Panorama da Literatura Afro-Brasileira*

Edimilson de Almeida Pereira**

Neste panorama da Literatura Afro-brasileira abordaremos autores, autoras e obras dos séculos XVIII, XIX e a primeira metade do século XX. Vamos considerar, inicialmente, os aspectos do texto panorâmico e o debate em torno da expressão Literatura Afro-brasileira.

O texto panorâmico se caracteriza pelo seu didatismo e pelas suas limitações. O didatismo, aqui, tem por objetivo apresentar ao leitor a organização da Literatura Afro-brasileira seguindo a cronologia de vida dos autores. As limitações do texto panorâmico decorrem da apreciação horizontal dos assuntos (que não são analisados em detalhes), da dimensão restrita do próprio texto (que se opõe ao longo período histórico-literário a ser comentado) e da interferência do articulista (que ao selecionar alguns autores e obras estará, automaticamente, excluindo outros autores e obras).

O debate em torno da expressão Literatura Afro-brasileira vem crescendo com o intercâmbio entre autores, críticos e público atraídos por essa linha de criação literária. Dentre os diversos critérios que têm sido empregados para defini-la, citamos o critério étnico (que vincula o obra à origem negra ou mestiça do autor) e o critério temático (que identifica o conteúdo de procedência afro-brasileira como caracterizador da Literatura Afro-brasileira).

Mas, ambos os critérios parecem pouco abrangentes, principalmente quando: observamos o fato de possuirmos, ao longo de nossa formação literária, negros e mestiços escrevendo de acordo com padrões clássicos vindos da Europa, e também autores não-negros escrevendo sobre temas de interesse dos afro-brasileiros, tais como a escravidão, revoltas quilombolas e preconceito racial.

A utilização sumária dos critérios étnico e temático para definir a Literatura Afro-brasileira impõe uma censura prévia aos autores negros e não negros. Julgamos que é preciso buscar um critério pluralista, estabelecido por uma orientação dialética, que possa demonstrar a Literatura Afro-brasileira como uma das faces da Literatura Brasileira – esta mesma devendo ser percebida como uma unidade constituída de diversidades.

Do ponto de vista da História da Literatura é importante delinear o percurso responsável pela fundamentação de uma tradição literária. A tradição institui posições conservadoras que fazem do passado a referência para as atitudes posteriores. No entanto, a tradição apresenta traços dinâmicos, quando as perspectivas de negá-Ia ou reinterpretá-la a situam como fonte de mudanças que apontam em direção ao futuro.

A identidade da Literatura Brasileira está ligada a uma tradição fraturada, característica das áreas que passaram pelo processo de colonização. Os primeiros autores que pensaram e escreveram sobre o Brasil possuíam formação europeia; e mesmo aqueles que se esforçaram por exprimir uma visão de mundo a partir de experiências locais tiveram de fazê-lo na língua herdada do colonizador. Eis o drama do intelectual no Novo Mundo! A marca de nossa identidade literária pode estar no reconhecimento dessa fratura, que nos coloca no intervalo entre a aproximação e o distanciamento das heranças da colonização.

No século XIX, os autores do nosso Romantismo trabalharam no sentido de encontrar os símbolos de nossa identidade nacional. A urgência do momento levou-os a estabelecerem relações entre indianismo e nacionalidade e a saudarem a natureza como personificação da alma brasileira.

Vencidos os impulsos de afirmação da especificidade nacional, compreendeu-se a importância de uma nova situação, ou seja, inserir a Literatura Brasileira no contexto da literatura produzida no Ocidente. Os movimentos literários de fins do século e princípios do século XX ao tratarem da questão da identidade procuraram faze-lo mediante a atualização estética e o intercâmbio com as vanguardas internacionais.

Um exemplo desse procedimento se encontra no Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) de Oswald de Andrade, ativo participante do movimento modernista brasileiro.

A Literatura Afro-brasileira integra a tradição fraturada da Literatura Brasileira. Por isso, ela apresenta um momento de afirmação da especificidade afro-brasileira (em termos étnicos, psicológicos, históricos e sociais) que se encaminha para uma inserção no conjunto da Literatura Brasileira. A língua é fator decisivo para a realização desse percurso.

Brasileiros de diferentes origens étnicas expressam sua visão de mundo através de um mesmo sistema linguístico, ou seja, a língua portuguesa preservada e transformada de acordo com a dinâmica de nosso contexto histórico-social e dos grupos linguísticos que aqui entraram em contato.

A Literatura Afro-brasileira escrita nesse sistema é simultaneamente Literatura Brasileira que expressa uma visão de mundo específica dos afro-brasileiros. A dinâmica de tensões e contradições presentes nesse quadro literário nos ajuda a compreender as atitudes dos autores que recusam ou que valorizam suas origens étnicas; nos esclarece também sobre a necessidade de denunciar a opressão social e de evidenciar uma nova sensibilidade que apreenda esteticamente o universo da cultura afro-brasileira.

A referência a autores afro-brasileiros se inicia com o poeta e músico mestiço DOMINGOS CALDAS BARBOSA (1738-1800). Caldas Barbosa filiou-se ao Arcadismo, escola literária que seguiu os modelos da antiguidade clássica. O poeta inseriu na poesia árcade recursos da “fala brasileira”, com aspectos do vocabulário mestiço da colônia. Escreveu modinhas, lundus e seus poemas foram preparados para serem cantados. Radicou-se em Lisboa, onde pertenceu à Nova Arcádia Lusitana. Obras: Epitalâmio (1777), Viola de Lereno (1798).

O poeta mulato MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA (1749-1814) também fez parte do Arcadismo. Sua obra se assemelha a de outros árcades, como Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, exibindo uma natureza com paisagens amenas e bucólicas, fazendo a louvação de pastoras e ninfas, e propondo o equilíbrio das emoções. O poeta expressou uma visão negativa do homem negro, nas poucas vezes em que comentou esse tema. Obras: O Desertar, poema herói-cômico (1774), Glaura (1799).

ANTÔNIO GONÇALVES DIAS (1823-1864), filho de uma escrava mestiça de índio e negro (cafuza). Sua obra considerada de maior relevância se situa no campo do indianismo, com poemas de significativa força lírica e épica. O tratamento do tema do negro se dilui em sua poesia, principalmente quando a imagem heroicizada do índio é erguida como símbolo do nacionalismo brasileiro. Dentre as obras de Gonçalves Dias podemos citar: Primeiros cantos (1846), Segundos cantos e Sextilhas de Frei Antão (1849), Os Timbiras (1857).

LAURINDO JOSÉ DA SILVA RABELO (1826-1864), poeta mestiço, de origem social modesta, repentista e tocador de violão. Sua produção literária apresentou uma diversidade de expressões da cultura popular brasileira e portuguesa aliada às evocações sentimentais dos românticos.

LUIZ GONZAGA PINTO DA GAMA (1830-1882), filho de negra africana e de português. Foi vendido pelo pai aos dez anos de idade. Libertou-se, estudou, tornou-se advogado, orador e jornalista. Abraçou a causa do abolicionismo e sua obra poética reflete o empenho em defender suas origens étnicas. Usou a sátira para criticar a sociedade brasileira mestiça que pretendia fazer-se europeia. Na poesia, Luiz Gama rompeu os padrões de beleza da mulher branca e de atenuação da Cor através da imagem da mulher morena. O poeta cantou liricamente o amor pela mulher negra, ressaltando sua sensibilidade.

JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS (1839-1908), filho de um pintor mulato e de uma lavadeira dos Açores. É um dos mais consagrados escritores brasileiros e uma das figuras mais complexas de nossa literatura. Teve formação autodidata, lendo autores que em sua época circulavam de modo restrito entre os leitores nacionais. Conheceu a obra de Swift, Sterne e Leopardi, entre outros. Depois de ter sido tipógrafo-aprendiz na Imprensa Nacional, ingressou na carreira burocrática, trabalhando no Diário Oficial e na Secretaria da Agricultura.

A obra de Machado de Assis inclui poesia, teatro, crônica, conto e romance. A ênfase dos estudos críticos e o interesse do público têm recaído sobre a sua ficção no conto e no romance. Dentre suas obras citamos a trilogia Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Barba (1892) e Dom Casmurro (1900).

A ficção machadiana enfocou a psicologia da alta sociedade burguesa no Brasil do século XIX. Em sua poesia ocorrem referências esparsas ao negro, com o autor demonstrando preocupação em atenuar os aspectos ligados à cor negra. Alguns críticos lêem essa postura de Machado como recusa de sua própria origem étnica. Outros críticos, no entanto, observam que Machado não se mostrou indiferente ao destino dos negros escravos. O padrão estético de seu tempo não considerava o negro como tema literário e o autor se incluiu nesse contexto. Mas, ainda assim, está para ser melhor compreendida a relação de Machado de Assis, com a questão da identidade étnico-cultural brasileira. O autor de Quincas Borba foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

TOBIAS BARRETO DE MENEZES (1839-1889), poeta, sociólogo e filósofo mulato. Em sua produção literária não lidou diretamente com os temas de escravidão. Formulou discussões em torno da identidade racial do mestiço, um tema que ganharia destaque na literatura e na sociologia brasileira. Para Tobias Barreto, o mestiço era uma raça em formação, pois não se identificava nem como ariano puro, nem como africano puro e nem como americano puro. As implicações de tais teorias raciais alimentaram focos problemáticos sobre a realidade étnico-social no Brasil, criando margens para ideologias de dominação como a da democracia racial brasileira.

ANTÔNIO GONÇALVES CRESPO (1846-1883), poeta, filho de uma mulata brasileira e de um português. Realizou viagens a Portugal; a distância da terra natal motivou-lhe a escritura de poemas nostálgicos, com reminiscências da vida familiar. O poeta expressou uma visão ambígua de sua etnia: ora apresentou o negro com qualidades, ora recusou sua imagem, condicionado pela ideologia que vinculava o negro aos vícios e defeitos.

JOSÉ DO PATROCÍNIO (1853-1905) tornou-se mais conhecido como jornalista e orador dedicado à causa abolicionista. Escreveu obras em prosa de caráter realista, onde evidenciou sua intenção de analisar questões sociais. Em Motta Coqueiro ou a pena de morte (1877), José do Patrocínio fez a crítica da pena capital ainda aplicada no país. No romance Os retirantes (1877) o autor descreveu a seca no Ceará e em Pedro Espanhol (1884) investigou os esquemas de relações interraciais no Brasil. A produção literária de Patrocínio revela a contradição nascida da ânsia de valorizar o homem negro e da adoção dos modelos de beleza e harmonia procedentes da cultura ariana.

JOÃO DA CRUZ E SOUSA (1861-1898), filho de pais escravos. Foi tutelado até a adolescência pelo marechal Guilherme Xavier de Souza. Trabalhou na imprensa de Santa Catarina, seu estado natal; escreveu crônicas abolicionistas e percorreu o país em uma companhia teatral. As pressões do preconceito racial impediram-no de assumir o cargo de Promotor na cidade de Laguna. Casou-se com uma jovem negra, Gavita, de frágil saúde mental. O casal teve quatro filhos, dois faleceram antes do poeta. Cruz e Souza faleceu no município de Sítio, no estado de Minas Gerais, vítima de tuberculose.

A obra poética de Cruz e Souza representa o ponto alto do Simbolismo brasileiro e inclui os livros Broquéis (1893), Missal (1893), Faróis (1900), Últimos sonetos (1905). Algumas leituras críticas descrevem o hermetismo do poeta e suas referências às “formas alvas, brancas e claras” como mecanismos de rejeição de sua cor e origem social humilde. No entanto, outras interpretações, que avaliam o tratamento ambíguo da cor na obra do poeta, observam a valorização que ele atribui ao negro.

A tensão na literatura de Cruz e Souza nasce da adoção das indicações estéticas do Simbolismo e da vivência pessoal do homem negro numa sociedade de tradição escravocrata. O entendimento dessa tensão tem revelado lances que contribuíram para a formação da consciência de negritude no Brasil.

AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO (1891-1922), filho de tipógrafo e de professora primária. A origem social modesta, a cor negra e a vida de jornalista pobre o levaram a desenvolver uma percepção crítica da sociedade de seu tempo movida por forças como o paternalismo, o clientelismo e o preconceito racial.

O romance social de Lima Barreto expôs as contradições de nosso ambiente social: o ficcionista retratou os subúrbios do Rio de Janeiro e seus personagens, muitos deles imbuídos do desejo de promover transformações sociais em prol dos menos favorecidos. Dentre suas obras podemos citar: Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1911) e Numa e Ninfa (1915).

LINO GUEDES (1906-1951), poeta negro, contemporâneo da fase modernista da literatura brasileira. Em sua obra poética descreveu as condições de vida do negro estigmatizado pela escravidão e marginalizado pela sociedade do período pós-abolicionista. Segundo Lino Guedes, o aperfeiçoamento educacional e a adoção da moral puritana nos moldes burgueses seriam os caminhos para a ascensão social do homem de cor. A adoção dessa moral puritana demonstra o interesse do poeta de inserir o negro no padrão social dominante. Sua obra poética, em tom prosaico, supõe a assimilação dos valores da sociedade branca. Entre os seus livros destacamos O canto do cisne preto (1927) e Negro preto, cor da noite (1932).

SOLANO TRINDADE (1908-1974), poeta de intensa participação política, criou uma obra em linguagem simples voltada para o leitor popular. É considerado um dos poetas mais expressivos da negritude brasileira contemporânea. Sua obra poética traz a reivindicação social do negro em busca de melhores condições de vida. Para Solano Trindade o poeta deve se empenhar na defesa das tradições de seu povo e na construção de uma sociedade mais justa. Dentre suas obras citamos Poemas d’uma vida simples (1944) e Cantares ao meu povo (1961).

Em torno das escritoras afro-brasileiras pairam dificuldades motivadas, em parte, pela escassez de informações biográficas e bibliográficas. Num interessante artigo da pesquisadora Maria Lúcia de Barros Mott, publicado em 1989, encontramos dados sobre várias autoras que contribuem para formar o quadro de nossa história literária.

A obra da professora MARIA FIRMINA DOS REIS, nascida no Maranhão, situa-se no século XIX. Em 1859 a autora publicou o romance Úrsula, atribuindo aos escravos participação importante no enredo. A ficção de Maria Firmina denunciou a violência do escravismo e incorporou reflexões de cunho social que marcariam o discurso dos abolicionistas.

A obra de AUTA DE SOUZA (1876-1901) consta do livro Horto, que veio a público em 1901. A autora não trata de temas relativos ao negro brasileiro e sua ascendência não despertou a atenção dos estudiosos.

CAROLINA MARIA DE JESUS (1914-1977), aliou criação literária e experiência de vida para compor uma obra que está a merecer análises mais detalhadas: Quarto de despejo (1960), alcançou repercussão internacional, revelando uma produção de caráter documental e de contestação social. Seus livros seguintes foram Pedaços de fome (1963) e Diário de Bitita (1986). A carreira literária de Carolina Maria de Jesus teve como pano de fundo uma vida marcada pela miséria. Os dados biográficos presentes em seus textos ultrapassam o tom confessional para identificar a luta do homem que procura superar a opressão social.

Ao reconhecermos as limitações deste panorama, reconhecemos a necessidade de um empenho amoroso no sentido de divulgar e debater as linhas dessa criação literária surgida da realidade brasileira. Não pretendemos, em nenhum instante, assumir posturas absolutas, ao contrário, apresentamos situações tensas que atualizam um caminho revelador de nossa experiência social, étnica e literária.

O tema da identidade étnico-cultural do homem negro é um tema entre outros igualmente importantes da Literatura Afro-brasileira. As informações biográficas sobre os autores contribuem para a compreensão de certos aspectos de suas obras, mas, definitivamente, não esgotam o campo de representações e de significações que tais obras inauguram.

A própria definição do termo Literatura Afro-brasileira – ou Literatura Negra, como preferem alguns analistas – é ponto a ser melhor considerado. Como pudemos observar, a origem étnica e o conteúdo não são suficientes para estabelecer a especificidade da Literatura Afro- brasileira. As contradições percebidas nas obras são índices de uma identidade que precisa ser buscada também nos aspectos da forma, da visão de mundo, da interação de uma nova sensibilidade estética e social.

Referências

Bernd, Zila. Introdução a Literatura Negra. São Paulo: Brasilense, 1988.

Bosi, Alfred. História Concisa da Literatura Brasileira. 2Nd ed. São Paulo: Cultrix, 1976.

Brookshaw, David. Raça e Cor na Literatura Brasileira. Trans. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.

Cândido, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. First Volume (1750- 1836). 3rd ed. São Paulo: Martins, 1969.

Coutinho, Afrânio (direction). A Literatura no Brasil. Volume 1: Preliminares e Generalidades. 3Rd edition, revised and updated. Rio de Janeiro: José Olympio; Niteroi: Ed. da Universidade Federal Fluminense, 1986.

Damasceno, Benedita Gouveia. Poesia Negra no Modernismo Brasileiro. Campinas: Pontes Editores, 1988.

Gomes, Heloisa Toller. O Negro e o Romantismo Brasileiro. São Paulo: Atual, 1988.

Mott, Maria Lúcia de Barros. “Escritoras Negras: Resgatando a Nossa Historia.” In: Papeis Avulsos/13. Rio de Janeiro: UFRJ, 1989.


** Edimilson de Almeida Pereira é poeta, antropólogo, ensaísta e professor de Literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora/MG. Autor de dezenas de publicações nos campos da poesia, do ensaio e dos estudos antropológicos. Dentre seus escritos poéticos destacam-se Zeozório blues (2002), Lugares ares (2003), Signo cimarron (2005) e Homeless (2010). Como crítico, possui diversas publicações, entre elas o recente Entre Orfe(x)u e Exunouveau (2017), fruto de sua tese de Professor Titular na UFJF.

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