África triunfante

Zahidé L. Muzart*

Na poesia de Cruz e Sousa,

O desejo pela mulher negra vai

Aparecer jubiloso, verdadeiro

“orgasmo” com as palavras

Um aspecto de grande importância a destacar, na obra de Cruz e Sousa, é o erotismo.

Ao ler Affonso Romano de San t’Anna em “O Canibalismo Amoroso”, os simbolistas ficaram sempre no umbral do desejo – amadas mortas ou encasteladas, monjas inacessíveis, múmias -, o desejo nunca realizado. Ao ler Cruz e Sousa, procurando por essas imagens, nós as encontraremos certamente. Porém, sem nenhum preconceito estabelecido, vamos encontrar também um erotismo mais ligado ao bárbaro do que ao civilizado, ao africano do que ao ariano, à África de suas origens e não ao branco de sua formação, à vida e não à morte. O exemplo melhor é o poema em prosa “tenebrosa” (in Evocações), texto erótico de grande beleza, mesmo comparado a outros da literatura brasileira. Verdadeiro hino de amor à negra.

Todo o texto mostra o anseio da vida livre e bárbara em largas paisagens africanas. A mulher assemelha-se a uma “noturna e carnívora planta bárbara” com os olhos “cheios de tropical sensualismo africano”. O amor dessa mulher “deve ser como frondejante árvore de sangue”. A amada é sol, é luz, é terra.

Aqui, contrariamente a poemas de broqueis, é esquecida a mulher branca e só louvada a beleza negra. Diz Bastide que é a mulher branca a que predomina na obra do poeta. Porém, não conheço texto dedicado a ela que seja tão longo e de tanta tensão. Em geral, quando o poeta cede aos preconceitos e pinta uma mulher branca de olhos azuis, atribui-se qualidades de virgindade e de pureza. Ex: “sonho branco’: “De linho e rosas brancas vais vestida, / sonho virgem que cantas no meu peito!...”

O poeta cede aos estereótipos que estabelecem o branco para o puro, o negro para o impuro. O branco seria o ideal; o negro, o pecado, o inferno, o caos. No entanto, em “Tenebrosa” vemos o negro (ou melhor, a negra) como a vida, a força criadora, o amor, a construção, a paixão. Representa, igualmente, numa volta à África, o mundo do instinto pagão, uma volta às origens. Cruz e Sousa faz, neste texto, uma reversão do estereótipo com relação ao negro e glorifica-o, pois se trata de uma glorificação do amor com a negra. Enquanto a seus textos eróticos com mulheres brancas levam à esterilidade e à solidão, no poema à negra o poeta vai alcançar um verdadeiro “orgasmo” com as palavras.

Na poesia de Cruz e Sousa, o desejo pela mulher branca expressa-se em cores sombrias e sem real erotismo, enquanto o desejo pela mulher negra vai aparecer de uma maneira que podemos classificar de “jubilosa”.

“Tenebrosa” é um texto erótico, mas é, igualmente, texto de “combate”, ousando gritar ao mundo a existência negra, a beleza negra, o amor negro e não a servidão.

Com este texto, estamos na última fase (para um estudo da poética de Cruz e Sousa) do percurso do poeta. A primeira é a da alienação – aceitação do branco, a imitação do branco, no Desterro, aceitação de suas leis, inclusive a lei do parnasianismo (Broqueis). Fase onde a cor branca é muito importante e a mulher branca é a mais celebrada.

A segunda fase é a da revolta contra tudo e contra todos. É, também, uma fase de autopiedade, que dá origem a textos mais amargos. É o emparedado, o assinalado.

A terceira fase é a da “África triunfante”. A tomada de consciência de si próprio, maturidade, a aceitação da raça negra. Não mais a devoração, a antropofagia como complexo, mas como maturidade e escolha. É a fase de “Tenebrosa” e de outros poemas e é, também, a meu ver, a fase de uma intertextualidade mais livre, onde há um diálogo de culturas e não imitação.

O poeta trilhou um caminho inverso. A não aceitação da raça levou-o a optar pela cultura branca e até pelo parnasianismo. Com a capitulação, advinda somente na maturidade, o poeta aceitará o primitivo como arte e, já que arte e vida estão intimamente ligadas, pelo amor à mulher negra, Cruz e Sousa reencontra suas raízes verdadeiras e alia a esse sentimento do primitivo, do bárbaro, à apropriação da cultura branca agora transformada. Não mais ele, negro, a serviço da cultura branca, mas esta dominada agora pelo poeta e livremente admitida por ele como linhas de seu texto. Na sua busca para escapar às origens o que, nos seus poemas noturnos, nitidamente os mais belos de sua obra (Faróis), vai lhe propiciar o encontro com a liberdade.

 

* Professora de Literatura Brasileira da UFSC.

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