Representação feminina negra na literatura infantil:

ausências e urgências

Cristiane Veloso de Araujo Pestana*

 

O presente artigo é um recorte de minha tese de doutorado ainda em fase de pesquisa e escrita. O objetivo da tese é pesquisar o lugar da Literatura Infantil com temática étnico-racial no cenário literário atual e como se dão as representações das personagens negras na Literatura Infantil Contemporânea.

Dentre os livros analisados, selecionamos alguns que apresentam personagens femininas negras como protagonistas para compreender de que forma autores negros e não negros vêm representando essas meninas e mulheres em suas narrativas, incluindo aqui os ilustradores na categoria de coautores desses livros.

Inicialmente, é necessário fazer algumas reflexões sobre a função da Literatura infantil, sobre representação e representatividade, sobre as décadas de apagamento, silenciamento e marginalização dos personagens negros na Literatura, e, principalmente sobre a urgência de combater a manutenção de estereótipos racistas dentro e fora das narrativas literárias.

Dentro do contexto literário brasileiro, a população negra sempre foi narrada sob o olhar do outro, um olhar muitas vezes deturpado e agressivo. Os personagens eram meramente ilustrativos, colocados em situações de subalternidade e vistos como objetos de exotização e sexualidade exacerbada. De acordo com a pesquisadora Ione Jovino (2006) não existiam histórias onde os negros tinham sua cultura, seus conhecimentos e sua história reconhecidos e narrados positivamente. Porém, na proposta da Literatura afro-brasileira, os personagens se tornam protagonistas, assumem a fala sobre si mesmos e retratam sua cultura com mais propriedade e dignidade.

A ausência do protagonismo negro na Literatura é fruto de inúmeras pesquisas, dentre elas destacamos a da professora Regina Dalcastagné sobre as personagens negras nos romances brasileiros, a da pesquisadora Ione da Silva Jovino, da professora Eliane Santana Debus e as considerações do ensaísta e pensador Cuti, que afirma o seguinte:

Quando se estudam as questões atinentes à presença do negro na literatura brasileira, vamos encontrar, na maior parte da produção de autores brancos, as personagens negras como verdadeiras caricaturas [...]. Estar no lugar do outro e falar como se fosse o outro ou ainda lhe traduzir o que vai por dentro exige o desprendimento daquilo que somos. [...] O sujeito étnico branco do discurso bloqueia a humanidade da personagem negra, seja promovendo sua invisibilização, seja tornando-a mero adereço das personagens brancas ou apetrecho de cenário natural ou de interior, como uma árvore ou um bicho, um móvel ou qualquer utensílio ou enfeite doméstico. Aparece, mas não tem função, não muda nada, e se o faz é por mera manifestação instintiva, por um acaso. Por isso tais personagens não têm história, não têm parentes, surgem como se tivessem origem no nada. A humanidade do negro se agride a humanidade do branco, é porque esta última se sustenta sobre as falácias do racismo. (CUTI, 2010, p. 88-89)

De acordo com a pesquisa e o mapeamento feito por Eliane Santana Debus, a visão etnocêntrica dos livros infantis, calou a voz dos negros, o que ocorreu através da ausência de personagens protagonistas negros, pela construção de um discurso hegemônico. Para a autora, o caráter simbólico da literatura pode contribuir para reflexões que rompam com a visão construída através da desigualdade étnica e que possam ser repensadas através de uma visão que contemple a valorização da diversidade. Na mesma vertente (SOUZA, 2009, p.1) vai afirmar que “a leitura da literatura infanto-juvenil pode contribuir com a promoção da igualdade étnico-racial”. Desta forma, podemos observar que:

A identificação com narrativas próximas de sua realidade e com personagens que vivem problemáticas semelhantes as suas leva o leitor a reelaborar e refletir sobre o seu papel social e contribui para a afirmação de uma identidade étnica. (DEBUS, 2007, p.1).

O protagonismo e a representação positiva de personagens negras, sobretudo para as crianças negras é de total relevância, tendo em vista que o período da infância é cunhado de descobertas e significações que serão a base para a constituição destas enquanto indivíduos. A criança é plenamente capaz de promover identificação com histórias e personagens e fazer inferências que serão essenciais na construção de sua identidade étnica. Para a educadora e pesquisadora Eliane Cavalleiro “compreende-se que o reconhecimento positivo das diferenças étnicas deve ser proporcionado desde os primeiros anos de vida.” (2006, p.26)

Dentro das narrativas infantis, as personagens negras passaram da invisibilidade total a papeis de subalternidade, como por exemplo, a Tia Anastácia do Sítio do Pica-pau amarelo. No entanto, num movimento de tentativa de rompimento com tais representações pautadas em estereótipos racistas, surge o livro A bonequinha preta, onde a personagem principal é negra, porém não é humana, é uma boneca, um claro exemplo de objetificação. Na narrativa a boneca parece ter vida, pois tem instintos humanos como a curiosidade e a culpa, bem como atitudes humanas que a levam até a queda da janela. Porém o que percebemos uma ausência de protagonismo, pois, mesmo sendo o elemento principal que envolve a história, a personagem não tem autonomia nem representação social, afinal ela é apenas uma boneca, um brinquedo, um objeto.

É preciso ir além de histórias como A bonequinha preta que apenas apresenta um tipo de representação que não é o ideal para promover um debate sobre igualdade racial. É urgente que a representatividade se sobreponha à representação e que as narrativas não tratem apenas de apresentar a população negra e sua ancestralidade africana, mas também que promovam reflexão sobre a temática e uma possibilidade de transformação cultural, visando combater duramente o racismo e o preconceito, especialmente entre o público infantil.

 É importante mostrar às crianças negras que elas podem vislumbrar um futuro, que podem realizar seus sonhos e isso pode e deve ser tratado dentro da Literatura infantil. Aliás, este seria o ideal da literatura que envolve a temática étnico-racial.

A partir da criação da Lei 10.639/03 foram surgindo obras que buscam valorizar a identidade, a cultura, a religião e as histórias da população negra. Nessas narrativas a personagem negra ocupa, muitas vezes, o lugar de protagonista e as representações se mostram menos estereotipadas. Nesse sentido escritores e ilustradores devem romper com os modelos anteriores e criarem histórias para o público infantil que farão uma representação mais adequada desses personagens. O que já foi constatado por Ione Jovino:

Contemporaneamente, alguns dos textos dirigidos ao público infantil e juvenil buscam uma linha de ruptura com modelos de representação que inferiorizem, depreciem os negros e suas culturas. São obras que apresentam personagens negros em situações do cotidiano, resistindo e enfrentando, de diversas formas, o preconceito e a discriminação, resgatando sua identidade racial, representando papeis e funções sociais diferentes, valorizando as mitologias, as religiões e a tradição oral africana. (JOVINO, 2006, p.188)

No tocante às narrativas que rompem com o padrão esperado para as personagens negras e que as representam de forma positiva, promovendo uma representatividade capaz de fomentar a autoestima e o empoderamento de nossas crianças negras, destacamos os livros Tainá, a guardiã das flores, Maira a alegre campeã e A menina que gostava de saber. Nestas obras podemos observar como palavras e imagens se completam para formar o sentido global da história. De acordo com os estudos de Maria Nikolajeva e Carole Scott podemos entender bem esse elo entre texto e imagem que leva o leitor à compreensão do todo. Segundo as autoras:

O leitor se volta do verbal para o visual e vice-versa, em uma concatenação sempre expansiva do entendimento. Cada nova releitura, tanto de palavras como de imagens, cria pré-requisitos melhores para uma interpretação adequada do todo. (NIKOLAJEVA e SCOTT, 2011, p.14)

O livro Tainá, a guardiã das flores foi escrito por Cristiane Sobral, autora já reconhecida no cenário da literatura afro-feminina, e sua filha Ayana de sete anos.  A menina sonhava escrever um livro para, assim como a mãe, inspirar as pessoas pelo mundo. O livro, além de muito colorido e com ilustrações cuidadosamente pensadas, traz como mote principal a preocupação da menina Tainá com o meio ambiente, atrelada à beleza e o respeito pelas diferenças. A partir dos ensinamentos do pai, a personagem Tainá reflete sobre a diversidade das pessoas e das flores, e, como cada uma tem sua beleza, suas particularidades e sua missão. Tainá se preocupa com o fato das pessoas arrancarem as flores da natureza e não replantarem outras. A partir de pequenas soluções, a personagem cresce e acaba se tornando dona de uma floricultura ecologicamente correta. É muito importante e significativo o livro trazer uma personagem, que já na infância, demonstra valores sociais, como ética, responsabilidade social, comprometimento e empreendedorismo.

Tendo como premissa a ideia de que a Literatura pode inspirar, transformar e promover autoestima, o fato das autoras serem negras, do livro apresentar uma personagem também negra dentro de um contexto mais próximo da realidade das crianças brasileiras e, sobretudo, desta personagem, ao final da história, se tornar dona do próprio negócio, favorecem o empoderamento e uma identificação positiva por parte das crianças negras leitoras. O fato de o livro ter sido escrito por uma criança também é algo que chama a atenção dos pequenos e desperta curiosidade, interesse e admiração.

   

Já o livro, Maira a alegre campeã, conta a história real da autora Maira Ranzeiro que se tornou a primeira campeã negra de tênis de mesa. A personagem é um exemplo de determinação para as crianças leitoras, especialmente crianças negras que sonham ter uma carreira no esporte, seja ela em qualquer modalidade. Maira, sempre apoiada pela família, consegue vencer graças a seu esforço, muito treino, mas principalmente por conta de suas habilidades. Ao final a ilustração traz a personagem ocupando o lugar mais alto do podium, acima de duas personagens brancas, o que cria um imaginário de valorização e reconhecimento. É uma história verídica e isso chama muito a atenção dos leitores. Sair do campo da imaginação é importante para as crianças negras fortalecerem suas expectativas, reafirmarem sua identidade e se sentirem empoderadas diante da vida.

  

O livro A menina que gostava de saber foi escrito pela professora Gisele Gama, mãe adotiva de Sara, que a inspirou a escrever cerca de setenta e cinco livros pertencentes à Coleção Sara e sua turma. Sara é uma personagem muito esperta que se envolve em várias situações e histórias que podem ser vividas por qualquer criança. Neste livro especificamente, temos um claro exemplo do potencial de uma menina negra, cujo pensamento crítico e inquietante incomoda até mesmo a professora da escola. Ninguém parece estar preparado para responder às questões de Sara, personagem principal da narrativa. A menina desde muito nova, quer saber de tudo e faz experimentos para descobrir suas dúvidas e testar suas ideias. Com uma narrativa divertida, e ilustrações muito instigantes, o livro desperta o interesse das crianças. Ao final da história, a personagem principal se torna uma cientista. Mais uma vez encontramos um livro que rompe com os estereótipos destinados a população negra, como por exemplo o de estar destinado a serviços subalternos, e coloca a personagem negra, no caso a Sara, em posição de destaque e prestígio profissional. As ilustrações, esteticamente bem trabalhadas, colaboram para promover uma identificação positiva com a personagem da história criando um novo imaginário sobre beleza e autoestima.