Poesia é lar
Mikaella Pereira da Silva*
Em seu mais recente livro de poemas, Diáspora não é lar (2025), Nina Rizzi apresenta ao leitor uma coletânea intensa e provocadora, marcada por textos que atravessam emoções e convidam à reflexão sobre vivências permeadas pelo racismo, pela desigualdade e pelo não pertencimento. A obra tensiona a própria ideia de “lar”, questionando-o como espaço de acolhimento quando cercado por estruturas históricas de opressão.
Com estrofes curtas e versos livres – que rompem com a métrica tradicional –, a autora constrói uma poesia direta, incisiva e, muitas vezes, dolorosamente real. Entre os temas abordados, destacam-se o racismo estrutural, a herança colonial e as experiências de mulheres negras em espaços marcados pela subalternização. Isso se evidencia no poema “todas as patroas de minha mãe”:
eram doutoras
embora nenhuma fosse
nem mesmo médica
nem mesmo advogada
ou doutora
todas as patroas de minha mãe
eram herdeiras
brancas
(p. 21)
Nesse trecho, Nina Rizzi expõe uma situação ainda recorrente na sociedade brasileira: a hierarquização social sustentada por privilégios raciais e econômicos. O uso irônico do termo “doutoras” evidencia não uma formação acadêmica, mas um título socialmente atribuído, sustentado pela herança e pela branquitude. O que se revela é a distância social – quase abissal – entre empregadas domésticas e suas patroas, marcada por relações de poder naturalizadas e por uma estrutura que legitima a superioridade de umas sobre as outras.
Outro aspecto marcante da obra é o uso da oralidade. A autora incorpora gírias, variações linguísticas e construções que rompem com a norma-padrão, conferindo ao texto um tom de desabafo, revolta e denúncia. Essa escolha estilística não é aleatória: ela reafirma identidades historicamente silenciadas e transforma a linguagem em instrumento de resistência, reafirmando a existência de outra gramática que se performa cotidianamente na língua do povo.
A intertextualidade também se faz presente. No poema “Eu, euzinha”, Rizzi dialoga explicitamente com “I, Too”, de Langston Hughes, poeta central do Harlem Renaissance. No poema original, Hughes afirma sua identidade negra e reivindica pertencimento à América:
Eu, também, canto a América.
Eu sou o irmão mais escuro.
Eles me mandam comer na cozinha
Quando chegam as visitas,
Mas eu rio,
E como bem,
E cresço forte.
Amanhã,
Eu estarei à mesa
Quando as visitas chegarem.
Ninguém ousará
Dizer-me,
“Coma na cozinha”,
Então.
Além disso,
Eles verão como eu sou bonito
E terão vergonha —
Eu, também, sou América.
Ao reescrever e traduzir poeticamente esse texto, Nina não apenas adapta, mas o recria:
Eu, euzinha, também canto “dises América”
Eu sou a irmã mais pretinha.
Eles me manda cumê lá na cozinha
Quando as visita chega
Mas eu gargalho,
E como tudinho,
E cresço fortona.
Amanhã
Vou sentá na mesa
Quando as visita chegá
Ninguém vai ousá
Dizê pra mim
“Vai cumê lá na cozinha”
Hahaha
Aí
Eles vai vê como eu sou bunitona
E vai morrê de vergonha -
Eu, euzinha, também sô Américana
(p. 64)
Ao optar por marcas explícitas da oralidade – “cumê”, “visitá”, “sô bunitona” –, a poeta brasileira nacionaliza a experiência e aproxima o discurso da realidade das mulheres negras periféricas no Brasil. O riso (“Hahaha”) surge como gesto de enfrentamento, e não de submissão. Assim, Nina Rizzi reafirma: “Eu, euzinha, também sô América”, deslocando o centro da narrativa e reivindicando pertencimento a um país que historicamente marginaliza corpos negros.
Diáspora não é lar é, portanto, uma obra de resistência. Por meio de uma linguagem potente e sem concessões, Nina Rizzi transforma a poesia em espaço de denúncia, memória e afirmação identitária. Seu livro não apenas emociona: ele incomoda, provoca e convoca o leitor a refletir sobre as estruturas que ainda sustentam desigualdades profundas na sociedade brasileira.
Belo Horizonte, fevereiro de 2026.
Referência
RIZZI, Nina. Diáspora não é lar. Rio de Janeiro. Pallas Editora, 2025.
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* Mikaella Pereira da Silva é graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e mestre em Letras e Literatura de Língua Portuguesa, pela mesma Instituição.