Carolina Maria De Jesus: Brilha Que Te Quero Estrela

Sueli Meira Liebig*

 

RESUMO

Neste ano de 2014 – em que comemoramos o centésimo aniversário de nascimento da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, pensamos neste trabalho como forma de melhor ensejar a divulgação da sua obra e até mesmo da sua emblemática figura no meio acadêmico e, portanto fazer justiça a uma mulher extraordinária, cuja vida e obra – igualmente surpreendentes, contraditórias, complexas – deixaram marcas na inquieta geração dos 1960/1970. Mais conhecida nos Estados Unidos do que no Brasil, Carolina ainda hoje é estudada nos mais importantes departamentos de “Black Studies” dos cursos de graduação e pós-graduação americanos, embora entre nós o seu valor como escritora ainda não tenha sido devidamente reconhecido. Negra, favelada e semialfabetizada, a autora seria mais uma das muitas mulheres afônicas da classe C, se não fosse por um detalhe: o seu amor pela literatura e a ferrenha vontade de denunciar, através da sua escrita confessional, os abusos e preconceitos sofridos por ela e por outros favelados, fazendo-se porta-voz dos desvalidos que ocupam, nas suas palavras, “o quarto de despejo da sociedade”.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura negra, Carolina Maria de Jesus, Crítica social.

 

Abordando a problemática racial/social/sexual pelo viés autobiográfico, a escritora Carolina Maria de Jesus conta em seus “diários” sua infância e seu sofrimento em meio ao caos da desordem social do favelado, numa narrativa fiel da vida de um ser humano triplamente discriminado por ser negra pobre e mulher. Menosprezada pela grande maioria da crítica como praticante de um tipo de subliteratura, esta mineira de Sacramento (MG) teve a sua obra lançada à margem, senão mesmo excluída do milieu literário nacional: chamaram-na de testemunho, diário pessoal, relato próximo a um registro antropológico e até mesmo de resultado de um modismo em que ex-domésticas semialfabetizadas, pobres e faveladas, resolvem contar as suas terríveis experiências com o racismo, a opressão e o sexismo, em meio a uma sociedade que nem mesmo as reconhece como seres humanos. O mercado editorial brasileiro preferiu manter a obra de Carolina na esfera do pessoal, uma vez que todos os seus livros utilizam a forma de diário. Para autoras como ela, entretanto, o diário é a única forma de expressão literária, pois desconhecem a técnica da representação que emprega - como diria Luiza Lobo, “símbolos e alegorias para captar a existência a partir de uma produção imaginária da linguagem” (LOBO, 1993, p. 128). Sabemos que ficção e realidade não se opõem, pelo contrário, estão inter-relacionadas. Talvez por isto mesmo o primeiro livro de Carolina, Quarto de Despejo (1960) tenha tido o reconhecimento e a repercussão internacional de público e de crítica, figurando até hoje nos Estados Unidos entre as obras mais expressivas da chamada “literatura documentária de contestação” e tenha se tornado um best seller, com uma tiragem de mais de um milhão de cópias em todo o mundo. A fortuna crítica da obra desta ex-catadora de lixo que escrevia seus diários em pedaços de papel dalí retirados, paradoxalmente, percorreu o caminho inverso: repercutiu primeiro no exterior para depois tornar-se conhecida (não como deveria) entre nós. Tentando resgatar o lugar merecido da obra de Carolina no Brasil, o historiador, escritor e professor Joel Rufino dos Santos, acaba de lançar um primoroso trabalho de pesquisa sobre a vida e a obra de Carolina: Carolina Maria de Jesus: uma Escritora Improvável (GARAMOND, 2009, p. 165). A história é contada em flashback e mescla momentos da sua própria experiência de vida com a vida política do Brasil entre os anos 1950 e 1970 e os relatos feitos por Carolina sobre os mais diversos temas que afligiam a classe trabalhadora durante a Ditadura Militar, sugerindo assim uma visão mítica da autora que remete ao imaginário coletivo.

A narrativa de Jesus tem força e autenticidade; é capaz de surpreender e comover com seus textos às vezes ingênuos, outras quase bizarras, mas eivados de uma perspicácia notável no trato com os problemas humanos. Denotando um espírito evoluído e um ser humano cheio de sonhos, às voltas com a dureza e a indiferença da sociedade, sua obra denota claramente a esperança de dias melhores. Tais diários também expressam uma cosmogonia bastante peculiar; suas experiências, frustrações e opiniões – desde a singela lembrança da criança faminta que prova cocada em lata e pão com sardinha pensando ser um manjar, até as reflexões sobre governos, sobre o bovarismo alienante da pequena burguesia e sobre as revoluções. A autora faz uso de uma linguagem originalíssima, que agrupa sob o mesmo patamar um vocabulário rico, estruturas de extrema correção gramatical e construções linguísticas inusitadas – reflexo da dualidade entre a cultura oral – sempre enfatizada em seus livros – e a instrução adquirida nas leituras como autodidata.

É curioso notar, entretanto, que Carolina não teve a menor noção do seu êxito e do que se passava em sua volta. Com os 30.000 exemplares da tiragem inicial vendidos em São Paulo em apenas três dias, o sucesso editorial logo viria e ela iria superar – com exceção de Jorge Amado, que publicou em 55 países – todos os escritores brasileiros em termos de conhecimento no estrangeiro. “Representando um segmento social que começava a ameaçar o establishment, ela emblemava a luta de classes segundo o momento cabível e audível naquele determinado contexto político” (LIEBIG, 2009, p. 38). Poderia perfeitamente (por ser negra, mulher e favelada) ter sido assumida pelas esferas urbanas dos movimentos sociais dos anos 60 como símbolo do tão almejado poder de ascensão das massas, mas não foi. Ao contrário de outras escritoras da época que só tenderam a crescer, como as já consagradas Cecília Meireles, Rachel de Queirós e Lígia Fagundes Teles, o tempo admitia o surgimento destas que hoje são consideradas os grandes expoentes da cena literária feminina nacional: Nélida Pinõn, Clarice Lispector e Henriqueta Lisboa, dentre outras. Seria de se supor que Carolina, também escritora mundialmente famosa, estivesse apta a fazer parte desta constelação como exemplo diferenciado do modo de produção de texto. Não foi assim. Isto sugere o preconceito e a discriminação embutidos na cosmogonia da elite nacional da época que, através da redefinição constante do chamado código culto, elide uma participante que apesar da sua obra originalíssima deixou de ser considerada. Devido à limitação educacional da autora, (antiga 2ª série do curso primário) seus diários, reunidos em primeira mão pelo jornalista Audálio Dantas, não têm nenhuma preocupação artística. São apontamentos escritos nas horas livres de uma trabalhadora, uma mulher negra nascida no começo do século, criada na miséria e vítima constante do preconceito. Apesar disto ou justamente por isto, sua sensibilidade, a consciência que demonstra de si mesma enquanto negra, mulher e indigente, aliada à curiosidade que nutre em relação ao mundo que a cerca, façam da obra de Carolina mais que um testemunho. Após o sucesso, lançou outros livros e foi publicada postumamente. Ganhou dinheiro com a literatura, mas morreu com poucas posses, em 1977. Por inseparável quer seja da história pessoal da autora, seus escritos deixam-nos entrever também outra face da história, a protagonizada por todos aqueles que a constroem, sem que possam, contudo, escrevê-la.

A escritora norte-americana Sapphire admite que deve a a Quarto de Despejo parte da construção de sua personagem Preciosa, protagonista de Push (1996) e que inspirou o filme de mesmo nome cotado ao Oscar em 2010. A autora revela que dava um curso baseado em diários de mulheres, Virginia Woolf, Sylvia Plath, Frida Kahlo, Carolina Maria de Jesus. Os das brancas eram introspectivos. O dela falava de classe, raça, luta por comida para os filhos. No enredo de Push Preciosa e suas colegas são alfabetizadas com a ajuda deste método: compartilham com a professora cartas escritas no diário. "Fico impressionada porque os brasileiros dizem que nunca ouviram falar de Carolina de Jesus ou de seu livro. Nos EUA você compra facilmente”, diz ela a Fabio Victor, da Folha de São Paulo. (VICTOR, 2010).

Igualmente fascinado pela obra e pela história pessoal desta controvertida mulher/personagem/escritora, Joel Rufino confessa nas primeiras páginas do livro que “sempre quis escrever sobre Carolina Maria de Jesus, sua ascensão e queda” (SANTOS, 2009, p. 58). Carolina parecia reunir toda a improbabilidade do mundo para tornar-se uma escritora mundialmente famosa, mas conseguiu. Não acostumada ao mundo das altas cifras e à fama instantânea, a ela sucumbiu. Morreu pobre e reclusa num sítio em Parelheiros, distrito rural no extremo Sul de São Paulo. É justamente a saga desta mulher, personagem controversa que gravitou literalmente entre o lixo e o luxo, que Rufino tão perspicazmente delineia. Ele nos mostra a vida., ascensão e queda de uma escritora, digamos dionisíaca: arrogante, eugenista, pretensiosa, bovarista, marrenta, etnófoba, preconceituosa, , individualista e politicamente alienada, características que fizeram-na angariar a antipatia de muitos negros, quer fossem os vizinhos da favela do Canindé ou intelectuais militantes , mas ao mesmo tempo revela uma figura interessante, altiva, inteligentíssima, contundente, concisa, por vezes solidária, caridosa, coletivista , portadora da “habilidade de fazer brilhar o que em si mesmo é insosso” e cujo “português incorreto não produzia efeito de humilhação, mas, ao contrário, agregava valor à sua representação, transformando-a em apresentação”.

Detecta-se em Carolina uma cronista ímpar do equilíbrio entre as condições do pobre e do miserável, ou mesmo um termômetro a mensurar a intelectualidade e a pobreza em um país vergastado pela panaceia de uma pseudodemocracia racial.

Por não desfrutar de um merecido lugar no cânone da literatura nacional e por ser mais conhecida no exterior (mormente nos Estados Unidos, como já observei), temos a obrigação de tornar viva a memória desse fenômeno meteórico chamado Carolina Maria de Jesus: a mulher negra e pobre que foi induzida a “relações fáceis, amores inconsistentes, talvez de mão-única; ao luxo postiço dos hotéis e restaurantes, ao aplauso caloroso dos auditórios cheios ”que lhe trouxeram, paradoxalmente, o que não conhecia: dúvida sobre o próprio valor da literatura” (SANTOS, 2009. p. 151). Não obstante, o seu amor incondicional pelas letras levou-a a cintilar, principalmente em outras plagas, num firmamento repleto de estrelas fulgurantes, prova irrefutável de que a escritora improvável revelou-se possível aos olhos do mundo.

Referências

JESUS, Carolina Maria de. Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

LIEBIG, Sueli Meira. Uma mulher dionisiaca. In: Revista Le Monde Diplomatique – Brasil, ano 3, n. 32. São Paulo: Março de 2009.

LOBO, Luíza. Crítica sem juízo: Ensaios. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993. SANTOS, Joel Rufino dos. Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável. Rio de Janeiro, Garamond, 2009.

VICTOR, Fábio. Diários de brasileira catadora e escritora inspiraram filme cotado ao Oscar. In: Folha on line. 23/01/2010. Encontrado no site <ttp://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u683789.shtml> , acessado em 18/02/2010.


** Sueli Meira Liebig é doutora em Literatura Comparada pela UFMG e professora do Programa de Pós-graduação em Literatura da UEPB – Universidade Estadual da Paraíba.

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