Representação afro-brasileira em livros Paradidáticos

Andréia Lisboa de Sousa *

Aqui mesmo onde estou
as mulheres negras, apesar dos pesares [...]
trabalham, trabalham e trabalham
são elas as verdadeiras economistas do país,
por isso
aqui, nesta África-Brasil
eu “Canto aos Palmares”
para essas grandes Mães Feiticeiras
e é aqui mesmo que eu plantei meus sonhos.

Esmeralda Ribeiro
Cadernos Negros 25

Abrindo o Diálogo

Este artigo1 visa apresentar a trajetória da personagem feminina negra2 em livros paradidáticos de Literatura Infantojuvenil (LIJU) Afro-brasileira,3 a partir de obras que permitam visualizar a presença e inserção dessa personagem em algumas narrativas. Inicialmente, apresentaremos breve reflexão sobre personagens femininas negras na literatura adulta, a fim de que possamos vislumbrar a ressonância dessas imagens na Literatura Infantil e Juvenil. Depois, assinalaremos mudanças que aconteceram, perpassando pelas (re-)configurações presentes no universo de representação das referidas personagens.

Optamos por utilizar a denominação literatura afro-brasileira, no sentido empregado por Souza, Lisboa de Sousa e Pires (2005). As autoras revelam que essa literatura pode ser percebida como uma produção que:

possui uma enunciação coletiva, ou seja, o eu que fala no texto traduz buscas de toda uma coletividade negra; propõe (e se propõe como) uma releitura da história de nosso país; traduz uma ressignificação da memória do povo negro brasileiro; realiza fissuras nos textos que representam o discurso hegemônico da nacionalidade brasileira; se caracteriza por um processo de reterritorização da linguagem, ocupando lugares e desmontando estereótipos; se configura como narrativa quilombola, porque realiza verdadeiras manobras de resistência: é pouco disseminada e sofre boicote de editores e distribuidores; no entanto, sua produção é constante e bem extensa.4

Jogo de sombras e luzes: a personagem feminina na literatura adulta

Na literatura adulta, a representação dessas personagens esteve numa posição marginalizada e foi marcada por uma visão eurocêntrica, que as apresenta de maneira estereotipada, ou seja, em posições sociais de inferioridade e desprestígio em relação às mulheres brancas. O escritor, jornalista e músico Osvaldo de Camargo, ao discorrer sobre a presença negra na literatura, nos informa que a negra e o negro são mudos e é sobre esse quadro breve que o ”negro brasileiro é levado ao palco da nossa literatura. Brancos darão o tom e a cor, proferirão sua fala.” (1987, p. 22).

Um aspecto presente em muitos livros, mas que não foi devidamente explorado e redimensionado, refere-se à apresentação de personagens negras femininas que, apesar de estarem no plano secundário das narrativas, desempenham papel fundamental para o desfecho dos enredos. Muitas vezes, essa personagem afetava e operava transformações nas ações desencadeadas por personagens principais de alguns livros (QUEIROZ, 1975, p. 112).

De modo geral, esse panorama está presente na literatura adulta brasileira e pode ser resgatado em obras escritas nos diversos estilos ou escolas literárias. Segundo Camargo, Adonias Filho afirma que ‘sem o negro não teríamos a ficção que temos’. “Mas – verificamos – não foi o negro que fez geralmente esta ficção. Foi ele sim ‘a presença’ imprescindível para a feição brasileira de romances e contos.” (CAMARGO, 1987, p. 73).

A personagem feminina negra estereotipada aparece na literatura do Brasil nos versos de Gregório de Matos, no século XVII, momento em que se está configurando uma literatura brasileira. Para este poeta, a figura da mulher negra é descrita por uma série de contradições. De um lado, as qualidades positivas aparecem associadas a ela, tais como “[...] bons sentimentos [...], alegria, vigor físico, graça, beleza, habilidades domésticas [...] culinárias [...] bastante musicalidade”. De outro, aparecem imperfeições identificadas em predicados como “irresponsabilidade, sensualidade, amoralismo, infidelidade[...]” (MATOS apud JÚNIOR, Queiroz, 1975, p. 33).

Essa personagem figurando ora como anjo ora como demônio é vista como um ser irresistível: a “tentação”, como objeto sexual, desregrada, etc. Desde os versos de Gregório de Matos, podemos notar que, apesar de muitas vezes desferir ataques atingindo também a personagem da mulher branca, esta ocupa uma posição de maior dignidade, cabendo à personagem feminina negra o aviltamento e a depreciação. De acordo com os estudos de Oliveira (2000), o diabo ou demônio personifica o mal e seus epítetos foram projetados nas populações que possuem a cor negra tornando-se um estigma. Essa concepção é fundamental para compreendermos os atributos diabólicos lançados à personagem negra e, em geral, à população negra. Como assinala Gilbert Durand, “a negrura é sempre valorizada negativamente. O diabo, retrato do mal, é quase sempre negro ou contém algum negror.” (DURAND, 1997, p. 92).

A escuridão, a sombra, a cor negra, têm sido consideradas representações simbólicas do mal, da desgraça, da perdição e da morte e, se o diabo é visto como o mal e associado aos negros, temos uma interpretação que reforça a raiz profunda de um imaginário racista e preconceituoso. A universalidade do arquétipo5 do mal, associado à escuridão e ao negrume, se configura como a base dos estereótipos relacionados, no contexto em análise, às personagens negras (OLIVEIRA, 2000). Esses qualificativos permaneceram na literatura brasileira sem grandes alterações, no decorrer dos séculos. Vale destacar que são características constantes as alusões ao corpo e à sensualidade da mulher negra. O painel básico refere-se ainda à comparação a flores ou outros vegetais, à exacerbação de sua alegria, ao destaque de partes de seu corpo: pés, olhos, ombros, busto, dentes etc. Esse panorama, em vários momentos (QUEIROZ JÚNIOR, 1975), corroborou para uma representação e utilização da imagem da mulher negra como objeto.

De modo geral, a literatura adulta foi, na maioria das vezes, escrita e pensada por homens, fato que implicou e implica na preponderância de uma interpretação e leitura do gênero masculino sobre o feminino. As relações entre personagens femininas e masculinas na literatura - apresentadas, quase sempre, em situação de conflito e/ou hierárquica - nos leva a pensar num princípio masculino e outro feminino que estão em luta e podem ser exemplificados no mito do Yin e o Yang:

O princípio feminino, quando em oposição ao masculino, pode parecer inferior, ou mesmo mau. Em si mesma, a parte feminina pode ter um caráter positivo. Pode ser a fresca e jovem virgem, ou a mãe que cria. Ou pode ser a prostituta, a bruxa, a feiticeira, a boca aberta do túmulo, o ventre transformado em tumba. (OLIVEIRA, 2000).

Essa representação dual se manifesta em maior ou menor grau durante as narrativas literárias em que aparecem as personagens femininas. No que diz respeito às personagens negras há predominância somente do aspecto negativo dos atributos acima citados.

Muitas mudanças aconteceram no decorrer dos séculos, que serão tema deste artigo. Entretanto, é fundamental ressaltar a experiência dos Cadernos Negros, que tem sido organizado pelo Quilombhoje. Em 1978, um grupo de oito poetas publicou os Cadernos Negros, que se tornou uma série sobre literatura afro-brasileira, que é publicada até hoje em forma de contos ou poesias. Esses Cadernos6 são símbolos de resistência de uma literatura e de escritores afro-brasileiros, sendo que parte dos custos são assumidos pelos próprios/as autores/as. As vozes e olhares femininos também estiveram e estão presentes nos Cadernos Negros. Destacam-se escritoras que trouxeram grandes contribuições para se pensar, conhecer e poetizar a alma feminina negra ao longo desses anos, tais como: Esmeraldo Ribeiro, Conceição Evaristo,7 Ruth Souza, Mirian Alves, dentre outras.

Panorama sobre a Literatura Infantil e Juvenil

Em se tratando da literatura voltada para o público infantil e juvenil, ela surgiu no Brasil no final do século XIX e início do século XX, já os personagens negros aparecem no final da década de 1920 e início da década 1930. As histórias, nessa época, mostravam as condições subalternas da personagem negra. Na maioria dessas narrativas, elas não possuíam conhecimento do mundo da escrita, considerado erudito, apenas repetiam o que ouviam de outras personagens como se não tivessem idéias e pensamentos próprios.

A personagem negra existia, invariavelmente, na condição de empregada doméstica, diversas vezes retratada com um lenço na cabeça e um avental cobrindo o corpo gordo de cozinheira ou babá (NEGRÃO, 1988; NEGRÃO e PINTO, 1990). Exemplo clássico, do panorama apresentado por Negrão (1998), é a personagem Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, que marcou e marca a história de leitura do público infantil e juvenil até os dias atuais.

Essa personagem, na condição de empregada de uma família patriarcal branca, passa a maior parte do tempo confinada em uma cozinha, espaço de desqualificação social e quando tem a possibilidade de contar suas histórias, é reprovada pelos ouvintes. Tia Nastácia não tem aliados, uma vez que seus ouvintes criticam constantemente a verossimilhança de suas narrativas e tecem avaliações negativas sobre o conteúdo de suas histórias. (LOBATO, 1957, p. 30). Monteiro Lobato reproduz em sua obra uma visão preconceituosa e um tratamento tipicamente racista da mentalidade da época, pois chega a identificar tia Nastácia como uma “negra de estimação”, aludindo à personagem feminina negra na condição de animal ou de objeto.

As representações do negro em Lobato não diferem das encontradas na “produção de boa parte da intelectualidade brasileira, e não só da [intelectualidade] contemporânea à Lobato [...] cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem” (LAJOLO, 1999, p. 67). Isso se confirma a partir do que expusemos anteriormente a respeito da imagem negra na literatura adulta, a qual se encarregou de reproduzir estereótipos criados e veiculados por vários autores brancos desde a época da escravização.

A partir de 1975 surge uma Literatura Infantojuvenil comprometida com uma representação realista, mas nem por isso deixou de ser preconceituosa, discriminatória, por vezes, racista. Por exemplo, a obra E agora? de Odete B. Mott (1974), em que o conflito racial é instaurado pelo fato de a personagem principal, Camila, ser filha de pai branco e mãe negra. Essa personagem não aceita sua origem negra, negando a família e a si mesma. Na obra, há uma hierarquia racial, social e estética, uma vez que Camila possui a pele mais clara, olhos esverdeados e cabelo liso, sendo vista como “mais bela”, realiza trabalhos leves e recebe total incentivo para voltar a estudar. Camila tem duas irmãs: Marta e Marina, as quais são empregadas domésticas, realizam trabalhos braçais, não tiveram a mesma facilidade e opção de estudo que ela. As irmãs, percebendo as desigualdades, sentem ciúmes de Camila pelo fato de ela possuir características brancas, devido as suas oportunidades de estudo e de trabalho.

Em E agora? há uma série de desigualdades sociais e étnico-raciais entre Marta, Marina e Camila, sendo que as de pele mais escura trabalham como empregadas domésticas e vivenciam mais o preconceito do que Camila, que se forma professora. Assim, o progresso social e profissional está representado na personagem que é vista como de pele clara ou que apresenta características próximas ao segmento branco.

Assim, a autora supracitada, ao mostrar essa faceta do racismo, acaba tratando a questão como geralmente foi e é vista: a valorização da aparência negra com atributos e traços quase brancos. Neste livro, observam-se também referências preconceituosas sobre a religião de matriz africana.

A obra Nó na garganta, de Mirna Pinsk (1979), segue a mesma linha, apresentando uma série de conflitos raciais enfrentados por Tânia, garota negra que gostaria de ser branca. Ela convive com a negritude em clima de revolta e está sempre em atitude defensiva, pois seus colegas associam sua cor à falta de inteligência e desprezam-na. Tânia é uma garota curiosa que inicia uma fase de descobertas e idealização do corpo feminino, expresso no sentimento de vergonha em ver corpos de mulheres nuas e, ao mesmo tempo, tem o sentimento de inveja pela ousadia e liberdade delas se exporem, ora num cartaz de bar ora ao tomarem banho em um rio. No final da obra, Tânia consegue reconstruir a imagem que tinha de si, reconhecendo com orgulho sua identidade negra e sua beleza ao reparar detalhadamente partes de seu corpo, seu cabelo solto, enfim sua imagem no espelho.

Há atitudes diferenciadas da personagem feminina negra em relação à discriminação e ao preconceito nas obras em questão. Em síntese, Camila passa por um processo de assimilação do padrão branco, ao passo que Tânia chega a desejá-lo, mas em função das suas inquirições sobre a discriminação e do desvelamento do preconceito, aceita a sua negritude de forma positiva.

Tânia, que queria ser branca, questiona a postura da mãe de prender o cabelo para trás para deixá-lo esticado. Ela reage corajosamente à agressão dos meninos, quando eles a provocam, não se intimida com a posição de superioridade da patroa de seus pais e enfrenta o preconceito concretamente, expondo o que pensa.

Nos dois livros descritos há uma combinação entre conflitos étnico-raciais e sócio-econômicos que permeiam as narrativas, as personagens femininas negras sofrem discriminação social e racial (com exceção de Camila) e as mães negras apresentam uma postura subserviente, pois são apresentadas como mulheres medrosas e passivas. As personagens femininas fazem indagações sobre os privilégios de quem é branco e o ambiente escolar é o espaço em que se acentua esse tipo de questionamento no qual se evidenciam atitudes discriminatórias.

Da década de 80 em diante, encontraremos alguns livros que rompem um pouco com as formas de representação da personagem feminina negra. Primeiro, esses livros mostram a resistência da personagem negra para além do enfrentamento de preconceitos raciais, sociais e de gênero, uma vez que retomam sua representação associada a papéis e funções sociais diversificadas e de prestígio. Segundo, eles valorizam a mitologia e a religião de matriz afro, rompendo, assim, com o modelo de desqualificação das narrativas oriundas da tradição oral africana e propiciando uma re-significação da importância da figura ancestral em suas vidas. Terceiro, soma-se a isso, o fato de elas serem personagens femininas negras principais, cujas ilustrações se mostram mais diversificadas e menos estereotipadas. Elas passam a ser representadas com tranças de estilo africano, penteados, trajes e reflexões variadas.

Conhecendo narrativas com personagens femininas

A seguir, descrevemos onze obras que estão em consonância com formas e concepções plurais, as quais contribuem para delinear um panorama de idéias e imagens que expressam a diversidade das histórias contadas.

Começaremos por apresentar A cor da ternura, de Geni Guimarães (1989). A autora narra a trajetória da personagem principal, Geni, desde a infância, passando pela fase da juventude, em que aborda as descobertas e mudanças ocorridas no corpo da personagem até sua passagem para a fase adulta, apresentando suas dificuldades em (re-) constituir sua identidade racial. Desde criança, Geni percebia que tinha a pele negra e pensava muito a respeito dessa diferença. Ela recebia xingamentos dos colegas e tinha vontade de ter outra aparência. Dotada de uma imaginação criativa, buscava alternativas para satisfazer seus desejos, ora conversava com os animais e árvores, ora se imaginava sendo transportada para outros lugares enquanto brincava em um balanço.

Destarte, como nas obras anteriores, a escola é o local no qual ela se dá conta do preconceito e da discriminação étnico-racial, além de aprender uma versão distorcida sobre a abolição da escravatura, que a faz acreditar que a princesa Isabel foi uma mulher “santa” que libertou os escravos. Geni torna-se professora para provar sua capacidade em alcançar tal posição e ao mesmo tempo realizar a vontade de seu pai. No primeiro dia de trabalho, ela revela atitude de maturidade, ao saber que uma de suas alunas brancas se recusa a estudar com uma mulher negra. Ela, diante da discriminação, consegue lidar com a situação e estabelece maior aproximação com essa aluna.

Rainha Quiximbi (1986) é um dos livros infantis escritos por Joel Rufino dos Santos.8 A personagem principal é uma viúva desamparada, cujo noivo falece na noite do casamento. Depois disso, ela passou a ficar sempre na janela choramingando por não ter um amor. Certo dia aparece um homem com quem ela se casa, mas ele diminui até ficar do tamanho de um dedal e desaparece. A viúva volta para a janela desolada, encontra outro homem muito pequeno parecido com o anterior e casa-se com ele também. O amor dela era tão imenso que o homem começou a crescer, chegando a agasalhá-la na mão.

Ela não sabia o nome dele, mas, quando descobriu, ficou espantada. Ele era Chibamba, um ser fantástico, rei das criaturas encantadas. Esse rei leva-a à praia e diz aos peixes que ela é a rainha Quiximbi. Ele a transformou em sereia por temer que os homens não a deixassem em paz, caso ouvissem suas palavras de amor. Quiximbi passou a viver no mar e a cantar para atrair homens e mulheres, aparecendo apenas em noites enluaradas. Joel Rufino resgata, nesta versão, o mito de Iemanjá,9 a rainha das águas salgadas.

O livro de Ganymedes José, Na terra dos Orixás (1988), é ambientado no Benin e não apresenta, especificamente, a história de uma personagem feminina negra como protagonista. Há três personagens: “Carolina, moreninha, de olhos negros e pele clara” – descrição confusa, uma vez que é difícil saber se ela é negra ou branca; “Sandro, menino loiro, de olhos verdes” e “Lakumi, africano de pele bem preta”. No livro, os três resolvem viver uma aventura para conhecer o mundo subterrâneo em que reinam os orixás e conhecem, por meio de uma série de histórias, o poder de cada uma dessas divindades.

O livro se refere a alguns orixás femininos10 que ainda circulam pouco no universo da literatura, tais como: Nanã, divindade dos pântanos, cujo elemento é a lama que gera e doa a vida; Iemanjá, rainha das águas salgadas, dona do mar; Obá, orixá do rio, é forte, corajosa e ciumenta, possui um jeito guerreiro; Iansã, divindade dos ventos e das tempestades, mulher independente que não tem medo de nada, é dona dos espíritos dos mortos; Oxum é o orixá das águas doces e dos metais preciosos, também é protetora das crianças e considerada deusa do amor.

A importância de obras como Rainha Quiximbi e Na terra dos Orixás, bem como as citadas em nota de rodapé, se deve ao fato de elas apresentarem divindades da mitologia africana e afro-brasileira que são pouco conhecidas no universo infantojuvenil e insuficientemente trabalhadas pelas/os professoras/es.

Na década de 1990, destaca-se Júlio E. Braz em Felicidade não tem cor (1994). Esta obra está centrada nas aventuras de Maria Mariô, uma boneca negra, personagem narradora. Maria mora na caixa de brinquedos da escola em que Rafael, garoto negro, estuda. É por meio de suas recordações e questionamentos que ficamos sabendo do drama que ela e Rafael vivem na escola. Apesar de ter um coração grande que abrigava todos, ela era discriminada por meninos e meninas que sempre escolhiam as bonecas brancas para brincar. Isto é, excluíam a única boneca negra da caixa de brinquedos.

Rafael foi a única criança que passou a ter carinho por ela. No início era Rafael que lhe confidenciava seus momentos de tristeza ao ser discriminado na escola. Ele desejava ser branco, a fim de não ser discriminado. Havia uma solidariedade racial entre ele e Maria Mariô. Certo dia Rafael resolve seqüestrar a boneca da escola para que ela o acompanhe até à rádio da cidade.

Ele acreditava que se o radialista Cid Bandalheira lhe desse o endereço do Michael Jackson, ele descobriria uma forma para se tornar branco. Cid, ao saber dos planos do menino, consegue fazer com que ele veja a situação de uma outra forma e Rafael desiste da idéia. Depois desse encontro com o radialista, eles ficaram famosos por terem ido até a rádio e Maria Mariô passou a ser disputada pelas crianças na escola, cercada de atenção, carinho e bate-papos. A aceitação de seu pertencimento racial lhe trouxe sucesso e transformou sua relação com os colegas da escola.

Em 1998, Heloísa P. Lima publica Histórias da Preta, apresentando, pelo olhar de uma menina negra, denominada Preta, a trajetória do povo africano que foi seqüestrado para o Brasil. A Preta era uma menina que lia muito e foi crescendo e aprendendo várias histórias sobre a África, até que um dia se sentiu à vontade para contá-las. Ela tem profundo conhecimento sobre várias etnias, costumes e riquezas de alguns países africanos, assim como sobre o modo de vida dos escravos, sua religião e sobre as dificuldades de sobrevivência desses e de seus descendentes no Brasil.

A Preta, personagem principal, leva os leitores a refletirem sobre o que é ser diferente, defendendo a idéia de que a “diferença enriquece a vida e a igualdade é um direito de todos”. Ela apresenta acontecimentos e situações diversificadas no Brasil, para ilustrar os aspectos diferentes e semelhantes entre brancos e negros. A escola, neste livro, é um espaço em que a personagem Preta percebe e sente a discriminação e a estigmatização do negro.

A figura feminina é muito presente na vida da Preta. Nos seus relatos faz referência à casa da avó Lídia – “linda com sua cor negra” -, às festas de aniversário que tia Carula e sua mãe preparavam. Revela o carinho que sentia na forma como sua tia a chamava de Preta. Assim, nessa obra, de história em história, é possível visualizar a complexidade do racismo e suas implicações no nosso país, por meio dos conhecimentos da personagem.

Em 2000, é lançado o livro Luana, a menina que viu o Brasil neném de Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino. Luana, personagem principal, é uma garota negra que joga capoeira de forma invejável. Ela resgata a trajetória histórica de seus ancestrais africanos e herda a garra e persistência dos mesmos. Há forte referência às suas avós. A primeira é a avó Adina, grande capoeirista que derrubava qualquer lutador que entrasse na roda, com quem Luana é comparada por ter-se tornado uma grande guerreira malungo,11 valente como seus antepassados. A segunda é a vovó Josefa, representante da tradição oral do quilombo que deu origem à vila de Cafindé, onde mora Luana. É importante ressaltar que nessa obra o quilombo tem grande força simbólica na história, se firmando como um espaço de liberdade, de trabalho e de convivência entre mulheres, homens, crianças, adolescentes, brancos, negros e índios.

Os ensinamentos da avó Josefa contribuem para que a menina acredite na possibilidade de conhecer a história do Brasil. Em determinado momento da narrativa, o berimbau de Luana é atingido por um raio e, ao testá-lo a fim de certificar-se de que ele não estava danificado, ela gira como um redemoinho, sendo transportada para o momento da chegada dos portugueses ao Brasil. Assim, ela presencia o primeiro contato destes com os índios. Seu maior desejo era ver o “nascimento do Brasil”. Aprende que sempre que quiser conhecer outros lugares e épocas distantes, é preciso “pensar bem forte, querer muito e tocar seu berimbau mágico” (MACEDO e FAUSTINO, 2000, p. 15).

Gercilga de Almeida expressa a força da tradição oral africana na obra Bruna e a Galinha D’Angola (2000). Bruna, a personagem principal, era uma garota que se sentia muito só e, nessas horas, pedia para Nanã – sua avó africana – contar a lenda de sua aldeia africana. De acordo com a lenda, Oxum era uma menina que resolveu criar “o seu povo”. Adormecia ao ouvir a história e sonhou com a galinha d‟Angola Conquém. No dia de seu aniversário, ganhou da avó uma bela galinha d‟Angola que gritava: “Conquém”, semelhante à da história de Oxum. Depois disso, em função do presente que recebeu da avó, Bruna conquistou muitas amigas para brincar e, juntas, aprenderam a fazer muitas Conquéns de barro. A galinha é um elemento chave na narrativa, ela supre a tristeza de Bruna, é um vínculo com a ancestralidade africana da menina e de sua avó.

Na história, é fundamental a redescoberta de um baú que Nanã trouxera para a aldeia. Dentro dele estava um panô (espécie de tecido pintado) com o desenho da Conquém, de um pombo e de um lagarto, animais mitológicos que contribuem para a criação do mundo e de seu povo. Segundo a lenda, a galinha espalhou a terra, ao descer do céu, o lagarto veio verificar se a terra estava firme e o pombo foi avisar os outros animais que já podiam descer. Ao envolver a neta com a história do panô da galinha, acaba por reencontrar o baú trazido de sua aldeia africana, resgatando a lenda da criação do mundo.

Ainda em 2000, temos A menina transparente de Elisa Lucinda. A estrutura dessa obra é diferente das comentadas anteriormente. A proposta da autora é criar um texto em verso, utilizando-se da ludicidade e poeticidade do começo ao fim, para construir sua personagem.

Muitos me vêem no mar,

Outros na comida da panela.

Posso aparecer para qualquer ser [...].

Uns me pegam pra criar em livro,

outros me botam num vestido lindo,

cheio de notas musicais (LUCINDA, 2000, p. 7-8).

Desta forma, a própria menina afigura-se sob vários disfarces, deixando pistas, ou melhor, diversas possibilidades de interpretação, com o intuito de que o leitor a identifique. Essa personagem não é denominada como negra, porém as ilustrações permitem identificá-la como tal.

Quem me advinha logo dentro dele,

Quem percebe que estou ali diariamente,

quem anda comigo e com o meu gingado,

fica com o coração inteligente

e com o pensamento emocionado (LUCINDA, 2000: 14)

Enfim, por meio de jogos metafóricos, desafios ao interlocutor são lançados. Essa menina que, mesmo invisível, está dentro de cada um de nós, no fim do livro, se revela: “sou a poesia”.

O ano de 2001 é marcado pelo livro Chica da Silva, a mulher que inventou o mar, de Lia Vieira. A narrativa remonta à época da escravidão, com uma personagem feminina negra no papel principal, que se torna solidária com a luta dos escravos por melhores condições de trabalho, chegando a acolhê-los em sua casa. Chiquinha – conhecida como Francisca da Silva – foi criada por um coronel. A obra apresenta as relações escravagistas do período colonial, enfatizando o processo de dominação e exploração dos portugueses em Arraial de Santo Antônio do Tijuco, Minas Gerais. No geral, descortina a imagem subserviente da mulher, colocando-a sempre afeita aos serviços domésticos, aos cuidados com os filhos, sem possibilidade de ter pensamento próprio ou liberdade de idéias numa sociedade patriarcal e machista.

Chica da Silva é uma das exceções a esse padrão de representação da personagem feminina, na medida em que não é apenas administradora do lar. É uma mulher negra com “belos traços, um porte altivo e uma inteligência brilhante” (VIEIRA, 2000, p. 10), que causa incômodo às mulheres brancas da época, pois era livre, bonita e conquistava facilmente a amizade dos colegas. Como a figura de Chica destoava do padrão das outras mulheres, passou a ser vítima de boatos e falatórios que fizeram o coronel que a criara providenciar sua união com o intendente Muniz. Certo dia Muniz foi preso e, depois de um tempo, ela começou a morar com outro intendente, o senhor João Fernandes de Oliveira.

Este último gostava de agradá-la, cobrindo-a de jóias e roupas. Com ele passou a ter uma vida bem sucedida, causando comentários na região, pelo fato de ser uma negra casada com um homem branco muito rico e ter opiniões próprias. Na época da escravidão, esse tipo de relacionamento era incomum, assim como o comportamento de Chica era considerado transgressor. Seu último desejo realizado foi o de criar um mar só para si. Ela e seu companheiro passaram a ser objeto de questionamentos, críticas e inveja por conta da vida farta que levavam e pelos cuidados dispensados aos escravos que extraíam ouro. Até que ele recebeu uma acusação do Marquês de Pombal, sendo obrigado a sair do Tijuco, perdendo o cargo e a família.

O livro apresenta a trajetória de vida de Chica da Silva, mulher negra à frente de seu tempo, guerreira, justa, negociadora de conflitos e alvo da nobreza da época. O cenário desenhado na obra explicita os jogos de interesses, as relações imperialistas e desumanas de Portugal em Minas Gerais, a decadência de algumas mulheres pertencentes à aristocracia e a relação senhoril com os escravos e, principalmente, com uma mulher negra livre e que ascendeu socialmente. As ilustrações no que se referem às cores, formas e disposição gráfica tornam a obra atraente e bela.

A obra infantil a Fada que queria ser madrinha, de Gil de Oliveira (2002), aborda o drama de Aninha, uma fada madrinha negra e obesa que não tinha afilhados. Diante dessa situação, essa fada negra solicita ajuda ao seu baú de pensamentos que guardava muitas palavras, várias delas apareceram brincando no ar para ajudá-la. A palavra imaginação foi entrando no espelho da fada e sumiu. Após isso, o espelho mostrou a imagem de duas crianças, João e Maria, embaixo de uma árvore. Aninha saiu do reino das fadas, sendo levada pelo vento, com um mapa-múndi, em busca de seus afilhados, pois não sabia onde ficava a floresta tropical em que as crianças se encontravam.

Ao chegar, a fada se deparou com a Cobra-Grande12 e o Saci-Pererê13 e, embora não a conhecessem, eles indicaram o caminho. Quando ela encontrou as crianças, estava ansiosa para saber se elas tinham uma fada madrinha. Maria e João acharam estranho o assunto sobre fada madrinha e disseram que em sua terra não havia madrinhas como a fada descrevera. A resposta a deixou muito feliz. Aninha foi convidada para ser a fada madrinha deles e realizou os desejos de seus novos afilhados.

Em Ana e Ana (2003), Célia Godoy inova ao nos apresentar duas irmãs negras e gêmeas idênticas: Ana Carolina e Ana Beatriz. A autora narra a história das duas desde o nascimento, quando a avó as confundia e dava duas mamadeiras para uma e dois banhos na outra. Esta obra explora, de forma atrativa, as diferenças existentes entre pessoas aparentemente iguais, porém com gostos, vontades e estilos diversificados. Na fase da adolescência, elas mudam a forma de arrumar os cabelos, a indumentária e desejam ser chamadas pelos apelidos, o que garante a cada uma delas a possibilidade de forjar uma identidade própria. Ambas estudaram e se distanciaram quanto às opções profissionais. Ana Carolina foi trabalhar numa estação de rádio. Ana Beatriz viajou, tentando realizar seu projeto de proteção dos animais em extinção. Com o tempo, elas sentiram muita saudade uma da outra, reencontraram-se e descobriram o quanto se amavam.

Neste livro, assim como em A menina transparente, não há denominação textual de que são personagens femininas negras. As ilustrações mostram que as gêmeas são negras. Outra figura feminina presente é a da avó que cuidava delas, ainda bebês, nos momentos em que a mãe se ausentava para trabalhar. A proposta do livro Ana e Ana é fazer uma reflexão sobre a diversidade, mostrando como cada personagem tem sua trajetória, história, desejos, sonhos, posições sociais diferenciadas, apesar de serem gêmeas. Trata-se de uma abordagem sobre a riqueza presente nas diferenças que cada um possui, sem apresentar hierarquias ou padrões de valorizações negativas dentre as personagens.

Sylviane A. Diouf em As tranças de Bintou (2004) traz uma grande contribuição para a diversidade da estética afro, o respeito como valor fundamental para culturas africanas, a importância de rituais, ressaltando o olhar e o fazer feminino para as relações interpessoais. Trata-se da narrativa de uma garota africana, Bintou, que é tratada com amor, muito carinho e atenção. Seu maior sonho é ter tranças14 longas, adornadas com pedras coloridas e conchinhas, como as de sua irmã e de outras mulheres da comunidade.

Minha irmã, Fatou, usa tranças, e é muito bonita. Quando ela me abraça, as miçangas das tranças roçam nas minhas bochechas. Ela me pergunta [...] ‘por que está chorando’. Eu digo: ‘Eu queria ser bonita como você’. ‘Meninas não usam tranças. Amanhã faço novos birotes no seu cabelo’. (DIOUF, 2004, p. 4)

A obra retoma o respeito pela sabedoria dos mais velhos. Eles “sabem mais porque viveram mais”. Bintou recorre à avó para obter uma explicação sobre o fato de as meninas não poderem usar tranças e descobre que havia uma garota que só pensava em sua beleza, quando estava com tranças e acabou ficando vaidosa e egoísta. Por isso, as mães não deixavam as crianças usarem tranças, somente birotes, para que se interessassem “em fazer amigos, brincar e aprender”. A avó acalenta a menina: “quando for mais velha, você terá bastante tempo para a vaidade e para mostrar a todos a bela mulher que você será. Poderá usar tranças no momento adequado” (p. 11).

O desfecho da narrativa se dá, quando Bintou corajosamente pede socorro para dois meninos que estavam se afogando no mar. Como prêmio, ela podia ter o que desejava: as tranças. Novamente sua avó Soukeye aparece para um ritual inciático. No entanto, ela não faz as tranças que Bintou queria, mas um outro penteado, com adornos belos que encantam a menina. “Eu sou Bintou. Meu cabelo é negro e brilhante. Meu cabelo é macio e bonito. Eu sou a menina dos pássaros no cabelo. O sol me segue e estou feliz” (p. 28). As ilustrações revelam a valorização da estética africana.

Recorrendo às idéias de Clarissa Estés, podemos aferir que nas narrativas aqui apresentadas estão incrustadas orientações que nos guiam a respeito da complexidade da vida. Elas se apresentam, muitas vezes, como ingredientes medicinais, que aliviam, que curam:

As histórias são bálsamos medicinais. [...]. Elas têm uma força! Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo – basta que prestemos atenção. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido nas histórias. Elas suscitam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem aflorar [imagens do nosso inconsciente] [...]. No entanto, [...] em cada fragmento de história está a estrutura do todo (ESTÉS, 1999, p. 30).

Nas Veredas da Leitura

Nesse exercício de leitura, pudemos observar mudanças que ocorreram com a estruturação de alguns livros paradidáticos de literatura: um maior número de personagens femininas negras em papéis principais, com direito à existência, sentimentos e projetos pessoais. Tais obras sugerem uma apresentação que tenta fugir aos estereótipos quanto aos traços fisionômicos e que garante às personagens papéis socioeconômicos diversificados.

No final da década de 80, os livros passaram a apresentar e enfatizar positivamente aspectos da cultura negra como a capoeira e a mitologia dos orixás.15 São encontradas situações de reflexão sobre a vida e a imagem dessas personagens de maneira positiva e criativa. Uma nova tendência está emergindo.16

Vale ressaltar que o movimento social negro brasileiro – incluo também o movimento de mulheres negras – nas últimas décadas do século do XX e início do XXI, tem desempenhado um papel preponderante nessa tendência de transformação positiva da personagem feminina negra por meio de suas denúncias e reivindicações.

Todo esse contexto tem permitido, gradativamente, vislumbrar livros de Literatura com novas concepções em seus variados aspectos. Há outras barreiras a serem transpostas nesta trajetória, tais como: ampliação do número de publicações, garantia ao acesso e à leitura das obras, intensificação de divulgação, preparo das(os) educadoras(es) para a adoção e utilização das obras, além de desenvolvimento de uma metodologia de trabalho adequada à abordagem dessa temática em sala de aula e na sala de leitura.

O número de publicações está aumentando. Por um lado, o mercado editorial têm investido na produção de materiais sobre diversidade. Trata-se de um grande volume de livros que, quando selecionados criteriosamente, fornecerão subsídios para o trabalho dos educadores. Por outro lado, a muralha do mercado editorial brasileiro tem aberto pouco espaço para publicação de livros escritos por especialistas negros(as). Isso diz respeito ao racismo e monopólio ainda presente no mercado editorial brasileiro.

A divulgação dos livros é outra preocupação. Muitas vezes, as crianças não lêem esses livros porque os educadores, pais e a comunidade em geral não sabem da existência dos mesmos. O acesso ás obras pelos educadores e os leitores em geral é prejudicado também em virtude das limitações financeiras para obtê-los. Diante disso, é necessário que haja maior investimento em políticas públicas afirmativas de diversidade étnico racial nos programas oficiais de distribuição de livros dessa natureza.

A formação oferecida aos estudantes dos cursos de Letras, de Biblioteconomia, Pedagogia e de áreas afins no ensino superior deixa a desejar no que diz respeito ao preparo desses estudantes para desenvolver metodologias antirracistas para uma abordagem étnico racial. Nem todos os cursos têm a disciplina Literatura Infantojuvenil e os que a possuem, raramente, discutem ou incluem a produção afro-brasileira para além da maneira como a ideologia racista tem tratado o assunto.

Por último, qualquer mudança só será possível quando deixarmos “aflorar os preconceitos escondidos na estrutura profunda do nosso psiquismo”. (Munanga, s/d). Romper com esse quadro – eis o grande desafio – requer descobrir novas formas de linguagem, de sensibilização e de organização que atinjam a raiz do nosso imaginário tanto no aspecto externo, das nossas atitudes, palavras e comportamentos, como no interno, dos nossos valores, crenças e emoções.

No cenário atual, além de pesquisas sobre o tema, temos alguns instrumentos legais que contribuem profundamente para uma nova orientação em torno de um projeto de educação antirracista como eixo teórico e metodológico do trabalho do/a educador/a no cotidiano escolar. Vale chamar a atenção em relação a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de n°. 9394/96 (LDBEN), trazida pela Lei Federal de no. 10639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial de Ensino e da regulamentação da Lei 10639/03 pelo Parecer CNE/CP 003/2004 e pela Resolução CNE/CP 1/2004 que dispõem sobre as Diretrizes Curriculares para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

De acordo com o Parecer é fundamental a “Edição de livros e de materiais didáticos, para diferentes níveis e modalidades de ensino, que atendam ao disposto neste parecer, em cumprimento ao disposto no Art. 26A da LDB, e, para tanto, abordem a pluralidade cultural e a diversidade étnico racial da nação brasileira, corrijam distorções e equívocos em obras já publicadas sobre a história, a cultura, a identidade dos afrodescendentes, sob o incentivo e supervisão dos programas de difusão de livros educacionais do MEC – Programa Nacional do Livro Didático e Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). A Resolução retoma esse assunto quando informa no Art. 7º que “Os sistemas de ensino orientarão e supervisionarão a elaboração e edição de livros e outros materiais didáticos, em atendimento ao disposto no Parecer CNE/CP 003/2004”.

Em 2005, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), por intermédio da Coordenação Geral de Diversidade e Inclusão Educacional, enviou ofícios para várias editoras, informando sobre os dispositivos legais acima citados, com o intuito de que as editoras inscrevessem livros sobre o tema no Programa Nacional de Biblioteca da Escola – PNBE/MEC. As Diretrizes do referido Programa apontavam o tema da diversidade como enfoque. O resultado foi positivo, na medida em que alguns livros sobre o tema foram selecionados em 2005, os quais os/as educadores/as e estudantes têm acesso via o PNBE.

Os dispositivos legais são fundamentais para as mudanças atuais na história da educação no país, pois contribuem para que educadores, gestores, editores, leitores etc, possam redimensionar as práticas de leitura e a concepção dos livros paradidáticos no espaço escolar. A lei não é tudo, o essencial é você educadora/or abrir as portas e deixar as narrativas, as imagens, os textos dos livros aflorarem:

Espero que vocês saiam e deixem que as histórias lhes aconteçam, que vocês as elaborem, que as reguem com seu sangue, suas lágrimas e seu riso até que elas floresçam, até que você mesma esteja em flor. Então, você será capaz de ver os bálsamos que elas criam, bem como onde e quando aplicá-los. É essa a missão. A única missão. (ESTÉS, 1999, p. 570).

A missão do poder da palavra, da leitura e da interpretação está em cada um de nós. Basta sabermos usá-la como os sábios contadores de outrora e mergulharmos nos mistérios desconhecidos, que nos revelam uma complexidade de configurações no jeito de ser e de viver. Cabe a cada uma/um aceitar o desafio de forjar novas possibilidades, ampliar referenciais e buscar organizar um cervo próprio para realizar atividades com a comunidade escolar, projetos coletivos, exposições, aulas, dentre outras possibilidades.

Referências

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1 Este texto é uma versão ampliada e revisada de um artigo publicado pelo MEC/SECAD (Sousa, 2005).

2 Nesse artigo, utilizaremos a categoria negro, englobando pretos, pardos e descendentes de negros, conforme categorias do IBGE.

3 Paulo Colina, ao prefaciar O negro escrito, apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira, de Oswaldo de Camargo (1987), nos questiona: Onde andava então o negro escrito, o escritor negro? Mudo. Os brancos davam o tom, a cor e a fala ao negro. (...) Tudo é uma questão de voz. Quer ver, leitor? Quando se questiona a existência de uma literatura negra ou afro-brasileira – quero dizer, o negro escrito, o escritor negro se expressando perante e enquanto o mundo –, existe aí uma tentativa de negação. Negação dos valores que o negro despe em seu que-fazer literário.

4 Afro-literatura brasileira: O que é? Para quê? Como trabalhar? - Subsídio. O artigo pode ser acessa- do em: <http://www.gruhbas.com.br/publicacoes/arq_subsidio/01%20%20Subsidio%2012.doc>.

5 Arquétipo é uma estrutura inata que permite a um conteúdo se exprimir em imagens. Oliveira (2000).

6“ Os Cadernos atendem a uma demanda por um tipo de literatura não oferecida pelo mercado editorial. O seu nome tornou-se uma marca cujo alcance vai além dos limites de distribuição e venda dos livros. Os Cadernos Negros têm sua organização e editoração a cargo do Quilombhoje (que também se encarrega do lançamento e distribuição), o grupo arca com parte dos recursos e outra parte é dividida pelos autores participantes, num processo cooperativo que tem permitindo superar as barreiras impostas pelo mercado. Recentes volumes foram feitos em coedição com uma editora.” (http://www.quilombhoje.com.br).

7 Evaristo é autora do romance Ponciá Vicêncio. O texto revela a complexidade do ser mulher, perpassando várias etapas da vida: infância, juventude, fase adulta. Tecendo uma trama que penetra no/a leitor/a, abrindo espaço para reflexão, desencadeando sentimentos a partir dos conflitos, desejos, crenças, decepções e das relações familiares, vivenciados pela protagonista do livro, Ponciá Vicêncio.

8 Há vários outros livros infantojuvenis do autor, tais como: Gosto de África (2000), Dudu calunga (1998), História de Trancoso (2000), O presente de Ossanha (2000).

9 Iemanjá, divindade da cultura iorubana, é mãe das águas salgadas e considerada a mãe dos orixás. De modo geral, os orixás são as divindades da cultura ioruba, do sudoeste da atual Nigéria, do Benin e do norte do Togoque vieram para o Brasil com os demais africanos escravizados.

10 Lídia Chaib e Elisabeth Rodrigues recontaram algumas dessas histórias no livro Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias dos Orixás (2000), assim como Reginaldo Prandi em Xangô, o trovão (2003), Ifá, o advinho (2002) e Oxumare, o arco íris.

11 Termo utilizado para designar a pessoa que é companheira, camarada, parceira e lutadora. O significado é irmãos guerreiros de viagem, fazendo alusão aos africanos que foram trazidos na mesma embarcação para o Brasil.

12 É uma cobra imensa, poderosa personagem da mitologia amazônica, ela vive nos rios e come animais e crianças.

13 Ser fantástico, negro que anda com uma perna só, fuma cachimbo e usa um barretinho vermelho, que expressa seus poderes. Ele gosta de brincar e se divertir assustando as pessoas.

14 A obra Menina bonita do laço de fita (2001), de Ana Maria Machado narra a história de uma garota negra “linda” que usava tranças. O cerne da história está na admiração que um coelho tem pela menina negra. De um lado, na obra há uma alusão à miscigenação, resultando na diversidade étnico-racial: o casamento inter-racial entre um coelho branco e uma coelhinha negra e o fato de a mãe da menina negra ser denominada também como mulata (cabe ressaltar que o termo mulata tem em sua origem, um significado negativo, uma vez que refere-se ao animal mula, que é considerado um ser estéril, improdutivo). De outro lado, há também uma valorização da negritude ao sobressair a cor preta da garota, bem como do carinho entre mãe e filha. Isso pode ser observado nas ilustrações de diversas maneiras

15 Há atualmente vários livros publicados que se propõem a desvendar o universo de algumas culturas africanas e afro-brasileiras, que retomam traços e símbolos da cultura negra tais como: a capoeira, a dança e os mecanismos de resistência diante das discriminações e outros que fazem alusão direta às religiões de matriz africana ou que remetem às divindades afro-brasileiras. Existem outros livros, além dos citados neste artigo, dentro do mercado editorial, o qual tem se interessado pelo tema, apresentando novas opções.

16 Apesar de explorarmos uma pequena amostra, pudemos identificar mudanças paulatinas no quadro exposto por Negrão e Pinto em pesquisa realizada até o fim da década de 1980 (1990, p. 30 a 33). Destacamos: a valorização da personagem negra feminina contadora de estórias, que não é estereotipada como a tia Nastácia, mas mantenedora da ancestralidade africana; reforço ao direito à existência e à individualidade das personagens negras femininas; os livros não se remetem somente às crianças brancas, de classe média, como outrora, mas também às crianças negras de diferentes classes e contextos sociais; as personagens femininas negras, na maioria das vezes, deixaram de ser utilizadas apenas como suporte demonstrativo nas histórias que se destinavam a propagar um padrão de vida típico de crianças brancas e de classe média.

* Andréia Lisboa de Souza é doutora em Educação pela Universidade do Texas/Austin/USA. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP (FEUSP). Desde 2016, atua como Professora Visitante do WLC - Wheelock College, em Boston, Estados Unidos. É membro da Associação Brasileira dos Pesquisadores Negros - ABPN. 

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