Mobilidade, migração e a natureza da cidadania se tornaram campos populares no debate acadêmico e político nos últimos anos, não apenas nas sociedades contemporâneas, mas também na Antiguidade (sobre o último, veja, mais recentemente, Filonik J., Plastow, C. & Zelnick-Abramovitz, R. (eds.) (2023), Citizenship in Antiquity: Civic Communities in the Ancient Mediterranean, London and New York). Tem sido observado que a cidadania é muito mais que um conceito estático, composto por um conjunto de direitos, deveres e obrigações legalmente definidos e usufruídos por um grupo de indivíduos delimitado; a cidadania é também “performativa” (Isin, E. F. (2017) ‘Performative citizenship’, in A. Shachar, R. Bauböck, I. Bloemraad & M. Vink (eds.), The Oxford handbook of citizenship: 500–523, Oxford; Duplouy, A. (2023) in Filonik et al.).
Trata-se de práticas e interações sociais, normas, expectativas e códigos de comportamento que demonstram por meio de discursos e ações o que significa ser um cidadão (Neveu, C. (2023) in Filonik et al.). Além disso, a cidadania não é formada exclusivamente pela interação entre o Estado e seus cidadãos, ou entre um grupo de cidadãos, mas é também informada pelo contato com estrangeiros, visitantes, bem como por residentes permanentes, viajando e se estabelecendo no estrangeiro, e por movimentos políticos, sociais e intelectuais entre Estados.
Este Simpósio irá se concentrar na cidadania nas sociedades mediterrâneas, sobretudo antigas, porém também nas contemporâneas, e procurará explorar os modos pelos quais o contato com estrangeiros livres (de nascença e emancipados) podem ter moldado cada vez mais as noções de cidadania e identidade cívica, seja formal (os direitos e deveres), seja informalmente (os códigos de comportamento e a vida cotidiana).
O Simpósio reunirá um grupo diverso de estudiosos do Brazil e do exterior, convidados a investigar o impacto de estrangeiros livres nas noções de cidadania, tanto na teoria como na prática, nas sociedades mediterrâneas e ao longo do tempo, através do exame de evidências literárias, epigráficas e materiais. Estamos particularmente interessados em discutir os seguintes temas:
- Casos em que direitos civis parciais e obrigações são repassados a estrangeiros;
- Negociações de prestígio entre cidadãos e estrangeiros em espaços formais e informais e seus impactos nas noções de cidadania e identidade cívica;
- Repatriação de cidadãos (residentes estrangeiros, soldados, cativos, exilados, refugiados que regressam) e o impacto de ter vivido no exterior sobre o cidadão na volta à sua comunidade de origem;
- Cidadania como um privilégio que promove inclusão versus cidadania forçada como meio de conquista;
- Alforria e cidadania;
- A posição interna de cidadãos que priorizaram laços recíprocos (políticos, financeiros, matrimoniais) com Estados/estruturas de poder diferentes das suas (dado que a boa cidadania se baseia, idealmente, em laços de reciprocidade entre cidadão e sua comunidade);
- A retórica dos excluídos no discurso público (por exemplo, na oratória antiga e nas mídias sociais contemporâneas) e como identificar aspectos contestados da cidadania por meio do exame de tal argumentação;
- Monumentos e lugares como metonímias de cidadania e identidade cívica;
- Espaços liminares no Mediterrâneo: campos de refugiados nas ilhas gregas e as interações entre estrangeiros e residentes; evidências materiais de campos de refugiados e o que podem revelar sobre a vida comunitária e a identidade cívica das pessoas em trânsito.
Por meio de palestras, mesas-redondas e minicursos esperamos, e com o apoio de monitores (estudantes voluntários de graduação e pós-graduação) nos reunir, na tradição democrática da universidade pública brasileira, para nos debruçar sobre esses temas tão importantes, da Antiguidade até hoje, da situação de cidadãos e estrangeiros.
