Das grafias do corpo: a modulação da memória

em Nascente de Heleine Fernandes de Souza

  

Kétely da Silva Oliveira*

 

nas dobras do ouvido
um segredo cantado
em sílabas de água
(Heleine Fernandes, 2024)

 

 Existem sonoridades poéticas que emergem do texto para muito além da forma, não porque não a possua, e sim por usá-la como receptáculo de códigos de segredo do próprio tempo. Códigos de segredo que, como afirma Leda Maria Martins (2021. p. 115), é o rastro da polifônica textualidade oral dos saberes censurados pelo sistema escravista, mas que, ainda assim, foram veiculados no corpo e na língua. A obra poética de Heleine Fernades de SouzaiNascente (2024) – revela movimentos que acionam os sons de tal polifonia, por meio da memória familiar/ancestral ilustrada no corpo presentificado no texto entre fotografias e palavras.

 "Kalimba", poema inaugural de Nascente de Souza (2024), exemplifica, em seus três versos, a sonoridade do corpo-poema criada pela autora. O título remete à um dos instrumentos de origem africanaii e seus versos formam uma descrição simbólica-memorialista de seu som como significação de cantos-narrativos dos saberes trazidos à nossa escuta desde a diáspora. Nas dobras dos ouvidos, encontram-se àqueles códigos de segredos (MARTINS, 2021), que cantados em sílabas de água, transcrevem a extensão do acervo de conhecimentos e valores reterritorializados deste lado do Atlântico, como se reverberados nas teclas metálicas de kalimba. Assim, decodificado nos três versos, a significação do poema se apresenta como uma partitura, a qual nos revela o que há entre as mãos de quem toca e o instrumento cultuadoiii: a modulação de vários saberes milenares. Essa construção simbólica é conjecturada, inclusive, nos 16 poemas que compõem a obra, sendo eles animados pela memória singular e coletiva ligadas à experiência da poeta.

Inicialmente lançada pela coleção a galope, realizada pela parceria entre as editoras Garupa e Kzal, a obra foi publicada em 2021, sendo depois publicada pela editora Malê em 2024. Entre os dois lançamentos, a obra contou, em 2022, com a performance da autora na Rua Teixeira, na favela Nova Holanda, na Maré, durante a Mostra Mioloiv. A intenção foi redefinir o endereçamento da linguagem poética, devolvendo aos poemas o seu lugar-texto original: o corpo da poeta. Assim, em seu momento registrado em vídeo, vemos a poeta entregar pedaços/páginas de seus poemas às pessoas que passam por ela na rua, de modo que são endereçados “a outros corpos que poderão se relacionar não com letras, mas com a voz, com a pele, com o gesto, com a respiração e o movimento, com todas estas dimensões que também participam da palavra e da construção de sentido”v. Podemos assim, numa comparada observação do corpo-poema do texto, na obra impressa em livro e na performance de Heleine Fernandes, notar que o movimento de seu corpo se materializa em ambas dimensões.

A presentificação do corpo em Nascente (2024) ocorre pela multidimensionalidade sensorial e do cosmos ancestral da oralidade, tendo em vista que as fotos do arquivo familiar da poeta, presentes entre os poemas, incluindo a que ilustra a capa, em diálogo com a poesia mobiliza diferentes sentidos, entidades e existências. Ao longo de seus vários versos, nos deparamos com cheiros perfumados na cultuação de orixás como em “Elegbara” e “cabeça perfumada”; com o som das gargalhadas de resistência de sua avó em “socorro” e de sua mãe “em busca dos jardins de minhas mães”; com a textura do bolinho de feijão amassado em “comer da mão” e da água da maré a lavar o rosto em “coroa”. Dessa forma, a interdependência entre olfato, visão, tato e paladar nos convida a escuta das imagens produzidas pelo corpo, “em que os movimentos, os sons, as luminosidades e os aromas têm cores e desenham paisagens de saberes, âmbito privilegiado das oralituras” (MARTINS, 2021, P. 78). 

Sendo assim, o modo como o corpo se apresenta na obra escrita instaura, nela mesma, uma performance, já que para experiências afro-diaspóricas, como a vivida e figurada por Heleine Fernandes, esse gesto significa a ação reflexiva das memórias e oralidades. Nessa estética, mesmo pela escrita, a linguagem provoca a matéria da língua de forma migrante e movente (Idem, ibidem, p. 199).

Como lemos no poema “em busca dos jardins de minhas mães”, a poeta reflete sobre a vivência de sua mãe, imaginando quais sentimentos não nomeados estariam “borbulhando em seu útero/ sem imagem/ e sem palavra/ em silêncio” (SOUZA, p. 16). O poema alude ao ensaio de Alice Walker “Em busca do jardim de nossas mães” ([1974] 2021) em que a escritora examina as consequências da criatividade de mulheres negras que foi( e ainda é) corroída pelo sistema colonialista. Nele, Walker ([1974] 2021) imagina a agonia da vida de mulheres que poderiam ter sido poetas, romancistas, ensaístas, contistas e que morreram com seus dons e desejos sufocados. O que Nascente nos revela nesse diálogo sensorial é que, apesar de toda violência inibidora dos sonhos dos mais antigos de nossos ancestrais, essas histórias persistem através dos saberes que herdamos e que retornam em nosso corpo:

elas vibram ainda hoje
na pele dos filhos
os que nasceram e os que não nasceram.
saberei eu
traduzir esses silêncios
herdados
em canto cheiroso
em hálito de sereia?
                    (Heleine Fernandes, p. 16)

A afirmação de Maria Dolores Rodriguez (2025) de que o texto também dança pode ser arrolada como amparo desta breve tentativa de descrição da poética de Nascente. Segundo a pesquisadora, há um modo de escrita que dança, movendo e reconhecendo o espaço-tempo; uma dança realizada no experimento da relação com o corpo e com o sensível: um pensamento coreografado (RODRIGUEZ, 2025, p. 261). Do mesmo modo, em seus versos, Heleine Fernandes executa a tentativa de tecer uma constância entre ato-fala, remontando a memória incorporada. Vemos o ponto de nascimento das sílabas de águas, doces e salgadas, seu percurso por vias incontornáveis, assim como, a sua força abrindo novos ciclos. O corpo transborda e inunda o espaço como uma criança parida (SOUZA, 2024). 

  

Belo Horizonte, dezembro de 2025.

Referências 

MARTINS, L. M. Performances do tempo-espiralar: poéticas do corpo-tela. 1. Ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

RODRIGUEZ, M. D. S. Coreografias do pensamento: diáspora, fabulação e forja. 1. Ed. Salvador: Segundo Selo, 2025.

SOUZA, H. F. De. Nascente. 1ed. Rio de Janeiro: Malê, 2024.

WALKER, A. Em busca dos jardins de nossas mães: Prosa mulherista. Tradução de Stephanie Borges.1. ed. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2021. 

 

Notas

i “Heleine Fernandes de Souza nasceu e foi criada no Rio de Janeiro, na favela da Rocinha, onde ainda mora a sua família. É poeta, professora, doutora em Letras: Teoria Literária pela UFRJ. Sua tese de doutorado: Poesia Afro-Feminina e resistência ao epistemicídio através das poéticas de Conceição Evaristo, Lívia Natália e Tatiana Nascimento foi publicada pela Editora Malê em 2020, tendo sido finalista do Prêmio Jabuti no ano seguinte”. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/1813-heleine-fernandes. Acesso em nov. de 2025.

ii De origem africana, a kalimba é um instrumento musical formado por uma pequena prancha de madeira em cuja superfície se enfileiram, à maneira de teclas, lâminas metálicas de tamanhos variáveis, as quais, vibradas pelos polegares do músico, emitem um som suave.

iii A reflexão sobre o que há entre a mão de quem toca e o instrumento cultuado foi realizada por Tiganá Santana (UFBA) durante sua apresentação no Ciclo internacional de webinários: Artes africanas - histórias, perspectivas e fluxos (2020). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uuly07vg7O8. Acesso em: 02 de dez. de 2025.

iv A performance foi realizada na Feira Livre, do Galpão Bela Maré, em 03 de dezembro de 2022. Filmagem e edição: Airton Gregório. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=reM4zM4quc. Acesso em: 02 de dez.de 2025.

v Descrição da autora sobre a performance presente no vídeo.

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* Kétely da Silva Oliveira é Mestranda no Programa de Pós-Graduação de Literatura e Cultura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Bacharel em estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além disso, integra o grupo de pesquisa do Portal literafro: Portal da Literatura Afro-brasileira: pesquisas em rede, desde de 2022.

 

 

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