recrutada mão de obra serviçal em outras colônias, agravando o sentimento de injustiça ante a condição colonial. Nesse contexto, eclodiu o massacre de Batepá3, em 1953, que acontece como fato desencadeador do sentimento nacionalista a atender a uma revolta contra todo tipo de opressão e exploração e a acionar o revigoramento da construção da identidade são-tomense. Assim, toma corpo o sentimento de independência e a luta de libertação num processo de descolonização que tem seu apogeu na celebração do acordo entre as forças políticas para a formação de um governo de transição e realização de eleições. (NASCIMENTO, 2008, p. 37).

A independência é conquistada em 8 de julho de 1975, com a posse da Assembleia Constituinte e a concentração de poderes ao Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP). Do processo de independência até os dias atuais, o país tem vivido fases em que se interpõem momentos de feições de autoritarismo, tentativas de golpes, rigidez e tempos de busca por formas democráticas na conquista de patamares de desenvolvimento, autodeterminação e atendimento aos apelos e às pressões populares.

Em cinco séculos de existência, o país vivenciou duas colonizações centrais, provenientes de dois ciclos econômicos dominantes e atuou como entreposto de escravizados, sustentando o tráfico do Atlântico e se submetendo a intensos fluxos migratórios, em um percurso histórico, que desvela essa dupla colonização, um processo de luta pela independência e fortes conflitos entre as forças políticas em colisão. Da história de ocupação à consolidação do enquadro da colonização na vida quotidiana dos “filhos da terra”, o sistema historiográfico se investe de concessão de privilégios para a elite, ora branca portuguesa, ora mestiça dos filhos da terra.

Nossa proposta, é, a partir dessas referências espaciotemporais, destacarmos aspectos marcantes e relevantes da literatura são tomense. Traçaremos, assim um panorama que se iniciará pela produção poética, e, em seguida, a produção ficcional em prosa. Uma leitura crítica que esperamos permita um ingresso por esse universo rico do que é, literariamente, produzido nessa jovem nação.

A literatura são-tomense: a existência da palavra poética como voz impositiva da nação

A literatura de São Tomé e Príncipe enquanto manifestação cultural e patrimonial do país tem sua gênese no contexto histórico colonial. Para alguns pesquisadores, ela pode ser sistematizada por dois momentos: colonial e pós-colonial. Enquanto as primeiras obras, no início do século XIX, surgiam por autoria de portugueses que residiam no país, posteriormente, vai predominar uma literatura são-tomense de autoria dos filhos da terra. Inocência Mata (2010) ressalta que sistema literário do país só pode ser considerado a partir de 1942, quando a relação obra-autor-público persiste e tornar-se sistemática, regular e convergente. O que viera antes publicado em jornais, revistas e boletins de forma esporádica foram manifestações de escrita sobre “o mundo são-tomense”.

Nesse contexto da atuação jornalística, pode-se registrar, por exemplo, as publicações “O negro, A verdade, A Voz d’África, O correio d’Africa, A Mocidade Portuguesa – Revista Mensal de Propaganda Colonial e Defesa dos Interesses Africanos, África Magazine, Tribuna d´África, África ou O Eco da África, entre outras de propriedade de filhos da terra. (MATA, 2010, p. 56). São publicações que, conforme a pesquisadora e professora da Universidade de Lisboa, enraízam uma “protoconsciência nacional são-tomense, precursora de uma consciência nacionalista anticolonial” (MATA, 2010, p. 56).

Sobre Francisco Stockler, Inocência Mata (2010) ressalta a preocupação desse autor com a realidade do homem forro. A poesia em crioulo ainda hoje pede maior espaço e atenção no sistema literário do país pela dimensão da importância das populações étnicas que o construíram historicamente. Nesse sentido, mesmo não tendo sua regularidade e sistematização no contexto literário do país, guarda-se a expressão da experiência de Amadeu Quinta da Graça, com Pagá Ngunu, alguns títulos do livro Cloçon Son (1998), de Fernando de Macedo; Madala (1990), Cinzas do Madala (1991), Mussundá (1994), Mutété (1995), Brasas de Muteté (1998) e Mussungú (2001) de Francisco Costa Alegre; Butá Cloçon ba Longe (2003), Fióli Canido – Crónicas Alinhavadas (2004), de Jerónimo Salvaterra, conforme nos informa Mata (2010).

Situando o campo da poesia, gênero com mais destaque no percurso da literatura no país, registra-se, nos anos oitocentos, Equatoriaes (1898), de Antonio Lobo de Almada Negreiros e poesia de Caetano Costa Alegre. Trata-se de um momento de poucas condições de produção editorial, escasso incentivo e basicamente sem infraestrutura para os autores que se aventurassem a escrever. Um dos que veio a ter destaque, sinalizando uma “são-tomensidade literária” (MATA, 2010, p. 61) foi Caetano da Costa Alegre que residia em Lisboa. Reconhecido como precursor da literatura são-tomense, Costa Alegre tem sua poesia reunida posteriormente em um único livro, Versus (1916) em que expõe “a tensão entre dois grupamentos etnoculturais em presença: os negros e os brancos” (MATA, 2010, p. 62). Segundo a pesquisadora, a poesia de Costa Alegre revela “uma visão intimista da paisagem natural da ilha o que indicia já um nativismo expressivo da vivência social” (MATA, 2010, p. 60), exemplarmente nos poemas: “Serões de São Tomé” ou “As rolas”.

Marcelo Francisco da Veiga Mata (1892 – 1977), cujos poemas escritos desde 1917 foram organizados em O canto do Ossòbó (1989), nasceu na Ilha do Príncipe, em 1892, e residiu em Portugal da infância até a fase adulta por volta dos seus 30 anos. Regressou às Ilhas, em 1928, foi preso em 1959, na militância dos movimentos que denunciava a precária situação político-econômica do país. Retornou a Portugal, em 1962, e lá viveu até 1971 (SOUZA, 2016). Para pesquisadora Inocência Mata, Marcelo da Veiga “é o primeiro escritor são-tomense cuja obra começa a ser marcada por uma regular e convergente temática insular: a condição africana e insular e a situação colonial e a afirmação identitária. O cruzamento destas duas linhas temáticas faz da poesia negrista de Marcelo da Veiga pioneira do discurso negritudinista [...]” (MATA, 2010, p. 68) e Tal focalização temática retornam com espaço privilegiado tanto na obra de Francisco José Tenreiro quanto na de Caetano da Costa Alegre, conforme situa Mata (2010). Ressalta-se que discurso que confere a configuração étnica nos poemas demarcará o signo da mestiçagem na literatura são-tomense como contributo de Francisco José Tenreiro.

Luciana Ribeiro de Souza, ao estudar o lugar de Marcelo da Veiga e Jerónimo Salvaterra no cenário literário são-tomense, assinala o lirismo e a denúncia social nas obras que se destacam nas fases colonial e pós-colonial. Nesse escopo já estariam dimensionados os problemas do passado que se sucedem na reconstrução histórica da sociedade nacional e se revigoram na atualidade. De Marcelo da Veiga, vale ainda citar os poemas “A língua própria”, “O idioma é a pátria”, O idioma alheio” e “Cada um na sua língua”, referidos pela pesquisadora, e que incentiva a discussão sobre a identidade da nação, mais especificamente a reflexão sobre a língua “como instrumento ideológico de afirmação identitária, para, usando a própria língua portuguesa, subverter esse processo” (JORGE, 2011, p. 209).

Manuel Jerónimo Salvaterra Júnior, atuante na área da educação, conhecido como Nelito, nasceu em 1953. Sua primeira obra Tristezas não pagam dívidas (1990) foi indicada para publicação no concurso “Vozes das Ilhas”, realizado pela União Nacional dos Escritores e Artistas Santomenses (UNEAS), em 1990. Publicou também Mangungo: Mitos e Cultura de S. Tomé e Príncipe e A Ilha do Amanhã (1990) e Leitura/Desenvolvimento (2001). Salvaterra Júnior, professor e diretor de escola, é um poeta preocupado com sua terra, buscando a valorização da história, das tradições, das contribuições étnicas das ilhas. Segundo Souza (2016), o poema “A ilha do Amanhã” (1990) expressa sinteticamente a história de São Tomé e Príncipe e suas “expectativas para o futuro”.

A produção de Herculano Levy (1889 – 1969) foi reconhecida postumamente. São elas Poesia (1981) e Poemas (2000). Na obra desse autor delineiam-se preocupações urgentes e pessoais de alguém que fora “renegado pela diferença” como “filho ilegítimo de um rico comerciante judeu e de uma negra natural de São Tomé” (MATA, 2010, p. 62). Ele luta para “ver reconhecido o direito à herança após a morte do pai, que, afinal, não o renegara” (MATA, 2010, p. 63). É um poeta de versos intimistas os quais refletem “a dor da existência” (MATA, 2010, p. 63), como o modelar poema “O renegado”.

Momento promissor para a literatura são-tomense é a publicação da antologia Poetas de São Tomé e Príncipe (1963), organizada e prefaciada pelo escritor e professor português Alfredo Margarido, edição da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Momento de afirmação do sistema literário em São Tomé e Príncipe. Essa antologia e outras coletâneas são-tomenses tiveram a função primordial não apenas de registro das várias concepções e vertentes poéticas que as ilhas produziram, mas também apresentaram o surgimento de vozes por onde se construiu e veio a consolidar o cenário de representação da literatura são-tomense em termos de patrimônio cultural. Na antologia Poeta de São Tomé e Príncipe (1963), encontram-se poemas de Marcelo da Veiga, Francisco José Tenreiro e Tomás Medeiros, Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido.

Francisco José Tenreiro (1921 – 1963) nasceu em São Tomé e anos depois foi morar em Portugal, onde cumpriu seus estudos e atuou como docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, hoje Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa. Escreveu Ilha do Nome Santo (Coleção ‘Novo Cancioneiro’ (1942) e Coração em África (1961). Como geógrafo escreveu a tese “A ilha de São Tomé (estudo geográfico), Junta de Investigações do Ultramar (Coleção “Memórias”), em 1961, em que discorre sobre os meandros das sociedades são-tomenses e sua “geografia humana”.

Francisco José Tenreiro em parceria com Mário de Andrade e ilustração de António Domingues publica Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), antologia que apresenta jovens intelectuais africanos na cena literária imbuídos de aspirações a versejar sobre o negro africano e sobre a “consciência africana”, cerzindo uma poesia que será denominada como “negritudinista” (MATA, 2010, p. 65). “Poeta da negritude” (MATA, 2010, p. 65) assume e redimensiona o canto africano, sob perspectivas socioculturais e históricas ressoantes dos anseios do movimento de negritude. Por outro lado, o poeta vai explicitar “uma pulsão insular” (MATA, 2010, p. 66), “identitária da mátria” (MATA, 2010, p. 65) como signo revigorante de sua expressão poética. Para Mata, essa “estética da conciliação e da ambivalência cultural” persistem como “lugares ideológicos da poesia de um livro tão negritudinista como Coração em África” (MATA, 2010, p. 66). Por outro lado, a mátria é evocada como elemento propulsor de uma escrita marcada pela “figura física da mãe” (MATA, 2010, p. 135), acentuada, exemplarmente, no poema “Ilha de Nome Santo”. Vale ressaltar, no entanto, que a ilha revisitada ou perfilada poeticamente por Francisco José Tenreiro não é revelada pelo “elemento mulato” como advogara Russel Hamilton e Salvado Trigo,

mas a particular mestiçagem resultante do processo de nativização e ontologização pela natureza desse elemento: falo das qualidades eufóricas e profusas, específicas, mas metamorfose antes da natureza manifestas nos elementos particulares da fauna (a cobra preta) e da flora (o safu), da sua fecundidade e da fertilização do elemento alienígena, pois os seus componentes ainda não assimilaram a dimensão telúrica de que se vai gerar. Dessa simbiose homem / terra resultou, numa celebração ufanista, ‘Minha Ilha e minha África / forte e desdenhosa dos que lhe falam à volta”. (MATA, 2010, p. 67).

Dentro desse cenário são-tomense, por um lado, a evocação à Terra-Mãe e ao mar tornou-se procedimento corrente e motivador da “poética insular” (MATA, 2010, p. 136), por outro, as alusões às lutas contra colonialismo, o grito contido clamando mobilização, o canto aguerrido de “punho cerrado” passaram a ser o modo de convocar os leitores para uma resistência ao regime e a denunciá-lo. O mundo das roças, o homem e a mulher são-tomenses e o desenvolvimento urbano continuam a ser tematizados nas obras de autores de diferentes concepções e posturas, sejam elas contestatórias, sejam conformativas sobre os fatos da história. Francisco José Tenreiro, Caetano de Costa Alegre, Marcelo da Veiga, Alda Espírito Santo, Tomás Medeiros, Fernando de Macedo, Sum Marky, especialmente, focalizam esses fatos históricos da terra e os redimensionam no percurso da reafirmação do sistema literário.

Como visto, a tematização da condição, diferenças sociais e étnico-raciais estão em pauta desde as primeiras manifestações literárias de cunho nativista, passando pelas de cunho nacionalista. Por isso se destaca a função precursora de Caetano de Costa Alegre, que focalizar essas questões mesmo que de forma menos incisiva. Marcelo da Veiga, Francisco José Tenreiro traduziram os dilemas da terra no bojo da reivindicação de uma consciência nacional. Este último, como já mencionado, mais precisamente nos livros Ilha de nome Santo (1942) e Coração em África (1982)4, refere “a desagregação e a dispersão absoluta” do segmento negro, o “orgulho da raça” (MATA, 1998), numa dicção nacionalidade são-tomense.

Em estudos mais recentes sobre a literatura são-tomense, Inocência Mata (2010) ressalta a perspectiva hegemônica de Francisco José Tenreiro por “operar a enfatização da componente portuguesa5” e a não valorização do “processo de reinterpretação insular das contribuições africanas e americanas [do Brasil]6”. Isso decorre da influência da teoria luso-tropicalista freyriana que incide na expressão de um olhar exclusivista.

No ensaio, “Travessias do olhar: a descolonização da palavra na poesia são-tomense” (2010), Inocência Mata reforça a análise sobre a posição teórica e poética de Francisco José Tenreiro e aponta as rasuras dessa visão na historiografia literária são-tomense.

Esse olhar exclusivista, que vem de antanho, relega para o lugar periférico outros segmentos constitutivos da face cultural de São Tomé e Príncipe, tanto os ‘primordiais’, como os angolares, como os ‘últimos’ segmentos que o sistema da roça – substituto, a partir do século XIX, da economia do engenho – arrastou: isto é, os servicais primeiro e os contratados depois: serviçais das possessões britânicas de África, logo após a abolição da escravatura [...] e contratados de Angola, Moçambique e Cabo Verde. A contribuição destes elementos, cuja nativização cultural foi, durante muito tempo, omitida do ‘discurso da nação’, encontra-se nos nomes, palavras, gastronomia, ritos, ritmos, que apontam para culturas de origem desses sujeitos do ciclo do cacau e do café. (MATA, 2010, p. 137).

Destaca-se, portanto, a rasura provocada pelo “olhar exclusivista” quanto à presença e contribuição dos segmentos marginalizados no processo de uma história que estava silenciada e que os/as novos poetas vão retomar.

Fernando de Macedo nos anos 80, 90 do século XX, afirmara seu pouso poético com os livros Anguéné (1989) e Mar e Mágoa (1994), mas também percorreu o gênero dramático com as peças Cloçon Son, Capitango e O Rei do Obó, contidas no livro Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe (2002). Ainda conforme Mata (2010), seus textos desenvolvem uma “recolha da tradição oral do povo angolar, dramatizam a história de resistência política e cultural, e afirmam a angolanidade [...] como uma feição da são-tomensidade (o que até então não fora assumido poeticamente, ainda que os angolares já fossem sujeitos poéticos como no poema “Angolares” de Alda Espírito Santo)” (MATA, 2010, p.72). Essa angonalidade como “feição da são-tomensidade literária”, provoca uma

implosão na construção do discurso (literário) da identidade cultural, na medida em que tal discurso da angolanidade traz à cena a história dos segmentos mais dissonantes, tanto no discurso colonial, quando no nacionalista, cujo epicentro de gestação era a roça. Uma das primeiras consequências dessa desconstrução discursiva é a vinculação da insularidade são-tomense também à espácio-temporalidade marítima, em vez de estar circunscrita à dimensão telúrica (MATA, 2010, p. 73).

Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido são autoras cujos poemas revelam “uma linha evocativa e invocativa em que a figura da Mãe/ Mulher/ Irmã aparece na vivência cotidiana como emblema de um tecido social e humano.” (MATA, 1998, p. 65). Ambas poetas atualizam “um registo vivencial” (MATA, 1998), tematizam a infância, colocam em foco a experiência intimista e trazem o “resgate da matriz africana7”. Suas presenças instituem outro marco na literatura são-tomense, em que a mulher e a terra-mãe África estão representadas pela voz autoral feminina. São produções em que repercutem a simbiose natureza /cultura. Mulheres cujas vozes poéticas expressam singularidades do feminino no contexto são-tomense.

Alda Neves da Graça do Espírito Santo (1926 – 2010), conhecida por Alda Graça ou Alda Espírito Santo, em É nosso o solo sagrado da terra (1978), canta o compromisso com sua terra em tempos de agonia, prevendo “um longo canto de punhos cerrados” (SANTO, 1978, p. 31). A poeta deixou como legado, além da obra acima citada, Mataram o Rio de Minha Cidade. Contos e Crônicas (2002), O Coral das Ilhas, Poesia (2006), Mensagens do Solo Sagrado, Prosa (2006), Cantos do Solo Sagrado, Testemunhos (2006). Voz do “grande pousio literário” são-tomense, Alda Espírito Santo foi antes de tudo uma presença ativista e dinamizadora da cultura e da literatura de seu país. Em sua poesia habita um arquipélago em tensão, esgarçado por conflitos e desalinhamento político-social, materializado numa escrita cujo teor advém da subversão e combate às forças impositivas do colonialismo. Inocência Mata acentua que os poemas de É nosso o solo sagrado da Terra - Poesia de Protesto e Luta (1978) fazem parte de uma fase designada “panfletarização e sloganização da escrita em que a ideologia se sobrepunha ao trabalho da palavra poética”, (Mata, 2010, p. 71) (grifo da autora) a exemplo do poema “Boato”.

Em artigo intitulado “De olhos abertos buscando o caminho da luz - Uma interlocução poético-discursiva entre autoras são-tomenses”, Revista Mangue (2019) , ao tratarmos do livro seminal É nosso o solo sagrado da Terra – Poesia de Protesto e Luta (1978), conjecturamos que “os poemas pontuam momentos cruciais da história de São Tomé e Príncipe, por exemplo, o abalo resultante da abolição da escravatura, em 1853; a resistência dos são-tomenses contra o trabalho escravo, o contrato; os massacres contra a população, em 1953 - luta clandestina antifascista; uma ação da juventude nos anos de 1950; a criação do Movimento de Libertação Nacional para a condução à emancipação de São Tomé e Príncipe; a ação política de fortalecimento do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP) e processo de união do povo na luta de “Resistência clandestina” que “eclodiu vitoriosamente” rumo à independência. A Proclamação da Independência nacional com sacrifício e sangue das vítimas do poder dominador. Fato importante no processo de emancipação dos são-tomenses é a representação de Giovani. Alda Espírito Santo destaca Giovani como “vítima das últimas balas coloniais atingidas ao meio-dia na via pública a 6 de setembro de 1974 - data que determinou o processo irreversível do [...] país.” (SANTO,1978, p.13)

Maria Manuela da Conceição Margarido (1925 - 2007) nasceu na Ilha de Príncipe. Seus estudos foram dedicados às áreas da sociologia, etnologia, religião e cinema. Viveu na França e em Portugal, exerceu atividades políticas e assumiu funções de embaixadora de São Tomé e Príncipe em Bruxelas e em organizações internacionais tais como, UNESCO E FAO. Segundo Amarino Queiroz (2014), a poeta atuou na literatura com

uma produção poética dispersa em várias antologias, realizou em Lisboa colaborações na imprensa, sobretudo em ― Mensagem, publicação da Casa do Estudante do Império, além de ter lançado no ano de 1957, em plena era salazarista, um livro de poesias sugestivamente intitulado Alto como o silêncio. Suas preocupações literárias estenderam-se também em direção à ensaística, tendo desenvolvido estudos sobre a poesia produzida a partir de São Tomé e Príncipe. (QUEIROZ, 2014, p. 12).

Maria Manuela da Conceição Margarido e Alda Espírito Santo se inserem em um momento importante da história de São Tomé e Príncipe, em que se ascende uma tomada de consciência de classe, de expressão de um sentimento nacionalista com projeção e construção da identidade nacional. A poeta são-tomense Manuel Margarido publicou Alto como o Silêncio (1957) e outras poesias dispersas por volta dos anos 60 e 70 do século XX. Em 2007, sua obra foi reunida em Alto como o Silêncio & Outros poemas. Maria Manuela Margarido participa da Antologia Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), supracitada, como também da Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963), prefaciada por Alfredo Margarido e da Antologia de Poesia da Casa dos Estudantes do Império (1951 – 1963): Angola – S. Tomé e Príncipe, I volume, (1994). Sua presença na literatura são-tomense se assenta por meio de uma poesia intimista e, ao mesmo tempo, combativa que, conforme Mata (2010), traduz a “tensão entre o mundo interior e exterior”. Vale registrar de sua autoria os poemas “Socopé”, “Memória da ilha do Príncipe”, “Paisagem” entre outros8.

No contexto da literatura contemporânea são-tomense, Conceição Lima “começa por denunciar essa visão homogeneizante do nacional, em que é rasurada a marca da etnicidade – mesmo se etnicidades situacionais.” (MATA, 2010, p. 136). Conceição Lima nasceu em Santana, na Ilha de São Tomé, em 1961. Estudou jornalismo em Lisboa e Estudos afro-portugueses e brasileiros em Londres. Morou em Lisboa e Londres onde trabalhou na BBC como produtora dos serviços de língua portuguesa. Ao voltar para a terra natal, fundou o jornal independente O país hoje (1993). De lá para cá tem participado quotidianamente da vida são-tomense como jornalista e, atualmente, como professora.

Conceição Lima publicou O útero da casa (2004), A Dolorosa raiz do micondó (2006), O país de Akendenguê (2011) e Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico (2015), entre outros escritos. Seus livros estão traduzidos para espanhol, alemão e italiano. Autora reconhecida no circuito da poesia mundial, em 2021, seu poema “Afroinsularidade”, traduzido por David Shook, recebeu o prémio “ex-aequo” do Concurso de Tradução de Poemas 2021, nos EUA, com publicação na Revista Words without brothers.

No Brasil, em 2015, o livro A dolorosa raiz do micondó foi editado pela Geração Editorial, selecionado e publicado pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE) no Brasil/MEC. A expectativa é que mais livros da autora sejam publicados no país. Para Mata (2010), desde o primeiro livro, Conceição Lima denuncia a visão hegemônica do nacional em que obscurece a presença dos segmentos étnicos constantes no país. Isso se revigora em A dolorosa raiz do micondó (2006), expondo os modos pelos quais a visão exclusivista do poder vigente continua a demarcar os lugares dos sujeitos submetidos à subjugação.

A poesia de Conceição Lima atende a uma inquietação do sujeito de enunciação em incessante interlocução com seus semelhantes étnico-raciais, generificados, que resistem e circunscrevem a escrita ou reescrita de nação no sentido de expressar a garantia de novos modos de construção ou reconstrução da casa - mátria. Por outro lado, a poesia revela outras perspectivas de pensar as ilhas, todavia não se limitando a elas, à medida que traz para o corpo poemático a ressonância dos anseios de um construto panafricanista. Nesse sentido, sua poética parte do solo insular e amplia o diálogo com poetas e pensadores africanos na diáspora, edificando uma linhagem poética demarcada no visceral poema Canto obscuro às raízes, do livro A dolorosa raiz do micondó (2006) para tecer o que a pesquisadora Inocência Mata evoca: a “descolonização da palavra” precedida pela “descolonização das mentes” (MATA, 2010, p. 148).

A densidade da obra de Conceição Lima revela-se perene. No intuito de assinalar alguns poemas modelares de sua verve poética, há de se destacar “A casa”, “Mátria”, “Daimone Jones, “Kalua”, “Manifesto de um serviçal” Zálima Gabon, “Afroinsularidade” do livro O útero da casa; “Canto obscuro às raízes”, “Raúl Kwata vira Ngwya Tira Ponha”, “1953” “Espectro de guerra”, entre outros de A dolorosa raiz do micondó; “Apuramos o canto”, “O cataclismo e as canções”, “O amor do rio”, “Inadiável empresa”, entre outros de O país de Akendenguê e “Vim para acender o teu nome”, Água Grande” e outros de Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico.

Olinda Beja nasceu na cidade de Guadalupe - São Tomé e Príncipe, em 1946. Ainda jovem foi residir em Portugal. Fez seus estudos em Porto e em Lisboa. Viveu e trabalhou na Suíça como professora e retorna a São Tomé e Príncipe em 1985. Seus poemas são traduzidos para o espanhol, francês, inglês, árabe e outras línguas. Como já enfatizamos em outro artigo, Olinda Beja traz a elevação do canto poético à geografia e à paisagem das ilhas. Vias pelas quais se podem identificar diálogos entre o universo combativo e denunciativo de Alda Espírito Santo e ou universo poético reflexivo de Conceição Lima. Autora de uma vasta obra, Olinda Beja escreveu seu primeiro livro de poemas Bô Tendê? – Poemas, em 1992, seguido por Leve, leve – Poemas (1993), 15 dias de regresso – Romance (1994), No país do Thiloli – Poemas (1996), A pedra de Villa Nova – Romance (1999), Pingos de chuva – Contos (2000), Quebra – mar – Poemas (2001), Água Crioula – Poema (2002), A ilha de Izunari – contos (2003), Pé-de-perfume – contos (2004), Aromas de Cajamanga – Poemas (2009), O cruzeiro do sul – Poemas (2011), A casa do pastor – Contos (2011), Um grão de café – Contos para crianças (2013), além dos premiados História da gravana – Contos (2008) – obra premiada no Brasil e em Portugal, À sombra do Oká – Poemas (2015) que recebeu o prêmio literário Francisco José Tenreiro 2012 – 2013).

No prefácio d’À sombra do Oká (2015), o pesquisador Amarino Queiroz ressalta a expressão dialogal com autoras como Maria Manuela Margarido, Alda Espírito Santo e Conceição Lima, recorrendo aos elementos da paisagem natural e cultural de São Tomé e Príncipe. O próprio Oká expresso no título, o marapião, o baobá (micondó) configuram a interlocução revigorante da irmandade que o livro de poemas revela. O pesquisador enfatiza a arte performática de Olinda Beja que advém dos “cantadores e contadores de sóias e contáji, gêneros da narrativa curta, bem característicos de São Tomé e Príncipe. (QUEIROZ, 2015, p. 10).

Atentando para a dinamicidade poemática de Olinda Beja, pode-se visivelmente identificar a natureza como plataforma de sua poética em que o Oká conflui com o teor lírico por onde se concentra a seiva de sua poeticidade. O poema “XI”, do ciclo “Certezas”, contido em À sombra do Oká, formalmente construído sem apelo à pontuação ou uso de maiúscula que demarquem o fluxo das ideias, vivifica o chamamento ancestral para realinhar outra forma de resistência no compromisso com a palavra poética. Beja reafirma a potencialidade dos laços afetivos como faz Conceição Lima, através da veia metafórica e alegorizante do retorno dos filhos à casa, personificada pelo oká. A esperança revigorada assenta-se no solo de dor, de sacrifício, especialmente das mulheres. Estas mulheres trazem para o corpo do poema o verdadeiro frescor da vida e o tom da “Repartição dos grãos do cafezal”, quando deve vigorar antes de tudo o frescor da continuidade da vida na “sede de renascer uma e outra vez e mais outra ainda / na gleba ...” (BEJA, 2015, p. 35).

Dos nomes recentes no cenário são-tomense, destaca-se Alice Goretti Pina que nascida, em 1976, na Ilha do Príncipe, dedica-se ao campo da moda e a ser escritora. Escreveu a primeira novela e foi indicada para o Prêmio PALOP do livro em 1998. Tem nacionalidade portuguesa e vive em Lisboa onde se formou nas áreas jurídica e de marketing. Seus trabalhos literários, primeiramente foram dispersos em Antologia e revistas. Em 2010, ganhou o concurso Criar Lusofonia, promovido pelo CNC e DGLAB de Portugal (2010 e 2014). Até o momento publicou: Viagem (2012), No dia de São Lourenço/O encanto do Auto de Floripes, romance, em 2013, No leito das Asas, à beira do Tempo, poesia, em 2014, A respiração dos dias, poesia, em 2015, As gargalhadas de mestre Juju, poesia, em 2019 e Florir ao Sol das Palavras poesia infanto-juvenil, em 2021. Goretti Pita é representante de São Tomé e Príncipe no Grupo Unión Hispanomundial de Escritores, desde março 2021.

Há muitos outros autores e autoras no cenário contemporâneo de São Tomé e Príncipe. No âmbito da literatura infanto-juvenil, ressalta-se Conceição Beirão Carvalho, com a obra Tesouros africanos, Cacá e Cocó, Sinfonia de Sonhos, Brincando com as letras; Olinda Beja com Simão Balalão (2000), Um grão de Café (2013), Chá do Príncipe Fiá Xalela (2021), e Tomé Bombom (2016) entre várias e Teresa Borges com A Teresinha em S. Tomé (2018).

Caminhos trilhados pela ficção são-tomense

Diferentemente da poesia que, desde o final do século XIX, foi praticada por poetas nascidos em São Tomé e Príncipe como Caetano da Costa Alegre9 e Francisco Stockler10, o primeiro autor de origem são-tomense a utilizar o crioulo-forro em criações poéticas, a ficção são-tomense faz parte de um processo contínuo de afirmação da nação e de valorização do seu patrimônio imaterial. Como categoria literária só aparecerá, de forma efetiva, no século XX.

No entanto, estratégias de natureza ficcional podem ser identificadas em textos narrativos informativos e ensaísticos, de referencialidade são-tomense, de autores metropolitanos que se encantaram com as paisagens naturais das ilhas, sua flora, fauna, clima e ambientes produzidos antes do surgimento de obras ficcionais propriamente ditas. Algumas produções informativas sobre a terra exuberante, por vezes a descrevem como impenetrável e indomável, sobretudo quando comparada com a natureza da metrópole. Nesse sentido, importa reiterar a importância da obra História Ethnographica da Ilha de São Tomé (1895), de António Lobo de Almada Negreiro, considerada “a primeira expressão da fascinação pelo exótico” (MATA, 2010, p. 96) e em que o encantamento pode ser entendido como uma categoria narrativa que estará presente em outros textos de conteúdo informativo sobre São Tomé e Príncipe. Na obra de António Lobo de Almada Negreiro, a ilha de São Tomé, por vezes posta em comparação com a ilha do Príncipe, é exaltada por sua majestosa vegetação e pela qualidade excepcional do seu solo. Aos olhos desse autor metropolitano, que exerceu função administrativa na ilha de São Tomé, as paisagens das ilhas de São Tomé e Príncipe expõem uma diferença que pode ser identificada em dupla face: a da maravilha, configurada pela vegetação majestosa, e a da estranheza, por ser muito diferente das paisagens metropolitanas. A exuberante vegetação das ilhas e a natureza ubérrima do solo11 são descritas a partir da “admiração e edenização”, mas também de uma estranha diferença, conforme considera Mata (2019, p, 24).

A prática narrativa de informação ou ensaística – que irá constituir, grosso modo, o corpus da literatura colonial, conforme informa MATA (2019, p. 24-25) será produzida sobretudo por “metropolitanos de passagem pelas ilhas” (MATA, 2001, p. 2008) ou mesmo por metropolitanos nela radicados, pertencentes a um segmento social que segue a ideologia imperial levada às ilhas. Esses autores serão responsáveis por textos que procurarão descrever um ecossistema que não era dominado pelos portugueses, explicitando uma percepção de alteridade imaginada. Essa produção narrativa de natureza informativa que remonta ao final do séc. XIX12, pode ser considerada, conforme observação de Mata (2001), vertente do “discurso da imperialidade” que legitima os códigos ideológicos da expansão e consolidação do império português além-mar. Ainda, segundo Mata (2019, p. 22), autores metropolitanos produziram uma literatura de informação obediente aos códigos da “ideologia imperial”, procurando considerar “eventos referentes ao homem e à sociedade (colonial)”, “com uma determinada consciência, então imperial, na interpretação do espaço geográfico, como na obra que vimos referindo, a História Ethnographica da Ilha de São Tomé,(1895), escrita por António Lobo de Almada Negreiros.

A ultramarinidade na ficção colonial sobre São Tomé e Príncipe.

Textos de natureza ficcional surgirão, de forma mais consubstancial, a partir dos anos 30 do séc. XX, produzidos por autores metropolitanos radicados em São Tomé e Príncipe ou por são-tomenses de origem. Nesse período surgem obras em que se evidencia,

numa ’evolução’ genológica, a introdução da estrutura de conflito, que se inicia sempre na metrópole, e a determinação épica da personagem, cuja ação se define pela proeza que é partir da terra pátria, a metrópole, e se vai intensificando com o processo de adaptação e socialização da personagem, branca” (MATA, 2019, p. 31-32)

Em 1937, é publicado o livro de contos Maiá Poçon – contos africanos de autoria de João Maria Fonseca Viana de Almeida, nascido em São Tomé, em 1903, filho de mãe são-tomense e bisneto do 1o. Barão de Água–Izé, Ilha de São Tomé, que introduziu, nas ilhas, a cultura do cacau. Embora seja oriundo da elite dos filhos da terra, Viana de Almeida foi educado em Portugal, onde, como informa Mata (1998, p. 67), teve contato com estudantes africanos e filhos da pequena burguesia de assimilados de África. Viana de Almeida foi proprietário e diretor da revista Mocidade Africana – revista mensal de propaganda colonial e defesa dos interesses africanos (1930 – 1932), um dos periódicos criados e dirigidos por negros, em Portugal.

O título Maiá Poçón significa, em crioulo forro de São Tomé, “Maria da Cidade” também nomeia um dos contos da obra que, segundo Mata (2010, p. 106), é considerada “a primeira obra de ficção de um autor natural de São Tomé e Príncipe”. O livro inaugura, na literatura das ilhas, a escrita da roça e o título em crioulo remete a aspectos culturais do país. Destaque-se que a maioria dos contos do livro não expressa um posicionamento crítico de personagens e/ou narradores sobre questões específicas dos espaços encenados. Os contos “Maiá Poçón”, “N’Ga-Sakirila” e “O ódio das raçasrevelam um olhar “de dentro” da realidade das roças, ainda que não inteiramente isentos da fascinação pelo exótico e pela descrição celebrativa das paisagens das ilhas e da beleza estonteante de sua flora.

Obras escritas em concordância com os pressupostos da literatura colonial continuaram a ser produzidas e publicadas inclusive em fase posterior ao surgimento de poetas e poetisas de São Tomé e Príncipe que pertenceram à Casa os Estudantes do Império (CEI e são considerados fundadores(as) da feição moderna do sistema literário são–tomense. É importante reiterar que os poetas, Francisco José Tenreiro, Tomás Medeiros e Marcelo Veiga e poetisas como Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido impõem-se em período em que a ficção literária são-tomense estava restrita às publicações da literatura colonial, ainda que, como se vem destacando, a referencialidade são-tomense estivesse presente. Tais obras não integram, senão por via da exceção, os espaços da literatura nacional que se caracterizará pela intenção de assumir um olhar diferenciado ao encenar, nos espaços da poesia e da ficção, as paisagens físicas e humanas das ilhas, questionando a influência castradora do colonial e da colonialidade nos territórios das ilhas.

Destaca-se ainda como representante dessa fase da ficção são-tomense, por vezes nomeada como literatura ultramarina, Fernando Reis, português radicado em África desde 1947. O escritor constrói os seus romances a partir de informações e percepções advindas de incursões na história, na etnografia, na crítica literária e na literatura oral das ilhas. Muitos traços dessas incursões estarão presentes nos livros Povo Flogá (1969), ilustrado com fotografias, de carácter etnográfico, onde estão retratados o 'Auto de Floripes', o 'Danço Congo' e o 'Tchiloli', característicos das ilhas de São Tomé e Príncipe. São também de sua autoria, dentre outros o livro de contos, A Lezíria e o Equador (1954), além dos romances, Roça (1960) e Ilha do meio do mundo, publicado em 1982, após a independência do país.

Além de Fernando Reis, é também representante dessa fase da ficção colonial, na qual se constata uma maior percepção do mundo são-tomense, Luiz Cajão, autor do romance A estufa (1964) que encena “as relações socioculturais entre colonos, e as entre estes e os empregados numa roça da Ilha do Príncipe, a roça “Nova Aurora” (MATA, 2010, p. 113), sem se distanciar da visão apologética do colonialismo e dos preconceitos negativos sobre os habitantes das ilhas. Percepção que, nos dizeres de Mata, justificaria a condição intervalar da obra. O autor é também autor do conto “O outro Menino Jesus” publicado em Torre de vigia (1967) e também na antologia Contos Portugueses do Ultramar (1969), além de “O último olhar sobre as ilhas”, integrado ao livro O salto do cavalo (1973), além do romance Ilha do Meio do Mundo (escrito nos anos 1960, mas só publicado em 1982).

Alguns dos romances em crioulo forro, de Sum Marky, pseudônimo literário de José Ferreira Marques, nascido em São Tomé, em 1921, de pais portugueses, versarão sobre o tema da roça e suas potencialidades no sistema econômico, desenvolvido nas ilhas pela colonização portuguesa. Alguns de seus livros expressam uma posição questionadora das atrocidades impostas aos ilhéus pelo colonialismo português, como se encena, sobretudo, em No altar da lei (1962)13, Vila Flogá (1963) e Crónica de Guerra inventada (2000), que se voltam à dolorosa realidade do Massacre do Batepá, ocorrido em 1953, mencionado em outro momento deste texto.14 Nessas obras, o escritor assume um posicionamento contra a violência legalizada por atos do governador-geral, Carlos Gorgulho contra os forros, os naturais da ilha de São Tomé, que contou com o aliciamento dos colonos. Outros romances de Sun Marky, ainda que voltados a temas comuns que perpassam a chamada “Literatura Ultramariana”, por vezes considerada uma vertente regionalista da literatura portuguesa, registram “os conflitos socioeconômicos e políticos, com base em motivos temáticos configurados “pela roça, a mestiçagem, a multirracialidade, as diferenças cultuais” (MATA, 1998, p. 70). A referencialidade são-tomense figura em outros romances de Sum Marky como O vale das ilusões (1956), Tempo de flogá (1966), As mulatinhas (1973), Crônica de uma Guerra inventada (2000), A Ilha do Santo (2001) e A Liberdade (2001). Através de diferentes estratégias narrativas, as obras textualizam a opressão e a repressão colonialistas.

Também ocupa lugar de destaque no espaço intervalar entre a literatura colonial e a literatura nacional, o escritor Alves Preto, pseudônimo do poeta Tomás Medeiros (1931 – 2019), pelos temas abordados nos únicos contos de sua autoria, Um homem igual a tantose “Aconteceu no morro”, publicados na revista Mensagem, da CEI, respectivamente, nos anos 1959 e 196015, nos quais se encena o espaço do marginalizado, o colonizado e o contratado.

No percurso da ficção são-tomense significada por obras de autores portugueses a partir do contato com a realidade das ilhas, considera-se, ainda, o escritor Mário Domingues, autor de O Menino entre Gigantes (1960), romance de feição autobiográfica sobre vivências de um menino mulato em Lisboa. Na contramão dessa narrativa, situam-se os contos de Alves Preto, já referidos, e os romances de Sum Marky, razão de esses escritores estarem inseridos no percurso da ficção são-tomense de feição social, em razão do distanciamento, perceptível em algumas de suas obras que ultrapassam a mera descrição da exuberância da terra e da qualidade de seu solo, vistos como impulso à sua exploração.

A ficção pós-independência

O percurso da ficção são-tomense, diferentemente da poesia - que tem um marco importante com a publicação do livro Ilha de nome santo, de Francisco José Tenreiro, em 1942 - terá como marco significativo o surgimento da novela de Rafael Branco (nascido em 7 de setembro de 1953), Makuta, Antigamente lá na Roça (1979), publicada em edição mimeografada. A novela que evoca o sistema de contrato predominante nas plantações de cacau e café, tendo uma segunda edição em 2004, coloca-se na contramão da visão apologética característica da literatura colonial. Ao encenar as relações socioeconômicas culturais e políticas entre colonizadores e colonizados, enfoca a condição do contratado, a força de trabalho necessária ao desenvolvimento econômico das roças. Rafael Branco volta a enveredar-se pelos caminhos da ficção com o romance Lévélengué – as gravanas de Gabriela, em 2006, tendo recebido, por esse romance, o Prémio Literário Sonangol de 2005.

O padre Sacramento Neto (1932 – 2019), considerado por Inocência Mata, “o mais prolífero ficcionista do pós-independência” (MATA, 2010, p. 126), publica Tonga Sofia, em 1981, Milongo (1985) e A Rainha (1992). Esses romances remetem ao mundo da roça e às relações entre brancos e negros nele desenvolvidas. São também de autoria de Sacramento Neto os romances Peneta (1989) O Testamento de Cristina (1995) e Vovó Mariquinha (1998).

No ano de 1984, Frederico Gustavo dos Anjos, que também publicou poesia, lança a novela Bandeira para um cadáver, explorando o tema da loucura, inspirando-se em história real.

Em 1985, Albertino Bragança, pseudônimo literário de Albertino Homem dos Santos Siqueira Bragança, publica o livro Rosa do Riboque e outros contos (1985), trazendo para os quatro contos, “Rosa do Riboque”, “Reencontro”, Solidariedade” e “Solidão”, experiências e vivências dos moradores do Riboque, populoso bairro da periferia da cidade de São Tomé, célebre, no tempo colonial, pelas atividades de contestação exercidas por seus moradores. Albertino Bragança publicou Um clarão sobre a baía (2004), que é dedicado a Lereno Mata, assassinado na prisão, em 1978, durante o regime único do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP)”. O escritor publica ainda Aurélia ao Vento (2011), Preconceito & outros contos (2014), Ao cair da noite (2015). Albertino Bragança, junto com Alda Espírito Santo e jovens são-tomenses, organiza, em 1985, a União Nacional de Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe (UNEAS). Em 2021, aos 77 anos, o escritor foi laureado com o prêmio literário “Guerra Junqueiro Lusofonia 2021”.

Também na década de 1980 surgirá o conto “Sans Gentí” (1985), de Manu Barreto, pseudônimo literário de Manuel Barreto, explorando as relações familiares e as tradições vigentes em região situada ao norte da ilha de São Tomé.

Já na década de 1990, é publicado o livro A palavra perdida e outras histórias (1990), de Rufino Espírito Santo, uma coletânea de três contos. Em um deles, “A nené e o tempo”, são explorados recursos do fantástico.

Em 1992, Aíto Bonfim, pseudônimo literário de Ângelo de Jesus Bonfim, poeta, dramaturgo e ficcionista, publica o romance Suicídio cultural, que é reeditado em 2002. O enredo de Suicídio cultural é sucintamente revelado já no início da narrativa, quando o foco narrativo recai sobre um prisioneiro político que, em sua cela, “dialoga consigo próprio, ora desdobrando-se nas suas três fases etárias, ora transportando toda a sua memória vivencial ao tempo presente” (BONFIM, 2002, p. 17). As indicações sobre o conteúdo do romance funcionam, para o(a) leitor(a), como marcações de uma peça teatral trágica em que se desenrolam situações guardadas pela memória e constatações a que chega o condenado, quando se dá conta do “genocídio biológico e cultural” (BONFIM, 2002, p. 140), imposto ao continente africano.

O romance Quinze dias de regresso (1993), de Maria Olinda Beja, nascida em São Tomé e Príncipe e, desde muito cedo, deslocada para Portugal, acentua a projeção autobiográfica que pode ser encontrada na poesia da escritora. Zuleide Duarte e Izabel Oliveira Martins, no texto “Gravana: um chão de lágrimas e de saudade”, de 2020, assinalam que, em vários livros e poemas de Olinda Beja, estão tematizados “a pátria, na distante África, e Portugal, pátria adotiva”, sonho da impossível ubiquidade alimentado de duas vidas simultâneas, vividas pelo registro da realidade e do desejo” (DUARTE, OLIVEIRA, 2020, p. 252). São de autoria da poetisa e ficcionista os livros de contos: Pingos de Chuva (2000), A Ilha de Izunari (2003), Pé-de-Perfume (2004), Histórias da Gravana (2011), Chá do Príncipe (2017), além do romance A Pedra de Villa Nova

A retomada de eventos que denunciam a violência da colonização, em São Tomé e Príncipe, encenada, por exemplo, pelos romances No altar da lei (1962)16, Vila Flogá (1963) e Crónica de Guerra inventada (2000), de Sum Marky, também está presente no romance Retalhos do Massacre de Batepá (2006), de Manuel da Costa Teles Neto (Malé Madeçu). O livro recebeu o Prêmio Sonangol em 2005.

Nos anos recentes, surgem ainda os romances de Orlando Piedade, O Amor Proibido (2011), Os Meninos Judeus Desterrados (2014) e Escravos e Homens Livres (2018), todos eles inspirados em fatos da história de São Tomé e Príncipe. Também comprometido com o discurso da história, surge O Mistério das Sete Pedras (2017), de Manuel Bernardo.

É mister considerar, para finalizar esse percurso sucinto do modo como a ficção se desenvolveu em São Tomé e Príncipe, o que diz Inocência Mata (2019, p. 44) sobre o tema:

Embora a poesia continue a ser um género privilegiado, em termos de produção literária são-tomense, a prosa de ficção já não é incipiente, longe de uma qualquer “recessão literária”, como uma vez a caracterizei (Mata, 2010: 91). Pode dizer-se que essa prática tem vindo a participar na construção de um imaginário a partir da literatura — mesmo porque «toda a ficção literária (e, em sentido mais lato, toda a obra de arte), não só é história, como não poderia deixar de o ser» (Saramago, 1999: 5).

O sistema literário de São Tomé e Príncipe prossegue em sua consolidação e fortalecimento tanto no âmbito da criação e quanto da recepção das obras ao que assomam a reivindicação de condições objetivas e necessárias para promover a formação de leitores/as da geração de hoje e do futuro.

Notas

1 A expressão, segundo Inocência Mata, foi utilizada por Francisco José Tenreiro para se referir ao período “em que São Tomé e Príncipe foi entreposto de escravos e porto de escala e aonde chegavam grupos de emigração do além mar, aglutinando elementos de cultura variada (africanos, portugueses e americanos, do Brasil fundamentalmente) e já miscigenados.” (MATA, 1998, p. 22).

2 A maior parte dos estudos sobre Amador baseiam-se em um manuscrito do Vaticano, escrito em italiano, sem data e publicado pelo Pe Antônio Brásio na revista Monumenta Missionária Africana. Segundo Isabel Henriques, os documentos da época afirmam que “um preto da Ilha de S. Tomé, chamado Amador, se levantou com os homens da sua cor e se proclamou Rei da mesma ilha...”. [...] Amador apresentava-se como “Capitão General das Armas digo (sic) de Guerra Rey nomeado absoluto com o poder de dar liberdades a todos os captivos, arrastando atrás de si uma multidão de Africanos que ‘juraram obedecer-lhe até à morte”. (HENRIQUES, 2000, p. 116).

3 O Massacre de Batepá aconteceu no ano de 1953 em decorrência da decisão do então governador-geral das ilhas, Carlos Gorgulho, de obrigar os nativos a trabalhar como contratados nas roças de cacau e café e nas obras públicas. A administração colonial autorizou a perseguição dos que não aceitam as ordens de que resultaram prisões em massa, execuções sumárias. Além de serem queimadas as casas dos revoltosos, mulheres violadas e mil são-tomenses foram aprisionados e torturados. A maioria dos aprisionados foi levada para campos de trabalhos forçados e vários mortos. No âmbito da Literatura, o terrível massacre foi retomado, por exemplo, em poemas de Alda Espírito Santo e Conceição Lima e vem sendo correntemente refletido por historiadores e estudiosos. Para saber mais consultar: HENRIQUES (2000); RODRIGUES (2018).

4 Tomás Medeiros em “Carta aberta a um nacionalista inflamado” problematiza e distancia Tenreiro do Movimento da negritude, sustentando que: “O negro de Tenreiro nada tem a ver com o negro de África. É pura composição literária. Tenreiro não faz a destrinça ente as diferentes etapas do movimento literário afro-americano. Mistura poetas da fase da escravatura, da renascença do Harlem e do negro da afirmação da sua pertença ao mundo americano.” (MEDEIROS, 2011, p. 182).

5 O termo é cunhado por Inocência Mata que considera a literatura de São Tomé e Príncipe insular, consoante a percepção da configuração geográfica das ilhas. A pesquisadora entende a nação são-tomense como “produto profundo do labor transculturativo, no seu processo de formação”. Segundo ela, o delineamento geográfico das ilhas dimensiona “certa insularidade” que “não é vivida na sua dimensão psicológica [...] como a insularidade cabo-verdiana”, pela relação umbilical que os ilhéus mantêm com a “Terra-Matriz” e a “vinculação telúrica que o homem mantém com a terra”. (MATA, 1998, p. 75).

6 Edição impressa com o título original, edição do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, de 1967, coleção “Para a história das literaturas africanas de expressão portuguesa”, dirigida, organizada e orientada por Manuel Ferreira.

7 Vale conhecer o artigo “Manuela Margarido: uma poetisa lírica entre o cânone e a margem” (MATA, 2010).

8 Manuel Ferreira, No reino de Caliban II, 1988, 428, p. 433.

9 No espólio do poeta, foram encontrados poemas dispersos, alguns escritos em crioulo-forro da ilha de S. Tomé, publicados no Novo Almanach de Lembranças Luso-brasileiro, nos anos 80 do séc. XIX, e outros, na História Etnográfica da ilha de S. Thomé (1895), de António Lobo de Almada Negreiros.

10 Os termos integram o trecho da obra de Almada Negreiros citado por Mata (2019, p. 24).

11 Inocência Mata (2001, p. 210) indica autores e obras que permitem compreender os jogos de interesse em que eram colocadas as ilhas do além mar: obras de: Raimundo José da Cunha Mattos, Coreografia histórica das ilhas de São Tomé e Príncipe. Ano Bom e Fernando Pó, de 1842; João Maria de Sousa e Almeida, o Baráo de Água Izé, que deixou escritos sobre a geografia, a fauna e sobretudo a flora de São Tomé e Príncipe, sobre a cultura do cacau e da fruta-pão e outros escritos informativos, alguns publicados no Boletim Oficial das Províncias de São Tomé e Príncipe, nos Anais do Conselho Ultramarino nos anos 60 do século passado; Manuel Ferreira Ribeiro, autor d’ A Província de São Tomé e Príncipe e suas dependências,1877; Vicente Pinheiro de Melo e Almada,Visconde de Pindela,autor de As Ilhas de S.Tomé e Príncipe,1884;José Joaquim Lopes de Lima, com Ensaios sobre estatística das ilhas de São Tomé e Príncipe,1844: Adriano Vieira, Aves das Ilhas de São Tomé, (publicado em O Instituto, (1887): A. F. Nogueira, A Ilha de São Tomé,1893; o já citado António Lobo de Almada Negreiros, com a História Ethnográfica da Ilha de São Tomé ,1895, estudo pioneiro de teor etnográfico de sociológico das populações da ilha. Mata aponta, “já no dealbar do Séc.xx, António de Castro Moraes, autor de Um breve esboço dos costumes de São Tomé e Príncipe e dos governos do general Luiz Joaquim Lisboa e do capitão de fragata Joaquim Bento d’Almeida,1901: Francisco Silveira, com o seu importante artigo “Sobre alguns costumes de São Tomé”, publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa,1903); e o Conde de Sousa e Faro , autor de A ilha de São Tomé e a Roça Água Izé ( 908).

12 Em decorrência da publicação desse romance, Sum Marky foi detido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estudo ( PIDE) , criada em 1945.

13 Ver: Espectros de Batepá. Memórias e Narrativas do Massacre de 1953 em São Tomé e Príncipe (2018), de Inês Nascimento Rodrigues, além do livro de José Deus Lima (2002), História do Massacre de 1953 em S. Tomé e Príncipe: em busca da nossa verdadeira História. São Tomé: Edição do Autor.

14 O conto “Um homem igual a tantos” foi publicado na revista Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império - v. I, ano II, n. 8, 1959, p. 22 – 24; “Aconteceu no morro “na mesma revista - v. 2, ano III, n. 5/6, 1960, p. 4 – 8.

15 Em decorrência da publicação desse romance, Sum Marky foi detido pela Polícia Internacional e de Defesa do Estudo (PIDE), criada em 1945.

Referências

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*Assunção de Maria Sousa e Silva é doutora em Letras – Literaturas de Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora adjunta da UESPI, professora titular UFPI/EBTT. Autora do livro Nações entrecruzadas tessitura de resistência na poesia de Conceição Evaristo, Paula Tavares e Conceição Lima.

**Maria Nazareth Soares Fonseca é Doutora em Literatura Comparada pela UFMG, estágio na Université de La Sorbonne Nouvelle, Paris (1982/1983 e 1992). Professora Aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora Adjunta do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC-Minas, período 1995 – 2018. Autora dos livros: Brasil afro-brasileiro (2000); Poéticas afro-brasileiras (2003); Literaturas africanas de língua portuguesa: percursos da memória e outros trânsitos (2008); Mia Couto: espaços ficcionais (2008); Literaturas africanas de língua portuguesa: mobilidades e trânsitos diaspóricos (2015). Co-organizadora da coletânea Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Volume 4. (2011). Coordena, desde 2010, o Grupo de Estudos Estéticas Diaspóricas (GEED) que congrega pesquisadores de vários estados do Brasil e de várias cidades de Minas Gerais. A partir de 2021, coordena a seção literÁfricas, no literafro/UFMG, que tem como objetivo transformar-se em um canal de acervo, multiplicação e socialização de artigos críticos, resenhas, entrevistas e textos literários de escritores(as) africanos(as) e afrodiaspóricos(as).

***Roberta Maria Ferreira Alves é professora da Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM. Pós-doutora em Letras – Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas. Doutora em Letras – Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas. Integrante do Grupo de Estudo Estéticas diaspóricas (GEED) desde 2010. Co-organizadora com Wellington Marçal de Carvalho do livro: Deslocamentos Estéticos (2020) e integrante da Comissão editorial do literÁfricas.

 

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