Água do mar e líquido amniótico, bases de um matriarquivo
Felippe Nildo Oliveira de Lima**
Aline Motta (Niterói, 1974) é uma multiartista que vem se destacando no cenário das artes contemporâneas com obras que se utilizam de múltiplas linguagens e suportes. Para além da experimentação com a performance e a instalação, o cinema e a fotografia, A água é uma máquina do tempo (Círculo de Poemas, 2022), seu primeiro livro de poesia, é mais uma das frentes de expansão artística de seu já consolidado trabalho. Desde o título, a obra se aprofunda em algumas das temáticas caras às investigações estéticas da artista fluminense: os cruzamentos e fluxos temporais não lineares que põem em diálogo, pela via da ancestralidade, mortos/as e vivos/as, bem como a busca dos sentidos das águas atlânticas que banham a história e o presente. Com base nesses sentidos, despontam no livro as aproximações tecidas por Aline Motta em direção às mulheres de sua família.
O princípio da ancestralidade, força motriz que dá sustento e fôlego às cosmovisões afrodiaspóricas, atravessa os poemas da obra. O legado das ancestrais é reiterado como elemento estruturante do trabalho com a linguagem e a memória, vinculando a artista e suas familiares a uma mesma rede de pertença. Como num processo de exumação afetiva das mortas pela palavra, estas motivam e impulsionam a criação poética. Para Leda Maria Martins, “O olhar e a voz dos antepassados asseguram a existência, pois sua lembrança garante a produção da própria memória. Assim, enquanto os ancestrais de nós se lembrarem, nós ainda seremos” (2021, p. 213).
Relembramentos genealógicos, reminiscências afetivas e lacunas da memória tensionam os textos que enunciam as matriarcas da artista, mas que também parecem ser convocados à materialidade/existência por elas. A obra reúne gerações de mulheres negras vinculadas umbilicalmente pelo fio vital da poesia, que ressoam suas vozes mediante a voz da poeta, como num chamamento mútuo à presença, no espaço do poema:
ELA PROCURA POR MIM
APAREÇO APENAS QUANDO POSSO.
(Motta, 2022, pp. 86-87).
A perscrutação dos vestígios das existências de quem veio antes dá a tônica da carnalidade verbal dos poemas e traz à baila as descobertas de Motta surgidas de pesquisas em documentos históricos, perquirindo arquivos de cartórios e acervos de jornais antigos, em busca de maiores informações sobre suas antepassadas. A partir dessa postura ética, somos apresentados/as, por exemplo, a reproduções de recortes de jornais que anunciam missas em memória de sua tataravó Ambrosina Cafezeiro Gomes, mãe de Nicaldes e Iracema, duas tias-bisavós presentes em alguns poemas da obra.
Ao cotejar documentos do final do século XIX com narrativas familiares (ou sua ausência) – “[...] Teve sete filhos, entre eles, minha bisavó. Morreu de tuberculose, mas a história que contam é que morreu de susto por causa das bombas na baía de Guanabara durante a Revolta da Armada. [...]” (p. 6) –, a poeta retoma o arquivo para, a partir dele, realizar uma leitura/escritura a contrapelo da história ali narrada. Com esse fito, a obra conta com recortes de jornais que noticiam o caso de Iracema, abusada sexualmente em 1891 aos 13 anos e obrigada a casar com seu abusador.
A retextualização para o verso da certidão de casamento de Michaela Iracema Gomes e Eurico Juvenal da Cruz e os jogos de sentido com palavras usadas na época para descrever o estupro – “DESAGRAVAR A HONRA DESONRAR OFENDER A HONRA” (p. 31) – potencializam a leitura dos poemas para além da denotação comum a textos jornalísticos e jurídicos. Abala-se a autoridade da lei amparada pelo machismo e seus representantes, perpetuados na linguagem e nos monumentos: "Hoje a avenida que corta o bairro do Leblon ao meio tem o nome do juiz de paz do caso” (p. 37). Sobretudo, para além da denúncia do caso, Iracema e sua memória são convidadas a ocuparem um lugar na obra:
Não tinha corpo e ainda brincava de bonecas. Lavava com sangue as bacias sujas do parto interrompido. O ventre se contraía e o feto escorregava ainda sem forma a cada gravidez malsucedida. Resíduos que traziam a memória da denúncia. Era o seu jeito de dizer não. A barriga não segurava bebês, ainda era um lugar impenetrável, inviolável, inquebrável. Começou com 13 anos aquele aperto. O tempo agora passaria por um funil, estreito conta-gotas. Michaela não daria nenhum filho a Eurico. (p. 39).
A elaboração de uma poesia (e de uma história) com protagonismo de mulheres negras surge na leitura dos poemas, sendo a imaginação no trato com o passado o que dá forma aos textos de A água é uma máquina do tempo. É o que garante a Iracema um eco de resistência à violência sofrida: o aborto involuntário como rebeldia e negação à instituição familiar e matrimonial. Frente ao silenciamento de Iracema pela justiça oitocentista, também é a imaginação que tenta restituir e fazer permanecer no presente a corporalidade da tia-bisavó, mediante reprodução fac-símile de sua assinatura encontrada na certidão de casamento: marca que autentica sua existência nos meandros da história.
Na poética de Motta, o tratamento com o passado se aproxima da noção de fabulação crítica desenvolvida por Saidiya Hartman, incorporando os dilemas e as impossibilidades de reconstituição total de vidas negras, tendo em vista o peso do arquivo aparelhado por mãos brancas e masculinas. Nas palavras de Hartman, esse método resulta em “[...] uma História de um passado irrecuperável; é uma narrativa do que talvez tivesse sido ou poderia ter sido; é uma História escrita com e contra o arquivo” (2020, p. 30).
A experimentação formal/visual dos poemas também enriquece os processos de fabulação da história, apesar dos entraves do arquivo. Além da já citada apropriação de textualidades de documentos do século XIX, vertendo-as para o verso, a obra mantém relações de intertextualidade com a tradição literária, vide a presença de trechos do conto machadiano “Pai contra mãe”, incorporados a alguns poemas, aproximando o contexto ficcional ao da família da autora, ou ressignificados em uma colagem na qual se transformam nas ruas de um mapa do centro antigo da capital do Rio de Janeiro, à época de Ambrosina, Nicaldes e Iracema. Poemas visuais que retextualizam o léxico de documentos centenários, blocos de prosa que rompem com o verso moderno convencional, e páginas em branco com longos vazios (ou silêncios) são apenas alguns dos manejos formais que dizem do contato instável com o passado e as lacunas da memória, assim como da invenção da própria ancestralidade.
Ao lidar com documentos de posse familiar ou encontrados em instituições biopolíticas, a poeta se torna arquivista. Mesmo ofício de sua tia-bisavó Nicaldes, que, ao enlouquecer, delira com a organização de gavetas misteriosas: “Depois de voltar a si, Nicaldes nunca mais foi a mesma. Um morto havia entrado nela. Começou a entoar ruídos estranhos, apontava para fantasmas arrumando gavetas imaginárias.” (p. 9). Em um dos poemas, Motta não só herda a vocação de organizadora das gavetas da memória familiar como também é devedora direta do espectro de sua ancestral louca: “Nicaldes, arquivista,/ soprou este livro” (p. 140). Um morto entra em Nicaldes. A tia-bisavó, por sua vez, revive na poeta. Morta e viva interagem num só corpo. Transtornam-se as temporalidades para que se dê o processo de reconhecimento e performatização da ancestralidade.
Assim, a poesia também é uma cerimônia de encarnação, ação sem fim e/ou interrupção: “Eu faço do meu corpo um altar/ Nele um morto pode dançar” (p. 95). No tempo da poesia, não só as épocas se imbricam, mas também mortas e vivas se encontram, ancestrais umas das outras. No contato com essas interlocutoras ausentes/presentes, manifesta-se o cuidado para com as ancestrais. Nesse pulsar de afetos e expurgação de traumas, é possível retomar o passado pela escrita e imaginá-lo outro, numa inversão de gerações:
Se eu soubesse teria soprado um par de pulmões
no lugar do seu útero
E esse par extra você o teria doado em vida
para Ambrosina
que poderia assim respirar o vento da eternidade
que não termina no dia seguinte
Inverter a lógica dos embriões
A filha que vira uma ancestral da mãe
memória e veículo
A água é uma máquina do tempo
(p. 137).
Ancorando-se na concepção espiralada do tempo fundada na ancestralidade, o desejo de tornar a poesia uma “máquina do tempo” que garanta a duração ou permanência das mortas no mundo dos/as vivos/as situa a dicção da poeta nos fluxos temporais de perpetuação dessas existências. A poesia transforma as mortas em ancestrais, cultuando-as, sendo o poema também um rito de passagem, espaço de elaboração do luto, visto que “Da morte nascem os ancestres, cujos rituais de passagem asseguram sua transcendência e presença” (Martins, 2021, p. 205).
Encontramos esses sentidos nos poemas que enlutam a perda de Wilma, mãe de Aline Motta. Ampliando a presença de elementos iconográficos que enriquecem A água é uma máquina do tempo, a artista reproduz recortes de diários e agendas da mãe, uma fotografia de Wilma, e cópias de trechos de pertences familiares como o álbum de infância de Motta. Com isso, o livro adquire mais uma dobra no trato com as mortas familiares: a artista busca compreender sua relação com a mãe, que resvala em seu lugar de filha.
Emerge um forte pathos na elaboração do adoecimento e da posterior perda da mãe. Descrições de cenas dos momentos finais no hospital onde Wilma padecera, de sua missa de um mês de morte, e de seu enterro se aliam a lembranças da infância e da adolescência da autora ao lado de sua mãe, em um laço familiar não tão pacífico: “Uma vez, de maneira casual, chamei minha mãe de louca. Ah, pra quê. Seria obrigada a ouvir seus gritos. Você me respeite porque eu sou sua mãe e outros lugares-comuns de uma relação desgastada. [...]” (p. 113).
Revisitar o passado incorre, por vezes, no sentimento de culpa, muito embora a artista, agora adulta, descubra que a outra face da rebeldia lançada contra Wilma fosse justamente a do amor: “Te machucar era uma forma de não ser ignorada.” (p. 104). É também no retorno à infância que a poeta reflete sobre a marca do racismo em sua gênese, situando-se em um contexto familiar no qual não se discutia/reconhecia a violência racial fundante das relações sociais no Brasil: “Minha vizinha e melhor amiga na infância era branca./ Um dia perguntou para a mãe quando eu ia melhorar.” (pp. 44-45). Violência que recai, inclusive, no corpo doente de sua mãe: “Uma mulher negra aguenta tudo, até o dia em que não consegue mais subir escadas. O braço todo furado e minha mãe nunca reclamava, disfarçava seus apuros com perfeição.” (p. 79).
Os poemas traçam os percursos sinuosos do luto e também desenvolvem maneiras de compreender a mãe como uma pessoa com desejos, defeitos, medos e culpas. Nesse sentido, o arquivo familiar, por meio dos diários e escritos confessionais de Wilma compartilhados com os/as leitores/as, é a ponte para a descoberta de uma mulher até então desconhecida:
Niterói, 9/5/79
Nem sei por que hoje comecei a escrever aqui, pois gosto mesmo é de falar. Talvez me sinta deprimida, porque logo hoje que cheguei soube que a televisão colorida, tão cara, já pifou, e que o conserto deve demorar. Pronto, logo agora que estava vendo o seriado “Raízes”, que fala sobre um assunto que me interessa muito. Mas sabe-se lá se não foi bom isso acontecer, estamos tão viciados em olhar para a tela que nos esquecemos de conversar sobre os problemas do dia a dia. Graças a Deus, tenho o meu trabalho. Só o serviço de casa e a monotonia do cotidiano acabariam comigo (p. 54).
Nas entrelinhas do processo de elaboração de uma memória maternal/ancestral, há o estreitamento da intimidade entre Aline e Wilma, e a filha também se torna um pouco mãe de sua mãe: “Lugar de mãe. Lugar de filha. Mesmo quando eu tive de lhe dar um banho. Primeira comunhão.” (p. 119). Humanizar a mãe para ancestralizar a mãe. Paradoxos e sentimentos conflituosos dominam a relação entre mãe e filha, morta e viva. Assim, os poemas tanto dessacralizam a morte, compreendendo-a como mais uma etapa biológica da vida na terra – “Depois de três anos, não sobraria mais corpo. A água seria absorvida pelo ambiente e os vermes comeriam a carne apodrecida. [...]” (p. 83) –, quanto são movimentos de transcendência e extração de matéria literária da dureza da morte: “Dentro do cemitério, os mortos entravam sem pedir licença. Eu era a filha do funeral e escrevia meu próprio obituário. Convertia sepulturas em livros” (p. 131).
De poeta arquivista a poeta arqueóloga, Aline Motta vive um processo de luto que não é linear, visto que assimila a não aceitação da morte – “Eu nego que isso aconteceu. Não saio do território psíquico do sofrimento. Essa fronteira não será cruzada. Não aconteceu, não existe.” (p. 91) –, mas também beira a resignação melancólica da perda: “Mortos são corpos do mundo que não são mais corpos de ninguém. Um corpo separado de sua memória não é mais uma pessoa. Não adianta colocar uma placa pra dizer quem foi. Mandar fazer uma lápide com foto também não.” (p. 83).
Nos poemas de A água é uma máquina do tempo, percebemos o quanto morremos quando morrem os entes de nosso afeto. O peso irremediável da morte, a uma primeira visada, parece inviabilizar qualquer tentativa de aproximação com os/as mortos/as. Todavia, a vida insiste em fazer permanecer em quem fica a memória de quem se foi, para que a existência constitua sentido. No trabalho de Aline Motta, as mortas não findam, por não se esvaírem no tempo da ancestralidade que movimenta e articula as criações da artista. São elas que, com a poeta, escrevem seus poemas.
Nesse sentido, o arquivo precisa ser revisitado, retirado das gavetas, desorganizado e relido, para que a memória seja organizada, e as conexões entre mortos/as e vivos/as sejam criadas e se mantenham em uma temporalidade de afetos resistentes à morte e ao esquecimento: “no céu/ NO CÉU/ com minha mãe estarei” (pp. 102-103). Em meio à mortificação da memória e do legado ancestral dos povos negros que talha a história de nosso país, os poemas de A água é uma máquina do tempo são criações de elos e sentidos no presente, para que as feridas do passado possam finalmente processar a cura pela palavra.
Rio das Pedras (SP), fevereiro de 2026.
Referências
HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, pp. 12-33, 2020. Disponível em: <https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/27640>. Acesso em: 21 fev. 2024.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
MOTTA, Aline. A água é uma máquina do tempo. São Paulo: Círculo de Poemas, 2022.
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* Resenha originalmente publicada na revista Via Atlântica. Vide OLIVEIRA DE LIMA, Felippe Nildo. A água é uma máquina do tempo. Via Atlântica, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 320–325, 2025. DOI: 10.11606/va.v26.n2.2025.222608. Disponível em: https://revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/222608. Acesso em: 27 fev. 2026.
** Felippe Nildo Oliveira de Lima é artista da palavra. Mestre em Letras (UFPB), atualmente cursa doutorado em Letras: Estudos Literários (UFMG), com pesquisa em torno das poéticas de Edimilson de Almeida Pereira e Aline Motta.