Editora Malê

A Malê Editora e Produtora Cultural foi fundada por Vagner Amaro e Francisco Jorge, em agosto de 2015, no Rio de Janeiro, RJ. Com um catálogo extenso, seus livros são encontrados em grandes e médias livrarias, lojas virtuais e eventos literários. A editora prioriza a edição de textos de literatura (romances, contos, poesia e ensaios) escritos por escritoras negras e escritores negros brasileiros. Segundo Vagner Amaro “A Malê é planejada com objetivos bem específicos: aumentar a visibilidade de escritores e escritoras negros contemporâneos; ampliar o acesso às suas obras; e contribuir com a modificação das ideias preconcebidas sobre os indivíduos negros no Brasil.

 

Entrevista com Vagner Amaro, Editora Malê 

 

1. Fale um pouco sobre sua trajetória como editor de livros.

Minha trajetória como editor se inicia ainda como bibliotecário, quando desenvolvi alguns projetos de edição para divulgar as metodologias de ensino que eram aplicadas na escola em que eu trabalhava. Pude organizar livros como Machado de Assis por jovens leitores, editado em parceria com a Autêntica, uma coleção que publicava dissertações e teses dos professores, entre outras publicações. O desejo de ter uma produtora cultural, uma editora e uma livraria já existia. Então, passei anos pesquisando sobre as necessidades para abrir estes empreendimentos. Ainda trabalhando como bibliotecário, em 2015, fundei a Malê Editora e Produtora Cultural.

 

2. Como se deu a sua formação como editor?

Eu não fiz uma faculdade de produção editorial. Tenho formação como técnico em Artes Gráficas, pelo Senai, uma graduação em Biblioteconomia e depois outra em Jornalismo, especialização em Gestão Cultural com ênfase em Marketing Cultural e Mestrado em Biblioteconomia. Então, minha formação é o somatório destas formações, aliadas à minha experiência como bibliotecário e meu grande envolvimento com a leitura literária. Toda minha trajetória de estudos e profissional esteve relacionada aos livros, à leitura e à informação. Talvez de uma forma um tanto inconsciente eu fui me preparando para o momento em que abriria uma editora.

 

3. O que é a Editora Malê?

A Malê é uma editora e uma produtora cultural, planejada com objetivos bem específicos: aumentar a visibilidade de escritores e escritoras negros contemporâneos; ampliar o acesso às suas obras; e contribuir com a modificação das ideias pré-concebidas sobre os indivíduos negros no Brasil. Então, existe uma função social muito definida. Isso se dá a partir da edição de livros, a formação de novos escritores por meio do Prêmio Malê de Literatura e das oficinas de escrita criativa, a produção de eventos literários, o incentivo à circulação de autores e um forte trabalho de divulgação e de assessoria de imprensa aos livros que editamos. No entanto, esta definição é flexível, é uma linha de trabalho que pode vir a ser incrementada por outras frentes, temas e interesses.

 

4. Onde funciona a casa editorial? Houve alteração de endereço?

A Malê funciona no Centro do Rio de Janeiro.

 

5. Quem fundou a casa editorial? Quando? Com que objetivos?

Quando planejei a editora, com base em todas as pesquisas que havia feito e em minha experiência profissional, convidei um amigo, Francisco Jorge, que, pela experiência profissional, com um trabalho voltado para a gestão educacional em projetos sociais, poderia contribuir sendo meu sócio. Trabalhamos apenas com prestadores de serviço, de acordo com os projetos que desenvolvemos. Não possuímos funcionários. Somos os fundadores. A Malê foi fundada em agosto de 2015.

 

6. Quais são os valores da casa editorial?

Transparência, qualidade, diversidade e responsabilidade social.

 

7. Que realidade de mercado foi encontrada? E hoje?

Iniciamos a editora no momento de crise financeira no país e em um momento também de redução e até fim de programas de distribuição de livros por parte dos governos federal, estadual e de prefeituras. Hoje, esta crise se acentuou. Trabalhamos com um nicho em que havia uma demanda grande. Leitores não encontravam nas livrarias, ou disponíveis na internet, alguns dos títulos que editamos. Acredito que isso contribuiu para dar sustentação à nossa proposta e viabilizou o crescimento do nosso catálogo.

O mercado de livros no Brasil é mínimo se comparado com a quantidade de leitores potenciais existentes.

 

8. Há ponto de venda física? E loja virtual?

Hoje, nossos livros estão disponíveis nas grandes livrarias, como Cultura e Saraiva; em livrarias de médio porte, como Travessa e Martins Fonte; em algumas livrarias pequenas de algumas cidades, como Porto Alegre, Salvador, São Paulo, Rio de janeiro e Belo Horizonte. Os livros também são vendidos no site da Editora, na Amazon, no Estante Virtual e em outras lojas virtuais. Trabalhamos com distribuidores que frequentam os eventos da área e distribuidores e livrarias que estão presentes nos grandes eventos literários.

 

9. Como funciona o processo de produção editorial da Malê?

De duas formas: ou eu convido alguns autores que gostaria que fossem editados pela Malê ou, em outros casos, os autores fazem contato e apresentam o trabalho. Fazemos uma seleção anual do que será editado. Esta seleção entra no planejamento da editora. Quando somos procurados por autores que não estão nesta seleção, mas que pretendem investir nas suas publicações, tentamos viabilizar o projeto. Depois da seleção, o original retorna para o autor com sugestões, considerações, impressões de leitura e, depois que se tem o texto final, é feito o projeto de produção do livro. Finalmente, o original passa pelos processos de concepção do projeto gráfico, revisão, diagramação, impressão, planejamento do lançamento, divulgação e distribuição.

 

10. Quantos funcionários a casa editorial possui? E colaboradores (free lancer, etc)? Como se organizam em termos de setores?

Temos quatro grandes setores: Administração; Edição; Comunicação e Produção Cultural.

 

11. Quais linhas editoriais orientam o catálogo da casa editorial?

Priorizamos a edição de textos de literatura (romances, contos, poesia e ensaios) escritos por escritoras negras e escritores negros brasileiros e outros da diáspora africana. Temos um selo infantil voltado para temas como cultura e histórias africana, cultura e história afro-brasileira e indígena, além de textos que tratam de identidade e alteridade. E temos um compromisso em registrar o pensamento dos pesquisadores negros.

 

12. Quais gêneros a casa editorial publica? Por que?

Priorizamos a edição de textos de literatura (romances, contos, poesia e ensaios) escritos por escritoras negras e escritores negros brasileiros. Entendemos que a leitura literária é capaz de democratizar o indivíduo.

 

13. Quais os principais títulos e autores publicados pela casa editorial?

Nossa autora de maior destaque é a Conceição Evaristo e o título de maior destaque é o livro Insubmissas lágrimas de mulheres.

 

14. O que a casa editorial considera no momento de selecionar autores e títulos?

Um texto escrito por um autor que tenha um grande compromisso com a palavra, com a literatura, com o tempo necessário de maturação da obra, que tenha uma identidade bem marcada, que seja singular, que contribua de alguma forma para ampliar sensibilidades, que possua características que tornem seu texto indispensável.

 

15. Como ocorre esta seleção?

Recebemos o texto durante o ano todo, mas o processo de seleção para o ano seguinte se inicia em setembro. São muitos textos, o que é positivo. Em alguns casos, parece-me que o desejo de publicar está acima do desejo de escrever, ou seja, muitas pessoas que escrevem querem estar na cena literária sem necessariamente ter o esforço de lidar com seu próprio texto e suas limitações, aprimorando, até alcançar um bom resultado e até mesmo sem ler a literatura produzida por outros autores. Por outro lado, vemos diversas editoras que publicam textos considerando apenas o investimento financeiro do autor. Isso cria um pouco esta ilusão de que basta escrever para ser um bom escritor e produzir uma literatura que faça algum sentido. Esta atitude empobrece, de maneira geral, o repertório literário do brasileiro.

 

16. Há selos específicos? Por que?

Temos o selo infantil, Malê Mirim, e vamos criar um para pesquisas, teses, dissertações, ensaios, algo como “pensadores brasileiros”. O selo ajuda na identificação das obras, na organização e na divulgação.

 

17. Na sua visão, que dificuldades o autor negro enfrenta no mercado editorial?

Os escritores, de modo geral, criam suas obras a partir da visão de mundo que eles possuem, das suas experiências e perspectivas, o que não necessariamente quer dizer que falam de si ou fazem relatos. Mas a literatura que produzem está impregnada de algo que é uma marca da sua própria existência. Um exemplo; em boa parte dos textos que recebo para o Prêmio Malê de Literatura, quando um personagem branco é apresentado, esta informação é descrita, então aparecem no texto “uma professora branca”, um “balconista branco”. Isso é algo pouco usual na nossa literatura em que o outro, normalmente, a ser descrito, é sempre o negro ou o índio. Então acredito que o que vem sendo negado no mercado editorial é este olhar para o mundo do escritor negro brasileiro, em que, muitas vezes, o narrador e/ou protagonista são negros. Tanto é que os escritores negros africanos e principalmente os afro-americanos conseguem publicar em grandes editoras brasileiras. No caso do escritor negro brasileiro, quando ele inventa seu universo literário, este vai transgredir a cena literária usual, ele vai trazer uma nova perspectiva, uma nova representação das relações pessoais e do país e, claro, que nesta representação estará presente as exclusões sociais existentes na nossa sociedade. Por isso, seus textos são repelidos pelos editores e empresários do mercado editorial, que são brancos. Alia-se a isso uma crença de que não haverá interesse dos leitores pela literatura produzida por autores negros. Então, a principal dificuldade que um escritor negro encontra está e não está associada à cor da sua pele, pois ele não estará necessariamente fora do jogo por ser negro, mas se opta por ter um projeto literário em que a sua subjetividade está inserida e representada nos seus personagens, sejam eles negros ou não, ele terá mais dificuldade de acessar os grandes investimentos que são feitos em uma obra, pois quem define isso são empresários do mercado editorial, os donos das grandes editoras, um grupo formado, quase exclusivamente, por pessoas brancas.

 

18. Na sua opinião, qual o papel das chamadas editoras negras para a difusão da literatura negra/afro-brasileira? Como você analisa seu papel neste cenário?

As editoras negras têm um papel importantíssimo de trazer diversidade e representatividade. Não é um fenômeno apenas brasileiro. Nos Estados Unidos, surgiram muitas editoras negras nas décadas de 1960 e 1970. Elas atendem a algumas demandas: a do leitor, que quer ler uma literatura em que se veja representado, em que se identifique mais facilmente; a do autor, que quer divulgar sua arte; e da literatura de um país, que, quanto mais representativa e pluralizada for, mais coerente estará com sua diversidade.

Acredito que a Malê trouxe um novo impulso para esta área e isso se deu pelas competências que eu já trazia na área de livros, leitura e bibliotecas. A Malê levanta algo que é bem polêmico ainda no Brasil, “priorizar escritoras e escritores negros”. Então, não somos uma editora apenas voltada para divulgar e difundir a cultura negra, já que estes textos podem ser escritos por escritores brancos. O que nos interessa é promover o autor negro.

Penso que assumir nossa prioridade de editar autores negros, embora traga reações raivosas de pessoas brancas, muitas que nem são escritoras por sinal, traz um posicionamento novo e isso talvez se dê porque nossas referências principais são o grupo Quilombhoje e os movimentos negros surgidos no final da década de 1970 e também porque surgimos após o advento das cotas raciais nas universidades e concursos públicos, dos editais para artistas negros de diversas áreas, enfim, de políticas públicas que são voltadas exclusivamente para os negros e de todas as discussões e pesquisas que estas políticas fazem surgir. Cada nova editora negra traz uma contribuição, fortalece a luta, espero que surjam outras.

 

19. A produção editorial negra brasileira circula a contento? Por que?

Não circula tanto quanto deveria, mas acredito que devemos ter um outro olhar para o nosso mercado editorial, entender quem de fato é o consumidor de literatura. Na Malê, buscamos as formas mais tradicionais para a circulação, mas também outras mais flexíveis. Este modelo tradicional de distribuição e vendas de livros já não atende às expectativas de muitos. Conheço autores que preferem vender seus próprios livros e pequenas editoras que não querem estar nas livrarias.

No caso da produção editorial negra, acredito que ela ainda precisa estar em uma grande estrutura de divulgação e circulação, porque são décadas em que não esteve neste lugar.

Entender o mercado editorial e encontrar seus leitores, sejam eles quantos forem, é mais importante que buscar ter a mesma distribuição que um livro pensado para ser um best-seller.

 

20. Que apoio a editora recebe ou recebeu ao longo de sua trajetória?

Não recebemos nenhum tipo de apoio, para nenhuma edição e nenhuma atividade. Todo o investimento foi feito pelos sócios.

 

21. Que relação a editora procura estabelecer com os leitores? E com os autores?

A relação com os leitores é a melhor possível. Pretendemos ainda criar mais canais de interatividade com os leitores que compram nossos livros. Eles são comunicados sobre nossos lançamentos, eventos e promoções.

Com os autores, o primordial é que seja uma relação transparente, formal, documentada e com um equilíbrio de expectativas. Dentro do possível, investimos nos lançamentos e na circulação dos autores. Um exemplo, foi em 2016, quando montamos uma casa durante a Flip, em Paraty, para a divulgação da literatura de autoria de escritores e escritoras negros.

 

22. Quais têm sido as principais dificuldades enfrentadas nesses anos?

Uma grande dificuldade foi conseguir ter nossos livros nas grandes redes de livrarias e conseguir bons distribuidores. Montar um banco de dados de bons prestadores de serviço também foi um desafio, pois há, em alguns casos, um descumprimento de prazos e da qualidade em relação ao que foi acordado. Isso prejudica todo o processo de produção de um livro e, em muitos casos, traz grandes prejuízos.

 

23. Você mudaria algo na trajetória da casa editorial?

Não, muito já foi mudado de acordo com as circunstâncias. Então, diante do que foi planejado, já fizemos bastantes mudanças. Temos colocado em prática tudo o que foi pensado para a Malê: as edições de qualidade, a distribuição abrangente dos livros, os eventos literários produzidos pela editora, a participação dos autores que editamos em grandes eventos literários, as matérias nos cadernos de cultura, as oficinas de escrita literária e o apoio para o surgimento de novos autores...


Entrevistador e Revisor: Prof. Luiz Henrique Silva de Oliveira 

30 de janeiro de 2018