Publicação resgata e reúne toda a obra poética de
Adão Ventura
Tom Farias
A publicação do legado poético de Adão Ventura já pedia urgência. Reunir seus livros de poemas, editados de 1970 a 2004, com o autor ainda em vida, além dos póstumos, um dos quais Costura de nuvens, recupera do terrível limbo do esquecimento a produção de um grande poeta que carrega o impacto sensitivo do "menino enfatiotado" do interior afro-mineiro, preso à dolorosa memória da escravidão.
Destaca-se o poema "Teodoro da Fazenda", dedicado ao avô, vaqueiro de Santo Antônio do Itambé, região mineira da Serra do Espinhaço. Dele Ventura produz uma biografia imagética, proclamando-o "costureiro de cipós e trovoadas" e "vaga-lume de pés na estrada".
Como se vê, é um poeta aterrado aos símbolos e significados de sua gente ancestral, com forte carga emocional de dor e sofrimento, algo expresso em poemas que compõem sua maturidade literária, sua "poesia-denúncia", sobretudo nos livros A cor da pele, Texturaafro e Litanias de cão.
Essa fase temática, detectada a partir de 1980, representa o "rito de passagem" da era perdida de sua identidade racial, que coincide com o período em que Ventura, após breve temporada nos Estados Unidos, retorna ao seu estado natal, Minas Gerais, assombrado diante da perspectiva de tornar-se e ver-se como homem negro numa sociedade branca, desigual e racista.
Dentro da ordem cronológica, a antologia reúne livros do primeiro projeto conceitual do autor ao seu último, como "Abrir-se um Abutre ou Mesmo Depois de Deduzir Dele o Azul", de 1970, de prosa poemática, à moda dos impulsos experimentais baudelairianos, ferindo notas de um simbolismo tardio à Cruz e Sousa, ao póstumo Costura de nuvens, de 2006, passando pelo elucidativo As musculaturas do Arco do Triunfo, o engajado A cor da pele, o ritualístico Jequitinhonha: poemas do Vale, os disruptivos Texturaafro e Litanias de cão, o sombrio Duas vinhetas sobre uma viagem: África Austral e Outros poemas, coleção composta por textos dispersos, produzidos de 1966 a 1987.
Pelo conjunto da obra, pode-se dizer que Adão Ventura tem uma lealdade lírica gritante com ele mesmo e sua poética. Não há, na evolução de sua poesia, uma rutura significativa, rompimento de uma linguagem em detrimento de outra, mesmo levando em consideração seu tempo de militância no movimento negro, quando sua produção namora o conceito de negritude, manifesto político liderado por Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, de exaltação da cultura africana.
O que há, em verdade, nos seus livros mais disruptivos, é a evolução natural de quem assume o ofício da arte como profissão de fé literária. Conta também sua consciência sociorracial. "Comensais", por exemplo, de Texturaafro, é representativo de poesia sua discursiva: "A minha pele negra/servida em fatias/em luxuosas mesas de jacarandá/a senhores de punhos rendados/há 500 anos". Assim "Meu pai": "Meu pai está velho/e cansado/Em Serro ou em Soweto." E "Cantiga": "Bisavó-mãe-zefa/Com suas trouxas de nuvens/Engomadas/Carpindo moinhos de coivaras/E fantasmas."
Eis um tipo de poesia necessária.
In: Folha de S. Paulo, 25/03/2026.
Referência
VENTURA, Adão. A cor da pele: poesia reunida. Organização de Fabrício Marques. (org). São Paulo: Círculo de poemas, 2025.
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* Tom Farias é jornalista, escritor, ensaísta, dramaturgo e roteirista. Autor das afrobiografias Cruz e Sousa: Dante negro do Brasil (2008), José do Patrocínio; a imorredoura cor do bronze (2009) e Carolina: uma biografia (2017). Tem em seu currículo o volume crítico Escritos negros (2020) e os romances Os crimes do Rio Vermelho (2001), A bolha (2020) e, o mais recente, Toda fúria (2023). É crítico literário do jornal O Globo e colunista da Folha de S. Paulo.