A construção do negro no romance Úrsula

Juliano Carrupt do Nascimento*

Publicado em 1859, o romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis inaugura literariamente a imagem do negro perspectivada pela visão de mundo do escravo, no âmbito do romance brasileiro.

A identidade cultural dos personagens Túlio, Preta Susana e Antero acontece a partir da experiência desses personagens, que representam três aspectos diferentes da situação do negro, durante o período da escravidão no Brasil.

As características da tríade africana na narrativa são destoantes da que se construiu, culturalmente, sobre as bases dos estereótipos configurados pela moralidade escravocrata dos senhores patriarcais, proprietários de terras.

Na narrativa, há a consagração humana dos negros e a prevalência da africanidade, em oposição à situação degradante oriunda da escravização. No romance, são personagens que formam, através do diálogo, a perspectiva ideológica de seres de descendência africana contra a política escravocrata.

Os movimentos da caracterização estética e a consciência cultural se configuram como estratégia da autora em não apenas denunciar os aspectos políticos e econômicos que subsidiaram a escravidão no Brasil, mas estabelecer a africanidade do negro, mesmo que ele apareça institucionalizado no âmbito da serventia.

A identidade cultural se expressa pela via da estética que caracteriza os negros a partir de sua própria individualidade e experiências, tornando-os personagens relevantes para a formação discursiva e moral do romance.

No romance Úrsula, os negros aparecem culturalmente caracterizados como personagem que expressam a realidade africana presentificada na cultura brasileira, porém pela sinuosidade narrativa empenhada por Maria Firmina dos Reis, os negros assumem a perspectiva crítica em face de sua condição servil, seja através das palavras que proferem nos diálogos em que usam da voz, seja através dos atos que a eles cabem no encadeamento da construção do enredo.

A autora maranhense usou de forte consciência ideológica na construção de Túlio, Preta Susana e Antero, articulando-os no romance Úrsula, que é fortemente ajeitado aos moldes românticos da estética brasileira dominante no período determinado de 1830 a 1880, aproximadamente.

O problema consiste na forma com que os negros se manifestam na narrativa: contextualizados em universo cujas características coloniais predominam, onde há a existência de senhores patriarcais e escravocratas, e, ainda assim, eles (os negros) perspectivam suas ideologias de acordo com a africanidade, com sua descendência.

O encadeamento romântico da forma do discurso narrativo contribuiu retoricamente para a investida ideológica de Maria Firmina dos Reis, pois a evasão romântica, a dramaticidade das personagens, enquanto seres individuais e culturais, a sentimentalidade que as envolve e o tom eloquente com que a narrativa é construída, por imposição estética de determinado momento do século XIX no Brasil, substantivam a afirmação afro-descendente do romance, que se realiza na voz da narradora e dos personagens mencionados.

O negro aparece no Romantismo brasileiro como elemento estranho, à margem das temáticas romanescas, que viam no índio o auge da nacionalidade representada na literatura. No romance Úrsula, o escravo ganha voz, se torna pleno e visível, identificado mais à africanidade e suas características coletivas e ancestrais que à condição de mercadoria ou objeto.

O personagem Túlio representa a dignidade humana, portanto ele serve de padrão moral para os personagens ligados ao poder. A estratégia de Maria Firmina dos Reis, ao construí-lo, foi determinar a diferença entre alforria e manumissão, pois Túlio se vincula a esses conceitos, muito próprios da perspectiva escravocrata.

O jovem escravo é parâmetro moral da bondade, da elevação humana diante dos infortúnios que o cometem. Suas atitudes, no plano da narrativa, evidenciam não um processo de branqueamento moral, mas a dignidade de um ser humano elevado, superior aos mandos e desmandos determinados pelo escravismo. Túlio está alinhado, moralmente, ao herói romântico Tancredo, mocinho branco da narrativa.

A armação que a autora produz para igualar um herói branco a um negro escravo, sem que ambos sejam dissociados de suas determinações históricas, elege-os como iguais segundo o caráter, a moral e a ética da honestidade. As atitudes daqueles personagens se fundamentam contra a moralidade do senhor de escravos, tanto que o primeiro capítulo do romance Úrsula se intitula “Duas almas generosas” (REIS, 1859, p. 7-20).

A ideologia que envolve Túlio, aparentemente envolta pelo altruísmo, verifica-se em busca da liberdade. O escravo utiliza sua bondade como meio de se livrar da escravidão, a força de sua característica moral, de ser bom, não se reduz à ingenuidade. Como aparece no diálogo travado entre Túlio e Tancredo:

― Ah! meo senhor, ― « exclamou o escravo enternecido» ― como sois bom! Continuai, eu vo-lo supplico, em nome do serviço que vos presto, e a que tanta importancia quereis dar, continuais, pelo céo, a ser generoso, e compassivo para com todo aquelle que, como eu, tiver a desventura de ser vil e miserável escravo!

Costumados como estamos ao rigoroso despreso dos brancos, quanto nos será doce vos encontrarmos no meio das nossas dores! Se todos elles, meu senhor, se assemelhassem a vós, por certo mais suave nos seria a escravidão.

E o cavalheiro perguntou-lhe:

― Essa é Tulio, toda a recompensa que exiges?

― Sim, meo senhor. Fizeste-me tão feliz, que nada mais ambiciono; e rendendo a Deos graças pela minha presente ventura, supplico-lhe que vos cubra de benções, e que vele sobre vós a sua bondade infinita.

E o negro dizia uma verdade era o primeiro branco que tão doces palavras lhe havia dirigido; e s’ualma avida de uma outra alma que a comprehendesse, transbordava agora de felicidade e de reconhecimento.

Pobre Tulio. (Reis, 1859, p.19).

A generosidade de Tancredo, apreendida por Túlio, confirma o objetivo maior do escravo, que é trabalhar sendo um liberto. A relação de poder que existe entre ambos se estabelece a partir da determinação histórica, mas não simplesmente da condição moral imposta pela política do escravismo. Os dois são identificados pela bondade, pelo sacrifício, em relação aos senhores de terras e comendadores presentes na narrativa.

Maria Firmina dos Reis faz crítica, bastante explícita, não ao interesse de Túlio em relação a Tancredo, pois o escravo salvara o mocinho branco de um acidente, e este por recompensa dá-lhe dinheiro para que Túlio possa comprar a liberdade.

No romance, esse acontecimento do encontro entre o jovem escravo e o herói romântico típico, que é Tancredo, acontece para harmonizar a moralidade humana, sem que os personagens percam a determinação histórica, porém que permaneçam coerentes na estratégia estética da forma e confrontados ideologicamente na enunciação do romance para o levantamento crítico dos problemas étnicos, políticos e de identidades culturais conflitantes e vigentes desde os primórdios da cultura brasileira, na relação entre o branco herdeiro da colonização européia e o negro africano.

A comprovação de que Maria Firmina dos Reis faz crítica à institucionalização da política escravocrata e não, propriamente, à diferença étnica, está também na seguinte passagem do romance Úrsula, em que a narradora realiza a ancestralidade de Túlio, dando a ele família em África e, principalmente, liberdade, fazendo com que a evasão, típica do Romantismo, exceda o simples devaneio para ganhar foros de ideologia antiescravista:

Tinha-se alforriado. O generoso mancebo assim que entrou na convalescença dera-lhe dinheiro correspondente ao seu valor como genero, dizendo-lhe:

― Recebe, meo amigo, este pequeno presente que te faço, e compra com elle a tua liberdade.

Tulio obteve pois por dinheiro aquillo que Deus lhe dera, como a todos os viventes ― Era livre como o ar, como o haviam sido seos paes, lá nesses adustos sertões da África; e como se fora a sombra do seo joven protector estava disposto a seguil-o por toda parte. (Reis, 1975, p.31).

Túlio é o personagem que objetiva puramente a liberdade, seus gestos e atitudes buscam livrá-lo do julgo escravocrata, através de seu altruísmo e a partir de sua conduta de escravo, que consciente de sua condição servil e não de sua benevolência em relação aos “brancos” da narrativa, objetiva ser prestativo para ser reconhecido e, paulatinamente, liberto.

A afirmativa de Luzia Navas-Turíbio de que “Túlio vem a ser elemento chave do romance, responsável que foi pela aproximação de Tancredo e Úrsula” (NAVAS-TURÍBIO,1990, p. 26) se confirma na estrutura narrativa do romance e aponta para a construção romântica puramente estética desse personagem, no entanto, Túlio, além de ser o “elemento chave” por levar Tancredo até Úrsula, é também central para as vozes de Preta Susana e Antero, pois esses assumem a consciência original do africano e ensinam, cada qual a seu modo, mas africanamente ambos, o verdadeiro sentido de liberdade, a consistência de ser livre fora do julgo colonizador e escravocrata. Túlio é uma espécie de receptáculo , catalisador de experiências ancestrais, pois é ele, na condição de mais jovem, que recebe os ensinamentos culturais e humanos da África ainda não explorada pelos europeus.

Mais arraigado e com o sentido mais apurado pela experiência vivida, Preta Susana ensina a Túlio o que realmente deve significar a liberdade para o negro escravo africano. A anciã demonstra ao jovem que a liberdade não consiste na alforria ou manumissão, mas em ser livre em África.

Preta Susana representa a voz ancestral africana, no âmbito do romance romântico brasileiro, através da memória que cria outra realidade para os mitos de origem do brasileiro. Ela significa a evasão romântica a partir da experiência, e não, simplesmente, do negro escravizado, determinado pelo sistema econômico e político da época em que o romance Úrsula foi escrito, fato que, considerado por Eduardo de Assis Duarte, desnorteia, não só as questões coloniais brasileiras, como também:

Voz política que denuncia, em plena vigência do espírito das luzes, o conquistador europeu como bárbaro, invertendo de forma inédita a acusação racista ―corrente na Europa e presente no pensamento de filósofos do porte de Hegel ― que excluía a África do mundo civilizado. O romance prossegue com o verismo da descrição sobrepujando-se com a ficção propriamente dita. (ASSIS, 2009, p.273-274).

Preta Susana encarna a ancestralidade africana, considera a liberdade apenas como a permanência dela e dos outros africanos em África. Liberdade para ela não consiste em ser alforriado ou sofrer a manumissão, tal qual Túlio recebe.

Preta Susana ensina-o, à maneira de Griot, o significado da liberdade pelo viés da identidade cultural africana, quando uma pessoa mais velha ensina outra que está a menos tempo no mundo, através de narração das experiências pessoais para demonstrar o significado coletivo de um povo ou de um grupo étnico.

A velha africana, ao saber que Tancredo havia dado dinheiro a Túlio para que este comprasse sua liberdade e que o jovem escravo haveria de acompanhá-lo em uma viagem a negócios, Preta Susana interrogou-o: — Tu! tu livre? Ah não me iludas! — Meo filho, tu és já livre?... (REIS, 1859, p.93).

O verdadeiro sentido de liberdade aparece originalmente na literatura brasileira na fala de preta Susana, em que ela através de sua experiência vivida em África explica a Túlio o que é de fato liberdade:

— Sim, para que estas lágrimas?!... Dizes bem! Ellas são inuteis, meo Deos; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! liberdade... ah! eu a gosei na minha mocidade! — « continuou Susana com amargura » —Tulio, meo filho, ninguem a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquilla no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu paiz, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo ahi respira amor, eu corria as descarnadas e arenosas praias, e ahi com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos labios, a paz no coração, divagavamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias d’aquellas vastas praias. Ah! meo filho! mais tarde deram-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma: — uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio sellar a nossa tão sancta união. E esse paiz de minhas afeições, e esse esposo querido, e essa filha tão extremamente amada, ah Tulio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! tudo, tudo até a própria liberdade! (REIS, 1859, p. 91-92).

A narração de Preta Susana segue afirmando a africanidade, segundo sua experiência de vida e não de maneira a reduplicar o discurso institucionalizado da escravidão. O enunciado é a força africana na literatura brasileira, sua origem no âmbito da narrativa como construção da identidade do negro escravo, a priori e a posteriori, do tráfico negreiro:

Tinha chegado o tempo da colheita, e o milho e o inhame e o mendobim eram em abundancia nas nossas roças. Era um destes dias em que a naturesa parece entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bella, como o rosto de um infante, entretanto eu tinha um peso enorme no coração. Sim, eu estava triste, e não sabia a que atribuir minha tristesa. Era a primeira vez que me affligia tão incomprehensivel pesar. Minha filha sorria-se para mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah! nunca mais devia eu vel-a.

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Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repescutio nas matas, me veio orientar acerca do perigo eminente, que ahi me aguardava. E logo dous homens appareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira — era uma escrava! Foi em balde que supliquei em nome de minha filha, que me restituissem a liberdade: os barbaros sorriam-se das minhas lagrimas, e olhavam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi possivel... a sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram d’aquelles lugares, onde tudo me ficava — patria, esposo, mãe e filha, e liberdade! meo Deos! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o podestes avaliar!...

Meteram-me a mim e a mais tresentos companheiro de infortunio e de captiveiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de crueis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos n’essa sepultura até que abosdamos às praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os animais ferozes das nossas mattas, que se levam para recreio dos potentados da Europa. Davam-nos a agua immunda, podre dada com mesquinhez, a comida má e ainda mais porca: vimos morrer a nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de alimento e de agua. E’ horrivel lembrar que creaturas humanas tractem a seos semelhantes assim e que não lhes doa a consciencia de leval-os à sepultura asphixiados e famintos!

Muitos não deixavam chegar esse extremo — davam-se a morte.

Nos dous ultimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram a vozear. Grande Deos! Da escotilha lançaram sobre nós agua e breu fervendo, que escaldo-nos e veio a dar a morte aos cabeças do motim.

A dor da perda da patria, dos entes caros, da liberdade foram suffocadas n’essa viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades.

Não sei ainda como resisti — é que Deos quis poupar-me para provar a paciencia de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. (REIS, 1859, p.92-94).

A mesma memória que age na fala de Preta Susana, com o objetivo de ensinar a Túlio, é aquela que está no discurso de Antero. A ancestralidade neste personagem se dá de maneira menos dramática que a fala da velha escrava. Pois Antero, para demonstrar a Túlio o valor do trabalho e o valor dos símbolos locais e africanos utiliza a bebida alcoólica como marca identitária da africanidade. A bebida tomada por um escravo e a bebida tomada por um homem trabalhador e livre situa-a como “válvula de escape” para a sua condição de escravo, e no passado remoto como costume sustentado pela moral do trabalho:

É o unico vicio que tenho; e ainda por conserva-lo não prejudiquei a ninguem. Que te importa que beba, ― ‹acrescentou com voz que queria dizer: não tens coração› ― por ventura pedi-te algum dinheiro para fumo ou cachaça? — e dizendo afagava a cabaça vazia com um desvelo todo paternal, como que arrependido de tel-a despresado, a ella, a sua companheira constante.

Pois bem ―‹continuou o velho› ― no meo tempo bebia muitas vezes; embriagava-me, e ninguem me lançava isso em rosto; porque para sustentar meo vicio não me faltavam meios. Trabalhava, e trabalhava muito, o dinheiro era meo, não o esmolei. Entendes? (REIS, 1859, 172).

O Velho africano traz para o romance Úrsula a originalidade de sua identidade cultural, ao evocar por meio da cachaça a África, sua evasão se justifica ideologicamente pela dignidade do trabalho e dele vir o sustento para o vício do álcool. Há uma contraposição de valores em sua fala, onde o Brasil aparece como espaço da escravidão, e a África como lugar da liberdade humana.

Tal armação ideológica se desenvolve através da qualidade da cachaça e da possibilidade de sua compra ― no Brasil, de péssima qualidade, e efeito da alienação do homem, símbolo do fracasso e do vício; em África, de boa qualidade e vinculada aos momentos de lazer, símbolo de descanso e fruição do homem trabalhador ligado à Terra :

― Pois ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra ha um dia em cada semana, que se dedica à festa do fetixe, e n’esse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira. (REIS, 1859, 172-173).

Ao Maria Firmina dos Reis criar personagens africanos e situá-los no plano narrativo com voz e características próprias, sem a contaminação dos discursos estereotipados tanto dos liberais, que favoreciam o abolicionismo; e menos ainda sem a interferência dos conservadores que defendiam ainda a permanência do tráfico negreiro, a autora, dentro dos limites de seu tempo, confere outra dimensão ao negro no Brasil: a dimensão do humano.

Fugindo do discurso comum acerca da escravidão dos negros e escravatura dos brancos, a autora maranhense alcança o problema do ser humano contextualizado no âmbito da condição humilhante e perversa. Assim, há a subversão dos valores morais do humano como identidade cultural aproveitada pela literatura para criar o imaginário nacional por outro viés, pois:

Há neles uma reivindicação estética e outra ideológica de visibilidade literária, humana e social. Muito diferentemente das narrativas tradicionais que abordaram o negro no século XIX no Brasil, no romance Úrsula há originalidade expressiva, por eles (os negros) aparecerem ligados à identidade africana e não apenas como mercadoria ou escravo sofredor das imposições escravocratas. (NASCIMENTO, 2009, p. 105).

Heloísa Toller Gomes, em seu livro O negro e o Romantismo Brasileiro, reflete sobre a dificuldade dos escritores da época em tornar o negro elemento fundamental do discurso romanesco. A pesquisadora estabelece um parâmetro antropológico-ideológico que justifica o índio, como mito nacional para a construção da identidade brasileira, pois o negro, visto como objeto e serviçal presente maciçamente na sociedade, não estava distanciado da “vida real” dos escritores românticos, como estavam os índios isolados em reservas ambientais, depois de serem quase que completamente dizimados:

Não convivendo diretamente com o índio nem dependendo dele na vida real, o romântico brasileiro pôde transformá-lo em mito e realizar para ele seus ideais de homenagem. Social e economicamente ligado à sorte do escravo, nosso romântico sentiu indiscutível dificuldade em dar conta de presença tão incômoda qual fosse o negro, tão pouco propícia a idealizações, tão ameaçadora em seu quase silêncio reservado. (GOMES, 1988, p.31).

Essa ideia realmente prevaleceu no romance romântico brasileiro, de que o negro estava inserido na sociedade brasileira e pelo fato dessa inserção haver-se dado a partir do estigma, não pode ele ser idealizado pelos nossos escritores, cabendo à figura do índio o papel de representação da brasilidade.

Os personagens, de Maria Firmina dos Reis, Túlio, Preta Susana e Antero, estão indiscutivelmente fora dos padrões romanescos do Romantismo brasileiro, por eles representarem não a marca da escravidão, mas ao contrário, por expressarem a dimensão da africanidade em uma época em que nem era discutida a África no Brasil, pelo menos em termos de reconhecimento cultural e humano.

Os personagens rompem com os estereótipos de que o africano não tinha cultura, de que não tinham alma e que a escravidão, inclusive, a ele era uma dádiva de Deus. Coube, a Maria Firmina dos Reis, a tarefa de trazer para o romance brasileiro o negro integrado na condição de ser humano, com identidade cultural própria que depois foi negada pelo nacionalismo brasileiro. Jamais os romancistas do Romantismo poderiam se apropriar do negro como tema em que ele aparece africanamente, pois esse movimento literário pregava o “nacionalismo das cores locais” (CANDIDO, 2004, p.36).

Considerando as ideologias da época e as tendências do romance brasileiro do século XIX, a construção dos personagens africanos de Maria Firmina dos Reis representa a quebra da tradição nacionalista baseada apenas na figura do índio. Pois o negro também teve influência histórica, cuja voz, ainda que destoante ao Romantismo brasileiro, está, africanamente, alta e viva na narrativa do romance Úrsula!

 

Referências

 

CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, FFLCH/USP, 2004.

DUARTE, Eduardo de Assis. Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção afro-brasileira. In: Reis, Maria Firmina. Úrsula. Florianópolis: Ed. Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2009.

GOMES, Heloisa Toller. O negro e o Romantismo brasileiro. São Paulo: Atual, 1988.

NASCIMENTO, Juliano Carrupt do. O negro e a mulher em Úrsula de Maria Firmina dos Reis. Rio de Janeiro: Caetés, 2009.

NAVAS-TORÍBIO, Luzia. O negro na literatura maranhense. São Luis: Academia Maranhense de Letras (AML), 1990.

 

* Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutorando em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense - UFF. Autor do livro O negro e a mulher em Úrsula de Maria Firmina dos Reis, publicado pela editora Caetés em 2009. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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