Adão Ventura: um surrealista nos trópicos
Lara Carvalho Cipriano*
Bruna Carla**
O meu cordão umbilical ainda me prende à terra
(Adão Ventura)
A cor da pele: poesia reunida de Adão Ventura (Círculo de Poemas, 2025) apresenta o percurso completo do autor, do experimentalismo dos primeiros livros às composições que marcaram sua maturidade literária. O volume reúne poemas de obras fundamentais como Jequitinhonha: poemas do Vale (1980), Texturaafro (1992) e Litanias de cão (2002), além de 37 textos inéditos em livro, num resgate histórico e literário aguardado há anos.
Reunindo toda a produção poética de Ventura, esse lançamento é a celebração da potência de uma voz que emergiu em Minas Gerais para ecoar no mundo. Nascido em Santo Antônio do Itambé, bisneto de pessoas escravizadas, Adão Ventura construiu uma obra que atravessa gerações — um testemunho lírico e político da vida negra no Brasil. Conectando sujeito e coletivo, sua poesia tem raízes no Vale do Jequitinhonha, mas se projeta universalmente ao trazer temas associados à ancestralidade e à liberdade.
A publicação da poesia reunida de Adão Ventura é também um passo importante na direção da canonização desse autor. A inserção de uma obra no cânone marca uma diferença e, ao mesmo tempo, alguma continuidade, em relação à tradição. É possível pensar que a idiossincrasia desse escritor é a confluência entre técnicas vanguardistas e a crítica ao colonialismo escravocrata. Por isso, o trabalho de Ventura é marcado por esse duplo viés. A combinação entre inovações formais e denúncia social levou Ferreira Gullar (2002, p. 5) a afirmar que, na sua escrita, “a revolta é tão verdadeira que chega a alterar a matéria de sua linguagem.”
O enfoque surrealista se sobressai nas primeiras publicações, em Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul (1970) e As musculaturas do arco do triunfo (1975). O seu modo de abordar as técnicas do surrealismo poderia ser descrito como um “anticolonialismo sensível ao maravilhoso” – fazendo um trocadilho com a expressão de Michel Lowy (2002, p. 32), que descreve essa vanguarda como “materialismo histórico sensível ao maravilhoso”. Em função disso, ao lado de Suzanne e Aimé Césaire, o escritor desponta como um expoente do surrealismo no eixo-sul.
A sua obra tardia, por sua vez, é mais marcada pelo viés identitário e pela crítica ao mito da democracia racial (Cf. Lopes; Pereira, 2014, p. 142), tendo em vista seus últimos escritos, como A cor da pele (1980) ou Texturaafro (1992), que já no título revelam o enfoque racial. A cor da pele reflete uma dicção social e, ao mesmo tempo, carrega uma dimensão subjetiva, sugerindo “o enclausuramento do sujeito em si mesmo” (Cf. Lopes; Pereira, 2014, p. 141).
Além disso, os últimos livros são marcadamente autobiográficos, trazendo em primeiro plano a vivência do poeta no interior de Minas Gerais, como se vê em Jequitinhonha: poemas do Vale. Na escrita deste livro, Ventura se inspirou em uma “viagem cultural” realizada em outubro de 1979: tematizam-se a procissão religiosa, as paisagens no entorno do rio, milagres, romarias, danças típicas, modinhas, teares de Berilo e Chapada do Norte, entre outros motivos, descrevendo várias tessituras. Ventura descortina também “o escuro das catas/o estrume das castas” (“Festa de N.S. do Rosário: danças típicas”) intercalando poesia, tradição, sabedoria popular, pobreza, negritude, além de dar um tom regionalista ao seu texto, como se pode ler nas palavras de Fabrício Marques, organizador do livro:
Adão Ventura construiu uma obra múltipla e aberta, a partir de três vertentes: a primeira, mais experimental, dialogando com as vanguardas do século passado; a segunda, uma face engajada com as questões sociais e raciais; e uma terceira, em que expressa uma visão lírica das manifestações do sagrado em Minas. (Marques, 2025, p. 283).
Embora seja possível estabelecer essa tripartição, é importante sublinhar que Adão Ventura nunca deixou de abordar a questão racial. Mas, nos livros iniciais, esse tema aparece de forma mais implícita. Por exemplo, em As musculaturas do arco do triunfo, o autor escreve: “escuro é o medo e espúria é a pele” (p. 49). Já em sua obra de estreia, diz: “Era expressamente proibida a entrada de pessoas de cor naquele REIcinto de segurança. Vendem-se empregadas domésticas que saibam descascar BACH.” (p. 19). Outra passagem em que essa abordagem aparece é: “a cor está dividida nos olhos; nossa identidade está inscrita na pele (...)” (p. 20). Comentando precisamente esse trecho, Édimo de Almeida Pereira (2014, p. 15) destaca que, em seu primeiro livro, “já se percebe a semente do que se tornaria, tempos depois, uma das mais significativas faces de sua poética, aquela a que se convencionou chamar de poesia social.”
Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul se caracteriza, sobretudo, por seu caráter fragmentário em que orações são justapostas sem formar um sentido contínuo. Por exemplo: “as portas são grandes e estão fechadas, mas o amor existe porque teus olhos denunciam as manhãs claras” (p. 21); “nunca fui guerreiro nem aquiles, e meu caminho é imperfeito, mas eu sei que tens cabelos verdes” (p. 23); “as mulheres quiseram dividi-lo em ciúme, mas sua sombra imprimia o silêncio” (p. 23). Nesses casos, o autor emprega a conjunção “mas”, sem que uma oposição explícita possa ser inferida, e, do mesmo modo, se vale do “porque" quando não há explicação causal. Esse recurso é usado no próprio título do livro, em que se nota o uso de “ou” sem produzir uma relação de alternância entre uma oração e outra. Mas, de algum modo, essas conjunções conectam as frases, produzindo um desalinhamento semântico que tem efeito poético. Esse procedimento de justaposição pode ser comparado a uma colagem, técnica usada pelas vanguardas, o que favorece a associação entre Adão Ventura e demais surrealistas.
Mesmo considerando que, em alguma medida, Adão Ventura nunca deixou de fazer poesia engajada, é inegável que tenha havido uma virada social na sua produção literária. Sebastião Nunes (Cf. 2019, p. 4) relaciona essa virada à experiência do autor nos Estados Unidos, ou seja, é possível pensar a obra antes e depois da estadia do autor no território norte-americano. Isso vai ao encontro da ideia de que a crítica pós-colonial se intensifica quando os intelectuais do Terceiro Mundo chegam no Primeiro Mundo (Cf. Dirlik, 1994, p. 329 apud Mignolo, 2003, p. 141).
Assim, se em seus primeiros livros a abordagem racial aparece como vestígio – porém, um vestígio importante – em A cor da pele, pode-se ler um livro que aborda o racismo. Dito de outro modo, a discussão racial perpassa toda a Poesia Reunida, não apenas como tema, mas como princípio estruturante da voz lírica, configurando uma “negritude encarnada no eu poético” (Lopes; Pereira, 2014, p. 142). Como notou Silviano Santiago (2025, p. 298), o elemento negro na poesia de Adão Ventura “é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração.”
Algumas passagens que se destacam nesse sentido são: “Natal, avós carregaram/ para edificar os palácios dos reis” (“Um”). Outro poema traz a imagem de “pés no chão” atravessando “frios ghetos/ de duras cicatrizes” (“Dois"). E ao escrever que “para um negro/a cor da pele/é uma faca/que atinge/muito mais em cheio/o coração", é possível perceber que o poeta não mede palavras para simbolizar as dores, além de exaltar as raízes negras em sua escrita.
A primeira parte de A cor da pele, intitulada “Das biografias”, reforça a ideia de uma escrita de si, enfatizando a abordagem das questões concernentes à literatura afro-brasileira. Essas questões já vinham gerando debates antes mesmo da circulação dos Cadernos Negros, do grupo Quilombhoje, a partir de 1978 e nas décadas de 1980 e seguintes, como cita Edimilson de Almeida Pereira (2025)1 tendo como referência, entre outras, a obra de Adão Ventura, especialmente em Jequitinhonha: poemas do vale.
Em Texturaafo, o poeta segue tematizando as origens do povo negro, além de enfatizar as suas ascendências e a relação com sua cidade natal. Em “Identidade”, por exemplo, o autor destaca as suas memórias afetivas de Santo Antônio do Itambé, fazendo referência a sua mãe:
Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minas
Sebastiana de Tal
Vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça
Vem cantar cantiga
de ninar
para mim.
Essas referências aos pais, aos avós, às raízes, ao lugar de origem, e até mesmo aos lugares de passagem, estão encenadas na sua escrita como uma resposta antecipada a Leda Maria Martins (2019, p. 35): “Foi no Serro que aprendeste a versejar?”, ela pergunta em seu poema “Poeta primeiro”, dedicado ao Adão Ventura. Além de citar diversas cidades da região do Vale do Jequitinhonha, como Diamantina, Guanhães, Sabinópolis, Peçanha, Biribiri, Santo Antônio do Itambé, São Gonçalo do Rio das Pedras, Tabuleiro, etc., o autor também faz menção a alguns pontos da capital mineira, especialmente à Imprensa Oficial, situada na Avenida Augusto de Lima, onde trabalhou como redator (tendo em mente seu poema Rotina).
O que representa o rio Tejo para a obra de Fernando Pessoa ou o rio Capibaribe para João Cabral de Melo Neto e Itabira para Carlos Drummond é o que representa a região do Serro para Adão Ventura. Nesses casos, a terra natal é mais do que um cenário, constituindo-se um alicerce fundamental sobre o qual se ergue a construção poética. Por isso, mais do que um poeta nascido em Minas Gerais, Adão Ventura é um poeta mineiro. É motivo de justo orgulho para o estado que mais um de seus autores esteja tendo sua obra reconhecida.
A poesia reunida de Adão Ventura rememora um passado que se faz presente por meio da leitura desse grande poeta. Esse passado é tão histórico quanto autobiográfico, marcando uma escrita que é um eterno devir entre sujeito e coletivo, pessoal e política, local e universal. Sua poética é um livre jogo que se inicia com o surrealismo e passa por um projeto mais aguçado do sujeito negro inscrito nas histórias e estórias do Brasil.
Belo Horizonte, março de 2026.
Nota
1. PERERA, Edimilson de Almeida. Fala de abertura da Primeira Semana de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da UFJF/Primeiro Congresso Internacional Afrofonia: literatura, ensino e pensamento - 100 anos de Frantz Fanon.
Referências
GULLAR, Ferreira. In: Adão Ventura. Litanias de cão. Belo Horizonte: Edição do autor, 2002.
LOPES, E. PEREIRA, M. Adão Ventura In: Duarte, Eduardo de Assis (org). Literatura afro-brasileira: 100 autores do século XVIII ao XX. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
LOWY, Michael. A estrela da Manhã. Surrealismo e Marxismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
MARQUES, Fabrício. Costurando nuvens, despertando a pele. In: VENTURA, Adão. A cor da pele: poesia reunida. MARQUES, Fabrício. (org). São Paulo: Círculo de poemas, 2025. pp. 281-296.
MARTINS, Leda. Poeta primeiro. In: MARQUES, Fabrício (Org), Suplemento Literário de Minas Gerais, Nov, 2019. pp 34-35.
MIGNOLO, Walter. Histórias locais / projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
NUNES, S. “Um poeta em três tempos”. In: Suplemento Literário de Minas Gerais, ed. especial: "Adão Ventura, 80 anos: a poesia à flor da pele". Org. de Fabrício Marques, nov. 2019. pp 4-7.
PEREIRA, Édimo de Almeida. Metamorfoses do abutre: a diversidade como eixo na poética de Adão Ventura. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.
PEREIRA, Édimo de Almeida. Metamorfoses do abutre: a diversidade poética de Adão Ventura. In: literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, s.d. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ensaio/17-edimode-almeida-pereira-metamorfoses-do-abutre-de-adao-ventura. Acesso em: 26 de jan. 2026.
PEREIRA, Edmilson de Almeida. Invenção e liberdade na tradição cultural afro-brasileira. In: MARQUES, Fabrício (Org), Suplemento Literário de Minas Gerais, Nov, 2019. pp. 25-27.
SANTIAGO, Silviano. A cor da pele. In: VENTURA, Adão. A cor da pele: poesia reunida. MARQUES, Fabrício. (org). São Paulo: Círculo de poemas, 2025. pp 297-303.
VENTURA, Adão. A cor da pele: poesia reunida. MARQUES, Fabrício. (org). São Paulo: Círculo de poemas, 2025.
__________________________________________
* Lara Carvalho Cipriano é doutoranda em Filosofia na UFMG, onde também obteve título de mestre e bacharel em Filosofia. A sua tese investiga a metáfora antropofágica como meio de compreensão do colonialismo cultural e sua dissertação investigou os diálogos possíveis entre a filosofia de Vilém Flusser e a teoria descolonial. Além disso, é graduada em Psicologia na PUC-MG, mantém consultório privado de psicanálise. É integrante do NEIA-LITERAFRO.
** Bruna Carla é doutoranda pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEFET-MG, na qual desenvolve a tese “Feições da literatura afro-brasileira nas obras de Adão Ventura, Cuti e Lima. Mestre em Letras-Literaturas de Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais-PUC-Minas, especialização em Língua Portuguesa: Teorias e Práticas de Ensino de Leitura e Produção de Textos pela Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG. É integrante do NEIA-LITERAFRO e GEED.