O poder das palavras como legado

Elisangela Aparecida Lopes Fialho*

 

 

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem - o hoje - o agora.

Na voz da minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.

Conceição Evaristo

 

O mais recente livro da escritora Luana Tolentino, publicado pela Mazza Edições em novembro de 2025, ancora-se em um termo polissêmico e potente: legado. Mamãe aprendeu a ler dá voz à personagem Dora, que rememora a história da mãe a partir de um olhar doce e sensível. Cuidadosamente ilustrada pela premiada artista plástica Anna Cunha, a obra conduz o leitor por uma jornada de sons, cheiros e imagens que traduzem, com delicadeza, a relação entre mãe e filha.

Os versos de Conceição Evaristo que abrem esta resenha anunciam, de forma poética, o movimento que estrutura a obra: a voz da filha que recolhe e ressignifica a experiência materna, fazendo ecoar, no presente, a memória e os gestos do passado. Em Mamãe aprendeu a ler, esse eco se concretiza na relação entre Dora e Dona Nelita, marcada pela transmissão de saberes, de afetos e pela construção de um legado atravessado pela leitura como prática de liberdade.

A narrativa se inicia com a constatação de uma ausência histórica: “Quando mamãe era bem pequena, nem todas as crianças tinham o direito de ir para a escola”. A distinção entre quem podia ou não frequentar o ambiente escolar é sugerida tanto pela linguagem verbal quanto pelas ilustrações. Em uma das páginas, crianças aparecem envolvidas em atividades do cotidiano — lavar, cuidar dos animais, cozinhar, plantar —, enquanto, em outra, a protagonista, ainda menina, de mãos dadas com outra criança, olha para o alto, contemplando seu sonho: os livros.

A exclusão escolar vivida pela personagem não se restringe a uma condição individual, mas dialoga com um processo histórico mais amplo de negação de direitos à população negra no Brasil. Nesse sentido, a produção literária de Luana Tolentino**, em especial no novo livro, evidencia como o acesso à leitura e à escolarização é atravessado por marcadores sociais e raciais, reafirmando a alfabetização como um direito historicamente negado e, ao mesmo tempo, como possibilidade de transformação.

A imagem da mãe, construída pela filha, ancora-se na valorização dessa matriarca, cuja personalidade revela sabedoria, inventividade e cuidado com os afazeres cotidianos. Dora evidencia, ao relembrar tais aspectos, o quanto o fato de a mãe não saber ler marcou a vida de ambas, por décadas. A mudança de perspectiva de Dona Nelita concretiza-se em diálogo com a filha: “Eu preciso encontrar uma escola para mim! Eu quero aprender a ler!”. O tom imperativo da fala expressa uma necessidade profunda, que dialoga com a concepção de Antonio Candido (2011) acerca da literatura como direito humano fundamental — uma necessidade universal cuja satisfação constitui um direito inalienável.

O florescimento de uma nova mulher é sugerido também pelas ilustrações, marcadas por folhagens em tons terrosos e verdes, entre as quais mãe e filha se reencontram para, juntas, buscar o sonho outrora interrompido: a inserção no espaço escolar. A escola é representada como um ambiente acolhedor, de convivência e partilha — “um jardim cheio de árvores, onde dava até para fazer piquenique” —, mas também como espaço de construção de saberes e de incentivo, especialmente por meio da professora Madalena.

Aprender a ler, na obra, não é um ato isolado, mas resultado de um processo coletivo que envolve acolhimento, troca e compromisso. Ao ingressar nesse novo universo, Dona Nelita redescobre a si mesma, aos outros e ao mundo, projetando-se em um futuro iluminado pela lua e pelo livro que carrega — símbolos do conhecimento e da possibilidade de reescrever a própria história.

A narrativa apresenta, ainda, uma estrutura circular, evidenciada no diálogo entre o início e o desfecho da obra. Os livros antes inalcançáveis tornam-se, ao final, concretos nas mãos da protagonista, agora leitora. Essa circularidade é reforçada pela presença do sankofa – pássaro de matriz africana que remete à importância de retornar ao passado para compreender e construir o futuro. Ao mobilizar esse símbolo, Luana Tolentino inscreve sua narrativa em uma perspectiva afrocentrada, em que memória, ancestralidade e aprendizagem se entrelaçam.

Ao transformar a alfabetização em gesto de reexistência, Mamãe aprendeu a ler constrói uma narrativa em que o legado não é apenas herdado, mas reinventado. Ao dar nova vida a D. Nelita, o livro revela que o retorno ao passado materno ilumina o futuro da filha-escritora, configurando a reinvenção da experiência que se constrói entre ambas. Nessas páginas, delineia-se uma outra herança: a da valorização da leitura, oferecida pela filha à mãe.

Este livro é também a “missão” que mãe e filha abraçam juntas: testemunho do poder transformador da literatura. A obra afirma a leitura como direito, conquista e possibilidade de futuro, destacando a importância das palavras como instrumento de emancipação individual e coletiva.

Pouso Alegre, março de 2026.

 

Referências

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul/ São Paulo: Duas Cidades, 2011.

EVARISTO, Conceição. Poemas de Recordação e outros movimentos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2007. p. 24-25

TOLENTINO, Luana. Mamãe aprendeu a ler. Belo Horizonte: Mazza, 2025.

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* Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais - IFSULDEMINAS; Diretora de Ingresso na mesma instituição. Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa, pela PUC-Minas; Mestre em Teoria da Literatura pela FALE/UFMG. Pesquisadora do Portal literafro.

 

 

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