Sejam todo.a.s bem-vindo.a.s ao I Colóquio Retórica, Argumentação e Emoções!
27 e 28 de junho de 2022
O I Colóquio Retórica, Argumentação e Emoções é realizado pelo grupo de pesquisa Retórica e Argumentação (RETORAR-FALE/FAFICH/CNPq) sediado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), campus da Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Nesta primeira edição, ele será realizado na modalidade online, nos dias 27 e 28 de junho de 2022.
A expectativa do Colóquio é reunir estudos teóricos e/ou analíticos que se esforçam para compreender a relação entre a argumentação e as emoções.
O estudo das emoções no discurso exige retornar à Antiguidade grega, à Retórica de Aristóteles (2013). Podemos dizer também que os estudos retóricos se (re)definiram, ao longo dos tempos, pelo lugar que atribuíram ao sentimento em seu aparato teórico e metodológico. Para Plantin (2008, p. 111), “o campo da argumentação pura redefiniu-se historicamente por sua rejeição dos afetos e do comprometimento da pessoa com o próprio discurso”. Na história da retórica, podemos compreender o papel das emoções no discurso a partir de três mirantes:
- na retórica clássica
- na teoria das falácias
- nas modernas teorias da argumentação
Em primeiro lugar, a retórica aristotélica aborda as emoções sob o conceito de páthos. Na Retórica, afirma-se: “Cabe-nos agora discutir as paixões ou emoções, das quais forçosamente fazem parte a amizade e a benevolência. As paixões (emoções) são as causas das mudanças nos nossos julgamentos e são acompanhadas de dor ou prazer” (Arist., Ret., II, 1378a 20). As paixões aristotélicas são: cólera e calma, amizade e ódio, temor e confiança, piedade e indignação, inveja e emulação, vergonha, obrigação. Para Plantin (2008, p. 119), “na retórica argumentativa, os afetos são designados sob o termo genérico de pathos e se fracionam em ‘emoções de base’, características da situação da argumentação”.
Em segundo lugar, a teoria das falácias surge como uma crítica lógico-epistêmica dos raciocínios presentes na linguagem comum, na qual se manifestam os afetos. Para essa perspectiva, todo raciocínio contaminado pelas emoções deve ser afastado do comportamento discursivo racional. Emerge aqui o conceito de paralogismo (sofisma, falácia) como poluente do discurso.
um paralogismo é, de modo geral, um discurso viciado e vicioso, que se parece com um raciocínio válido: joga-se com o sentido das palavras, toma-se o efeito pela causa, responde-se bem a uma pergunta, mas não à pergunta feita, a conclusão só faz reformular as premissas etc.; e – é esse o ponto que nos interessa – impõem-se ou se adotam conclusões e comportamentos absurdos, brincando com a paciência das pessoas. (PLANTIN, 2008, p. 120).
Nesse sentido, toda manifestação de emoção nos discursos era percebida como uma estratégia: eram rotulados de sofismas ad passiones, que deviam ser identificados e rechaçados pelos personagens do debate racional.
Em terceiro lugar, as modernas teorias da argumentação agem de modo paradoxal perante as emoções: embora não neguem sua existência, também não a abordam de maneira séria. Para Plantin (2008, p. 121), “a linhagem de obras publicadas nos anos 1950 que refundam a argumentação não retomam a questão dos afetos”. Quando falamos das teorias modernas da argumentação, referimo-nos a estes nomes: a) Toulmin; b) Perelman e Tyteca; c) Ducrot; d) Grize; e) Walton. No primeiro, a proposição de um modelo contratual-legal da argumentação não permite perceber o problema das emoções. Nos segundos, o lugar atribuído às emoções mereceria ser melhor desenvolvido, uma vez que o Tratado menciona as paixões sem tematizá-las. No terceiro, cujos trabalhos são orientados para a linguística da língua (argumentation dans la langue), não observamos nenhum tratamento especial direcionado às emoções. O mesmo acontece com o quarto, Grize, representante da lógica natural: nenhum desenvolvimento que mereça destaque. No quinto, Walton, autor de Lógica informal, observamos uma reavaliação de alguns tipos de argumentos que apelam para a emoção: ad populum, ad misericordiam, ad baculum, ad hominem. Os trabalhos de Toulmin, Perelman e Tyteca estão localizados nos anos 1950. Aqueles de Ducrot e Grize encontram-se nos anos 1970. Por fim, os estudos de Walton inscrevem-se nos anos 1990.
Nos anos 2000, Plantin, estudando todo esse cenário, apresenta constantemente a necessidade de interrogarmos as emoções no discurso.
Poderíamos distinguir globalmente três tratamentos da emoção em argumentação; por um lado, uma visão dos afetos como essencialmente falaciosos; em seguida, uma teoria do paralelismo, que encapsula as emoções em um “módulo emocional”, paralelo ao “módulo lógico”. Podemos, por fim, defender a tese da indiscernibilidade, segundo a qual é impossível construir um ponto de vista, um interesse, sem a eles associar um afeto, dado que as regras de construção e de justificação dos afetos não são diferentes das regras de construção e de justificativa dos pontos de vista. Essa última posição parte da constatação da presença de um elemento irredutivelmente emocional nas situações argumentativas. (PLANTIN, 2008, p. 124).
Dessa forma, observamos duas posturas possíveis perante o tema das emoções no discurso: a primeira, derivada dos modelos retóricos do discurso argumentativo, que prega a utilização dos afetos como arma de manipulação (identificam-se as emoções mais efetivas determinado auditório em determinado contexto); e a segunda, derivada da teoria crítica das falácias, que faz do estudo da argumentação uma disciplina alexitímica (identificam-se os sofismas ad passiones). Esses dois modelos não seriam mais suficientes. Segundo Plantin (2008, p. 126), “a análise argumentativa tem de encontrar os meios de abordar de modo global a questão dos afetos, apoiando-se em um modelo coerente da construção discursiva do conteúdo patêmico, indissociável do conteúdo lógico do discurso”.
Alguns anos depois, em Les bonnes raisons des émotions, Plantin (2011) nos apresenta um modelo que permitiria reconstruir o desenvolvimento das emoções no discurso. Esse modelo seria uma representação esquemática, coerente, compacta e sistemática para operacionalização dos procedimentos de verbalização das emoções no discurso. O autor esclarece que cabe aos psicólogos definir o conceito de emoção e dizer o que é a cólera, a vergonha, o medo e a alegria em suas manifestações psíquicas/psicológicas, e que o modelo apresenta os instrumentos e conceitos necessários para a análise da construção discursiva das emoções.
Foi a partir da leitura e discussões de As boas razões das emoções que surgiu a ideia deste I Colóquio.
Desejamos a todo.a.s um ótimo evento!
(Comissão Organizadora)
